É preciso ressaltar que são antepostas ainda mais barreiras para os visitantes masculinos, de forma que o contato de pais, irmãos e filhos se torna raro e é insuficiente para a manutenção de relação duradoura.
Isso agrava questões ligadas aos papéis sociais masculinos. Do interior da instituição o preso é um homem que raramente consegue exercer adequadamente o seu papel de pai ou companheiro: não intervém eficazmente na educação dos filhos, não protege a companheira, não tem qualquer participação prática na vida dos que lhe dedicam afeto ou outro sentimento positivo. Não trabalha, sendo sustentado por filhos menores através de subempregos, ou, mesmo, em alguns casos, através de mendicância, pequenos delitos, e outros expedientes similares; percebe a desintegração da estrutura familiar, sem conseguir controlá-la. Muitos temem que os filhos repitam o destino deles e entrem na criminalidade, embora outros se valham dos familiares para tentar obter a entrada de itens proibidos, como drogas, telefones celulares e baterias, e partes de armas desmontadas. E, ainda, com as barreiras à visitação masculina, é evidente que as mulheres consistam na maior parte dos visitantes, sobrecarregando-se, e que haja redução do papel do familiar masculino.
70 Em sua tese de Doutorado, o ex-agente penitenciário Anderson Castro e Silva revela que os agentes prisionais chamam de alienígenas todos os que são de fora dali, ou seja, não são funcionários ou presos (2012: 90).
Em sua pesquisa, no ano de 2012, Maria Fernanda Moura entrevistou 50 familiares de presos de vários estabelecimentos do Rio de Janeiro. Verificou queixas de pais pela limitação a visitantes homens, que não podem ser mais de 15 a 20 a cada dia de visita em um estabelecimento (MOURA, 2012: 65); isso provoca que diversos parentes do sexo masculino sejam impedidos de entrar, apesar do esforço e gastos feitos para ali estar. No meu entender as dificuldades interpostas aos homens são exclusivamente movidas pela preocupação do setor de segurança, que se sente ameaçado por um número grande de homens, mais do que pelo número grande de mulheres. Mas o pesquisador Castro e Silva, ex-agente prisional, com preciosa experiência profissional acumulada, entende que os parentes do sexo masculino se sentem especialmente constrangidos com os procedimentos fisicamente invasivos de revista. Do mesmo modo como os guardas sentem-se extremamente mal frente à revista íntima de visitantes masculinos, estes também se sentem aviltados. Ele supõe que parte da ausência de pais, filhos e irmão, do sexo masculino, possa ser devida à dimensão da honra masculina:
Afinal, despir-se e agachar-se de costas perante outro homem é um comportamento que emascula simbolicamente o visitante, sendo algo inconcebível para os indivíduos que
construíram suas identidades com base em noções de homem “trabalhador” e “pai de família”
(CASTRO E SILVA, 2012: 105).
Muitos familiares se tornam impossibilitados de continuar com as visitas, por razões de doença, cansaço, casamento, desemprego, novos filhos, falta de recursos, mudança da cidade, restrições do trabalho. Isso ocorre especialmente no caso de penas longas, em que filhos de presos crescem, começam a trabalhar, podem vir a residir em outro estado, estabelecem suas famílias diretas. Como não há como escolher o estabelecimento e a região onde será encarcerado, muitos ficam presos longe das famílias. O jornalista Jozino (2008) e Mendes (2001 e 2012) relatam viagens semanais, ou bastante frequentes, de incontáveis familiares que vivem e trabalham a mais de 600 km, no Estado de São Paulo. Mesmo na prisão, algumas facções organizam e patrocinam as viagens do conjunto de familiares, fretando ônibus para que a falta de recursos e outros inconvenientes da viagem não os impeçam de vê-los. Nem sempre adiantaria que se mudassem para perto, o que também é feito, pois as transferências de condenados entre estabelecimentos são constantes. Os familiares têm se mantido em contato também através do telefone celular, ainda que proibido o seu uso.
O esforço, o gasto, e as consequências na saúde de pais, danos emocionais aos filhos, por exemplo, podem provocar no preso a decisão de suspender ou espaçar a visitação, uma redução do contato voluntária, de forma a afastar crianças e idosos do universo prisional. Entre outros, William da Silva Lima, e a esposa Simone decidiram que os três filhos só o visitariam esporadicamente, ou em dias especiais, como dissemos, para que eles não sofressem o desgaste da pena e passassem a se considerar parte da sociedade dos cativos (SYKES, 1958).
A irmã de um detento disse que, em consequência da prisão, “todo mundo ficou com a saúde ferrada, psicologicamente também”. “Destruiu a família, ninguém é mais a mesma, nunca mais foi como era antes”. “A mãe teve problemas de sistema nervoso, a tia começou a tomar tranquilizantes, a avó tem problema de pressão alta, teve um AVC (...)”. E a mulher de outro conclui, evidenciando sua percepção do alcance da instituição prisional, para além do condenado “(...) Fiquei presa que nem ele” (in MOURA, 2012: 38, 39). O fato é que o desgaste físico e o emocional estão presentes na maior parte dos familiares.
Figura 3 - A fila de espera para a visitação. Complexo de Gericinó, 2013. Fonte: http://www.vivafavela.com.br/reportagens/399-a-longa-espera-das-mulheres-de-bangu-i
Constantemente há mudanças que deixam os familiares inseguros, sem saber como se posicionar ou como fazer a visita sem se envolver em problemas. Para conseguir a carteirinha de visitante, as companheiras têm que comprovar à Secretaria de Administração Penitenciária que possuem laços sólidos com o preso, o que só pode ser feito com alguma agilidade em caso de casamento formalizado. O objetivo da administração é evitar que sejam chamadas ou levadas as penitenciárias mulheres dispostas a ter relações sexuais remuneradas, no caso dos presos que não têm companheira. As visitas íntimas são reservadas aos casados, mas há incontáveis casos de pessoas que convivem maritalmente, o que é mais difícil de comprovar, embora os direitos sejam os mesmos na legislação brasileira. Assim, algumas vezes, as dificuldades interpostas têm que ser burladas, ou resolvidas através de corrupção.
Outra questão relacionada à visitação é que, como na maior parte dos estabelecimentos não há vazão para o número de presos interessados, ou em condições de receber visita íntima, são feitas seleções, legítimas ou fraudadas. Nelas entram critérios como comportamento e exercício de trabalho, e também o poder, a posição ocupada em uma facção ou propina. Assim, a visitação pode estar sujeita à corrupção, e frequentemente está. Há os presos que têm condições de remunerar guardas ou presos que dominam a distribuição de inscrições e senhas; os presos que dispõem de recursos, utilizam-nos para fazer frente às situações da vida no cárcere.
Como o Subsecretário de Administração Penitenciária do Rio de Janeiro admitiu, em 2004, as mulheres dos líderes das facções pegam senha (de entrada para visita semanal) “sem passar pela fila ou pagam para que outros durmam na fila por elas”, garantindo, assim, entrada rápida no estabelecimento71. Naturalmente, os chefes de facções detêm poder para atuar em outras áreas, como a frequência à consulta ao médico, a compra de alimentos fora do estabelecimento, o acesso ao telefone, o aumento do número de visitas íntimas, entre vários outros.
2.4.1 Mãe de preso
No grupo de pessoas submetidas à pena de prisão, a que se refere a pesquisadora Andrea Buoro (1998) destacam-se claramente as figuras femininas, sobretudo a da mãe.
No núcleo familiar, a figura materna adquire maior relevância pela dedicação que se torna necessária ao interno. Este costuma dizer que mãe "fica fiel até o fim", contrapondo a constatação ao que ocorre com os demais membros familiares, que nem sempre resistem visitando por tempo mais longo. Também é comum ouvir em prisões que “coração de mãe é como sola de sapato”, ou seja, está sempre em contato com o que há de sujo, de duro, de difícil, e continua resistindo; sua presença mantém o simbolismo social doce e protetor que genericamente é atribuído à mãe. Toda a estrutura do sistema prisional diminui o interno, aumentando, com isso, a necessidade da presença materna, mítica fonte de proteção e amor. O jornalista Percival de Souza insiste que o preso (...) “ouve o clamor da mãe, que cumpre pena junto com o filho, de tanto acumular sofrimentos. Quem não sabe nada disso, não faz a menor ideia do que se passa dentro da prisão” (SOUZA, 2006: 13).
O universo da prisão nem sempre é levado em consideração, sob o ponto de vista de suas razões próprias, e de consequências possíveis e previsíveis. Percival de Souza exemplifica o que estou me referindo, quando afirma que os violentos ataques realizados dentro e fora da prisão, em maio de 2006, que pararam a cidade de São Paulo, queimaram penitenciárias, e provocaram homicídios e o caos, tiveram “uma razão aparentemente singela, mas própria da ansiedade nos presídios: o cancelamento das visitas no domingo do Dia das Mães” (idem, ibidem).
De fato, a família do preso consiste em um dos mais delicados e complexos assuntos na prisão. Como se afirma na prisão, ela representa os braços, olhos e ouvidos no mundo de fora da prisão. Funciona como uma ponte que mantém o preso conectado ao exterior, o que a torna marcada pela privação e por cobranças. Logo ao ter um membro seu preso, a família se desespera, corre para os órgãos do Estado, se humilha, enfrenta filas, perde dias de trabalho, procura orientações e utiliza vários ônibus para chegar ao local, paga por informações, tenta inutilmente romper um bloqueio institucional bem acima de suas compreensão e possibilidades72.
72 No dia 27 de dezembro de 2011 testemunhei uma situação desse tipo, quando visitava uma unidade da Polinter, da Polícia Civil, que é destinada à presos provisórios : uma senhora de 60 anos contava que havia saído de casa (em uma comunidade pobre no Alto da Tijuca) às 5h para estar diante da Polinter do Grajaú cedo, como
foi recomendado, e visitar o filho que havia sido detido e levado para o estabelecimento. “Cheguei e peguei a
ficha número 58. Esperei em pé por horas, para acabar sendo atendida e ficar sabendo que aquela fila era só para informações sobre o que precisava para tirar a carteira de visitante. Tudo tem que ser entregue em outro lugar,
um monte de documentos, horário em que estou trabalhando, não sei o que fazer!”. Mais adiante, marcou uma
E há as permanentes preocupações com a segurança deles, como tive a oportunidade de escutar em filas, em conversas em ônibus, desde que comecei a tomar contato com o sistema prisional: “Ele estará sendo alimentado?”, “Conseguiu um colchonete ou está dormindo diretamente no chão?”, “Deixei 50 reais na portaria, acha que vão entregar pra ele?’’, “Vai sofrer alguma violência sexual”? Cabem especulações e são trocadas experiências e informações. “É melhor não perguntar porque ele (o guarda, o agente prisional, o funcionário do guichê) se ofende e aí piora tudo.” “Não pode reclamar, tem que fingir que concorda com tudo”. “Se a gente reclama aqui fora (na porta do estabelecimento) eles batem nele lá dentro”73
.
No entanto, nem sempre a mãe atende às expectativas do preso, que costuma se tornar muito exigente e voltado ao preenchimento da própria vida. E muitos presos não têm mãe, ou ela e os familiares mais próximos moram distante. Isso onera os familiares próximos, que procuram não faltar a uma visitação, apesar de outros compromissos e atividades que possam ter. Na pesquisa A Justiça dos Homens, realizada na segunda metade da década de 1970, quando foram entrevistados 300 presos do Estado do Rio de Janeiro, encontrou-se que 42,7% dos entrevistados fizeram observações dizendo que após sua prisão a situação com a família deteriorou-se significativamente, ou seja, ele "foi abandonado", "perdeu contato", "a família morreu", "desapareceu". Outros entrevistados acrescentam: "cresceu", "sumiu", "se mudou", "tem parte aí", "não sei se vão me aceitar", "vão me olhar atravessado", "já não tem mais nada", "já nem lembro", são "miseráveis que me abandonaram aqui" (in SUSSEKIND, 1984: 150). E ressalte-se que vários presos, anteriormente, terão causado problemas aos parentes, os envergonhado, roubado deles, envolvido casas de parentes em situações de risco, feito alguns com escândalos, os envergonhado, contraído dívidas ou agredido. Assim, muitos não dispõem de pessoas dispostas a passar pelos procedimentos da visitação para vê-los.