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A principal e a mais preocupante entre as situações que envolvem os presos e suas famílias é a revista íntima87, que também chamam de revista ginecológica88. As mulheres que

85 Como diz o escritor Julio Ludemir, “em dias de visita as cadeias ganhavam a aparência de acampamentos do MST” (2007: 106).

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Jornal Folha de S. Paulo, 14/06/2014.

87 Ver DIÓGENES, 2007; SANCHEZ, 2011; JOZINO, 2008; VARELLA, 2001; CASTRO, 1991; DU RAP, 2002, MENDES, 2012, BIONDI, 2010 e CASTRO E SILVA, 2012.

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A revista íntima é conhecida como revista vexatória. A organização civil Conectas, muito reconhecida na proteção dos direitos humanos, mantém uma campanha para que a revista seja proibida no Brasil. Também define essa atividade como “despir mulheres e obrigá-las a agachar três vezes sobre um espelho, contrair os músculos e abrir com as mãos o ânus e a vagina para que funcionários do Estado possam vasculhar orifícios genitais de mães, irmãs, esposas e filhas de presos (...). O mesmo acontece, em número menor, com homens. Em: pelo%20fim%20da%20revista%20vexat%C3%B3ria%20-%20Conectas%20Direitos%20Humanos.html.

visitam presos - filhas, companheiras, mães – de qualquer idade, passam por revista corporal extremamente rigorosa, que tem sido motivo de reiteradas queixas e denúncias de presos e de militantes por direitos humanos no país. Referindo-se aos agentes prisionais durante o controle dos visitantes o ex-agente prisional Anderson Castro e Silva diz que os mesmos, “como não têm nenhum respeito pelos visitantes, se aproveitam dos rituais de revistas íntimas e de bolsas para humilhá-los ou para obter ganhos escusos” (2012: 98).

Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, a mulher de um preso carioca, uma senhora de 60 anos, mãe de três filhos adultos, afirmou que o pior momento da visitação é a chegada ao presídio, quando é feita a revista de cada pessoa da fila para entrada: “É constrangedor para uma senhora ficar nua e exibir as partes íntimas para mostrar que não há armas, drogas ou outros objetos escondidos. Em algumas cadeias, a revista é feita em grupo. Há agentes que tapam o nariz pra dizer que cheiramos mal” 89

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Do mesmo modo, Simone Menezes, esposa de William da Silva Lima descreve as situações de vergonha pelas quais passam as mulheres e crianças90, sendo que, como disse a senhora acima, a revista pode ser especialmente desrespeitosa, dependendo da equipe. É pacífica a descrição das condições necessárias à visitação do parente, como lembra o ex- preso: “A revista era humilhante. Às vezes, nuas, eram obrigadas a dar pulinho, abaixar e levantar múltiplas vezes. As garras da prisão cravavam-se em suas peles” (MENDES, 2012: 125).

A pesquisadora Karina Biondi relata uma das revistas por que passou, como esposa de preso, e que a levou a chorar publicamente:

Como de praxe me despi completamente, entreguei as roupas à funcionária e aguardei suas instruções. Ela pediu que eu me agachasse três vezes, mantendo-me agachada na terceira vez, e tossisse. Assim o fiz e então ela pediu que inclinasse o tronco para trás, encostando-o na parede e continuasse

a tossir. Espremendo os olhos, disse: “não estou conseguindo enxergar lá dentro” e deitou-se no chão na tentativa de conseguir um melhor ângulo de

visão (BIONDI, 2010: 37).

A descrição da revista sofrida pela pesquisadora prossegue, com outras exigências especialmente desrespeitosas dos direitos humanos, inclusive a chamada para que outras

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FOLHA DE S. PAULO, 14/06/2004. 90 Entrevista à autora em 14/9/2011.

agentes a ajudassem a olhar e descobrir se havia drogas ou armas no interior de seu corpo, até convencerem-se de que não havia (idem, 38).

Ressalte-se que a imposição desse tipo de revista consiste, também, grande desrespeito às funcionárias que a executam, ainda que a maior parte delas não pareça reconhecê-lo. A prevalência do profissionalismo deveria bastar para que se negassem, em conjunto, a passar por tal indignidade e obedecer a ordens; e as visitantes são obrigadas a passar por tal constrangimento. Tive oportunidade de conhecer uma agente prisional do Rio de Janeiro que se revoltou quando foi indicada para trabalhar na triagem de visitantes. Teve que acatar a ordem e, pouco tempo depois, contraiu enfermidades de origem emocional e, em licença médica, teve que se afastar do serviço. Também o pesquisador Anderson Castro e Silva, que exerceu a função de agente prisional no Presídio Hélio Gomes, relata o constrangimento dos que têm que inspecionar o corpo de homens visitantes: “os inspetores encarregados de procederem à revista íntima – um agente penitenciário por plantão - concebiam o fato de estarem lotados naquele posto de serviço como uma forma de punição ou perseguição do chefe da turma” (2012: 101). A atividade foi apelidada de “manja rôla”, evidenciando o desconforto e rejeição dos guardas.

Como dissemos em item acima, a revista íntima é considerada desonrosa para os visitantes masculinos, a ponto de provocar possível absenteísmo na penitenciária. Ora, se a revista íntima praticada pelos guardas é tão desagradável para eles, o que é uma conclusão evidente, seria esta uma das razões que motivem a exigência de que apenas 20 ou 30 homens possam entrar em penitenciárias do Rio de Janeiro visitar parentes? Essa é uma questão extremamente séria, que merece análise e reflexão, sobretudo de parte da Secretaria de Administração Penitenciária.

O pesquisador Anderson Pereira Sanchez procura desconstruir a ideia de que é preciso revistar o corpo dos familiares dos presos. Lembra que, no Rio de Janeiro, cerca de duas mil pessoas visitam presos a cada semana, em cada estabelecimento. Em três anos houve apenas 34 flagrantes de drogas com visitantes, sendo que um dos transportadores era homem (SANCHEZ, 2011: 12). Ou seja, dezenas de milhares de visitantes teriam sido revistadas intimamente para justificar apreensões insignificantes. Em outro levantamento, apurou-se que,

entre dezembro de 2006 e abril de 2007, a Associação para Reforma Pri- sional (ARP) mensurou o resultado das apreensões ocorridas durante as re-

vistas nas unidades prisionais do sistema prisional fluminense. Na ocasião, o levantamento constatou que em cerca de 10 mil revistas, obteve-se um total de 3 apreensões, o que corresponderia a menos de 0,1% das pessoas revistadas portando objetos não permitidos, ilícitos ou não (CASTRO E SILVA, 2012: 99).

Algumas administrações de penitenciárias buscam controlar excessos praticados durante a revista, instituir regras, adotar experiências com tecnologia e outras formas de lidar com o caso. Reconhecem que devem reduzir o enorme constrangimento implicado em uma mulher, de qualquer idade, sozinha com uma agente prisional, ou em grupo, desnudar-se inteiramente e deixar-se observar. Mas o fato é que essa questão tornou-se um tabu no sistema prisional, que entende que não pode dispor de segurança sem a revista corporal.

De qualquer forma que se analise esta questão, o volume de itens proibidos levados por familiares é muito pequeno. Portanto, a administração prisional deveria se esmerar na procura de outras fontes de entrada dos mesmos. Porque, rotineiramente, são encontrados nas celas centenas de telefones celulares, baterias, drogas, bebidas, material para jogos de azar, e outros, que, certamente, percorreram diversos caminhos que não somente o interior dos corpos de mulheres visitantes. Se forem, de fato, tão importantes para a Administração, deveriam ser interceptados seriamente.

No mesmo sentido, uma longa reportagem sobre o sistema prisional do jornal Folha de S. Paulo, mostra que, durante o ano de 2012, nenhuma arma teria sido encontrada com visitantes. Das 4.417 apreensões de drogas nos estabelecimentos do Estado, naquele ano, 354 (8%) foram realizadas nas revistas às celas, e não durante a revista aos visitantes. Sobre os telefones celulares (ou equipamentos como chips e baterias), o objeto mais desejado por presos, e, portanto, o mais demandado, dos 13.228 encontrados nas prisões, 439 (menos de 4%) estavam em posse de visitantes91.

Demonstrando como a questão está sujeita a diversos contextos, veja-se que, segundo dados da Secretaria de Segurança do Distrito Federal, das 685 mulheres condenadas por tráfico de drogas, no ano de 2013, 60% teriam sido flagradas quando tentavam entrar na penitenciária92. Segundo o pesquisador Anderson Pereira Sanchez, as principais razões para

91 Folha de S. Paulo 27/04/2014. 92 Jornal O Globo, 3/12/2013.

transporte são coação moral, “amor” e comércio, praticado por mulas93

(SANCHEZ, 2011: 10).

Em revistas feita a visitantes e aos gêneros que levam, em várias ocasiões são encontrados artigos e substâncias proibidos, o que serve para o sistema prisional justificar esse tipo de procedimento desrespeitoso. Assim, o procedimento aviltante é mantido e normalizado, já que a administração das prisões o considera essencial. A eventual descoberta costuma implicar em indiciamento do familiar como traficante. Mães são as principais vítimas das encomendas de filhos, assim como companheiras.

Em penitenciárias recentemente visitadas em alguns estados do país, fui apresentada a uma cadeira em que as mulheres sentam. Não tem fundo, e, abaixo dele, há espelhos inclinados, para que o corpo seja investigado sem que seja tocado, pois tocar o corpo é proibido à agente. As administrações que usam essa cadeira sem fundo demonstraram orgulho pela adoção da inovação respeitadora.

Durante os anos que pesquiso no sistema prisional do Rio de Janeiro, tenho recebido informações da entrada de itens proibidos, em maior quantidade, através de caminhões que entregam gêneros nos estabelecimentos, funcionários de prisões, sobretudo os terceirizados, e, mesmo, religiosos e advogados de presos. Os itens proibidos sempre entraram nas cadeias do Estado, e, se podem entrar através de comerciantes, veículos, funcionários, por que razão o extremo rigor apenas com familiares de presos? Estes entendem que se trata de uma humilhação a mais, disfarçada de cuidado com a segurança. No mesmo sentido desse argumento, o jornal A Folha de S. Paulo noticiou que

Organizações de direitos humanos divulgaram entrevistas com quatro agentes de Estados diferentes, e todos concordaram que a prática, além de degradante, é absolutamente inócua contra a entrada de produtos ilícitos nas prisões. Não faltam lembranças, entre os envolvidos com o tema, de conivência e corrupção de funcionários do sistema prisional94.

Portanto, essa delicada questão traz indagações não respondidas: por que o Estado opta por ser particularmente rígido com familiares de presos, quando há diversas outras maneiras de introduzir itens ilícitos nas prisões, incluindo o transporte feito por agentes

93 Mulas, também chamadas de pontes são pessoas, geralmente mulheres, contratadas para passar as drogas. 94 Jornal Folha de S. Paulo 27/04/2014.

prisionais? O pesquisador Sanchez entrevistou presos e seus familiares e aponta outros métodos de entrada das drogas, que não os visitantes, como o uso de funcionários, encomendas entregues pelos Correios, e, mesmo, impensáveis catapultas, pipas e pombos (SANCHEZ, 2011: 9). Se a entrada dos objetos e substâncias é tão preocupante para o sistema, por que não investir em tecnologia, como scanners95, sem que as pessoas tenham que se despir. E, ainda, por que não revistar os presos, ao final da visitação, e verificar se, de fato, eles estão com objetos e substâncias proibidos que teriam recebido durante a visita?

O sistema penitenciário parece entender que o agente prisional contribui para a eficiência na segurança do sistema prisional quando consegue descobrir uma trouxinha de maconha no interior da mãe de um preso ou de um frango assado.

Essa questão da entrada de substâncias proibidas, porque ilegais, como a maconha, a principal substância utilizada por presos, deve estar no centro de debates que se avizinham. Com a previsível descriminalização da maconha no período máximo de poucos anos, os presos poderão recebê-la através dos parentes, e utilizá-la livremente, como estarão fazendo centenas de milhares de pessoas fora da prisão?