Nos percalços da travessia na escola, verifiquei também por outros modos, conforme propus como empiria desta pesquisa, que ali não se dava visibilidade ao debate sobre as relações de gênero. Comprovei isso ainda pelos depoimentos de educadores/as, que, em vários momentos, nos diálogos que tivemos, ressaltaram perceber a ausência do tema, mesmo reconhecido por alguns a sua relevância para a construção da cidadania plena. Houve registros orais disso, por parte de profissional da biblioteca e de demais educadores/as, os quais irei descrevê-los ao longo deste capítulo, por considerá-los relevantes para a análise. Um desses registros se deu no relato proferido pela professora Denise, que, entre as tarefas de emprestar e guardar livros, aquela profissional relatou-me que guarda assiduamente, além de livros, histórias de vida, de alunos/alunas, desabafando sobre conflitos.
Denise, que está na TRAVESSIA há seis anos, atesta que há naquela unidade escolar muitos problemas ligados à questão da sexualidade, da identidade, da violência de gênero e doméstica. Ouvi atentamente a ênfase que deu na violência doméstica trazida de casa por meninos e meninas, que, para esta profissional, provoca-lhes ansiedade e revolta. Daquela informante, extrai que acirrados conflitos de natureza de gênero, vividos por aquele grupo de crianças e adolescentes, são como que despejados ali. Assim compreendi ser quando lhe indaguei acerca de ações para o enfrentamento desses conflitos, e, afora os atendimentos pelos especialistas, o que é típico e corriqueiro, ela me respondeu que não se faz mais nada naquele espaço. Esse nada esteve como resposta referente à indagação que lhe fiz pontuando se o projeto de leitura não trabalhava, especificamente em forma de debates, com textos que evocassem reflexões, socialização, envolvimento com as famílias e enfrentamento dessas questões.
A cada momento no chão da escola, não me passava incólume a presença tão avassaladora de conflitos envolvendo violência de gênero, reveladas pelas práticas discursivas de outros/as informantes desta pesquisa. Em uma de minhas visitas à escola, todavia, em 4 de outubro/2013, registrei um relato que me fez refletir com mais ênfase sobre as relações de poder, como práticas integrantes do cotidiano, em grande extensão. Esta reflexão se deu
quando dialoguei com Rosa, professora de Inglês há vinte anos. Solícita em me atender, a educadora revelou por diversas vezes o desejo de desabafar, mas expressando sinceridade, mesmo que me chocasse. E falou enfaticamente, a partir de um status conservador, que rejeita os estudos e as bandeiras dos DH, as ideias sobre sexualidade e gênero defendidas por “educadores/as modernos”, por achar que o mundo bom, em seu dizer, “é aquele onde existem regras, moral, repressão. E que isto parece querer acabar”.
Para Rosa, as tecnologias enunciativas, que propõem uma nova ordem de reflexão e comportamento, é uma desordem, um mal. Não exatamente com essas palavras, mas trazendo este sentido, respondeu-me a docente quando lhe indaguei acerca da inserção do debate dobre gênero, respaldada nas questões trazidas pela legislação educacional. Seu olhar aposta na repressão, no silêncio, em especial, às garotas que estão muito soltas, a seu ver. Esta informante, sem o menor embaraço, relatou-me que a escola vivia momentos difíceis, com uma explosão da sexualidade da sua juventude, e que isso era efeito da falta “de freio”. Para sustentar suas ideias, relatou-me um fato: haviam recentemente passado por uma experiência dificílima, com a depressão de uma jovem que se autoflagelou (cortando o corpo em várias partes), depois de ter tido sua imagem exposta publicamente em rede social, quando fez sexo com vários garotos e permitiu que eles filmassem o ato. O comportamento da aluna, opinou a educadora, foi muito vulgar, rendeu-lhe depressão, chacota, desonra, preocupações para a família.
Da discursividade de Rosa emanava rigidez de comportamento, repressão, inclusive fazendo a defesa do controle dos corpos pela instituição. Sem nenhum ressentimento de estar errada, nem extemporânea, esta docente assumiu que se preocupava veementemente com as roupas, as danças, os comportamentos das meninas, que, a seu ver, eram consideradas como “assanhadinhas, perdidas”. Sua vigilância, acreditava esta informante, era o melhor para a escola. E, de forma diferenciada, dirigia o controle a meninos e meninas: para elas, os cuidados eram focados na sexualidade; com relação aos garotos, a vida social deles, como um todo, tinha sua apreensão. Aos meninos, preocupações de natureza diferente eram por ela dispensadas: cuidados com as drogas, o aprendizado, a violência, a marginalidade. Às questões ligadas à sexualidade e ao corpo dos garotos, havia um silêncio, um não dito permissivo da parte dela, como se só a eles lhes coubesse o direito de viver seus desejos sexuais.
Ao ouvir a apropriação do discurso da construção das desigualdades de gênero naquela voz educadora, veio-me, pela memória discursiva, à lembrança o discriminador dito popular “segure sua cabrita que meu bode está solto”. O ditado, que trata assimetricamente
homens e mulheres, veio-me [meu bode está solto], pelo silêncio permissivo da educadora, à ordem machista quanto ao que podem os meninos: são livres. E veio-me [segure sua cabrita], pela fala dela quanto à ordem repressiva do que não podem as meninas: precisam de cabrestos. Tão iníquo, esse dito poderia ser pronunciado por aquela voz educadora para sintetizar seu olhar insensível às questões trazidas pelos campos dos estudos de gênero. Um olhar de uma educadora turvado de preconceito machista, em meio a toda uma problematização que o coletivo de mulheres tenta construir sobre igualdade de direitos, é um olhar que destoa com práticas de liberdade e aduz com a indagação de Foucault no tocante à regulação dos comportamentos, entre outras instituições, pela escola:
O que é afinal um sistema de ensino senão uma ritualização da palavra, senão uma qualificação e uma fixação de papéis para os sujeitos que falam; senão a constituição de um grupo doutrinário ao menos difuso, senão uma distribuição e uma apropriação do discurso com seus poderes e seus saberes [...]? (FOUCAULT, 2011, p. 44-45).
Na consonância com o que diz Foucault (2011), os depoimentos de Rosa podem ser vistos como os que se apropriam de um discurso que se arvora no papel de controlar sujeitos, pautados no poder institucional escolar. E mesmo quando este poder passa a ser enxertado por outra ordem discursiva, que abala pilares conservadores, a educadora é refratária à nova ordem e defende o controle da doutrina, da coerção de comportamentos, tachando as alunas que se lançam nas descobertas da sexualidade como vulgares. Isso fez com que ela fosse redutora no olhar que dirigiu à menina de sua história: vítima do machismo de um grupo de colegas, ainda é a condenada pela autoridade escolar. Indaguei-lhe o que fizeram com os meninos que expuseram a garota. Sua resposta anunciou um conservadorismo atravessado por gênero:
- Foram chamados na direção, advertidos. Mas são homens!
Homens que usam mulheres, humilham-nas, expõem-nas. A ressalva pontuada pela materialidade linguística da conjunção adversativa mas, no enunciado de Rosa, reforça seu olhar segregacionista, machista, seu status de sujeito que anuncia de um lugar conservador. “Mas são homens” é o enunciado campo para o não dito brotar: nada lhes pega mal na instância da sexualidade, assim subjaz um discurso assimétrico de gênero naquela voz. Na concepção daquela educadora, ser homem é um atributo para a libertinagem, além do direito à liberdade.
Percebi ali que, passando ao largo de um debate que contemple problematizar preconceitos machistas, assimetrias de gêneros, alguns profissionais, além de Rosa, lidam de forma tensa e iníqua, com o despertar da sexualidade desses/as jovens, especialmente na representação dos papéis do masculino e do feminino. Vale, todavia, fazer o registro de que os/as colaboradores/as, observados/as e entrevistados/as, não podem ser vistos como vilões/vilãs, nem portadores/as de verdades ou falsidades, mas como sujeitos que se engrenam em poderes e saberes, culturas, comportamentos disciplinados, historicamente dados, por isso, passíveis de movências, de transformações.