Embora tenhamos optado por uma união dos sites de ecologia social e ecossocialismo marxista em apenas uma categoria – ecologia social – os ecossocialistas marxistas naturalmente se posicionam mais agrupados em a1. Em comum, todos os actantes descritos a seguir tratam em primeiro plano a questão da agricultura familiar, sendo a questão ambiental/ecológica abordada de maneira transversal.
GRÁFICO 7 – Agrupamento ecossocialista marxista no cluster de ecologia social
Fonte: Dados da pesquisa
Mais à esquerda, acima, está o site do Midia Independente. Esse coletivo se declara uma rede ‘anticapitalista de produtores de mídia autônomos e voluntários’. É utilizado para articular protestos de movimentos sociais, como os ‘sem terra’, pessoas deslocadas por barragens e indígenas. O site está nos idiomas português, espanhol, inglês e esperanto. Mesmo sendo sua localização um pouco marginal em relação ao cluster A, a presença desse site na rede significa que o tema da preservação ambiental tem sido incorporado aos assuntos dos movimentos sociais (de direitos humanos) e na cobertura independente de mídia, o chamado ‘jornalismo cidadão’.
Já em posição central, nessa ala direita do cluster de ecologia social, estão os sites de ideologia marxista. Embora não haja grandes autoridades informacionais no cluster A, ressaltamos em a1 a presença do MST, Comissão Pastoral da Terra Nacional e Via Campesina.
A Comissão Pastoral da Terra (CPT) atua no Brasil desde 1975. Trabalhou com os atingidos pelos fazendeiros da Amazônia e luta junto a lavradores contra a violência. Publica anualmente o relatório Conflitos no Campo65 no Brasil, sobre a escravidão e mortes de camponeses em disputas de terra (seu conteúdo mais importante), que pode ser considerada a publicação mais oficial desse grupo de actantes. O relatório conta que, de 2010 para 2011, o número de assassinatos diminuiu de 34 para 29. E ressalta que, dentre eles, apenas dois casos repercutiram na mídia, o casal José Cláudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo, no Pará, e o cacique indígena Nísio Gomes no Mato Grosso do Sul. O que comprova que esses atores estão atentos para as reações, nas mídias e sociedade, das informações que emitem.
Podemos considerar esses signos, dos mártires anônimos, como um representâmen com ausência da força do objeto, pois esse objeto não foi explorado pela mídia na essência do seu drama. É uma espécie de signo degenerado.
O texto denuncia que o governo Lula, ‘desenvolvimentista’, seguido pela Dilma, considera indígenas, quilombolas e movimentos sociais como ‘entraves’ ao progresso. Em 2011, foram mais de 600 mil conflitos no campo, entre assassinatos, trabalho escravo e super exploração. O Brasil tem mais de 851 milhões de hectares de terra66. Os conflitos de terra geralmente se passam no interior, nos chamados ‘sertões’, e segundo esse relatório, eles se dão em 14 milhões de hectares e envolvem mais de 600 mil pessoas, segundo a CPT. Mas, do ponto de vista ‘desenvolvimentista’, 29 assassinatos podem parecer pouco, por exemplo, frente a mais de 13 mil mortes por acidentes de trânsito no país por ano. E 14 milhões de hectares não correspondem nem a 2% da área total do país
Outra organização transnacional que trabalha a temática ‘conflitos de terra’ é a Via Campesina, fundada na Nicarágua, em 1992, que desde então se autodenominam o mais forte movimento social dos campesinos no mundo. Começou reunindo 84 instituições em 18 países da América Latina e Caribe e atualmente reúne cerca de 150 instituições de países da África, Europa, Ásia e América67. Surgiu como fruto de uma melhor estruturação de povos indígenas dos Andes, que se uniram ao levante zapatista em Chiapas, no México, e às marchas e guerrilhas cocaleras na Bolívia, entre outras injustiças sociais seculares na América do Sul e Central, como as revoltas indígenas no Peru e Equador. No Brasil, a Via Campesina é ligada aos movimentos pela reforma agrária e ao MST e o seu trabalho
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A versão de 2011, disponível em: <http://www.cptnacional.org.br/index.php/component/jdownloads /finish/43/274?Itemid=23>.
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Considerando que o pais tem 851.487.659.900 km2, conforme o censo do IBGE.
transnacional pode ser percebido nos sites mantidos em inglês, português, francês e espanhol, o que demostra a articulação internacional.
O Movimento Anti-Barragem (MAB)68 atua desde os anos 70, época da construção das hidrelétricas de Itaipu, bi-nacional com o Paraguai e Tucuruí, no Pará a favor das famílias que são deslocadas de suas vilas de origem. Pode-se dizer que, nos últimos trinta anos, com ajuda internacional e aliados ao MST e à Via Campesina, houve um avanço nas indenizações e processos de mudanças de populações durante construções de hidrelétricas. Seu site é espaço de denúncia:
O MAB denuncia que nos últimos dias a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (CODESVASF) expulsou famílias, destruiu suas casas e ameaça expulsar centenas de famílias das Colonizações da região atingida pelo Projeto Gurutuba, na região norte de Minas Gerais. (MAB, 2012, on-line)
Nos títulos das reportagens do site do MAB (e de outros atores de a1) a ocorrência de notícias de conflitos sociais pode ser considerada um padrão informacional que reforça a existência do esforço de gestão da natureza pela ecologia social: “Camponeses e operários lançam Manifesto sobre as concessões do setor elétrico”; “Moradores de comunidade bloqueiam transamazônica para exigir medida de segurança contra acidentes”; “O agronegócio é o grande inimigo do Brasil e da democracia”; e “Guerra no Xingu” são índices de intensa luta política. São promovidos seminários de conscientização nas comunidades atingidas por barragens com toda sorte de acompanhamento jurídico, psicológico e social.
Outro site bem referenciado em a1 é o Brasil de Fato, dos jornalistas Heitor Scalambrini, Elaine Tavares e João Brant. Pautam fatos ignorados pelas grandes mídias e, assim como também é prática nos circuitos de informação em rede do CPT, realizam cursos de formação ‘ideológica’ dos jornalistas e simpatizantes69. Suas matérias se transformam em memes nos outros sites desse subcluster.
Ainda no subcluster a1, encontramos o blog Censored News70, do movimento de resistência indígena norte-americano, feito pela jornalista Brenda Norrell (GRAF.8). Ela trabalha na divulgação de informações para populações nativas há mais de 30 anos. Na rede, a importância desse blog é grande pois conecta os subclusters a1 e a2 da ecologia social, sendo referenciado pelo site Ingá.
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MOVIMENTO DOS ATINGIDOS POR BARRAGENS – MAB. 2012. Disponível em: <http://mabnacional.org.br/>. Acesso em: 23 set. 2012.
69
Disponível em: <http://www.brasildefato.com.br/cursos>. Acesso em: 30 out. 2012.
GRÁFICO 8 – Relações da actante Brenda Norrell
Fonte: Dados da pesquisa
A contradição entre desenvolvimento econômico e conflitos de terras indígenas e quilombolas é controvérsia recorrente no cluster A. O EcoDebate, também bem referenciado por outros sites, é coordenado pelo ambientalista Henrique Cortez e funciona desde agosto de 2005. São 30 colaboradores que alimentam o boletim diário por e-mail para mais de 8.200 pessoas, com até 18 matérias por dia. Os fluxos de conhecimento processados por esse site se originam no mundo da vida, repercutem em vias informacionais já instituídas e refletem em novas publicações. O boletim diário e sua alta receptividade é signo da existência do regime de informação da ecologia social, é uma via já demarcada e utilizada.
O processo de significação se desenvolve assim: Henrique faz a seleção das informações a partir de interações do grupo em lista de discussão fechada. Como os participantes possuem outros engajamentos sociais e profissionais, isso possibilita a ampliação das vias para os fluxos de informação, não só das informações que são selecionadas, mas também da replicação do boletim em outros ambientes informacionais. Há ainda os colaboradores que não participam dessa lista de discussão fechada, como o caso de dois pesquisadores da Embrapa, que enviam dois artigos por mês.
Continuando o processo, dependendo da repercussão, assuntos já divulgados podem ganhar novas abordagens. Foi o caso da Rio+20. O EcoDebate publicou mais de 400 textos desde um ano antes sobre a conferência, configurando um padrão de repetição informacional. Mas, a cobertura foi mais voltada para a Cúpula dos Povos e os eventos paralelos, onde estavam as ONGs, centros de pesquisas e universidades, do que para o próprio evento oficial. O que denota que o discurso oficial da ONU não foi muito absorvido, embora negado, entre os atores da ecologia social.
A equipe de Henrique produz a revista “Cidadania e Meio Ambiente”, bimestral, com 30 mil exemplares distribuídos gratuitamente, que teve número especial para a Rio+20, outro signo de que existe uma via informacional instituída no regime informacional da ecologia social. Segundo Cortez71, o público alvo são “dirigentes, funcionários das áreas de Comunicação, Responsabilidade Social e Meio Ambiente, professores e alunos do Ensino Médio e militantes dos movimentos sociais e membros do Ministério Público”: todos os sujeitos informacionais potencialmente prontos a reagir, validar e ou transformar a mensagem recebida.
A revista é produzida em parceria com a Câmara de Cultura72, Organização da Sociedade Civil de Interesse Público(OSCIP) que possui patrocínio do governo brasileiro e da Eletrobrás – Centrais Elétricas Brasileiras S.A, a principal empresa de energia do Brasil, parceira da Eletronorte na construção da usina de Belo Monte. Isso, por si só, representa uma controvérsia. O EcoDebate critica em vários artigos73 a construção da usina de Belo Monte, por outro lado, a Câmara de Cultura, co-produtora da revista Meio Ambiente e Cidadania e parceira do EcoDebate, é patrocinada pela Eletrobrás. Questionado sobre isso, Cortez respondeu:
Essa é uma equação complicada no jornalismo, é evidente que você vai ter anunciantes que conflitam com o que você publica, mas isso é saudável na medida em que há conflito. Por exemplo, se você não alinha sua linha editorial com a do anunciante, é positivo, você afirma a sua independência Nenhum dos nossos anunciantes nunca tentou pressionar, ou censurar, ou alguma coisa parecida (informação verbal)74
Isso é um conflito pragmático, uma controvérsia, pois ao mesmo tempo que o jornalista afirma que a pauta não se adapta ao patrocinador, nos faz questionar porque o patrocinador aceita pagar a promoção dessa discussão. Esse fato comprova a tese de Venturini (2012a, p. 5) que os opostos sempre estão em diálogo próximo, para se contraporem.
Dois ativistas que participam do EcoDebate e possuem seu próprio blog são Telma Monteiro e Rogério Almeida. “Energia elétrica, ambiental e socialmente limpa” é o slogan do blog de Telma, ‘pesquisadora independente na área de energia elétrica e infra-
71 Henrique Cortez, em entrevista por skype para essa pesquisa 72
Disponível em: <http://camaradecultura.org/>. Acesso em: 9 dez. 2012.
73
Veja as matérias: “Entidades manifestam seu posicionamente contra Belo Monte e contra a discussão de condicionantes/mitigação”. Disponível em: <http://www.ecodebate.com.br/2012/03/26/entidades- expressam-seu-posicionamento-contra-belo-monte-e-contra-a-discussao-de-
condicionantesmitigacoes/>. Acesso em: 9 dez. 2012; e “Belo Monte e seu rastro de caos e destruição”. Disponível em: <http://www.ecodebate.com.br/2012/04/19/belo-monte-e-seu-rastro-de-caos-e- destruicao/>. Acesso em: 9 dez. 2012.
estrutura na Amazônia’, segundo seu perfil no Twitter75. Ela divulga textos opinativos contra as construções das hidrelétricas de Belo Monte, Santo Antonio e Jirau e Complexo de Tapajós e coloca o tema da geração de energia de um ponto de vista social.
Telma demonstra boa articulação com os movimentos sociais organizados contra as grandes obras desenvolvimentistas na Amazônia. Tem uma lista de links recomendados, entre eles o blog Língua Ferina, escrito desde 2007 por Cândido Cunha Neto, engenheiro agrônomo que vive em Santarém, no Pará, o que significa a sua boa interação nos ambientes digitais da ecologia social.
O blog de Cândido Neto é de tom bem opinativo, é mais uma voz na rede de formação de crenças contra as hidrelétricas e a exploração dos povos indígenas, com notícias locais. Segundo ele, sua preocupação é “escrever e acompanhar alguns problemas agrários, ambientais e sociais que surgem a cada momento por toda a Amazônia”76. Ao visitar seu blog, notamos que ele comenta também fatos globais, com reportagens, por exemplo, sobre a política nacional, revolução no Egito, Wikileaks etc. A linha editorial nem sempre é clara em blogs autorais, mas por outro lado, essa diversidade entre assuntos locais e globais coloca o ambiente informacional em vias bi-direcionais, como uma ponte entre pequenas localidades e o mundo.
Os blogs de Candido Neto, Rogério Almeida e Telma Monteiro, enquanto colaboradores e replicantes de conteúdos do EcoDebate, são exemplos do que pode ser o diagrama da liquidez dos atores no fluxo magmático dos fenômenos sociais que se processam nas redes (explicado no capítulo teórico). Muitos nós podem se fundir em um só, e ao mesmo tempo uma explosão de conflitos em um mesmo nó pode desmembrá-lo em outros (VENTURINI, 2012a, p.13).
Em a1 temos as católicas Cáritas e Adital. A Cáritas é uma instituição ligada a igreja católica, que promove eventos e assistência social. Seus principais focos são sociais: direitos de trabalhadores domésticos, economia solidária, demarcação de terras indígenas, entre outros. Por terem uma boa estrutura física, promovem eventos e encontros, como a 3ª Jornada Franciscana pelos Direitos Humanos. Em 2012, apoiaram 16 ‘projetos de solidariedade’ no Brasil77. No Peru, empregam biólogos e cientistas sociais que trabalham junto as populações locais a fim de minimizar os impactos do garimpo78 e deslocamentos de populações, como é o caso da entrada dos haitianos no Brasil pela floresta
75 Disponível em: <https://twitter.com/search/%40TelmaMonteiro>. Acesso em: 9 dez. 2012.
76 Disponível em: <http://candidoneto.blogspot.com.br/2011/12/lingua-ferina-4-anos.html>. Acesso em: 8
dez. 2012
77 São projetos relacionados a terra, meio ambiente, agroecologia, formação de lideranças, saúde
indígena, atividades religiosas etc.
amazônica.79Nesse sentido, a Cáritas também se constitui um ambiente informacional que dá visibilidade para assuntos locais em vias de informação transnacionais.
Ligado à Cáritas está o site Racismo Ambiental, outro ator mediano de a1. Instrumento de comunicação para o grupo de trabalho (GT) ‘Combate ao Racismo Ambiental’, criado em 2005 no encontro da Rede Brasileira de Justiça Ambiental, o site começou a ter uma rotina de mais de cinco publicações diárias em 2009. Os conteúdos são informações sobre os conflitos e processos políticos de resistência por entidades e indivíduos.
O blog do GT é mantido por Tânia Pacheco que, salvo feriados, sábados e domingos, envia para mais de 200 e-mails cadastrados dois boletins diários com notícias recebidas dos colaboradores. Ao todo, são 60 entidades, a maioria pequenas associações que lidam com problemas de racismo em vários estados que enviam e recebem informações para formar essa publicação. Na Carta de Fortaleza, assinada por todas essas entidades, a injustiça social e ambiental simboliza a “disputa pelo território e capitalismo”:
De um lado, eles evidenciam as diversas formas de violência que vêm sendo enfrentadas pelas populações tradicionais; de outro, dão conta também da rica resistência que elas estão estabelecendo frente aos que buscam dizimá-las em nome de um suposto “progresso”, social e ambientalmente injusto. Esse processo tem culminado na constituição dessas populações como sujeitos políticos, na luta pela garantia dos territórios, autonomia e soberania dos povos. (PACHECO, 2012,
on-line)80
O Racismo Ambiental é próximo, no gráfico, ao Fórum Carajás, rede de entidades do Maranhão, Pará e Tocantins que promovem atividades de sensibilização da opinião, como formação de lideranças e audiências públicas. Segundo o site, o fórum surgiu em 1992 como resposta aos grandes projetos de mineração. São articulados com entidades não-governamentais da Alemanha e outras regiões do Brasil e do mundo. Com escritório em São Luiz do Maranhão, seu site divulga notícias de vários outros pequenos jornais, movimentos sociais e comunidades, sempre no sentido de dar voz às populações tradicionais, mas conectado com a esfera transnacional, se transformando em um tradutor de pequenas vias informacionais, locais, para contextos nacionais e internacionais.
A interação entre vias de informação internacional e local é percebida pelos títulos das reportagens: “Projetos de irrigação fracassados perpetuaram a seca no Maranhão", do Jornal Pequeno; "Solidariedade internacional pela tribo dos Awá do Maranhão", da ONG Survival International, além de uma matéria sobre as quebradeiras de coco babaçu, que hoje vendem seus produtos para outros países, como Itália e Estados Unidos, redigida pela Articulação Nacional de Ecologia. Isso comprova que os regimes de
79 Disponível em: <http://chipebra.sertaobras.org.br/>. 80
PACHECO, Tânia. Combate racismo ambiental, 2012. Disponível em:
informação que fazem a gestão da natureza pelo viés da ecologia social são vitrines para expor a realidade local em espaços internacionais.