Esse subcluster (GRAF.9) possui sites que desenvolvem trabalhos no sul e planalto central do Brasil. É mais heterogêneo que a1, seus integrantes não têm a mesma militância política associada à ideologia marxista e sim uma militância ambiental que não entra em política e direitos humanos. Esse subcluster tem a presença de muitas ONGs da ecologia profunda: os sites do Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, da Agência de Notícias de Direitos dos Animais (ANDA), da internacional People for the Ethical Treatment of Animals (Peta), que também milita pelos animais e a Rain Forest Foundation, que apoia a criação de territórios indígenas nos países tropicais.
GRÁFICO 9 – Agrupamento à direita dentro do cluster de ecologia social
O regime informacional que percebemos nesse cluster é ancorado mais em informações em defesa da natureza e dos animais (muitos atores classificados como ecologia profunda) do que dos direitos dos humanos. Suas agendas incluem eventos e campanhas para arrecadação de doações.
Esse cluster está bem mais próximo do cluster com predominância de economia verde que o subcluster a1, descrito anteriormente. O que é índice dos diálogos da ONU com diversas instituições ambientalistas do Brasil.
Os dois sites mais referenciados são Inga e o site da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica (RBMA). Inga é uma ONG socioambientalista fundada por biólogos em 1999, com sede em Porto Alegre, que desenvolve projetos locais na bacia do rio Uruguai e divulga questões nacionais, como a luta pelo veto ao código florestal. Incentivam a valorização de produtos da culinária nativa em parceria com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).
As ONGs do sul do Brasil, em destaque, são o Instituto Econsciência81, fundado em 1990, em Porto Alegre, que se diz “de caráter ambientalista, científico, cultural e educativo”. Embora o caráter ‘cultural e educativo’, foi classificado como ‘ecologia profunda’, por ter como ação principal um projeto de conservação em área particular e por ter seu design voltado para insetos e natureza. Outro blog conservacionista, que apoia o movimento contra agrotóxicos no sul do Brasil, é do ambientalista Darci Bergman82, da Associação São Borjense de Proteção ao Ambiente Natural, no Rio Grande do Sul.
O Portal da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica é o site da instituição que administra a maior área de reserva florestal do planeta, do Rio Grande do Sul ao Ceará, reconhecida pela UNESCO em cinco processos distintos de 1991 a 200283. (Isso também comprova a ligação desse subcluster com os trabalhos da ONU). Funciona em rede com outras reservas das biosferas do Cerrado, Pantanal, Caatinga, Amazônia e o cinturão verde de São Paulo. Com recursos da ONU, desenvolvem o ecoturismo, recuperação de nascentes e possuem acervo de informações biológicas sobre os biomas, de caráter notadamente conservacionista.
A lista de links tem instituições internacionais como WWF, Conservação Internacional e IUCN, e outras bem locais, como a Fundação Matutu e o grupo ambientalista baiano Gambá, talvez o que explique sua localização mais conectada dentro do cluster da ecologia social, e não da ecologia profunda ou economia verde.
81 Disponível em: <http://econsciencia.org.br/site/index.php>. Acesso em: 15 nov.2012. 82
Disponível em: <http://darcibergmann.blogspot.fr/>. Acesso em: 15 nov. 2012.
Outra conservacionista inserida no cluster da ecologia social é a Agência de Notícias de Direitos dos Animais (ANDA), que se intitula ‘o maior portal de notícias sobre animais do mundo’. Os conteúdos são principalmente denúncias contra maus-tratos e apelos pela adoção de animais. Na mesma linha editorial, mas mais voltado para o vegetarianismo, o site da ONG canadense People for the Ethical Treatment of Animals(Peta) não possui conexão com a ANDA. Seu site faz campanhas internacionais e a estrela principal é Paul McCartney. São contra o uso de golfinhos em shows de entretenimento e contra a criação industrial de frangos do Mc Donald’s. Os discursos dessas duas ONGs lembram o que diz Latour sobre o primeiro imbróglio da Ecologia Política – ela quer falar da natureza, mas acaba falando de porcos, galinhas e vacas (Cap. 2, p. 18).
A Rain Forest Foundation84 é uma ONG conservacionista inserida no cluster de ecologia social (agrupamento da direita) que utiliza imagens de paisagens das florestas tropicais em seus processos de convencimento. Foi fundada em 1989 pelo cantor Sting e a maior vitória foi a homologação das terras indígenas Kayapós no Brasil, em 1993, pelo presidente Fernando Collor. Trabalham em mais de 20 países da África e Américas Central e Sul. Publicam, nos relatórios anuais, os nomes de todos os doadores, separados entre individuais e empresas, e os valores das doações. Isso é uma forma de agregar valor aos processos semióticos de convencimento, para transformar o sujeito informacional em doador, que se sentirá motivado vendo que outras pessoas já aderiram. Isso se traduz em uma receita concreta, em 2009/2010, que chegou a movimentar mais de um milhão de dólares85 que são utilizados conforme descrito nas planilhas de gastos publicadas pela ONG, outras estratégia de agregar o valor da transparência a suas ações. Os links e campanhas para doação são um elemento de repetição constante nos sites classificados como ecologia profunda.
A maior parte dos trabalhos da Rainforest consiste em educação e empoderamento de lideranças indígenas. Isso pode ser compreendido como um processo de semiose onde os índios passam a ter noções do valor cultural e econômico de seus territórios e se tornam mais capazes para pressionar esferas de decisão nacional, motivados por um ator internacional. Segundo o presidente Todd Crider, com essa estratégia conseguiram conservar 28 milhões de hectares de florestas. Embora tenha conteúdos muito bem produzidos e ilustrados, não há atualização dinâmica de notícias, a média é de uma por mês86. Seu trabalho de formação de lideranças junto aos kayapos deu ao cacique Raoni projeção internacional, enquanto na mídia nacional brasileira ele não tem espaço, o que
84 Disponível em: <http://www.rainforestfoundation.org>. Acesso em: 20 dez. 2012. 85
Disponível em: <https://www.box.com/s/yz4oipy2k211gli5u015>. Acesso em: 20 dez. 2012.
comprova que assuntos pautados por essas pequenas vias informacionais da ecologia social funcionam como promotores de uma determinada causa, via outras instituições internacionais que estão atentas, mas ainda não têm muita repercussão em mídias de massa. A localização da Rain Forest pode ser explicada no cluster de ecologia social por manter aberta essa via informacional local/global, entre territórios indígenas brasileiros e interesses estrangeiros.
Os actantes da ecologia profunda são os mais dispersos na rede, imiscuídos em comunidades da ecologia social e da economia verde. Outra ONG que promove fluxos de informação em território locais e globais é a Friends of Earth Internacional, que se denomina a maior rede ambiental do mundo. São 74 grupos nacionais membros e cerca de 5 mil grupos de ativistas locais em todos os continentes, com mais de 2 milhões de membros. Incentiva a participação virtual:
With one simple email, wich takes no more than a couple of minutes to send, you can make a difference to the lives of people across the globe struggling against a multitude of injustices. [...] What difference can one email make? A whole lot when added to thousand of others emails from around the world making the same demands. The more emails, the louder voice of protest becomes and the more difficult it is to ignore.87
Isso comprova que a ONG tem uma estratégia informacional de gestão da natureza em que tenta transformar o usuário desinteressado (o flaneur descrito por Manovich – ver Cap. 3 p. 51) em alguém engajado. O convite não significa apenas um simples e-mail, necessário para atender ao apelo do take action. É preciso se cadastrar, ter um login e uma senha, ou seja, o usuário estabelece uma conexão com o site, que pode resultar na assinatura de uma newsletter. Portanto, o apelo que pode parecer desinteressado, em troca de uma causa da natureza, se transforma num engajamento mais sólido entre sujeito informacional e a instituição que o acolhe.
As notícias são escritas por uma equipe de jornalistas profissionais, com atualização quase diária, o que comprova que essas vias informacionais já são bem construídas. As mensagens são replicadas em diversos idiomas.
Embora a gestão dessa ONG seja empresarial e seus fins conservacionistas, os temas das campanhas são tipicamente da ecologia social, como o Word Food Day, um dia para lembrar que quase um bilhão de pessoas passam fome no mundo, apesar da comida produzida ser suficiente, mas não há boa distribuição. Campanhas para encontrar ativistas
87 Disponível em: <http://foie.org/en/who-we-are>. Acesso em: 15 dez. 2012. Com um simples e-mail, que
não leva dois minutos para enviar, você pode fazer a diferença para a vida das pessoas, no mundo, que lutam contra uma infinidade de injustiças. [...] Que diferença pode fazer um e-mail? Quando adicionado a milhares de e-mails de outros, fazendo as mesmas exigências. Quanto mais e-mails, a voz de protesto fica mais forte e torna-se mais difícil ignorar. (Tradução nossa)
desaparecidos, como a One year on, where is Sandra?, sobre o sumiço de Sandra Galeggo, uma ativista da ONG na Guatemala.
Mas, há um caso nesse subcluster de ‘desconexão internacional’. A Fundação Gaia, criada em 1987 pelo ambientalista José Lutzenberger (1926-202), não está conectada à importante Gaia Foundation. Ministro do Meio Ambiente no governo de Fernando Collor (período em que o Brasil decretou o maior número de áreas protegidas e territórios indígenas, no auge da conferência de 1992 no Rio de Janeiro), Lutzenberger pregava a chamada ‘agricultura ecológica regenerativa’, contra os transgênicos e contra a ecologia profunda. Embora ele tenha sido co-fundador da Gaia Foundation88 em meados dos anos 1980, junto a Vandana Shiva e outros ambientalistas, percebe-se que a fundação Gaia no Brasil tomou um rumo bem local, não tem projetos em comum com instituições internacionais, nem há conexão entre elas na rede (a Gaia Foundation está localizada no cluster K, como veremos adiante, conectada no Brasil ao Movimento Evolutivo Pacto de Resgate Ambiental89).
Entre os sites da economia verde no cluster a2 (GRAF.10) está o site O Eco, de uma associação de mesmo nome dirigida pelos jornalistas Sérgio Abranches, Kiko Brito e Marcos Sá Correa, que se desponta na rede como um ego desse subcluster. Desde 2004, já publicaram mais de 20 mil matérias. Sua estrutura de funcionamento pode ser considerada empresarial, se comparada à estrutura de alguns blogs citados anteriormente, que funcionam quase que só em ambiente virtual. Têm editores, fotógrafos, gerente de projetos, repórter, colunistas, entre outras especialidades, que faz o expediente do site parecer o de uma revista especializada. É parte da Guardian Environment Network, rede de blogs em torno do tema ambiental que têm seus conteúdos destacados pelo jornal The Guardian. O site não pede doações e declara que recebe verbas de várias instituições nacionais e estrangeiras. Pode ser considerado o site mais estruturado entre os brasileiros, em termos jornalísticos e um emissor de novas ideias – da economia verde – entre actantes da ecologia social e da ecologia profunda.
88
Disponível em: <http://gaiafoundation.org>. Acesso em: 15 dez. 2012.
GRÁFICO 10 – Rede egocentrada no site O Eco
Fonte: Dados da pesquisa
A presença desse ator nessa localização confirma a tendência do movimento ambientalista de começar a versar mais sobre o tema da energia, clima, planejamento de cidades e desenvolvimento sustentável. A ONU é constantemente citada de forma positiva em reportagens. Os títulos denotam as famílias semânticas que reforçam a gestão da natureza da economia verde: ‘Economia verde é retorno garantido’, ‘ECO92 à Rio+20: parte III, a utopia amaina, mas persiste”, “Operação onda verde varre desmatamento da Amazônia”. Em defesa da economia verde, Sérgio Abranches (2008, on-line) afirma: “O século XX morreu e, com ele sua indústria e sua principal fonte de energia”90. E, no artigo que avaliou a Rio+20, a seguinte frase reforça a controvérsia do conceito:
A dita nova “economia verde”, de baixo carbono, em boa medida sustentada na combinação de novas tecnológicas e crescimento econômico fundamentado na redução da pressão sobre os recursos naturais e os serviços ambientais do planeta, valorizando-os, é outro promissor avanço dos últimos tempos. Mas, sem qualquer ceticismo quanto às suas potencialidades, é necessário reconhecer que estas não
90 ABRANCHES, Sérgio.
Da crise sairá a nova economia. 2008. Disponível em:
<http://www.oeco.com.br/sergio-abranches/19904-da-crise-saira-a-nova-economia>. Acesso em: 12 jan. 2013.
andam par e passo com a expansão do consumo mundial decorrente da justa inclusão de milhões de pessoas à economia de mercado, como acontece no Brasil, Índia e China, por exemplo. (MILANO, 2012, on-line)91