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ÖYKÜLERİN İZLEKSEL TAHLİLİ

2. Öykülerin İzleksel Tahlil

2.1. Özgürlük ve Seçim

2.3.1. Toplumsal Yozlaşma

2.3.1.1. Değerlerin Yitimi ve Yozlaşma

APÊNDICES...366 A – Estruturas de vigilância e repressão...367 B – Agência Nacional - boletins diários à imprensa...368 C – Agência Nacional - cinejornais...375

INTRODUÇÃO

Os últimos acontecimentos mostram-nos, sem rebuços, o caráter das propensões políticas que animam as elites dirigentes de nossas classes dominantes. Para elas, a democracia reduz-se a uma questão semântica. É democrata quem sabe tomar o poder e dispõe, em consequência, de meios para proclamar-se e impor-se como tal. A democracia autêntica prescinde dessa linguagem e do aparato que a sustenta.

Florestan Fernandes (discurso de paraninfo da turma de 1964 da Fac. de Filosofia, Ciências e Letras da USP, pronunciado em 23 de março de 1965)1

Em 4 de janeiro de 2001, poucos meses antes de falecer, Milton Santos concedeu a Sílvio Tendler uma entrevista, a qual deu origem ao documentário Encontro com Milton Santos ou O mundo global visto do lado de cá.2 O filme aborda, a partir da perspectiva do

geógrafo baiano, diversos aspectos do mundo atual. Em um determinado momento, Milton Santos questionava os abusos feitos em nome da democracia. A essa crítica, Tendler adicionou a de Saramago, que surgia afirmando que “a democracia em que vivemos é uma democracia sequestrada, condicionada, amputada”, porque “as grandes decisões são tomadas numa outra esfera, e todos sabemos qual é – as grandes organizações financeiras internacionais”, sendo que “nenhum desses organismos é democrático”. E questionava-se: “como é que podemos continuar a falar de democracia se aqueles que efetivamente governam

1 Reproduzido em: A Revolução Brasileira e os intelectuais. In: Sociedade de classes e subdesenvolvimento. 3.

ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1975. (Biblioteca de Ciências Sociais). p. 164-177.

2

ENCONTRO com Milton Santos ou O Mundo Global Visto do Lado de Cá. Direção: Silvio Tendler. Roteiro:

André Alvarenga, Claudio Bojunga, Ecatherina Brasileiro, Miguel Lindbergh, Silvio Tendler. Produção: Silvio Tendler e Ana Rosa Tendler. Brasil: Caliban, 2006. 89 min.

INTRODUÇÃO

o mundo não são eleitos democraticamente pelo povo?”. Com a montagem de Tendler, a pergunta de Saramago, embora retórica, é de certo modo respondida por Milton Santos: “A gente esvaziou a palavra democracia de conteúdo. A gente continua falando na democracia sem saber muito bem do que está falando”.

Essas recentes críticas de Milton Santos e José Saramago aos abusos feitos em nome da democracia na atualidade possuem notável afinidade com as palavras de Florestan Fernandes citadas na epígrafe. Hoje, passados cinquenta anos do golpe de 1964, muita coisa mudou no Brasil e no mundo, mas democracia continua sendo um termo associado a ideias muito diversas e, não raro, antagônicas. Uma palavra forte, eventualmente mobilizada de modo no mínimo questionável, como no caso da ditadura militar e sua alegada “Revolução Democrática”. Contribuir com esse debate – que, embora antigo, não poderia ser mais atual – é minha meta maior com esta tese.

*

É possível tratar, em um mesmo estudo, de relações sociais aparentemente tão díspares quanto propaganda e repressão, vigilância e formação de intelectuais? O que pretendo demonstrar nas próximas páginas é não apenas a viabilidade de tal abordagem, mas sobretudo a profunda imbricação daquelas formas de relação social, de modo relativamente estável ao longo de um certo período, constituindo parte importante de algo que, para fins analíticos, penso que possa ser chamado de sistema de controle social, em acordo com o sentido atribuído a essa expressão por Stanley Cohen e Andrew Scull.3

Não se deve supor que se trate de um vínculo necessariamente intencional. O que permite falar em sistema de controle é a relativa constância com que tais mecanismos exerceram certas funções e auxiliaram-se mutuamente (às vezes intencionalmente, em outras não) em ações cujo resultado, a despeito de interesses, planos, vontades, confluía no sentido da manutenção de uma ordem social e de um regime político específicos.

É evidente que nenhum sistema de controle social logrou até hoje um controle total. Nem mesmo nas situações mais extremas, vividas nos regimes totalitários. Segrillo dá um

3

COHEN, Stanley; SCULL, Andrew. Introduction: Social Control in History and Sociology. In: COHEN, Stanley; SCULL, Andrew (ed.). Social Control and the State: historical and comparative essays. Oxford: M. Robertson, 1983. p. 1-14. p. 7.

INTRODUÇÃO

bom exemplo, ao mencionar como a família constituía em muitos casos um reduto diante dos mecanismos de controle soviéticos, permitindo, por exemplo, o debate de temas polêmicos ou a leitura de obras estigmatizadas pelo regime.4

Tendo essas ressalvas em vista, a expressão controle social é entendida e utilizada aqui conforme a acepção proposta por Cohen: como “os meios organizados através dos quais uma sociedade responde a comportamentos e pessoas vistos de algum modo como desviantes, problemáticos, preocupantes, ameaçadores, incômodos ou indesejáveis”.5

Os primeiros usos da expressão foram comumente atribuídos aos trabalhos de Edward Ross na virada do século 19 para o 20.6 Mathieu Deflem delineou a história do conceito,

definindo o decisivo papel de renovação proporcionado pelos pesquisadores vinculados aos chamados revisionist studies of social control, como Gareth Stedman Jones, Michael Ignatieff, David Rothman e o próprio Cohen. Posteriormente, os trabalhos de David Garland também se tornariam referência frequente nos estudos de controle social.7 No Brasil, entre

historiadores, a noção de controle social é mais frequente, como seria de se esperar, entre aqueles vinculados ao vasto e heterogêneo campo da história social, adquirindo centralidade sobretudo em estudos sobre o cotidiano dos trabalhadores, as polícias, o crime, a justiça e temas correlatos.8

4 SEGRILLO, Angelo. URSS: coerção e consenso no estilo soviético. In: ROLLEMBERG, Denise;

QUADRAT, Samantha Viz (orgs.). A construção social dos regimes autoritários: legitimidade, consenso e consentimento no século XX. v. I - Europa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010. p. 133-134.

5 Original: “This is a book about social control, that is, the organized ways in which society responds to

behaviour and people it regards as deviant, problematic, worrying, threatening, troublesome or undesirable in some way or another”. COHEN, Stanley. Visions of social control: crime, punishment and classification.

Cambridge, UK; Malden, USA: Polity Press, 2007 [1985]. p. 1.

6

Cf., por exemplo: ROSS, Edward Alsworth. Social control. The American Journal of Sociology, v. 1, n. 5, mar. 1896, p. 513-535.

7

DEFLEM, Mathieu. The concept of social control: theories and applications. International Conference on Charities as Instruments of Social Control in Nineteenth-Century Britain, Université de Haute Bretagne (Rennes 2), Rennes, France, Nov. 2007. Disponível em: <www.mathieudeflem.net>. Acesso em: 10 dez. 2012; COHEN, Stanley; SCULL, Andrew (ed.). Social Control and the State: historical and comparative essays. Oxford: M. Robertson, 1983; GARLAND, David. Punishment and modern society: a study in social theory. Chicago: Oxford University Press, 1993; GARLAND, David. The culture of control: crime and social order in contemporary society. Chicago: University of Chicago Press, 2001.

8 Cf., a título de exemplo: CHALHOUB, Sidney. Trabalho, lar e botequim: o cotidiano dos trabalhadores no

Rio de Janeiro da belle époque. 2. ed. Campinas/SP: EdUNICAMP, 2001; CANCELLI, Elizabeth. O mundo da violência: a polícia na Era Vargas. 2. ed. Brasília: Ed.UnB, 1994. Para uma reflexão sobre os usos do conceito, no Brasil, nos campos da História e das Ciências Sociais, cf.: ALVAREZ, Marcos César. Controle social: notas em torno de uma noção polêmica. São Paulo em Perspectiva, v. 18, n. 1, p. 168-176, 2004.

INTRODUÇÃO

*

O objeto de estudo nesta tese é a ação, sobre o campo da educação superior, do sistema de controle social que vigorou no Brasil entre 1964 e 1988.

O uso da expressão “educação superior” indica a intenção de tratar do controle de atividades e agentes de ensino, pesquisa e extensão. No Brasil, concepções de educação superior baseadas na percepção de forte imbricação entre esses três segmentos remontam no mínimo à década de 1930, sendo claramente identificáveis, por exemplo, no Estatuto das Universidades Brasileiras (Decreto nº 19.851, de 11/abr/1931) e no Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova (1932).9 Desde então até hoje, passando pela consolidação do princípio de

indissociabilidade na Constituição de 1988 (Art. 207), a relação entre as três áreas foi motivo para muitas polêmicas e disputas. A par disso, houve uma certa continuidade na percepção de que tais setores deveriam estar em alguma medida vinculados. Os entendimentos acerca de quais deveriam ser suas funções é que variaram bastante, bem como as políticas educacionais adotadas com base nessas perspectivas muitas vezes divergentes. Em termos bastante genéricos, é possível falar em um predomínio de uma visão educacional emancipadora entre fins dos anos 1950 e o início da década de 1960, dela sendo emblemático o projeto original da UnB. Após o golpe, contudo, os portadores desse projeto foram alvo de intensa repressão e um novo paradigma educacional foi imposto, aquele que Saviani chamou de “concepção produtivista de educação”.10

Junto a isso, foi decisivo para a definição do escopo desta tese o entendimento de que, para o sistema de controle social configurado após 1964, ensino, pesquisa e extensão constituíam um único alvo.

9 No Manifesto afirmava-se: “A educação superior ou universitária (...) deve ser organizada de maneira que

possa desempenhar a tríplice função que lhe cabe de elaboradora ou criadora de ciência (investigação), docente ou transmissora de conhecimentos (ciência feita) e de vulgarizadora ou popularizadora, pelas instituições de extensão universitária, das ciências e das artes”. AZEVEDO, Fernando de et al. Manifestos

dos pioneiros da Educação Nova (1932) e dos educadores (1959). Recife: Fundação Joaquim Nabuco;

Massangana, 2010. (Educadores). p. 55-56. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br>. Acesso em 4/ago/2014.

10

SAVIANI, Dermeval. A política educacional no Brasil. In: STEPHANOU, Maria; BASTOS, Maria Helena Câmara (orgs). Histórias e memórias da educação no Brasil – v. III: Século XX. Petrópolis/RJ: Vozes, 2005. p. 37. Cf. também: PAOLI, Niuvenius J. Ideologia e hegemonia: as condições de produção da educação. São Paulo: Cortez Editora/Autores Associados, 1981. (Educação Contemporânea).

INTRODUÇÃO

Não utilizo o termo campo na acepção proposta por Bourdieu, embora aquela noção sirva aqui, em certa medida, como fonte de inspiração. Nos trabalhos de Bourdieu, campo está profundamente imbricado com outros conceitos e noções por ele mobilizados, como capital e habitus, os quais me parecem em boa medida incompatíveis com alguns dos principais referenciais teóricos aqui utilizados. Assim, e inspirado justamente no exemplo do próprio Bourdieu, aproprio-me exclusivamente daquilo que me parece essencial em sua noção de campo – a referência a um espaço social com características e dinâmicas próprias – para utilizar o termo nesta tese com tal acepção.11

A escolha do recorte temático deveu-se em primeiro lugar a um fator de ordem pragmática: eu já estudara um tema relacionado com o controle da educação superior durante a ditadura militar – os expurgos de professores da UFRGS ocorridos em 1964 e 1969 – quando fizera a graduação em História, na UFRGS, e o mestrado, também em História, na PUCRS.12 O segundo motivo para a escolha do tema desta tese foi o questionamento, surgido

durante a realização daquelas pesquisas, a respeito do que era especificidade daquela universidade e do que era comum ao controle das demais instituições de educação superior no país. Durante a realização da dissertação, ao buscar respostas para tal questão, percebi que havia peculiaridades em determinadas universidades – como, no caso da UFRGS, a composição da Comissão Especial de Investigação Sumária em 1964, caso ímpar em todo o país, até onde se sabe13 – mas que também havia um padrão de controle, que alterava-se

11 Afrânio Catani observou que, “em vários escritos em que explicita sua obra e seu método de trabalho, bem

como em estudos sobre domínios específicos, Bourdieu sempre advertiu e mostrou que a noção de campo, definida em conformidade com a realização de um estudo empírico concreto, necessita ser compreendida em sua interdependência, ou seja em relação a outra(s) noção(ões) – por exemplo, as noções de campo, habitus e capital não podem ser definidas isoladamente, mas apenas no interior de um sistema teórico que constituem”. CATANI, Afrânio Mendes. As possibilidades analíticas da noção de campo social. Educ. Soc., Campinas, v. 32, n. 114, p. 189-202, jan/mar. 2011. p. 191. Para uma definição da noção de campo pelo próprio Bourdieu, cf., dentre vários exemplos possíveis: BOURDIEU, Pierre. Introdução a uma sociologia reflexiva. In: O

poder simbólico. Trad. Fernando Tomaz. 9. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006. p. 17-58.

12 MANSAN, Jaime Valim. Os expurgos da UFRGS: Afastamentos arbitrários de professores da Universidade

Federal do Rio Grande do Sul no contexto da ditadura civil-militar brasileira (1964-1980): os casos porto- alegrenses. Monografia – Licenciatura em História. Departamento de História, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2006; MANSAN, Jaime Valim. Os expurgos na UFRGS: afastamentos sumários de professores no contexto da Ditadura Civil-Militar (1964 e 1969). 320 f. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2009.

13 Id. A Comissão Especial de Investigação Sumária da UFRGS (1964). Estudos Ibero-Americanos, PUCRS,

INTRODUÇÃO

conforme o regime ia se transformando. Obviamente não era viável aprofundar tais questões na dissertação, já que esse não era o objetivo daquele trabalho; guardei, assim, tais questionamentos para estudos posteriores. Junto a isso, durante a pesquisa de mestrado surgiram alguns indicativos de que o controle da educação superior no Brasil também tivera suas peculiaridades, em relação ao ocorrido com outros segmentos sociais durante aquela ditadura. Tudo isso levou-me a considerar, um ano depois de defendida a dissertação, a possibilidade de estudar tal tema no doutorado. O principal objetivo desta tese é, consequentemente, compreender as especificidades do controle do campo da educação superior no Brasil entre 1964 e 1988.

O recorte temporal seguiu em linhas gerais a proposta de Renato Lemos, considerando nesse sentido, como marco final, a mudança de regime político consolidada com a promulgação da atual Constituição, a par das inovações promovidas após 1985, combinadas com permanências de modo a garantir o sucesso do projeto de transição iniciado em 1974.14

Elegi para análise quatro dos principais modos de controle social aplicados sobre aquele campo. Dois deles – vigilância e repressão – vinculavam-se mais diretamente com o controle via coerção. Sobre eles tratarei nos capítulos 1 e 2. Os outros modos de controle abordados nesta tese – propaganda e formação de intelectuais – funcionavam predominantemente através da formação de consensos favoráveis, e serão analisados nos capítulos 3 e 4.

Além desses quatro modos de controle, outros também foram utilizados sobre o campo da educação superior, como os mecanismos de recompensa e a censura, que serão comentados respectivamente nos capítulos 2 e 3, ou os de cunho econômico – implementados através de desvalorizações salariais, por exemplo. Mas foi através das ações de vigilância, repressão, propaganda e formação de intelectuais que, a meu ver, o controle da educação superior teve suas maiores especificidades.

*

14 LEMOS, Renato Luís do Couto Neto e. Contrarrevolução e ditadura: ensaio sobre o processo político

brasileiro pós-1964. Marx e o marxismo, v. 2, n. 2, 2014. p. 111-138; proposta semelhante foi apresentada por: CODATO, Adriano Nervo. Uma história política da transição brasileira: da ditadura militar à democracia. Revista de Sociologia e Política, n. 25, Curitiba, nov/2005. Sobre permanências de elementos da ditadura após 1988, cf.: TELES, Edson; SAFATLE, Vladimir (orgs.). O que resta da ditadura: a exceção brasileira. São Paulo: Boitempo, 2010.

INTRODUÇÃO

Há uma ampla bibliografia relacionada com os debates em torno da definição do golpe de 1964 e do regime por ele instaurado.15 Em meus primeiros trabalhos sobre o regime de

1964, ainda durante a graduação e, posteriormente, também no mestrado, optei por adotar as noções de “golpe civil-militar” e “ditadura civil-militar”, considerando que, como propunham alguns autores, isso seria importante para destacar a colaboração ativa de elementos civis naqueles processos. Contudo, já ao final do mestrado e, sobretudo, durante o doutorado, tais conceitos começaram a parecer insuficientes, excessivamente vagos. Enquanto o termo “militar” assinala claramente o vínculo a uma determinada instituição, o termo “civil”, em contrapartida, contribui pouco com a definição dos demais atores daqueles processos e obscurece certos aspectos centrais daquele regime, como a liderança militar e os intentos de militarização da sociedade.

Independentemente de polêmicas em torno a termos e expressões, creio que o essencial aqui seja ter em conta o que já se sabe há décadas: o golpe foi o resultado (em parte planejado, em parte fruto da dinâmica dos acontecimentos no mês de março de 1964) de um amplo movimento (adotando assim a proposta de Dreifuss16) iniciado anos antes de 1964 e

promovido por quatro agentes principais: militares, políticos, empresários e grande imprensa. Em relação ao regime político implantado por tal golpe, penso hoje que a clássica expressão “ditadura militar”, no sentido utilizado por autores como Florestan Fernandes, seja

15 Como visão panorâmica da multiplicidade de perspectivas, cf.: DELGADO, Lucília Almeida Neves. O

governo João Goulart e o golpe de 1964: memória, história e historiografia. Tempo, Niterói (RJ), v.14, n.28, p.125-145, jan-jun 2010; FICO, Carlos et al. Ditadura e democracia na América Latina: balanço histórico e perspectivas. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2008; Id. Além do golpe: versões e controvérsias sobre 1964 e a ditadura militar. Rio de Janeiro: Record, 2004; MARTINS FILHO, João Roberto (org.). O golpe de 1964 e o

regime militar: novas perspectivas. São Carlos: EDUFSCAR, 2006; MATTOS, Marcelo Badaró. O governo

João Goulart: novos rumos da produção historiográfica. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 28, nº 55, p. 245-263, 2008; MELO, Demian. A miséria da historiografia. Outubro, São Paulo, n.14, p.111-130, 2006; Id. Ditadura “civil-militar”?: controvérsias historiográficas sobre o processo político brasileiro no pós- 1964 e os desafios do tempo presente. Espaço Plural, M. Cândido Rondon (PR), v.27, p.39-53, 2012; NAPOLITANO, Marcos. 1964: História do Regime Militar Brasileiro. São Paulo: Contexto, 2014; REIS, Daniel Aarão. Ditadura e democracia no Brasil: do golpe de 1964 à Constituição de 1988. Rio de Janeiro; Zahar, 2014; SILVA, Juremir Machado da. 1964: Golpe Midiático-Civil-Militar. Porto Alegre: Sulina, 2014; SOARES, Gláucio; D’ARAUJO, Maria Celina (orgs.). 21 anos de regime militar: balanços e perspectivas. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getulio Vargas, 1994; TAVARES, Flávio. 1964: o golpe. Porto Alegre: L&PM, 2014; TOLEDO, Caio Navarro de (org.). 1964: visões críticas do golpe. Campinas/SP: Editora da UNICAMP, 1997; TOLEDO, Caio Navarro de. 1964: Golpismo e democracia. As falácias do revisionismo.

Crítica Marxista, São Paulo, Boitempo, n. 19, p.27-48, 2004.

16 DREIFUSS, René. 1964: a conquista do Estado: ação política, poder e golpe de classe. 6. ed. Petrópolis/RJ:

INTRODUÇÃO

a opção mais interessante.17 Primeiro, por indicar a quem coube a liderança daquele processo,

assinalando o domínio de fato do segmento castrense ao longo de todo o período, inclusive durante o governo Sarney. Segundo, por indicar uma das principais características daquele regime: as tentativas de militarização de diversos segmentos sociais (dentre eles a educação superior) considerados fundamentais para a manutenção daquele projeto político. Refiro-me à militarização como definida por Suzeley Mathias: não apenas no sentido da decisiva ocupação de estratégicos cargos e funções civis, mas também como a imposição do ethos militar no cotidiano de diversas instituições do Estado e da sociedade civil.18 A ESG, por exemplo,

sugeria explicitamente a adoção de “princípios de guerra”, “com as convenientes adaptações”, por parte dos órgãos governamentais.19 Evidentemente, esse esforço de militarização não foi

aplicado com a mesma intensidade sobre todos os segmentos sociais, nem foi total em nenhum deles, a par de ter alcançado seus objetivos principais. De qualquer maneira, os conflitos, arranjos e disputas gerados por essa ambição de militarizar a sociedade foram responsáveis por alguns dos traços mais marcantes daquele regime.

Nesse sentido, dentre as principais características da ditadura militar, Lemos destaca: a sua natureza contrarrevolucionária; a sua vinculação prioritária ao grande capital multinacional e associado; a grande autonomia do Estado militarizado em relação aos interesses particulares das frações das classes dominantes, em face dos quais, quando em conflito, exerceu o papel de árbitro; a preeminência, no interior do Executivo hipertrofiado, do aparato repressivo policial-militar e a pretensão a uma legitimidade, inicialmente com base no perfil antipopulista e anticomunista e, depois, sem abrir mão desses traços, em um projeto modernizante-conservador tendente a um regime democrático restrito.20

Alguns desses pontos assinalam a necessidade de se levar em conta a situação do país em relação ao contexto político e econômico internacional naquele período. É preciso

17 Cf., a título de exemplo: FERNANDES, Florestan. Crise ou continuidade da ditadura? In: A ditadura em

questão. 2. ed. São Paulo: T. A. Queiroz, 1982. p. 16.

18

MATHIAS, Suzeley Kalil. A militarização da burocracia: a participação militar na administração federal das comunicações e da educação (1963-1990). São Paulo: Ed.UNESP, 2004. p. 25-26.

Sobre Estado e sociedade civil, adoto a teoria do Estado ampliado de Gramsci, usando o termo Estado em sentido estrito, como “sociedade política”. Cf.: GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. V. 2 – Os