O Estado aparenta se eximir da coordenação eficiente da visitação das famílias, deixando-os expostos a critérios mantidos pelos agentes prisionais, e por um comércio lucrativo que é montado à porta dos estabelecimentos. Pois há regras informais dentro do universo prisional, e que são as realmente praticadas e acatadas por presos, também há regras
78 A população condenada à prisão em agosto de 2014 é de 711.463 presos, mas 147.637 deles cumpre pena em regime domiciliar. Trata-se da terceira maior população prisional no mundo, sendo que há 373.991 mandados de prisão aguardando cumprimento. Houve um aumento de 400% em vinte anos. http://www.cnj.jus.br/noticias/cnj/28746-cnj-divulga-dados-sobre-nova-populacao-carceraria-brasileira
79 Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), 32% dos presos brasileiros são provisórios, ainda estão aguardando julgamento. Não é recente a prática de manter grande número de pessoas detidas antes do julgamento. Em sua pesquisa Isabel Lopes Aragão diz que no ano de 1875 foram registrados 987 crimes na Cidade do Rio de Janeiro. No entanto, naquele ano foram presas e mandadas para a Casa de Detenção da Corte
impostas pelos funcionários, tanto dentro, como fora do estabelecimento. De modo geral, estão relacionadas com as exigências entre presos e facções, ou com acordos feitos entre esses e os guardas. As cores de vestimentas, sacolas e demais pertences seguem o código da facção dominante em cada estabelecimento, e são exigidas já na entrada, pelos agentes, como se estivessem em algum regulamento.
Segundo um ex-agente penitenciário, durante as atividades de controle da visitação, “percebe-se que a representação que os agentes penitenciários fazem dos familiares ou visitantes dos condenados é a de que eles são, quando não desviantes, ao menos parceiros daqueles que visitam” (CASTRO E SILVA, 2012: 98). Na pesquisa de Fernanda Moura, realizada com familiares de presos do Rio de Janeiro, quanto ao atendimento recebido por parte dos agentes prisionais com os quais os visitantes têm contato necessário, as respostas trazem um quadro de desrespeito e submissão. Há respostas afirmando que as agentes se referem a elas como “as vagabunda, mulher dos vagabundo”, ou acham que as familiares “têm culpa por ser mulher de bandido” (in MOURA, 2012: 32). No mesmo sentido da observação dessa familiar, o pesquisador desenvolve a percepção dos agentes penitenciários em uma importante conclusão, que demonstra como são confusas e profissionalmente pouco explícitas as relações e as funções dos que trabalham e frequentam a prisão:
os visitantes são lidos (pelos guardas) como indivíduos que possuem vínculos estreitos com os apenados, eles também são situados em uma posição simbólica que é antagônica a do guarda. Entretanto, o antagonismo aqui não se dá por adesão ao mundo do crime e, sim, em razão dos laços de parentesco ou amizade que os unem “aos inimigos” dos guardas (CASTRO E SILVA, 2012: 98).
Seguindo as entrevistas, a mãe de um preso se referiu aos preconceitos e maus-tratos recebidos quando vai visitar o filho: “Demais. Muito, maus tratos dos desipe80
, tem dias que a gente chora, mas é obrigada a entrar pra não deixar meu preso sem visita” (idem, 30). Outra familiar disse que as visitantes são tratadas “que nem cachorro, acha que somos presos, bandidos. A gente chora, eles jogam nossa comida toda dentro de um saquinho plástico” (idem, 30). “Eu vim de longe, faltei o serviço, a gente vai pro cantinho e chora pra depois ir
80 O DESIPE- Departamento de Sistema Penitenciário, foi substituído pela Secretaria de Administração Penitenciária - SEAP. Seus agentes penitenciários continuam sendo conhecidos como desipes. Em entrevistas ao jornalista Julio Ludemir (2009) o ex-preso Paulo Cesar Chaves frequentemente usa o termo para se referir a guardas.
embora”. Essa mãe diz que tem que pagar “50 centavos, um real para usar o banheiro” (idem, ibidem).
Fora das penitenciárias do Rio de Janeiro são montadas barracas que alugam e vendem roupas e sandálias aceitáveis, dentro do padrão exigido. E, ainda, pilhas, mamadeiras, remédios, biscoitos, leite, cigarros, envelopes e selos, material de limpeza, jornais e outros. Podem servir para substituir os que tiverem sido vetados pelos agentes prisionais na entrada, ou que os familiares não tenham levado. São administradas por familiares de presos com a
concordância de guardas. A mãe de um preso reclama do impedimento de uso de
determinadas roupas: “a desipe fala que a roupa não entra, você aluga por R$10,00, R$15,00, uma sandália, saia” (in MOURA, 2012: 65). Outra familiar fala sobre esta questão à pesquisadora: “uma vez um desipe fez isso comigo, com uma blusa que eu sempre ia, tava cansada de ir, porque os faxinas usam verde (e a blusa dela tinha essa cor).” Como daquela vez foi impedida de entrar com a roupa, ela diz que alugou “uma lá fora (...). Não entram também objetos e roupas da cor vermelha (cor da facção Comando Vermelho), preta e azul marinho (cores dos uniformes dos funcionários)” (idem: 73). Também são censurados roupas em razão do decote, ou porque são justas, ou chamativas, ou curtas, ou porque brilham, ou por qualquer outra razão que a guarda queira alegar. Todas essas regras, e as sanções correspondentes, que mudam segundo o estabelecimento em que a visita estiver sendo feita, tornam a família confusa, submissa e sujeita a serem reféns da prisão, como se ela também fosse condenada.
Prática frequente é o aluguel de lugares para guardar tudo o que se torna proibido e não pode entrar naquele dia; uma espécie de guarda-volumes bem tosco, que consiste um conjunto de sacolas de supermercado onde são depositados os itens que não puderam dar entrada no estabelecimento. Outra mãe desabafa nervosa: “só Jesus que me dá forças, tudo, conduções, distância, filas, gastos, psicológico, financeiro. R$50,00 de passagem, bolsa que paga pra guardar, presilha, brinco, cordão, pulseira (não pode entrar com isso, então tem que pagar pra guardar também), paga pra comer” (in MOURA, 2012: 65,66).
Esse arbítrio parece acompanhar os agentes prisionais, que evidenciam dispor de amplos poderes, não controlados, e fazem questão de demonstrá-los, sem que haja controle externo à esfera da segurança. A matéria a seguir, do jornal Folha de S. Paulo81, mostra bem o
que está em jogo: “uma mulher deixou de entrar em uma unidade, por exemplo, por estar menstruada, o que impossibilitava a realização da revista íntima", e que ocorre com frequência. Outra foi barrada porque tinha cabelo afro, "de difícil inspeção". A equipe do mesmo jornal testemunhou mais um exemplo de discricionariedade: “Um agente penitenciário ameaçou segurar a fila se as mulheres continuassem a fumar na proximidade do portão ou se houvesse carros estacionados nos arredores da entrada”. E a reportagem do jornal prossegue:
Logo depois, uma visitante foi vista tentando arrancar com as mãos o aparelho dos dentes para entrar no presídio - minutos antes, ela havia danificado a própria blusa, tirando os detalhes de vidrilhos que julgava serem o motivo de o detector de metais ter apitado em sua tentativa de ingresso. A mulher contou que, nas três vezes anteriores em que entrou no presídio, já usava o mesmo aparelho. Naquele dia, contudo, o detector soou. Como não conseguiu arrancar toda a estrutura dos dentes, não pôde ver o marido naquele domingo. "O que posso fazer?", indagou ela82.
Dependendo das turmas de agentes prisionais, de circunstâncias ligadas ao estabelecimento, ou ao visitante, ou ao contexto político do momento, as proibições costumam ser ampliadas, prejudicando o planejamento das famílias, e as onerando mais ainda. A questão não é nova, pois, no ano de 1987, no Presídio Ary Franco, em Água Santa, Rio de Janeiro, estava proibia a entrada de qualquer fruta que não fossem uvas e peras. Entrevistado durante a pesquisa A Justiça dos Homens (1984), o diretor disse que frutas com casca grossa, como bananas e laranjas, estariam entupindo o boi83. Ou seja, os internos, supostamente, estariam jogando pelo vaso sanitário as cascas das frutas levadas pela família, que, então, teria que arcar com frutas mais caras para satisfazer as novas regras.
Uma das situações inerentes à prisão é que os visitantes ampliam em centenas a população de cada estabelecimento, em dias de visita84; no Rio de Janeiro e em outros estados, muitos casais aproveitam todos os momentos para tentar conseguir se relacionar sexualmente. É preciso que o processo não seja proibido pela Administração, mas, em
82
Jornal Folha de S. Paulo, 14/06/2004.
83 O boi ou buraco do boi é um simples orifício no chão que serve como vaso sanitário em celas comuns ou individuais. Não se trata de vaso turco, pois não tem apoio para os pés e sistema de descarga de água.
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Semanalmente, dos mil e seiscentas visitantes vão às penitenciárias da cidade do Rio de Janeiro (O Globo 3/08/2014). Há visitação em quatro dias da semana, em sistema rotativo. Cada preso tem direito a ser visitado duas vezes na semana, uma delas no sábado ou domingo, quando há um número bem maior de visitantes.
algumas penitenciárias são armados ratões85, que são “tendas” montadas com lençóis e outros tecidos, de forma a garantir privacidade para os encontros sexuais privados. Há presos que se revezam como guardiães para as crianças; pelo mesmo motivo, em alguns locais há um rodízio de entretenimento delas chamado de creche. Geralmente os organizadores do processo cobram algum dinheiro dos companheiros para ficar com as crianças, de modo a que eles aproveitem a oportunidade da visitação. Também pode ser usado um local público, como um pequeno banheiro disponível para todos os visitantes, ou um refeitório vazio a que tenham acesso; ou outra parte que, eventualmente, seja mantida aberta e liberada às visitas, como as próprias celas, em alguns estabelecimentos, sobretudo os de fora do Rio de Janeiro.
O Subsecretário de Administração Penitenciária do Estado reconhecia que a lentidão na triagem para entrada no estabelecimento era uma das maiores fontes de insatisfação, obrigando muitos parentes a acampar e dormir na fila: “Há casos de mulheres que só conseguem passar pela triagem minutos antes de terminar o período de visita”, disse ele86. Sabe-se que, após as filas, checagens corporais, verificação de gêneros e tudo o mais que estão levando, resta pouco tempo para o encontro, algumas vezes não mais que duas ou três horas. E, muitas vezes não há como entrar no estabelecimento e o visitante retorna com todas as sacolas e sem se encontrar com o familiar. Karina Biondi relata uma visita ao marido preso em São Paulo, que foi iniciada com a sua presença na fila, às 2h da manhã, e que prosseguiu até o final dos procedimentos de entrada do estabelecimento. No período da tarde ela conseguiu chegar ao marido (BIONDI, 2010: 26 e 36).