ÖYKÜLERİN İZLEKSEL TAHLİLİ
2. Öykülerin İzleksel Tahlil
2.1. Özgürlük ve Seçim
2.3.1. Toplumsal Yozlaşma
2.3.1.3. Kültürel ve Ahlaki Yozlaşma
2.3.1.3.1. Kültürel Yozlaşma
O primeiro aspecto evidenciado pelo trato com a documentação é a complexidade da estrutura repressiva, à semelhança do setor de vigilância daquele sistema. Ao que parece, isso foi em parte decorrente das diferentes características e origens dos órgãos que participaram de tais atividades de controle, bem como da influência da DSN na configuração daquele sistema.
Entre 1964 e 1968, grosso modo, o sistema de controle social foi sendo organizado e complexificou-se, até atingir sua forma típica, marcante do período 1969-1979. A DSN, conforme sintetizada na versão de 1975 do Manual Básico da ESG, permite a compreensão dos principais aspectos dessa questão.319 O que aqui está sendo chamado de repressão, note-
se, equivale ao que, na doutrina, era definido como “ação-resposta ao processo subversivo”.
319
2. REPRESSÃO
2.3.1 – A “ação-resposta ao processo subversivo”
Tais noções eram definidas em detalhes no capítulo sobre segurança nacional, mais especificamente na seção destinada à chamada “segurança interna”. “Integrada na segurança nacional”, a segurança interna tratava dos “antagonismos ou pressões, de qualquer origem, forma ou natureza, que se manifestem ou produzam efeitos no âmbito interno do país”.320 A
ênfase nas “medidas preventivas” era grande, posto que produziam menos impacto simbólico negativo para o regime, favorecendo-o em termos de controle a médio e longo prazo:
A segurança interna deve ter um sentido característico de prevenção antes que de
punição. Assim, ela procura pôr em execução um elenco de medidas preventivas,
destinadas a neutralizar as causas que possam favorecer os antagonismos cuja ação
ameaça a conquista e salvaguarda dos Objetivos Nacionais. (…) O Estado tem
como missão inalienável a de superar, neutralizar, reduzir ou diferir os efeitos
internos dos antagonismos e pressões. Para isto, necessita ele aplicar um adequado mecanismo repressivo que possa, prontamente, desencadear a Ação-Resposta para garantir as instituições e manter o primado da lei e da ordem, o que se faz através
da Defesa Interna.321
Um aspecto importante daquela seção era a crítica à ideia de “subversivo” como “adversário” (ou seja, como opositor político, o que implicaria em reconhecer sua legitimidade), defendendo-se a acepção de “subversivo” como “inimigo interno”:
Tendo em conta os interesses maiores da Segurança Nacional, a Diplomacia Brasileira fixou o princípio de não reconhecer, dentro do País, a condição de beligerantes aos nacionais subversivos. Assim, as divergências internas ocorreriam entre adversários e não entre inimigos. (…) Todavia, é importante alertar que o problema da Segurança Nacional não está apenas relacionado ao conceito da agressão externa (…) deve haver um entendimento mais amplo e completo das possíveis origens da agressão. (...) No afã de exportar a Revolução, o mundo comunista procurou adotar, predominantemente, a chamada Estratégia de Ação Indireta (…) [correspondente à] chamada ‘Guerra por Procuração’ (…) [ou ao] insuflamento das pressões internas que geram a luta armada de conotação ideológica.322
Definido o “subversivo” como “inimigo interno”, o “processo subversivo”, “praticado por grupo minoritário”, procuraria, segundo a doutrina, “conturbar a vida nacional através de atos de terrorismo, assaltos, sequestros e uma série crescente de tentativas de perturbação da
320 EMFA/ESG/DE. MB-75... op. cit. p. 246. 321 Ibid. p. 255.
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ordem” que pudessem “conduzir à eclosão da Luta Interna”. Tais atos seriam promovidos por “minorias subversivas”, as quais teriam como principais características serem “tenazmente atuantes, fanáticas e intelectualizadas”. A ação subversiva poderia, segundo a doutrina, ser implementada de três modos: pela “manutenção do grupo partidário dirigente”; pelo “proselitismo”, inclusive através de “intimidação”; e pelas “operações”, realizadas “na cidade ou campo” por “indivíduos ou grupos” com o objetivo de “contestar, se possível desmoralizar e até mesmo derrubar a autoridade legal”.323 Essa ideia de que a “subversão” seria
responsabilidade de “minorias” era recorrente nos mais diversos meios, como veremos ao longo dos próximos capítulos.
A “subversão” era uma criação do sistema de controle social, tanto de seus mecanismos de vigilância e repressão quanto da propaganda e da ação dos intelectuais pró- regime. Apesar disso, e por motivos evidentes, a repressão era apresentada como decorrente da “subversão”, como “defesa” do “Bem Comum” e de uma ordem social “naturalmente” constituída:
Existem, sempre, os ‘inconformismos’. As normas são violadas, praticam-se atos que não correspondem ao padrão, ocorrem atos ilícitos, praticam-se crimes. Daí a necessidade de se estabelecer a coerção social, os padrões inerentes ao ‘dever ser’ se tornam obrigatórios, são impostos pela autoridade. (…) O estabelecimento coercitivo da ordem do ‘dever ser’ se subordina a dois parâmetros. Um, corresponde aos ‘anseios’, ‘aspirações’ e ‘ideais’ vigentes no meio ambiente; o outro é relativo aos ditames do Bem Comum.324
A importância da legislação repressiva no “combate à subversão” era enfatizada pela doutrina, com ênfase para a Lei de Segurança Nacional. Esta, segundo o manual, “arma o Estado de meios legais para se opor a todas as manifestações e suas ameaças que visem à conquista subversiva do Poder”.325 Evidentemente, a legitimidade de tal legislação era
presumida; contudo, como já foi possível assinalar, tratava-se, isto sim, de criar uma aparência de legitimidade para um regime ilegítimo (e, consequentemente, para o conjunto de leis por ele imposto para sua própria sustentação).
A divisão de atribuições dos segmentos militares e policiais da estrutura repressiva também era claramente definida na doutrina:
323 EMFA/ESG/DE. MB-75... op. cit. p. 247. 324 Ibid. p. 120.
325
2. REPRESSÃO
A Segurança Interna tem em vista a garantia, no âmbito interno, da consecução e manutenção dos Objetivos Nacionais, sendo conduzida em termos de aplicação global do Poder Nacional. Todas as ações que daí decorrem garantem, portanto, a própria sobrevivência do Estado e preservam os valores transcendentes da Nação,
exigindo uma ação-resposta ao processo subversivo que atente contra o Estado e
negue aqueles valores. [As ações policiais] só excepcionalmente deverão ser tarefa
das Forças Armadas, como as de manutenção da ordem pública, que são
constitucionalmente da esfera policial. Das Forças Armadas esperar-se-á, porém, e
sempre, o atento acompanhamento ao processo subversivo, o adequado adestramento consequente e, sobretudo, o planejamento que assegure a aplicação
integral e integrada de todos os meios, com vistas a garantir a ordem constitucional, institucionalizada, a ORDEM INTERNA.326
Caracterizado o “processo subversivo” e a divisão de tarefas entre os órgãos repressivos militares e policiais, passava-se à definição das formas de combater a subversão, por meio da chamada “ação-resposta”:
Diante do processo subversivo, compreende-se a importância de que a AÇÃO- RESPOSTA, de responsabilidade do Estado, se escude num quadro de defesa global visando a evitar, impedir e eliminar as ações subversivas, com vistas a garantir a Segurança Interna:
- o evitar significa uma ação para que não se crie e amplie no País o clima propício ao desenvolvimento do processo subversivo;
- o impedir significa uma ação para que não se forme ou atue no País o grupo subversivo;
- o eliminar significa uma ação para destruir o mecanismo e neutralizar os
dirigentes do processo subversivo em andamento;
- o garantir, finalmente, compreende toda a sorte de medidas, visando a aumentar o grau de Segurança Interna, indispensável à preservação e consecução dos Objetivos Nacionais.327
Com base nessa definição geral, haveria três tipos principais de “ação-resposta” contra o “processo subversivo”, na linha do que foi comentado inicialmente: as medidas “preventivas”, “repressivas” e “operativas”.
2.3.1.1 – “Medidas preventivas”
As medidas preventivas inscreviam-se “no quadro do Desenvolvimento Nacional, como ações correntes de governo” e teriam, segundo a doutrina, um “efeito psicológico favorável”, pois iriam “ao encontro das aspirações nacionais”, antecipando-se “ao efeito dos
326 EMFA/ESG/DE. MB-75... op. cit. p. 246-247. 327
2. REPRESSÃO
antagonismos e pressões, neutralizando as causas que costumam gerá-los”. Isso faria com que recebessem “mais facilmente o apoio da comunidade”. Em outras palavras, seria a forma de repressão com o menor custo em termos de impacto simbólico junto à sociedade. Por esse motivo, deveriam ser aplicadas “em caráter permanente e com o máximo de intensidade possível”: “é preferível e sumamente desejável que a Segurança Interna seja alcançada e preservada através do maior número de medidas preventivas”.328 Observe-se, portanto, que o
controle via formação de consensos favoráveis era considerado preferencial, porque mais eficaz para dominação que o controle via coerção, gerador de maior impacto simbólico negativo, aumentando assim as chances de perdas de apoios sociais. Apesar disso, também incluía a possibilidade de ações repressivas e de vigilância pontuais, a serem realizadas por órgãos policiais, com acompanhamento dos órgãos militares e direção da “Expressão Política” (ou seja, dos dirigentes vinculados aos primeiros escalões do Executivo):
São previstas medidas repressivas locais, de caráter policial, ainda sob o controle
da Expressão Política, como, por exemplo: dissolução de reuniões proibidas por ato legal [repressão]; controle das atividades de elementos suspeitos de agitação e subversão [vigilância]; destruição de focos de agitação [repressão]; controle
[vigilância] e eliminação [repressão] de atos de perturbação da ordem pública. A Expressão Militar deverá acompanhar as ações em curso e sempre que necessário apoiá-las, sem perder de vista o caráter policial das mesmas.329
Nessa etapa inicial da “guerra revolucionária”, para a doutrina, o “processo subversivo” ainda encontrar-se-ia em fase embrionária, motivo pelo qual os “agentes provocadores da perturbação da ordem” seriam “considerados criminosos, submetidos à lei e às sanções da justiça”, mas ainda sem caracterizá-los como “inimigos”. Além de evitar a ação repressiva, que geraria impactos simbólicos negativos, a atitude preventiva também criava, na visão da ESG, “melhores condições para utilização posterior do mecanismo repressivo”, nos casos em que não fosse possível conter o avanço do “processo subversivo” apenas com as medidas preventivas.330
2.3.1.2 – “Medidas repressivas”
328 EMFA/ESG/DE. MB-75... op. cit. p. 248. 329 Ibid. p. 249.
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2. REPRESSÃO
Nessas situações em que o “processo subversivo” avançasse a despeito da aplicação das “medidas preventivas”, deveriam ser utilizadas as “medidas repressivas”. Ainda que fossem, na visão da ESG, ações “pertinentes e necessárias”, essas medidas teriam, como dito antes, o inconveniente de produzir efeitos simbólicos negativos para o regime, provocando “quase sempre reações de revolta ou medo, predispondo a opinião pública contra o governo”.
As “medidas repressivas” (que, como visto, corresponderiam a uma das formas do que nesta tese é chamado de repressão) resultariam de um esforço conjunto entre os órgãos policiais e militares, sendo “classificadas como tipo polícia ou como tipo militar”. As de tipo policial, menos graves, seriam responsabilidade da “Expressão Política”. Evoluindo o “processo subversivo”, a participação da “Expressão Militar” cresceria de vulto, “até que[,] configurada a grave perturbação da ordem[,] caberá a ela, a Expressão Militar, a predominância das ações”.331 Esse quadro seria aquele em que, mesmo “estando delineado o
agente da subversão” e tendo sido aplicadas as referidas “medidas repressivas”, ainda assim continuasse “incontido o processo subversivo”. Então caberia “ao governo mudar a atitude para uma resposta mais enérgica, visando a preservar os Objetivos Nacionais ameaçados” e a “impedir” a formação ou atuação no país do “grupo político de ação subversiva”, que buscaria “ampliar o quadro anterior a tal ponto” que se configurasse no país uma “grave perturbação da ordem”. Nisso poderiam ser incluídas todas as “ações contestatórias que, a critério da autoridade”, pudessem “vir a comprometer a integridade nacional, o livre funcionamento dos poderes, a lei e a prática das instituições”. Nessa etapa, ainda tratada através das “medidas repressivas”, “os agentes provocadores da grave perturbação da ordem, além de criminosos”, poderiam “ser tratados como inimigos, em face do tipo de reação oposta às medidas de contenção adotadas”. Dentre as “medidas repressivas” a cargo da “Expressão Política”, o manual dava como exemplos: “intervenção federal em um ou mais estados da Federação; declaração e execução do estado de sítio, por tempo determinado, para parte ou totalidade do território nacional”; assim como “suspensão dos direitos políticos” e “medidas restritivas das liberdades de reunião, associação e opinião”. No caso das “medidas repressivas” a cargo da “Expressão Militar”, estariam, dentre outras: “controle e eliminação de agitações populares, depois de superada a capacidade da Expressão Política”; e “controle e destruição de focos de guerrilhas, abarcando operações de variável envergadura, com características de ações
331
2. REPRESSÃO
militares”.332
2.3.1.3 – “Medidas operativas”
Se nenhuma dessas “medidas repressivas” pudesse conter a evolução do “processo subversivo”, seria necessário, segundo a doutrina, a utilização das “medidas operativas”, que corresponderiam a “aplicações violentas da Expressão Militar do Poder Nacional, caracterizando a luta armada, mesmo sem se chegar a admitir a existência do estado de guerra”.333 Essa fase da “guerra revolucionária” era assim definida pela ESG:
Exacerbado o processo subversivo, apesar das medidas postas em execução,
chegando a atos de força, contendo com parcela da população subvertida e ajuda externa, passa-se à ação de ordem operativa, de nítica característica militar. (…) embora se trate de luta entre nacionais, tem-se a certeza de identificação do elemento a eliminar; isto far-se-á através da destruição do mecanismo da ação
subversiva e da neutralização de seus dirigentes. A situação a enfrentar é, portanto,
a de Luta Interna, que se inclui numa das últimas etapas da Guerra Revolucionária. Ela abrange todas as formas de conflito armado, no interior do país, de caráter regular ou não (…) Envolve ações de luta armada, no campo ou na cidade, como as guerrilhas, os golpes de mão e até o choque de forças regulares rebeldes. A ação de ordem operativa é, pois, um desdobramento de operações típicas de guerra sem que se faça necessária a definição do ‘status’ bélico-jurídico. A situação de fato é que impõe a plena aplicação violenta do Poder, ainda no quadro restrito da Segurança Interna, sem dar ao contendor a caracterização de beligerante para evitar a
aplicação dos princípios jurídicos internacionais.334
Uma síntese disso que a ESG propunha em relação ao controle via repressão:
332 EMFA/ESG/DE. MB-75... op.cit. p. 250. 333 Ibid. p. 248.
334
2. REPRESSÃO
Quadro 2 – Repressão (“ação-resposta”) ao “processo subversivo” segundo a ESG
Desenvolvimen- to do processo subversivo Atitudes Finalidade da ação Medidas Expressões participantes Direção Perturbação da
ordem Preventiva Evitar
Preventivas: em princípio, caracterizam o processo do desenvolvimento Atuam: sobre as causas Todas Expressão Política Grave perturbação da ordem Repressiva Impedir Repressivas: tipo policial e militar Atuam: sobre os efeitos e agentes Basicamente: Política e Militar Da Expressão Política até a Expressão Militar Luta interna Operativa Eliminar
Operativas:
caracterizam a luta armada
Prevalentemente:
Militar Militar
Fonte: EMFA/ESG/DE. MB-75... op.cit. p. 256.
Conforme mencionado no capítulo anterior, um esquema dessa rede repressiva, juntamente com a estrutura de vigilância, pode ser conferido no Apêndice A – Estruturas de vigilância e repressão.
2.3.2 – Polícias
Um dos principais segmentos da estrutura repressiva daquele sistema de controle era constituído por órgãos policiais como a Polícia Federal e as polícias militares e civis de cada estado, com destaque para os DOPS. Tais órgãos inscreviam-se no âmbito dos setores repressivos de “tipo policial” referidos pelo manual da ESG, conforme indicado anteriormente.
No cap. 1 já foram abordados alguns dos principais aspectos da história desses órgãos, que executavam tanto atividades de vigilância quanto de repressão: sua anterioridade ao golpe, remontando na maioria dos casos ao início do século 20; sua continuidade através de diferentes regimes políticos, que conferiu-lhes um ethos próprio335; sua organização interna
335
“Confundir Estado com polícia pode provocar equívocos, pois esta não é simplesmente um instrumento nas mãos dos governantes, mas uma instituição que acaba por desenvolver seus próprios procedimentos e prioridades, muitas vezes distantes dos regulamentos oficiais”. MAUCH, Cláudia. Ordem pública e
2. REPRESSÃO
em setores específicos para a realização de determinadas atividades; sua subordinação direta às secretarias de segurança pública de seus respectivos estados (no caso dos DOPS e demais órgãos das polícias civis) e ao Ministério da Justiça (no caso do DPF); e a ocupação da chefia das secretarias de segurança pública por oficiais militares já antes de 1964, de modo esporádico, e aumentando depois do golpe até tornar-se o padrão, após 1968. É importante assinalar também as mudanças realizadas a partir de 1967 nas Polícias Militares de cada estado, que deixam de ser subordinadas às SSP e passam à alçada da recém criada Inspetoria Geral das Polícias Militares, subordinada por sua vez ao Estado Maior do Exército, dedicando-se ao policiamento ostensivo com vistas à “manutenção da ordem pública e segurança interna nos estados e no distrito federal”.336
As estruturas de vigilância e de repressão atuavam em regime de colaboração, apesar das eventuais rivalidades já assinaladas. As prisões promovidas por órgãos regionais de polícia eram disseminadas pela rede de vigilância através de diversos canais de comunicação, com vistas ao máximo controle possível. Um exemplo é dado pela notícia de prisão de Kleber Paulino Rodrigues, estudante de Medicina da UFRJ. O universitário teria sido preso na madrugada de 24/jul/1980 em Natal/RN, enquanto pichava um muro na Av. Prudente de Morais. Uma semana depois, a agência do SNI no Rio de Janeiro já havia sido informada e repassava a informação para as segundas seções do I Exército e do III COMAR, para a superintendência da Polícia Federal no RJ e para o DGIE/RJ, por meio de telegrama.337
Os DOPS e a Polícia Federal envolviam-se em alguns casos em questões internas de IES, no âmbito de ações repressivas contra “atividades atentatórias à Segurança Nacional”. Em agosto de 1969, por exemplo, o Comissário de Polícia Walter Trindade Barroso, encarregado de um inquérito promovido conjuntamente pela Polícia Federal e pelo DOPS, que apurava questões relativas “aos movimentos estudantis”, como “ocorrências no Restaurante da UnB”, solicitava informações a Joselito Eduardo Sampaio, então ainda
moralidade: imprensa e policiamento urbano em Porto Alegre na década de 1890. Santa Cruz do Sul:
EDUNISC/ANPUH-RS, 2004. (ANPUH-RS; 1). p. 213.
336 ARAUJO, Rafael de Borba. A Brigada Militar e a Segurança Nacional: inimigo interno e guerra
revolucionária na Academia de Polícia Militar do Rio Grande do Sul – 1980/1985. 233 f. Dissertação – Mestrado em Relações Internacionais, Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, UFRGS. Porto Alegre, 2013. p. 51.
337
DGIE n. 12.799. Arquivo Público Estadual do Rio de Janeiro - APERJ. Pasta 73.2. Doc. 132. Como indicado, o DGIE foi criado em 1975, após a fusão dos estados do RJ e da GB, reunindo o DOPS-GB e o DOPS-RJ sob responsabilidade da SSP/RJ.
2. REPRESSÃO
membro da Assessoria Jurídica da Reitoria da UnB – posteriormente, seria indicado chefe da ASI/UnB.338
2.3.3 – Órgãos militares
Órgãos como o CIE, o CISA, o CENIMAR e as segundas seções inscreviam-se no âmbito dos setores repressivos referidos pelo manual da ESG como de “tipo militar”.
Assim como no caso dos DOPS e da Polícia Federal, o CENIMAR e as segundas seções, como dito no cap. 1, já existiam antes de 1964, aportando ao sistema de controle uma importante bagagem de experiência não apenas nas atividades de vigilância, como indicado no cap. 1, mas também em termos repressivos. Após o golpe, outros dois órgãos de vigilância e repressão foram criados à semelhança do CENIMAR: o CIE (1967) e o N-SISA/CISA (1968).
Para desenvolver suas ações de vigilância e repressão com mais desenvoltura, o CIE, junto a outros órgãos repressivos, montou locais clandestinos para detenção, tortura e assassinato de “subversivos”. Por meio do trabalho da equipe do Brasil: Nunca Mais, conforme indicado antes, bem como de denúncias e relatos de memória, alguns desses centros tornaram-se conhecidos: a “Casa da Morte” em Petrópolis/RJ (propriedade do empresário Mário Lodders, ficava localizada na Rua Artur Barbosa); a “Casa dos Horrores”, no Ceará; a “Casa de São Conrado”, no RJ; a “Boate”, em Itapevi/SP; a “Fazenda 31 de março de 1964”, em Parelheiros, Grande São Paulo.339
Na repressão aos “subversivos”, o CENIMAR utilizava, além de locais como os presídios em ilhas cariocas antes mencionados, também algumas embarcações, como o navio Raul Soares.340
Dentre outros locais, o CISA realizava suas atividades repressivas em diversas bases aéreas, como as de Canoas (RS), Cumbica (SP), Galeão (RJ) e Recife (PE). As instalações eram utilizadas tanto para manter prisioneiros clandestinamente quanto para torturas,
338 BR-AN-BSB-AA1, pasta AJD-053.