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ÖYKÜLERİN İZLEKSEL TAHLİLİ

2. Öykülerin İzleksel Tahlil

2.1. Özgürlük ve Seçim

2.3.1. Toplumsal Yozlaşma

2.3.1.2. Siyasi Yetke ve Yozlaşma

2.3.1.2.2. Kurumsal Yozlaşma

A função das “informações na Segurança Interna”, ou seja, da vigilância no âmbito interno do país, segundo o Manual Básico da ESG, era “identificar os antagonismos e pressões capazes de atuar no âmbito interno do país e avaliar os modos de atuação de seus agentes”, de maneira a permitir que fossem, em tempo hábil, adotadas medidas destinadas “a identificá-los, neutralizá-los ou anulá-los”.261

A vigilância era considerada “essencial para esclarecer o governo quanto à realidade da situação, à verdade dos fatos e às características e intensidades das manifestações e dos efeitos dos antagonismos e pressões, bem como à estimativa de acontecimentos futuros”. O discurso dos órgãos e agentes de vigilância era alçado, assim, à condição de verdade inquestionável, leitura indubitável do passado, do presente e do futuro, indispensável à ação governamental e ao controle da sociedade.262

Havia consciência da necessidade de se buscar um equilíbrio possível entre coerção e consenso:

É importante (...) que os que lidam com a Segurança Interna tenham presente que muitas vezes os óbices no campo da Segurança Interna são ainda consequentes do fato de não se ter atingido um estágio de desenvolvimento que permita resolver todos os angustiantes problemas. Assim, pois, atuar repressivamente dentro desse

260 Foi o caso do DEOPS/SP. Quando o órgão foi fechado, em 1983, algumas das atividades de vigilância que

desempenhava passaram a ser executadas pelo Departamento de Comunicação Social (DCS), vinculado à Polícia Civil, que seguiu nessa função até 1999. A ficha de Flávio Aguiar no DCS, por exemplo, continha anotações de 1983 a 1988, incluindo participação em chapa para eleições da ADUSP em 1983, participação em congresso da ANDES em 1984 e coordenação de reunião da ADUSP relacionada com greve docente em 1988. DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL. Ficha A00413 - Flávio Aguiar. APESP/DCS; ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Acervo do Departamento de Comunicação Social

(DCS). Disponível em <http://www.arquivoestado.sp.gov.br/permanente/dcs.php>. Acesso em: 21/fev/2012.

261 EMFA/ESG/DE. MB-75... op. cit. p. 252. 262

1. VIGILÂNCIA

quadro poderá, sobretudo, exacerbar ânimos desnecessariamente.263

Dentro desse quadro de busca de equilíbrio entre coerção e consenso, havia preocupação não apenas com a construção de consensos favoráveis ao regime, mas também com a eliminação das possibilidades de formação de “ideologias críticas”.264 Nesse sentido,

observe-se o que o Manual Básico recomendava aos agentes do sistema de controle:

O ambiente psicológico causado pela disparidade de sentimentos e emoções costuma ser bem aproveitado pela propaganda subversiva, que se utiliza de métodos e técnicas modernas de influência e persuasão. Nesse quadro, cabe aos componentes do Sistema de Segurança Interna o encargo de alertar sobre o valor dessa propaganda, seus índices de aceitação, as técnicas que estão sendo e serão postas em prática, os objetivos visados pelos subversivos, assim como os planos prováveis de desenvolvimento da atividade assinalada.265

A ESG defendia ainda a ideia de que alguns “subversivos” seriam “recuperáveis”. No manual, advertia-se quanto à necessidade de se “estar atento aos agentes dos antagonismos e pressões”: “mesmo depois de identificados, é preciso atentar que pode não se tratar de um inimigo estrangeiro, mas de um patrício, fruto, às vezes, da conjuntura – nacional e mundial –, cuja recuperação será mais conveniente que a pura eliminação”.266

Embora traços desse pensamento estivessem frequentemente presentes nas narrativas elaboradas pelos agentes de vigilância, é de se ressaltar que essa não era uma ideia aceita consensualmente entre os membros do sistema de controle social, tendo particular rejeição entre os setores mais radicais.

1.5.1 – Funções diretas e indiretas

Pelo que foi possível identificar na análise da documentação, a vigilância, na prática, cumpria cinco funções, duas de modo direto e três de modo indireto.

De modo direto, a vigilância era responsável:

(1) pela disseminação de uma sensação generalizada de se estar sendo vigiado

263

EMFA/ESG/DE. MB-75... op. cit. p. 252.

264 MÉSZÁROS, I. O poder da ideologia. Trad. P. C. Castanheira. São Paulo: Boitempo, 2004. 265 EMFA/ESG/DE. MB-75... op. cit. p. 252.

266

1. VIGILÂNCIA

constantemente; isso era útil para o controle da sociedade, pois muitos indivíduos tendiam a não contestar o regime, por medo de serem identificados e punidos;

(2) pelo fornecimento de informações aos dirigentes do sistema de controle; essas informações permitiam que o grupo no poder tivesse efetivo e ágil controle sobre a sociedade.

Já indiretamente, a vigilância auxiliava:

(1) nas ações repressivas, informando os órgãos responsáveis por tal modo de controle, sem o que agiriam às cegas;

(2) nas ações destinadas à formação de consensos, de modo análogo ao auxílio prestado aos setores repressivos;

(3) formando uma espécie de autoconvencimento entre os agentes da “comunidade de informações”; tratava-se da elaboração e difusão de ideias que justificavam as ações de controle, como “reação ao movimento comunista internacional”, “defesa da pátria” etc., motivando os agentes.

Em uma informação elaborada pelo CISA em 1973, mencionada anteriormente, era abordada a questão de um convênio entre a UnB, a SUDECO, o Projeto Rondon e as prefeituras de Aragarças e Barra do Garças.267 A preocupação do principal órgão de vigilância

da Aeronáutica dizia respeito à participação de professoras supostamente envolvidas com movimentos “subversivos”. O fundamental aqui é que, ao final da informação, assinalava-se a importância do “esforço desenvolvido pelos órgãos de informações do país, em particular no campo psicossocial, (...) através do descobrimento e posterior anulação dos elementos subversivos do magistério”. Os dois termos grifados correspondem, respectivamente, ao que aqui está sendo chamado de vigilância e repressão, e indicam algumas de suas principais funções de controle social: a identificação de indivíduos considerados perigosos para a estabilidade do regime, por meio da vigilância, e sua “anulação” por meio da repressão, o que poderia ocorrer por diversos meios, do expurgo ao assassinato.

Também nas ações destinadas à formação de consensos, a vigilância cumpria importante função, de modo análogo ao mencionado apoio concedido às ações repressivas. Uma informação do CIE, elaborada em 1979, assinala, por meio de referência à “opinião pública”, importante preocupação com os consensos a respeito das ações de vigilância, assim como indica certos usos da vigilância para monitoramento da situação geral dos consensos

267

1. VIGILÂNCIA

favoráveis ao regime, o que, naquele contexto de transição, era fundamental.268

Outro exemplo da função de autoconvencimento dos agentes de controle é dado por uma informação da agência carioca do SNI, elaborada em abril de 1969, sobre “agitação estudantil na Ilha do Fundão”.269 Tratava-se de relato de ação da PM na Ilha do Fundão,

realizada no dia 11/abr/1969, por volta do meio-dia, “com a finalidade de prender” um “agitador e líder estudantil”, com base em “informes recebidos de que encontrava-se naquele local”. Ao chegarem lá, alegavam os agentes de vigilância, os policiais teriam sido “recebidos com violentos ataques, inclusive físicos, por parte dos estudantes concentrados na Escola de Engenharia e no Restaurante”. Em função disso, “a PM prendeu 27 estudantes, sendo que oito por portarem panfletos subversivos [em anexo] (...) e os demais por agressão a autoridade policial. Todos os presos foram autuados em flagrante”.

Documentos como esse, produzidos por órgãos e agentes de vigilância, tinham dupla função: registrar a ação repressiva, armazenando dados que futuramente poderiam ser úteis, e justificar a repressão narrada, naquele momento ou em outro em que isso fosse necessário, quando, para isso, a informação poderia ser recuperada junto aos arquivos dos órgãos de vigilância.

Tais informações ajudavam, portanto, na formação de uma espécie de autoconvencimento entre os agentes do sistema de controle, incluídos aí, obviamente, aqueles que atuavam nos órgãos de vigilância. Observe-se, nesse sentido, o volumoso relatório que a Agência Central do SNI produzia mensalmente. Com uma média de 150 páginas, sempre classificado como “reservado” e amplamente divulgado no interior do sistema de controle, seu título era Comunismo Internacional: Sumário de informações.270 Parcelas significativas desses

relatórios tratavam da suposta participação de setores do campo da educação superior no chamado “movimento comunista internacional”.

A difusão do relatório, como dito, era bastante ampla: gabinetes civil e militar da Presidência, todos os ministérios civis e militares, a Assessoria Especial de Relações Públicas, o Conselho de Segurança Nacional, a ESG, agências regionais do SNI, os vários DOPS, PM,

268 INFORMAÇÃO nº 709... op. cit. 269

INFORMAÇÃO nº 148/SNI/ARJ/69... op. cit.

270 APPR/DOPS, pastas: 305.33 (nº 6, de jun. 1970), 306.33 (nº 9, de set. 1970), 307.33 (nº 10, de out. 1970),

308.33 (nº 11, de nov. 1970), 309.34 (nº 12, de dez. 1970), 310.34 (nº 13, de jan. 1971) e 311.34 (nº 5?, de maio 1971).

1. VIGILÂNCIA

DPF, segundas seções das Forças Armadas, os presidentes do Senado Federal e da Câmara dos Deputados, os presidentes do Superior Tribunal Federal e do Superior Tribunal Militar e, ainda, algumas “autoridades eclesiásticas” (Núncio Apostólico e arcebispos de Salvador, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Diamantina e São Paulo).

Dentre outras funções, aqueles relatórios ajudavam a disseminar, no âmbito do sistema do controle e entre membros do grupo no poder (alguns inseridos no primeiro escalão ditatorial, outros vinculados a instituições da sociedade civil, como os mencionados dirigentes da Igreja Católica) um conjunto de ideias que ajudavam a consolidar uma ideologia fortemente anticomunista já compartilhada por aqueles indivíduos. Tal coesão ideológica era fundamental para o sucesso do projeto político ditatorial.

Esse crucial trabalho ideológico não se dava, obviamente, apenas por meio da difusão de documentos como o relatório mencionado. Outro importante meio de formação ideológica era a defesa de “professores anticomunistas” nas instituições de educação superior. Uma informação elaborada pela agência paulista do SNI dava conta de supostas perseguições que docentes “anticomunistas” estariam sofrendo por parte de “professores de tendências esquerdistas”.271

No documento, afirmava-se estar ocorrendo na USP uma “manobra de professores de tendências esquerdistas visando afastar” um professor “da regência da cadeira de História das Ideias, do que resultou sua transferência para a Escola de Comunicações e Artes”. Aquela agência do SNI afirmava ainda que “confirmou-se (...) que os elementos esquerdistas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP têm se movimentado no sentido de neutralizar a ação dos professores anticomunistas”.

Na sequência, o documento apresentava uma série de “antecedentes negativos”, registrados nos arquivos daquele órgão de vigilância, sobre estudantes e professores.

Quanto a um estudante, a informação afirmava ter participado de abaixo-assinado dirigido ao diretor do Departamento de História, por meio do qual alunos afirmavam que não iriam mais frequentar as aulas do professor supostamente “perseguido”. Observe-se que o documento assinala que a ASP/SNI teria sido, na ocasião, informada sobre o referido abaixo-

271 INFORMAÇÃO nº 096296/ASP/SNI/73, de 29/mar/1973, confidencial, da ASP/SNI para a AC/SNI, sobre a

1. VIGILÂNCIA

assinado.272

Já em relação a alguns professores, apontava os seguintes “fatos”:

[prof. A e B]: terem sido expurgados com base no AI-5, conforme Diário Oficial da União de 30 de abril de 1969;

[prof. C]: não apresentava fatos negativos e teria ministrado “cursos intensivos na Universidade de Paris sobre fatos da vida nacional”;

[prof. D]: não apresentava fatos negativos, era Diretor da Escola de Comunicação e Artes da USP e, conforme “o Encaminhamento nº 246/ASP/71, difundido a esta AC”, seria “tido como anticomunista”.

Por fim, indicava, em relação “aos demais nomes citados nos anexos”, que estavam “sendo processados” e que, tão logo fossem obtidos “novos dados”, estes seriam transmitidos à SNI/AC.

A informação ainda indicava que “o presidente da Comissão Estadual de Investigações [CEI], em documento datado de 22/mar/1973, analisa[va] a atuação dos esquerdistas junto à Faculdade de Filosofia da USP”, apontando “o recrudescimento de ‘nova doutrinação marxista dos estudantes e estímulo sério às atividades subversivas’”. Também retransmitia uma queixa e um questionamento do presidente da referida comissão: “a CEI, segundo o seu presidente, denunciou essas atividades ao Ministério da Justiça e à 2ª Seção do II Exército, não obtendo, até a presente data (29/mar/1973), nenhuma resposta”; “a CEI, ainda segundo o seu Presidente, afirma[va] ter poderes para afastar os implicados durante o tempo de investigação” e teria questionado o seguinte: “Estará ela (a CEI) agindo em consonância com o pensamento dos mais altos órgãos da Segurança? Se assim for, não titubearemos em prosseguir na investigação e instaurá-la oficialmente”. Ou seja, havia uma clara preocupação dos agentes repressivos no sentido de obterem respaldo de suas instâncias superiores para a aplicação das penas.

A vigilância cumpria, em casos como o descrito, função fundamental de apoio à manutenção de professores com um certo perfil político-ideológico no campo da educação superior, que poderiam atuar como intelectuais pró-regime, assim auxiliando diretamente na preservação de colaboradores no interior do campo e, indiretamente, na formação de

272 Cabe questionar: por quem? Pelo diretor? Pela ASI daquela universidade? Por um infiltrado? Pelo professor

1. VIGILÂNCIA

consensos favoráveis ao regime. Também era significativa sua contribuição com a repressão, como veremos a seguir.

2. REPRESSÃO

Assim, eu me vejo condenado à morte por vós, condenados de verdade, criminosos de improbidade e de injustiça. Eu estou dentro da minha pena, vós dentro da vossa.

Platão, Apologia de Sócrates

2.1 – INTRODUÇÃO

Cicuta, empalamento, forca, cruz, fogueira, donzela de ferro, garrote vil, guilhotina, fuzilamento, lapidação, gaseamento, ‘desaparecimento’, cadeira elétrica... Exílio, expurgo, excomunhão, degredo, gueto, gulag, apartheid, solitária, Guantánamo, Fernando de Noronha, Alcatraz, Tiradentes, Carandiru, FEBEM... Sanbenito, aranha espanhola, tronco, pelourinho, pau de arara, máscara da infâmia, ferro em brasa, gargalheira, chibata, palmatória... Essa listagem poderia prosseguir por várias páginas.

Contudo, não pretendo desenvolver aqui uma longa discussão sobre as origens e a história da punição em geral, nem de uma de suas formas – a repressão –, já que não se trata de algo essencial aos objetivos deste estudo. Considero suficiente por ora ter em conta que as origens da punição remontam aos primórdios da humanidade e, como tudo que decorre da ação humana, está sujeita a mudanças ao longo do tempo.

Fustel de Coulanges deu um bom exemplo desse caráter historicamente mutável da punição, ao observar que o exílio era considerado, nos primórdios das antigas civilizações grega e romana, pena mais severa que a execução.273 Também Rusche e Kirchheimer, que

273 COULANGES, Fustel de. A cidade antiga. São Paulo: EDAMERIS, 1961. Cap. XIII – O patriotismo. O

2. REPRESSÃO

evidenciaram as profundas transformações nas formas de punição da Idade Média ao início do século 20.274 Em Vigiar e punir – obra na qual a influência de Pena e estrutura social é

explícita e assumida –, Foucault adotou essa transitoriedade do fenômeno punitivo como uma das principais premissas de sua argumentação, ao tratar das profundas modificações nas penas adotadas na Europa durante a segunda metade do século 18.275 Já Garland tem buscado em

seus trabalhos compreender as transformações pelas quais passa o fenômeno punitivo na Grã- Bretanha e nos Estados Unidos a partir dos anos 1960.276

A perspectiva teórica aqui adotada diferencia-se das dos quatro casos indicados, por motivos diversos. Apesar disso, tais exemplos apontam não apenas para a óbvia importância de uma abordagem historicamente contextualizada da punição, mas principalmente para o potencial das análises que consideram dentre suas variáveis os diversos elementos econômicos, culturais, políticos e sociais que se relacionam de diferentes maneiras na constituição da face punitiva de um dado sistema de controle social.

2.1.1 – Repressão e punição

Repressão e punição, segundo a perspectiva aqui adotada, não são conceitos mutuamente excludentes. Repressão é entendida como uma forma essencialmente ilegítima de punição. Consequentemente, repressivos seriam os mecanismos punitivos de regimes ilegítimos, como as ditaduras, independentemente de estarem em conformidade com a legislação por eles imposta. Evidentemente não se trata de obscurecer a violência promovida por Estados democráticos, mesmo porque, como já observara Gramsci, coerção e consenso são características intrínsecas dos mais diversos tipos de regimes políticos, variando apenas a intensidade aplicada em cada contexto a cada um desses elementos, indissocialmente vinculados por uma “relação de unidade-distinção”.277 No caso do Brasil do século 20, por

274 RUSCHE, Georg; KIRCHHEIMER, Otto. Pena y estructura social. Trad. Emilio García Méndez. Bogotá:

Editorial Temis, 1984 [1939].

275 FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Trad. Raquel Ramalhete. Petrópolis, RJ: Vozes,

1987.

276 GARLAND, David. The culture of control... op. cit; Id. Punishment and modern society... op. cit. 277

A relação entre coerção e consenso em Gramsci já foi apontada na Introdução. Ressalto apenas que, assim como em trabalhos anteriores, considerarei a punição (e, consequentemente, também a repressão) como “uma manifestação da coerção”. Cf.: MANSAN, Jaime Valim. Os expurgos na UFRGS... (2009). op. cit. p. 37.

2. REPRESSÃO

exemplo, a relativa estabilidade da ordem social foi em grande parte garantida por uma marcante instabilidade política. Nesse sentido, como observou Dermeval Saviani, o golpe de 1964 foi uma “ruptura política para continuidade socioeconômica”.278 Para compreender tais

nexos, é fundamental perceber as diferenças essenciais entre os períodos democráticos e ditatoriais, e a legimitidade (ou a falta dela) é a principal variável nesse sentido.

Esse conceito de repressão fundamenta-se sobretudo na perspectiva proposta por Julio Aróstegui:

Dizer que toda ordem política contém um determinado grau de exercício da força é pouco mais que uma tautologia. Mas o uso legítimo da força desde o Poder está vinculado, obviamente, à legitimidade desse mesmo poder. O Poder legítimo, o poder baseado no mandato [d]e representação concedido pelos governados (…) tem instrumentos para o exercício de governo que não deixam de incluir a violência, a coerção. Porém, o uso da força para além dos limites concretos da legitimidade na manutenção da ordem social nos situa diante da existência da opressão e da repressão como fenômenos específicos de certos mecanismos de dominação. (…) Dessa forma, associamos a repressão como fenômeno sociopolítico às ações de controle empreendidas desde alguma forma de Poder (não necessariamente o estatal) carente de legimitidade para obrigar, aos que estão sujeitos a ela, a determinadas condutas, através da ação efetiva ou da ameaça explícita da violência.279

Nas punições, inclusive em suas formas repressivas, é possível identificar diferentes camadas temporais, mesclas de inovações próprias de uma determinada época com práticas sedimentadas ao longo dos séculos. No Brasil da segunda metade do século 20 não era diferente. Nas salas de tortura espalhadas de norte a sul do país, técnicas relativamente modernas, como choques elétricos e o chamado “soro da verdade” (pentotal sódico), eram utilizadas com afogamentos simulados e pau de arara, métodos adotados desde muito antes de 1964:

278 SAVIANI, Dermeval. O legado educacional do regime militar. Cad. Cedes, Campinas, v. 28, n. 76, p. 291-

312, set./dez. 2008.

279 Original: “Decir que todo orden político contiene un grado determinado de ejercicio de la fuerza es poco

más que una tautología. Pero el uso legítimo de la fuerza desde el Poder está ligado, obviamente, a la legitimidad de ese poder mismo. El Poder legítimo, el Poder basado en el mandato y representación concedida por los gobernados (…) tiene instrumentos para el ejercicio del gobierno que no dejan de incluir la violencia, la coerción. No obstante, el uso de la fuerza más allá de los límites concretos de la legitimidad en el mantenimiento del orden social nos sitúa ante la existencia de la opresión y la represión como fenómeno específico em ciertos mecanismos de dominación. (…) De essa forma, la represión como fenómeno sociopolítico la asimilamos a las acciones de control emprendidas desde alguna forma de Poder (no

necesariamente el estatal) carente de legitimidad para obligar a los que están sujetos a él a determinadas conductas bajo la acción real o la amenaza de la violencia explícita”. ARÓSTEGUI, Julio. Coerción, violencia, exclusión... op. cit. p. 42; 49.

2. REPRESSÃO

A tortura é comum em nosso país desde sempre. Essa prática nefanda, verdadeira herança maldita, trazida pelos portugueses “educados” nos métodos da dita sagrada Inquisição, permanece até hoje, passando por Colônia, Império, Independência, República, ditaduras e imperfeitos Estados de Direito, com governos de todos os tipos. Os indígenas, os hereges ou infiéis, os negros escravos e descendentes, os “vadios”, os marginais de toda sorte, os internos nos manicômios, os “subversivos” e opositores políticos, os presos ditos “comuns”, os pobres em geral, os não