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3.2. FAALİYET ESASINA DAYALI MALİYETLEME YÖNTEMİ

3.2.5. Faaliyet Esasına Dayalı Maliyet Yönteminin

3.2.5.2. Tasarım Aşaması

3.2.5.2.4. Maliyetlerin Ürünlere Aktarımı İçin Maliyet Sürücülerinin

O contexto histórico que engloba a violência, o desrespeito à vida e à segurança, e a impunidade que vicejou no Brasil, em razão da ditadura de 1964, podem ter reforçado o desrespeito aos direitos dos presos. A passagem daquele momento pelo sistema prisional construiu memórias subterrâneas (POLLAK, 1989) e distantes da audiência formalizada e valorizada.

Ao longo das décadas tem sido possível notar a possível indiferença da sociedade e a aparente falta de compromisso das instituições do Estado em relação aos direitos humanos de presos. Tradicionalmente, os presos não tiveram importância social, acesso aos meios de comunicação99ou a advogados. Sempre foram, de fato, os inimigos públicos comuns a todos os setores e estratos sociais. E, por isso, sempre puderam ser agredidos ou mortos sem que houvesse uma investigação rigorosa que levasse aos verdadeiros autores, o que, na prisão, é quase impossível. Atualmente, até conflitos que podem resultar em mortes têm que ter a permissão de chefes de facções. Veja-se o número de mortes relativo ao ano de 2007, apresentado pelo Presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito Sobre o Sistema Carcerário, o deputado federal Arnaldo Faria de Sá: entre janeiro e junho daquele ano, ou seja, em seis meses do ano de 2007 teriam sido mortos 651 detentos no sistema penitenciário brasileiro100.

E a análise do cumprimento de direitos humanos no Brasil não pode se esquivar do gravíssimo episódio que se tornou conhecido como o Massacre do Carandiru. No dia 2 de outubro de 1992, a Polícia Militar invadiu uma penitenciária do Estado de São Paulo e matou

98 Como dissemos, a precaríssima situação do louco infrator não será tratada neste trabalho. Mas recomendo o trabalho de SILVA e COSTA-MOURA (2013).

99 Ver artigo de Fernando Molica em RAMOS e PAIVA, 2007, pp. 26-31; outras análises podem ser verificadas no trabalho de SILVA, 2010 e, bem detalhadamente, no excelente trabalho de ONODERA, 2007.

100

111 presos, segundo contagem oficial. Participaram da invasão do estabelecimento todas as unidades de combate da Polícia Militar de São Paulo.

À época, a Casa de Detenção do Estado de São Paulo tinha lotação de 7.257 presos e o episódio demonstrou o despreparo, a violência e o descontrole da Polícia Militar, chamada pela direção em razão de uma briga entre internos, que teria sido ampliada para alguns setores do estabelecimento e causado desordem e depredação. Alegando que se trataria de uma rebelião o Batalhão de Choque, comandado pelo Coronel Ubiratan Guimarães, invadiu o estabelecimento, usando cães, cavalos e apoiado por helicópteros. Para a invasão armada teve a autorização do Governador Luiz Antônio Fleury.

Segundo relatório da organização Human Rights Watch, dos 111 presos mortos assumidos pelo Estado, 84 eram primários e estavam presos aguardando julgamento. Andre Du Rap, preso no local à época, disse que no pavilhão 12, por onde começou a invasão, estavam apenas condenados primários. Doze assassinados eram menores de 21 anos e 74 tinham entre 22 e 30 anos de idade. Um dos mortos já tinha a pena vencida, deveria estar em liberdade. Havia sinais de execução na maior parte dos corpos, como relatado em detalhes em seu livro Sobrevivente (do Massacre do Carandiru)101. E lembra que o homicídio dos presos passou a ser conhecido no sistema penitenciário de São Paulo como Holocausto ou Vietnã (DU RAP, 2002: 175).

Ao longo dos anos alguns presos sobreviventes concordaram em falar, e contaram que o número de executados foi muito superior ao reconhecido pelas autoridades, falando-se em pelo menos 250 mortos102, grande parte deles executados. Afirmaram que os policiais descarregavam suas armas através das grades, para dentro das celas103 (DU RAP, 2002, MENDES, 2012). Veja-se que o laudo do Instituto de Criminalística do Estado de São Paulo atesta que foram mortos 26 presos fora das celas. Ou seja, o restante das vítimas teria sido alvejado quando estava dentro das celas, fora de qualquer cenário de contestação, ameaça ou de suposta rebelião104.

101 Consultar também Varella, 2001. É importante ler o laudo do perito do caso, Osvaldo Negrini Neto, em http://flitparalisante.wordpress.com/2013/04/22/o-massacre-do-carandiru-a-historia-estava-escrita-nas-paredes/. Conferir os excelentes textos de Pedroso, 2012, e Onodera, 2007.

102 Ver testemunhas e a informações da Pastoral Carcerária (Revista Forum n° 114/2012), e carta de um sobrevivente do massacre em http://www.unicap.br/humanitas/?p=2906.

103

http://flitparalisante.wordpress.com/2013/04/22/o-massacre-do-carandiru-a-historia-estava-escrita-nas- paredes/

A professora Regina Célia Pedroso informa que

A versão oficial restringiu-se a afirmar que a morte de presos fora resultado do confronto armado entre policiais e detentos; mas, os laudos médico e científico provam que os presos foram executados. O parecer Médico Legal concluiu que houve intencionalidade de matar, pois os disparos realizados pelos policiais foram dados, em sua maioria, na direção das áreas do tórax e cabeça. Neste parecer, as conclusões apontaram para: 1) o número de disparos por indivíduo morto: dos 111 mortos, 93 recebera 3 ou mais disparos e, desses, 57 foram atingidos por 5 ou mais projéteis; 2) o número de disparos na cabeça e no tórax, em relação ao percentual de área corporal que esses segmentos representam chamam a atenção que dos 515 disparos encontrados no total de cadáveres, 126 atingiram a cabeça e 116 a face anterior do tórax, resultando que 46,9% dos projéteis se concentraram nessas áreas; 3) 111 foi o total de mortos, 106 o de feridos não mortais, totalizando 217 vítimas; 4) as pessoas atingidas por projéteis de arma de fogo, em sua quase totalidade (96,2%), morreram, sendo que o total de mortes também se deveu, quase todo (91,8%), aos disparos de arma de fogo, o que demonstra a conexão disparos/mortes, isto é, o grande número delas no evento se deveu ao uso de arma de fogo como instrumento vulnerante, sugerindo a intencionalidade de se produzirem os óbitos (PEDROSO, 2012: 134).

Em reportagem de importante jornal do país105, o quadro do mais evidente desrespeito aos direitos humanos toma forma: “os militares entraram matando a tiros de metralhadoras quem estava na cela rezando e com as mãos sobre a cabeça”. E a situação continuava, pois os policiais “jogavam os cachorros” sobre os presos que encontravam. Os cães “arrancavam pedaços dos corpos, arrancavam órgãos genitais. E, nos corredores poloneses106, quem estava vivo, eles mataram a facadas e a pauladas”, diz o jornalista.

A descrição feita por presos que estavam na Casa de Detenção é suficiente para que se entenda que o que ocorreu foi um massacre: presos sendo perseguidos por policiais, disparos de fuzis e de metralhadoras feitos para dentro de celas. Tiveram que carregar corpos de companheiros que haviam tentado se esconder para que a versão oficial pudesse prevalecer.

O julgamento dos 26 policiais militares indiciados no homicídio múltiplo demorou vinte e dois anos para ser iniciado. Em depoimento, o perito Oswaldo Negrini Neto, já aposentado à ocasião, confirmou que foram mortos mais do que os 111 informados pelo Estado. Disse, ainda, que a perícia foi iniciada contra a vontade do Comandante da Polícia

105 Matéria publicada no jornal O Estado de S. Paulo, pelo jornalista Renato Lombardi, em 6/10/1992, apud Onodera, 2007: 47.

106 Corredor polonês é uma formação com policiais ou agentes prisionais dos dois lados, e os presos têm que passar pelo meio deles, enquanto são agredidos.

Militar e só pode ser realizada a partir do dia seguinte à invasão. O então diretor de Segurança e Disciplina da Casa de Detenção informou, em vídeo gravado pelo Ministério Público, que os agentes prisionais só puderam ter acesso às galerias após nove horas do encerramento da matança. Nos dias seguintes as celas foram lavadas, as cápsulas das balas disparadas recolhidas, e colchões e objetos dos detentos encharcados de sangue foram descartados107, de forma a ocultar provas.

No resumo do laudo pericial do episódio verifica-se que “Em todas as celas, as trajetórias dos disparos indicavam atirador posicionado na soleira da porta apontando sua arma para os fundos ou laterais da cela”108

. Essa é a descrição feita também por sobreviventes que escreveram a respeito, como Du Rap (2002) e Mendes (2001), em seus depoimentos e em livros. Durante o julgamento, o Ministério Público do Estado de São Paulo apresentou vídeos de dois sobreviventes que confirmaram o massacre indiscriminado, inclusive contra os que se encontravam dentro de suas celas.

Figura 5 - Presos do Carandiru carregando corpos de companheiros após o massacre, apud Onodera, 2007: 45.

Houve especial desrespeito às famílias dos presos assassinados na penitenciária do Carandiru, pois o estabelecimento foi isolado e a entrada impedida a qualquer familiar ou jornalista. E, de forma a esconder dos meios de comunicação as dimensões do morticínio, a lista com o nome

107

Jornal O Globo, 30/07/2013.

108 Ver o documentário Memórias Sangrentas do Carandiru em http://www.vice.com/pt_br/vice-news/carandiru- s-bloody-memories--33.

dos mortos só foi liberada seis dias depois da invasão, deixando as famílias desesperadas por todo esse tempo. Os parentes foram obrigados a correr a vários hospitais e outras dependências do Estado, buscando informações, ou corpos, e muitos foram agredidos por policiais (ONODERA, 2007: 59, 60 e 62).

As organizações sociais Americas Watch, Comissão Teotônio Vilela e CEJIL, demandantes ao órgão de justiça da Organização dos Estados Americanos (OEA), alertaram para que o tratamento dado pelo Estado a presos e outros atores sociais dos setores pobres era inaceitável e inconcebível em qualquer parte do mundo em que houvesse algum respeito por direitos. O Estado e as suas polícias deveriam estar no estabelecimento para proteger quem estava ali sob custódia ou trabalhando, e não para exterminar pessoas.

Figura 6- Foto de uma das galerias do Carandiru com os corpos dos presos assassinados, apud Onodera, 2007: 52.

O responsável pela operação, o coronel da PM Ubiratan Guimarães, gozou de todos os privilégios e oportunidades para garantir sua impunidade. Através da ocupação de suplência, tornou-se Deputado Estadual em 1997, garantindo, assim, imunidade parlamentar. Finalmente, sentou-se no banco dos réus, antes dos outros demais 85 acusados. No ano de 2001, após adiamentos, ele foi condenado a 632 anos de prisão, sentença anulada em 2006, pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, que aceitou a argumentação do coronel, de que agira no estrito cumprimento do dever legal.

No ano de 2000 a Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA considerou o Brasil culpado por não ter tomado as devidas providências de responsabilização eficiente dos 120 policiais indiciados no caso do Carandiru. Ainda assim, e demonstrando o resultado da falta de compromisso do Estado, em razão do longo tempo de delongas para o julgamento, em 1995 foram prescritas as acusações de lesões corporais de 86 participantes do massacre. O massacre causou grande revolta e teve forte divulgação no exterior. Em 1994, algumas organizações de Direitos Humanos109 representaram contra o governo brasileiro junto a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, que entendeu que o Estado violou vários artigos da Convenção Interamericana de Direitos Humanos. O Brasil foi responsabilizado por não ter adequadamente investigado, processado e punido os autores, e por ter faltado em indenizar as famílias das vítimas dos homicídios110.

Um dos mais marcantes resultados desse contexto de indiferença e desumanidade, e de revolta da população prisional de São Paulo, ocorreu já no ano seguinte aos homicídios, 1993. Foi quando se deu visibilidade a um grupo organizado de presos chamado de Serpentes Negras. A organização teve o objetivo de se proteger contra a violência dos agentes do Estado. Pouco tempo depois, o grupo se dividiu e deu origem ao PCC - Primeiro Comando da Capital, como forma de reação à morte dos presos do Carandiru e à indiferença das instituições estatais e da sociedade111, como afirma o jornalista Josmar Jozino (2012: 76). Segundo ele o “partido do crime” nasceu na Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté112

, onde foi lotado como diretor, José Ismael Pedrosa, que era o diretor da Casa de Detenção durante o massacre dos presos. Esse diretor foi assassinado na rua, em 2005, por três homens desconhecidos.

Tem que ser ressaltado que o massacre do Carandiru obteve a atenção da sociedade por ter se realizado do modo escandaloso como foi, com o assassinato de tantos detentos no mesmo dia. Mas, ao longo do tempo, presos têm sido mortos rotineiramente, até mesmo por companheiros, sem que sejam punidos os verdadeiros mandantes.

109 Ver o relatório da Organização dos Estados Americanos em https://www.cidh.oas.org/annualrep/99port/Brasil 11291.htm.

110

Sobre este e outros massacres de presos ocorridos no Estado de São Paulo ver PEDROSO, 2012, em

http://www.ibccrim.org.br/revista_liberdades_artigo/119-HISTORIA 111

O tema se tornou obrigatório nos escritos de ex-presos e de frequentadores de prisões. Vejam-se os livros MENDES, 2012, DU RAUP, 2002 e BIONDI, 2010.

Outro exemplo de significativo desrespeito de direitos é a Penitenciária Urso Branco, no Estado de Rondônia, como é conhecida a Penitenciária de Segurança Máxima José Alves da Silva, sobre a qual não vou me deter aqui. Palco do assassinato de mais de cem presos somente na década de 1990 e o ano de 2001, teve seu caso principal caso de mortes em 2001, levado a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, e a Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos - OEA, que em 2002 condenou o Brasil pela situação e se manifestou com exigências de modificações em diversos momentos entre 2001 e 2011113. Abaixo, imagens desse estabelecimento carcerário no ano de 2001, após tentativa de fuga de detentos. Tive a oportunidade de testemunhar o ocorrido, na condição de Secretária Nacional de Justiça, e verificar que os corpos eram retirados do interior do estabelecimento com escavadeira. No telhado do mesmo já se viam urubus à espera de sua vez. Penitenciária Urso Branco, em Rondônia114.

113 Ver sentença em http://www.corteidh.or.cr/docs/medidas/urso_se_10_por.pdf. Em diferentes ocasiões foram mortos 32, 26 presos ao mesmo tempo, e por seus companheiros. Sobre o assunto ver http://www.ambito- juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=6784.

114

A imagem seguinte apresenta a revista de presos após o assassinato de presos em 2001, em

Emhttps://www.google.com.br/search?q=penitenciaria+urso+branco&biw=1093&bih=514&t bm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X&ei=O2VIVLyqHoaONsuNgZgJ&ved=0CBwQsAQ.