• Sonuç bulunamadı

importância para atestar suposta honestidade. Marcou, madrugou, entrou na fila e algumas horas depois, ao ser atendida, foi comunicada que a assistente entrara de férias e que o “assunto é só com ela, daqui a um mês”. 73Esses comentários foram ouvidos em diferentes ocasiões, seja em prisões, seja conversando com familiares, ou em encontros na Defensoria Pública, por isso não há como citar fontes.

Em todo o país, a maior parte dos gastos apontados pelo sistema penitenciário é destinada à manutenção da instituição prisional, através da manutenção do estabelecimento, e não do preso. É a pena de prisão que está sendo preservada, ou o Estado não teria condições de implementá-la na medida em que o faz, embora precária, pois o custo seria demasiado para a vontade governamental de investir na área, e para o número crescente de apenados. Recursos orçamentários são empregados em material de limpeza de partes externas às celas, salário dos funcionários e contratados, energia elétrica e água, combustível e transporte, comunicação, equipamentos para diversas funções, segurança e vários outros. Mas é a família que complementa a alimentação, leva roupas, lençóis e cobertores, o material de higiene indispensável, inclusive, para a limpeza das celas, como sabão, desinfetante, pano de chão, vassoura, baldes, e vários outros materiais, têm que ser levados por familiares. E, também, remédios, um item importante para o preso, que, muitas vezes, contrai enfermidades, ferimentos, ou tem doenças pré-existentes, que são agravadas pela umidade, falta de sol, tensão e demais condições da prisão. Semanalmente, ou sempre que possível, os familiares entram na prisão carregando sacolas com gêneros alimentícios, lençóis e cobertores, material de higiene. Esse carregamento costuma ser conhecido como sucata ou jupira, nas cadeias do Rio de Janeiro, e como jumbo, em São Paulo.

A manutenção é considerada fundamental na prisão – inclusive para a Administração- pois, como afirma o ex-agente penitenciário Anderson Castro e Silva, “cabe quase que exclusivamente ao visitante o sustento material do aprisionado”, portanto,

não possuir visitas, para além das consequências emocionais e da ausência de contato com o mundo exterior, faz com que o condenado tenha de se privar de alguns gêneros de primeira necessidade ou de se submeter às humilhações para obtê-los – como, por exemplo, lavar as roupas de outros apenados ou prestar favores sexuais em troca de roupas, cigarros, papel higiênico ou aparelho de barbear (CASTRO E SILVA, 2012: 102).

Deve ser amplamente exposta a obrigação das famílias sustentarem boa parte das despesas dos presos, cobrindo suas necessidades imediatas, como se verifica pela figura 4.

Figura 4 - Fila de familiares – mulheres – carregando sacolas, na Penitenciária Vicente Piragibe, um dos 25 estabelecimentos do Complexo Penitenciário de Gericinó, Rio de Janeiro, Fonte: http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/tortura-e-superlotacao-

em-presidios-sao-problemas-endemicos-aponta-ong-internacional.

Como dissemos, tradicionalmente, o Estado providencia, apenas, uma alimentação de qualidade inferior, que tem que ser refeita e melhorada pelos internos, através do recortado74. Esse procedimento é realizado há muitas décadas e descrito também pelos presos políticos. Referindo-se aos anos 1970, quando foi preso político em Ilha Grande, Fernando Palha Freire diz que “a gente passou a gente fazer a nossa comida, quer dizer, não fazer, melhorar. Tinha um rancho lá, onde a gente fazia o arroz, fazia o feijão, coava, refogava, fazia melhorar, uma comida melhor pra gente”75

. Sobre o momento atual, a mãe de uma jovem presa conta que tem que levar “três vasilhas de comida, a gente almoça [durante a visitação], o que sobra, elas guarda pra comer, porque quando chega, chega estragada a comida, não é decente. A maioria das vezes tá estragada”. Essa senhora lamenta, ainda, que “a visita tem que levar pelo menos 80 reais” a cada dia em que vai ver a filha (in MOURA, 2012: 23).

Uma das mães entrevistada na mesma pesquisa confirma que a família tem que levar todo o material necessário não só à manutenção da presa, mas também ao funcionamento do

74

Consiste em diversas formas de refazer a alimentação, adicionando-se algum tempero, como um pedaço de cebola, alho, um ovo, ou outro. Muitas vezes a comida tem que ser descartada, por não estar em condições de ser ingerida, e os presos comem biscoitos ou outro alimento não perecível que a família tenha levado. O ex-preso

político Joaquim Aurélio Oliveira disse: “limpávamos a comida, porque nós não comíamos aquilo diretamente”.

Entrevista à pesquisadora Catia Faria em 6/01/2003. 75 Entrevista à pesquisadora Catia Faria em 11/04/2003.

presídio: “as presas é que mantêm o presídio” (idem, ibidem). Além disso, devem se associar aos programas propostos pela administração do sistema penitenciário, com o intuito de que a família também mantenha as condições físicas do local, tendo que comprar “coisa do nosso dinheiro pra pintar e arrumar a cela dela pro Governo ver que o presídio tava bonito e bem cuidado. Mas eu não tive dinheiro pra mandar. Era pra ganhar ventilador e ar condicionado”76 (idem, ibidem).

Em vários estabelecimentos, na falta absoluta da família, o preso passa por sérios problemas para se manter. Falaremos no Capítulo 8 de alguns estabelecimentos em que presos montaram cooperativas para dividir o que as famílias levavam. Era chamado de cooperativa e o sistema consistia em juntar gêneros e material de limpeza e de higiene, de forma a que os presos que não recebiam visita e não tinham como se manter, chamados de “caídos”, pudessem receber algum alimento complementar, um pedaço de sabão, um pouco de pasta de dentes, como exemplos. Os presos políticos também usavam esse expediente, praticado há várias décadas, e parece ter sido abandonado, recentemente.

Por outro lado, mais uma vez se colocando no papel de provedoras, o que cabe ao Estado, algumas facções podem colaborar e suprir os “caídos”, que passarão a serem

devedores do grupo. Dessa forma, os grupos vão se legitimando frente aos presos, que, por

sua vez, desprezam mais a administração prisional, com a qual não podem mesmo contar. A expressão de uma das entrevistadas da pesquisa de Fernanda Moura é muito significativa: “dizem que o Governo do Estado gasta para cada preso 2 mil reais (mensais), mas se eles vestem, comem ... tudo que eles têm, nós é que levamos, cadê esse dinheiro?! A gente leva numa custódia (no estabelecimento) a casa inteira!77 (in MOURA, 2012: 25)”. Em 2012 uma familiar dizia que a “média de gasto é de R$150,00 por visita ao preso” (idem, 34), no que estão incluídas passagens de ônibus e outras despesas que se tornam necessárias. O valor gasto por cada família varia segundo suas possibilidades, as demandas do preso, e outras razões.

É possível lançar uma hipótese sobre a economia feita pelo Estado por não manter devidamente os estabelecimentos do país, repassando sua obrigação à família dos presos, ou mesmo, às facções criminosas que exploram o tráfico de drogas dentro e fora das

76 Trata-se de um concurso. Na página da Secretaria de Administração Penitenciária do Estado do Rio de Janeiro há informações sobre o 4° concurso Cela Brilhante de Natal , em (http://www.rj.gov.br/web/seap)

77A familiar, aqui, está dizendo que levam a cada estabelecimento “a casa inteira”, tudo o que o preso precisa para viver e se manter no estabelecimento.

penitenciárias. A redução dos custos essenciais diminui a pressão sobre o Estado, que, juntamente com o Judiciário, não mantém uma política criminal de detenção mínima, e acumula um número muito preocupante de detidos em suas instalações provisórias. Se tivesse que prover as necessidades de mais de quinhentos e cinquenta mil presos78, como previsto em lei, talvez tivesse que se preocupar mais com o número de detenções, muitas delas desnecessárias, ou excessivas, ou, mesmo, ilegais79.

Outra área que deveria ser tratada adequadamente é a das atividades de trabalho na prisão. O número de presos trabalhando é indicado pela direção de cada estabelecimento em relatórios que devem mostrar que o maior número de internos está sendo ocupado com trabalho. Mas a administração costuma incluir em seus dados as atividades dos faxinas, que executam trabalhos de mera manutenção do estabelecimento, como varrer, limpar, cozinhar. Não são trabalhos remunerados e também não são profissionalizantes, ou seja, não servirão à manutenção do preso ao final da pena. Embora sabendo que a possibilidade de recuperação que o preso tem é muito remota, o sistema prisional brasileiro deveria se preocupar em prover trabalho efetivo, que gerasse experiência profissional ao egresso da prisão. E isso traria recursos a serem compartilhados com a família, e, mesmo, com a administração dos estabelecimentos, como já ocorreu no Rio de Janeiro, conforme exporemos no Capítulo 5: “o oposto do que existe”, afirmou uma entrevistada (in MOURA, 2012: 24).