• Sonuç bulunamadı

ÖYKÜLERİN İZLEKSEL TAHLİLİ

2. Öykülerin İzleksel Tahlil

2.1. Özgürlük ve Seçim

2.3.1. Toplumsal Yozlaşma

2.3.2.1. Maddeye Yenilen Sevgi/ Aşk

Como era realizada a repressão aos agentes do campo da educação superior? Ou seja, quais métodos repressivos foram empregados ao longo do período em análise? Responder a essas questões é o objetivo desta seção. A relação de medidas repressivas apresentada a seguir não é exaustiva. A intenção foi caracterizar as principais formas de repressão aplicadas no controle de estudantes, professores e funcionários durante aquele regime. Entretanto, é certo que outras medidas também foram utilizadas.

Em algumas situações, essas outras medidas assumiram formas muito peculiares, como no caso da profª Maria Luiza de Carvalho Armando. Tendo assinado uma carta-protesto contra o expurgo de seus colegas da UFRGS em 1969, não foi por esse motivo expurgada, como o foram todos os outros seis que apoiaram o manifesto enviado ao reitor Eduardo Faraco e não se retrataram diante do Chefe de Gabinete de Tarso Dutra, Favorino Mercio, que foi pessoalmente à UFRGS para tratar do caso. Maria Luiza, que inclusive era próxima dos atingidos, passou a reivindicar seu expurgo junto à Reitoria, ao MEC e ao III Exército, surpreendentemente não sendo atendida. Acabaria sendo expurgada no final daquele ano, mas através de um expurgo interno, medida que mascarava o caráter repressivo da ação sob alegações de cunho administrativo (no caso, a perda intencional do prazo para renovação de seu contrato de trabalho).358

Havia também as diversas formas de repressão realizadas durante protestos, como o chamado “Massacre da Praia Vermelha”, ocorrido em 23/set/1966. Na ocasião, como se sabe, policiais que reprimiam uma passeata perseguiram estudantes e outros manifestantes que se abrigaram no antigo prédio da Faculdade Nacional de Medicina. Os agentes repressivos não hesitaram em invadi-lo e em agredir mais de 600 pessoas que ali se refugiavam. Muitos eram

357 BR-AN-BSB-AA1, pasta ADA-035. 358

2. REPRESSÃO

estudantes universitários, como Sylvia Vargas, à época aluna do 4º ano de Medicina.359

Nesses casos, como nas invasões de domicílio, havia uma função de amedrontamento, via de regra inscrita em ações de controle mais complexas, envolvendo outras medidas repressivas, como prisões e execuções. Fosse nos casos mais vultosos, como as invasões da UnB e do CRUSP, fosse nas invasões de casas de perseguidos políticos (como ocorreu com Merlino, preso na residência de sua mãe), a função de amedrontamento do perseguido e de seu entorno social estava sempre presente, ainda que como parte de um processo que visava primordialmente a captura de determinados agentes do campo da educação superior perseguidos pelo regime.

O exemplo da invasão do CRUSP ilustra bem esse vínculo entre diferentes medidas repressivas. A invasão daquele espaço universitário havia ocorrido na manhã de 17/dez/1968. Um dia depois, era instaurado um IPM, encarregado de “apurar as atividades políticas subversivas no Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo”, através da Portaria nº 15-SJ, baixada pelo então Comandante do II Exército, gen. Manuel Rodrigues de Carvalho Lisboa. Na época, cerca de 1400 estudantes moravam no CRUSP. A solicitação para o envio de tropas teria partido do secretário de Segurança Pública de SP, Hely Lopes Meirelles (ex- professor universitário e, como referido, um dos fundadores da OBAN360), e do reitor da USP,

Alfredo Buzaid.361

Em fins de 1969, o gen. José Canavarro Pereira – que havia assumido o comando do II Exército entre abril e maio de 1969 e também ajudara a fundar a OBAN362 – encaminharia um

relatório à Justiça Militar, indiciando vários estudantes na LSN, afirmando que eles haviam transformado o CRUSP “em permanente foco perigoso de subversão e agitação”, com uso de “farta propaganda subversiva” e “aliciamento e convocação de reuniões, assembleias, onde

359

ALVES, Geralda; BONISOLO, Isabella. UFRJ homenageia estudantes que resistiram à Ditadura Militar.

UFRJ On line, 25/set/2006. Disponível em: <http://www.ufrj.br/detalha_noticia.php?codnoticia=2762>.

Acesso em: 06/out/2006.

360 Hely Lopes Meirelles, advogado, professor universitário em São Carlos aposentado em 1967 e magistrado,

foi Secretário de Segurança Pública do Estado de SP de 10/abr/1968 a 29/ago/1969. Também assumiu as pastas da Justiça, do Interior e da Educação no Estado de SP em outras ocasiões. FON, Antonio Carlos.

Tortura... op. cit. p. 23-26; JOFFILY, Mariana. No centro da engrenagem... (tese). op. cit. p. 33; GOVERNO

DO ESTADO DE SÃO PAULO. Secretaria de Segurança Pública. Secretários. Disponível em: <http://www.ssp.sp.gov.br/institucional/historico/secretarios.aspx>. Acesso em: 23/mai/2013; MEIRELLES, Hely Lopes et al. Mandado de segurança e ações constitucionais. São Paulo: Malheiros, 2013.

361

FON, Antonio Carlos. Tortura... op. cit. p. 18.

362 JOFFILY, Mariana. No centro da engrenagem... (tese). op. cit. p. 30; FON, Antonio Carlos. Tortura... op.

2. REPRESSÃO

líderes notoriamente agitadores e esquerdistas pregavam a derrubada do governo e suas instituições pela luta armada”. Os “subversivos” teriam promovido ainda, a partir do CRUSP, ação de “aliciamento e mobilização da massa estudantil para a realização de passeatas e comícios (...) incitando o povo à desordem”. Também teriam realizado, segundo o relatório, “congressos e reuniões de entidades espúrias” e criado “focos de tensão e pregação de política que visava subverter a ordem ou a estrutura político-social vigente no Brasil”. Por fim, o relatório ainda acusava os estudantes por uma suposta “preparação militar clandestina de grupos, pela instrução de confecção e emprego de explosivos, preparação essa habilmente dissimulada”. Tal atividade teria por objetivo “a guerra de guerrilhas urbanas, em luta contra as organizações militares e atividades terroristas” e a “criação de um clima emocional e intranquilidade nos meios universitários, pela pressão e greves políticas”. Por fim, e de modo especialmente representativo das concepções que pautavam muitos agentes daquele sistema de controle, o CRUSP seria, na avaliação dos que haviam elaborado o relatório, um “ghetto” onde havia sido “destruído totalmente qualquer resquício de princípio de autoridade”.363 Na

visão deles, a necessidade de repressão a tais “subversivos” era evidente.

2.4.1 – Expurgo

“Expurgo” é o termo com o qual coloquialmente eram denominados os afastamentos sumários de cargos ou funções por motivos políticos ou ideológicos, resultando em danos de diversos tipos (econômicos, profissionais, políticos, psicológicos etc.).

Durante a ditadura militar, foram utilizados três tipos de expurgo: externo, quando a decisão para a aplicação da medida repressiva provinha de órgão ou agente externo à IES da qual o atingido estava sendo afastado; interno, quando a decisão provinha de setores ou membros da própria instituição; e indireto, quando, em função de ameaças, constrangimentos, temores etc. o próprio indivíduo tomava a decisão de afastar-se da instituição, sendo situação diversa da de abandono de cargo por decorrer de graves motivações independentes da vontade do atingido.364

363

MINISTÉRIO DO EXÉRCITO. II Exército. Quartel General. IPM CRUSP – Relatório... op. cit.

364 Tipologia das modalidades de expurgo proposta originalmente em: MANSAN, Jaime Valim. Os expurgos na

2. REPRESSÃO

O expurgo, em qualquer dessas três modalidades, gerava importantes danos econômicos e profissionais ao atingido. Havia exceções, mas, em muitos casos, o trabalho na universidade era o principal meio de subsistência do expurgado. Junto a isso, a aplicação daquele medida repressiva dificultava o ingresso em um novo emprego, porque também dava origem a um duplo estigma: por um lado, tornava o expurgado um alvo preferencial da estrutura de vigilância (em função da suposta probabilidade de reincidência do “subversivo”); por outro, fazia do expurgado um indesejável para muitas pessoas (incluídos aí empresários e responsáveis pela seleção e admissão de novos funcionários), temerosas de serem associadas ao expurgado e de sofrerem algum tipo de dano ou de perda de vantagens em função disso. Em tempos de exceção e arbítrio, quando simples denúncias ou desconfianças serviam como prova para ações repressivas, esse tipo de raciocínio era determinante para muitas pessoas.

Professores, estudantes e servidores técnico-administrativos das mais diversas IES foram atingidos por tal medida repressiva, assim como docentes que ocupavam cargos de reitor ou diretor. Houve ainda casos de pesquisadores que acabaram sofrendo essa forma de repressão.365

2.4.2 – Cassação de direitos políticos

A cassação de direitos políticos, que tinha uma vigência de dez anos, implicava, de modo análogo ao expurgo, não apenas em danos econômicos e profissionais aos atingidos, mas também em uma certa estigmatização, posto que muitas vezes vinha acompanhada de ampla divulgação na imprensa.

São exemplos os casos dos professores Antônio de Pádua Ferreira da Silva, Armando Temperani Pereira, Cibilis da Rocha Viana, Antônio Ajadil de Lemos e Brasil Rodrigues Barbosa, que tiveram cassados seus direitos políticos após o golpe e, em função disso, também foram expurgados da UFRGS.366

365 Cf.: MOTTA, Rodrigo P. S. As universidades e o regime militar... op. cit. cap. 1 e 4. A título de exemplo, cf.:

PB nº 47-E2/68, de 30/abr/1968, do E2/5ª RM/III EX ao DOPS/PR, secreto (reclassificado para

confidencial). APPR/DOPS, pasta 1551a.187.

366

2. REPRESSÃO

2.4.3 – Estigmatização

Como referido, essa medida repressiva funcionava por meio da imputação de determinados estigmas a alguns indivíduos, caracterizados como “subversivos”, “expurgados”, “cassados”, “esquerdistas” etc. Isso ocorria de diversas maneiras.367

Uma das formas mais comuns era a divulgação, na imprensa, dos nomes dos atingidos. Em janeiro de 1971, por exemplo, o Correio do Povo noticiava reportagem intitulada “Expulsos da URGS estudantes acusados de atos subversivos”. Além dos quatro estudantes expurgados, também eram nomeados na matéria os outros dez alunos que haviam sido acusados e receberam penas mais leves, como suspensões e repreensões, e referido o DL-477 como base para a aplicação daquelas medidas repressivas.368

De modo análogo, o Correio Brasiliense listava, em 25/fev/1976, os nomes dos 48 estudantes da UnB que haviam sido repreendidos pelo reitor Amadeu Cury, por haverem entrado em greve. Em 1974, os alunos do sexto ano de Medicina daquela universidade haviam conseguido uma bolsa para que pudessem se sustentar durante aquela fase do curso, considerando que a carga horária inviabilizava que trabalhassem. No início de 1976, tal bolsa teria sido suspensa pela universidade, gerando a mobilização estudantil. Em função disso, o então reitor da UnB, Amadeu Cury, determinou ainda em 1976 a repreensão daqueles 48 alunos, dentre cerca de 200 que teriam participado do protesto, utilizando como justificativa uma norma interna (Ato da Reitoria nº 128/76). Interessante observar que mesmo penas relativamente brandas (como advertências e repreensões) poderiam ser potencializadas através de ampla divulgação, buscando o controle daqueles estudantes por meio do constrangimento público.

Em contrapartida, é de se observar que, na mesma edição do Correio Brasiliense, ao lado da publicação do Ato da Reitoria nº 145/76 (que divulgava o nome dos alunos repreendidos e os motivos da pena), era divulgado um comentário de Ari Cunha, em sua coluna “Visto Lido e Ouvido”. Cunha afirmava ser “fácil prever que os meninos não estão com subversão”, e que “o que eles querem é uma definição, o que desejam é respeito, como o

367

MANSAN, Jaime Valim. O estigma do cassado... op. cit.

368 EXPULSOS da URGS estudantes acusados de atos subversivos. Correio do Povo, 28/jan/1971, p. 28.

2. REPRESSÃO

querem também as demais pessoas envolvidas no assunto”.369 Em síntese, afirmava que as

reivindicações dos estudantes eram justas. É de se pensar que, independentemente de intenções ou interesses, tal modo de noticiar pudesse transformar o estigma em distinção, ao atribuir aos “meninos” uma atitude positiva e louvável, de defesa de legítimos interesses de seu grupo socioprofissional. Se o apoio da grande imprensa foi inegavelmente decisivo para a sustentação daquela ditadura, disso não se pode presumir que toda matéria jornalística atuasse nesse sentido. A realidade era, evidentemente, muito mais complexa.

No caso dos militantes da luta armada, uma das principais formas de estigmatização dos envolvidos era a divulgação de suas fotos na imprensa e em cartazes, nos quais afirmava- se que eram “procurados”. A eles era atribuída, desse modo, uma imagem de indivíduos da mais alta periculosidade. Esse tipo de ação, que evidentemente não era especificidade daquele regime, tinha um efeito muito forte em termos de controle, pois acentuava de modo significativo o isolamento social que a atuação na luta armada, por si só, já implicava.

Um exemplo é dado pelo caso de Hiroaki Torigoe. Natural de Lins, interior paulista, Hiroaki era estudante de uma instituição privada, a Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Com cerca de 23 anos, entrou na clandestinidade, entre 1969 e 1970. Estava no 4º ano do curso e militava na ALN. Segundo o relatório da SEDH, “sua foto estava estampada em milhares de cartazes distribuídos por todo o país com os dizeres ‘terroristas procurados’”, como participante “de inúmeras ações armadas em São Paulo”.370

2.4.4 – Prisão

Essa categoria refere-se exclusivamente aos casos em que não havia intenção, por parte dos agentes repressivos, de ocultar a captura e a eventual condição de preso do indivíduo assim punido. Diferencia-se, nesse sentido, do “sequestro”, que será analisado mais adiante.

Eram frequentes as detenções “para averiguações”. Adolar Koch, que nos anos 1970 era estudante de História na UFRGS, comenta que, na época, foi abordado por policiais em seu trabalho, na Fundação de Economia e Estatística (FEE):

369 BR-AN-BSB-AA1, pasta CMD-009. 370

2. REPRESSÃO

Eu era estagiário de História na FEE. Um dia desses, eu trabalhando na minha sala, entra um cara, bate na porta: “O senhor que é o Adolar Koch?” – “Sou eu.” – “Polícia Federal, queira nos acompanhar”. (…) Levaram-me pra Polícia Federal. (…) Bom, aí levei lá um chá de banco. O cara sentou de novo do meu lado, e pergunta e pergunta... (…) Já era meia-noite e, de repente, vem o chefe dele, me chama lá pra sala. Tinha um monte de fotos em cima da mesa. “Me diz quem é que tu conhece”. (…) Eu não ia dizer, entregar ninguém. – “Não, não conheço ninguém. Eu nem sei o que vocês querem comigo, tchê!”, aquela coisa assim.371

Da mesma forma, cinco estudantes da UFPE “foram detidos para averiguações” em 1977 pelo DOPS/PE. Diferentemente do caso de Adolar, os cinco permaneceriam no DOPS/PE por alguns dias. Por meio de pedido de busca, aquele órgão chegou a consultar a ASI da UFPE a respeito dos suspeitos que mantinha presos, indicando outro canal de comunicação daquele complexa rede colaborativa que funcionava entre os órgãos repressivos e de vigilância, reforçando a percepção de que, de fato, tratava-se de um sistema de controle social.372

Em outros casos, eram promovidas “prisões preventivas” de membros do campo que estavam sendo processados na Justiça Militar. Embora alguns tenham entrado na clandestinidade e aderido à luta armada por sonharem com uma revolução socialista, outros tantos foram compelidos a isso por não verem alternativas viáveis diante de um contexto ditatorial cada vez mais arbitrário e violento. A repressão, assim, “impeliu contingentes imensos de estudantes a abandonarem seus estudos, o próprio país ou a vida familiar normal para aderir à resistência clandestina ao Regime Militar”.373

Ainda havia prisões decorrentes de protestos, como no caso de alguns estudantes presos em Brasília poucos dias após a queda do Congresso de Ibiúna por protestarem contra a repressão aos colegas. Indignados com a prisão dos participantes do congresso, eles haviam penetrado em uma quermesse organizada por esposas de militares, e denunciaram no microfone a repressão contra os universitários promovida no interior paulista poucos dias antes.374

Outro exemplo é dado pela prisão de quatro estudantes na Praia Vermelha em

371

KOCH, Adolar. Sobre sua trajetória como estudante da UFRGS, durante a Ditadura [04/01/2006]. Entrevistador: Jaime Valim Mansan. Porto Alegre.

372 Informação nº 74/77... op. cit.

373 ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO. Brasil: Nunca Mais. 4. ed... op. cit. p. 136. 374

2. REPRESSÃO

27/nov/1981, por protestarem contra “o pacote eleitoral” e demandarem “eleições limpas em [19]82”, durante “comemoração da vitória sobre a Intentona Comunista” na qual “participavam o Presidente e o Vice-Presidente da República e outras autoridades”. Os estudantes universitários detidos na ocasião eram: Beni Rosensvaig (aluno do curso de História, na UFF); Carlos Eduardo de Brito Raposo (Desenho Industrial, UERJ); Henrique Garcia Sobreira (Engenharia Química, UFRJ) e Luiz Cláudio Cereto Carcerelli (Medicina, UFRJ).375

Em relação aos locais utilizados para detenção, além das delegacias, recorreu-se em grande medida a quartéis e também a penitenciárias, quando se tratava de prisão por tempo mais longo.376 Embarcações também foram utilizadas: Luiz Hildebrando, por exemplo, que

era professor da USP, foi mantido preso, logo após o golpe, em um navio ancorado em Santos, provavelmente o Raul Soares.377 Também houve docentes enviados a Fernando de

Noronha, como Francisco de Assis Lemos de Souza.378

Como observa Motta, “os registros disponíveis mostram que houve detenções por toda parte, mas dão destaque às figuras mais conhecidas ou pertencentes às instituições universitárias de maior porte”. Dentre os professores da educação superior presos em 1964, ele cita exemplos de São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Rio de Janeiro, Recife e Porto Alegre: Antônio Baltar, Armando Temperani Pereira, Celson Diniz, Edgar Graeff, Eustáquio Toledo, Florestan Fernandes, Francisco de Assis Lemos de Souza, Hélio Pontes, Henrique de Lima Vaz, Isaías Raw, Isnard Teixeira, Ítalo Campofiorito, José Albertino Rodrigues, José Leite Lopes, José Pertence, Luiz Costa Lima, Luiz Hildebrando Pereira, Marcos Rubinger, Mario Schenberg, Paulo Freire, Perseu Abramo, Plínio Sussekind, Simon Schwartzman, Sylvio de Vasconcellos, Thomas Maack e Warwick Kerr.379

O projeto Brasil: Nunca Mais oferece uma série de exemplos de prisões determinadas após processos judiciais contra membros do campo da educação superior acusados de

375 INFORME nº 21/H-82, s/d, confidencial, A-2, sobre “atuação de ativistas do ME”, do I Exército para CIE;

ARJ/SNI; DGIE/RJ; III COMAR; 1º DN e Arquivo. APERJ, pasta 76, docs. 75-78.

376 Cf., dentre outros: FREIRE, Alípio; ALMADA, Izaías; PONCE, J. A. de Granville (orgs.). Tiradentes, um

presídio da ditadura: memórias de presos políticos. São Paulo: Scipione, 1997.

377 DEL ROIO, José Luiz. Entrevista: Sobre a Comissão Nacional da Verdade e outras comissões da verdade e

memória. Margem Esquerda, n. 19. São Paulo: Boitempo, 2012. p. 6.

378 MOTTA, Rodrigo P. S. As universidades e o regime militar... op. cit. p. 29. 379

2. REPRESSÃO

“subversão”. O professor de História Alberto Goulart Paes Filho, por exemplo, foi processado em Salvador em função de suas aulas na UFBA e de palestras nas quais supostamente promovia “doutrinação comunista”. O IPM foi iniciado em junho de 1969 no QG da 6ª RM. Em fevereiro de 1970 houve a denúncia e, em abril de 1972, o professor foi condenado a um ano e quatro meses de prisão. Note-se que Alberto era tenente-coronel reformado, e já havia sido expurgado do Colégio Militar de Salvador, logo após o golpe de 1964.380

No final dos anos 1960, Humberto Rocha Cunha, aluno da Escola de Agronomia da Amazônia, elaborou com outros colegas um trabalho intitulado “Estudo da situação atual da mecanização da lavoura no Brasil”, para a disciplina “Trabalhos práticos de Agricultura”. Considerado uma “propaganda do socialismo”, o trabalho, que seria apresentado para a turma por Humberto, foi censurado pelos professores da disciplina. Isso levou o aluno a elaborar e distribuir uma carta aberta, na qual dirigia-se àqueles professores. Em novembro de 1969, foi instaurado inquérito na Polícia Federal, em Belém, que chegou a convocar para depoimento os alunos que integravam o grupo. Concomitantemente, Humberto sofreu processo sumário na faculdade, com base no DL-477, sendo ao final expurgado. Em fevereiro de 1970, foi apresentada a denúncia e, em agosto daquele ano, Humberto foi condenado, com base na Lei de Segurança Nacional, a um ano de reclusão.381

Como último exemplo, observe-se o emblemático caso de Caio Prado Júnior e de dois estudantes universitários, Antônio de Pádua Prado Júnior e Antonio Mendes de Almeida Júnior, alunos da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Caio Prado Júnior teria concedido aos dois uma entrevista que foi por eles publicada na revista Revisão, do diretório acadêmico daquela faculdade. Por esse motivo, os três foram acusados de “incitamento à