Ao tratarmos sobre o ECA e as Instituições que implementam as Políticas Sociais direcionadas às crianças e aos adolescentes tidos como autores de atos infracionais, faz-se necessário registrar que a violação de direitos vem se efetivando por parte da própria Fundação Estadual do Bem Estar do Menor (FEBEM).
Este fato é ressaltado pelo jornal “Folha de São Paulo”, de 17/04/03, (ANEXO C), onde se vê estampado que a “Febem ignora lei e manda menor para a prisão”, ou seja, sem autorização da justiça, a Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem) transferiu 240 internos com idade superior a 18 anos da unidade Franco da Rocha, na região metropolitana de São Paulo, para quatro presídios comuns. O ocorrido em São Paulo, vê-se reproduzido similarmente em outros Estados do país, como os casos de espancamento e outros processos coercitivos, como explicitam adolescentes privados de liberdade no CEDUC:
Porque os policiais, quer bater na pessoa, como já teve policial que bateu em mim e em outros menino, ali, toda a vida que nós desce pro almoço, pra revistar, eles ficam soltando piada. Fica dizendo que você nunca mais vai se ajeitar, que é vagabundo, que é isso, é aquilo, fica gritando, dizendo: eu vou isolar tu, vou deixar tu algemado na grade, quando vai revistar a pessoa, dá um chute com os coturno velho nos pés da pessoa. (A.S.M., 15 anos).
Nesse sentido, evidencia-se claramente o desrespeito da Instituição que tem o dever de operacionalizar as medidas sócio-educativas, violando o ECA, simplesmente transferindo o problema de um lugar para outro e contrariando frontalmente o artigo 123 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), pois um presídio não é lugar adequado para receber os adolescentes como internos. Frente a esta realidade, percebe-se
claramente como são operacionalizadas e efetivadas as leis no Brasil, supondo-se total descaso por parte do Estado.
A violação de Direitos como uma das expressões da questão social revela- nos assim que a problemática das famílias dos adolescentes, reflete que o lado sombrio do processo de mundialização do capital que se expressa por uma profunda crise econômica, com custos sociais extremamente elevados. Tal crise chega a década de 90 com um profundo agravamento da questão social, afetando o mundo como um todo, e mais perversamente os países de economia periférica, como é o caso do Brasil.
Segundo Pochmann (2001), os anos 90 caracterizaram-se pelo aprofundamento do rompimento do projeto de industrialização nacional e a adoção de um conjunto de programas de ajustes econômicos iniciado nos anos 80, tais quais os programas focalistas como bolsa escola, alimentação, leite ,auxílio gás e outros.
Entendemos que a agudização desse processo aponta para a desestruturação do mercado de trabalho através do desassalariamento da população economicamente ativa e da expansão das ocupações nos segmentos não organizados, pois as razões das diferentes dinâmicas no funcionamento do mercado de trabalho devem ser buscadas no padrão de desenvolvimento adotado, no modo de inserção internacional e nas políticas macroeconômicas que afetam o nível e a composição ocupacional, os rendimentos e mesmo as novas formas de contratação e uso da força de trabalho.
Conforme destaca Pochmann (200l) , dos anos 90 para cá, mesmo após um processo de privatização, reforma do Estado e modernização nas relações do trabalho, temos um padrão salarial pior do que na era Vargas. Temos um salário de fome.
Nunca é demais reafirmar que nessa década, agudiza-se o processo de desestruturação da economia brasileira, em função de políticas recessivas, desregulação e diminuição do papel do Estado, abertura comercial abrupta e elevadas taxas de juros.
Esta realidade, se expressa nas reflexões de Lesbaupin (2002, p.36-37) quando afirma que longe de evitar os gastos com o Estado, a política de privatização implicou grandes despesas prévias, como por exemplo: investimento nas empresas antes da privatização, empréstimos de recursos públicos para as empresas realizaram a compra (em alguns casos, empréstimo de até 90% do valor da compra), empréstimo posterior à privatização (a juros subsidiados), etc.
Portanto, se o discurso do governo era de que o Estado brasileiro não dispunha de recurso porque estava arruinado, como poderia ter dinheiro para emprestar? E por que as tarifas dos serviços, ao invés de baixar, subiram drasticamente, com grande prejuízo para o consumidor, especialmente os mais pobres?
Ao se fazer esta reflexão da agudização da crise sócio-econômica e sobre o processo de reestruturação produtiva que acelerou a diminuição de postos de trabalho, resultando na precarização do trabalho e no aumento galopante dos índices de desemprego, podemos observar que este quadro se reproduz não somente em âmbito nacional, mas se vê reproduzido regionalmente, mais aguçado nos Estados mais empobrecidos e sobretudo centrado nas populações que cotidianamente sobrevivem nas periferias dos centros urbanos. Tratando-se do nosso objeto de estudo, observamos que no depoimento de uma das mães entrevistadas evidencia-se essa realidade ao fazer alusão às dificuldades enfrentadas pelo seu cotidiano, como segue:
[..] eu sei que tá muito difícil à vida, muito difícil, as coisas muito caras e tudo, mas o pior é nada, né? Pior é você não ter renda nenhuma, e todo dia você sair pra batalhar e não ter o que você comer. Eu acho que pior é isso. Como hoje, estamos nessa situação. Eu acho que é pior do que eu já vivi, porque sempre eu trabalhei, ganhava o meu salário certo, eu trazia toda semana para casa, e agora não ganho nada. ( M.S.J.S., 41 Anos).
- As Políticas públicas – os serviços sociais – as estratégias de Inclusão
Ao discutirmos a problemática do “desmonte da nação” no dizer de Lebauspin, em âmbito nacional, em nível macro, vamos perceber junto a estudiosos, dentre eles Pochmann, que o desemprego seria um fenômeno evitável, à medida que a orientação das políticas macroeconômicas não apontassem para uma inserção externa passiva e subordinada aos interesses de organismos internacionais e de países avançados.
Portanto, a política macroeconômica dos anos 90, tal como foi impulsionada, foi um dos determinantes para o processo de desestruturação da estrutura produtiva e do emprego, não enfatizando assim, o estabelecimento de uma nova base de desenvolvimento que viesse possibilitar uma efetiva geração de empregos.
Pesquisa realizada pelo IBGE/IPEA (2001), constatou a existência de cerca de 22 milhões de indigentes e 53 milhões de pobres, sendo a área social a mais atingida frente à opção neoliberal, pois foi o setor que mais sofreu cortes desde 1995, como podemos observar nos quadros 3 e 4 mais adiante:
Podemos observar claramente, através dos dados abaixo, que a cada ajuste econômico efetuado,o primeiro setor a ser atingido era o social. Entre 1995 e 2001, o investimento em saúde cai de 4,8% para 3,9%; a educação declina de 3% para 2%; em relação à habitação, permanece todo período abaixo de 0,2%; e o setor de assistência e previdência oscila de 17,15% para 14,1% até chegar a 2001 com 18,7%. A diminuição de investimentos na área social, conforme mosta o quadro 4, somada ao crescimento populacional e ao desemprego, aumentou consideravelmente o numero de pobres, vulneráveis e indigentes.
QUADRO 3
PERCENTUAL DA DESPESA SOCIAL EM RELAÇÃO AO ORÇAMENTO LIQUIDADO TOTAL 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 Saúde e San. 4,8% 4,5% 4,3% 3% 4% 3,3% 3,9% Educ. e Cultura 3% 2,8% 2,5% 2,7% 3,4% 1,8% 2% Habit. e Urb. 0,03% 0,1% 0,1% 0,02% 0,07% 0,14% 0,14% Ass. e Prev. 17,15% 19,2% 17% 14,1% 18,8% 16% 18,7%
Fonte: Dados levantados pelo INESC Lesbaupin, (2002, p. 39).
QUADRO 4
CONJUNTO DA DESPESA SOCIAL EM RELAÇÃO AO ORÇAMENTO LIQUIDADO TOTAL.
1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001
Social 25% 26,6% 23,9% 20% 26,4% 21,2% 24,8% Fonte: Dados levantados pelo INESC. Lesbaupin,(2002, p.39-40).
Portanto, os (des)caminhos para a construção de um novo projeto societário que priorize o social não tem sido tarefa muito fácil, uma vez que estamos imersos numa lógica de mercado, onde os diversos âmbitos da vida, como o trabalho, saúde, educação, habitação, a asistência, o lazer, a cultura, a afetividade perpassam pela lógica e pelo interesse do capital.
A sociedade brasileira depositou nas últimas eleições o sonho e a esperança de um novo projeto societário em que a perspectiva do governo do Presidente Luís Inácio Lula da Silva iria investir mais no social. Pochmann (2003), numa matéria da revista “Debate Sindical”, afirma que com a vitória do atual governo, abre-se uma nova perspectiva para a valorização do trabalho e que para isso faz-se necessário refundar as bases de estruturação das forças do trabalho, sendo necessário superar dois graves problemas.
De uma parte, a “conformação de um novo padrão de financiamento capaz de alavancar o crescimento econômico sustentado. Sem isso o Brasil pode vir a consolidar uma terceira década perdida”.(POCHMANN, 2003, p.11)
De outra parte, a construção de uma verdadeira estratégia nacional de inclusão social, portadora de novos mecanismos institucionais e de gestão pública, capaz de superar o atual padrão de políticas sociais cabendo, dessa forma, lançar a proposta da constituição de um Sistema Único de Inclusão Social, a exemplo do já conhecido SUS, capaz de compreender um conjunto amplo de ações verticais nas três esferas (união, estados e municípios), permitindo a integração de um amplo conjunto de políticas públicas orientadas no enfrentamento do complexo quadro da questão social no Brasil. (ibid).
Segundo Carvalho, A. (2003, p.2) é necessário termos consciência de que a mudança tem que ser estrutural, isto é,
tem que atingir as instituições fundamentais que dão a configuração básica da vida coletiva e tem como pressuposto uma mobilização nacional de forças e recursos. Do ponto de vista político, o problema básico consiste em inverter a lógica histórica do domínio do Estado sobre a sociedade civil de tal modo que a ação dos seus cidadãos possa ter primazia na condução da vida coletiva.
Para Carvalho, A. (2003, p.1) a primeira exigência da definição de um novo projeto societário da sociedade que queremos é
a negação da sociedade em que vivemos, regida pela lógica do capital e seus fetiches da mercadoria, do consumo, centrada na concorrência, no individualismo exacerbado, no consumismo. Não queremos essa sociedade marcada por desigualdades duráveis que separam, que segmentam a população entre os que podem viver e os que não têm direito à vida...sociedade de morte!...
Temos que negar essa sociedade de morte, que em nome da “paz” produz e dissemina a guerra, que em nome da globalização, “de todos”, produz e reproduz a fome, miséria e violência. Temos que negar essa sociedade que vem consubstancialmente alimentando a exclusão daqueles que já são vítimas, porque um dia estavam incluídos, ou seja, aqueles que um dia tiveram acesso a bens e serviços e que hoje não têm mais, aqueles que mesmo expulsos do campo, que numa dada época eram absorvidos pelas cidades porque precisavam de mão-de-obra para construir os grandes centros e que agora os descartam porque não servem mais ao capital. Além daqueles substratos sobrantes que nunca foram incluídos e não têm condições de se incluírem, como é o caso das famílias dos adolescentes em conflito com a lei e privados de liberdade, pois estes já são frutos da exclusão porque em momento algum foram incluídos e que historicamente foram excluídos da sociedade do conhecimento e que nunca tiveram acesso a uma vida digna.
Conforme o livro “Atlas da exclusão social no Brasil”, de Márcio Pochmann (2003), 74% dos brasileiros vivem num mar de exclusão, rodeados de poucas ilhas de incluídos. Temos hoje um imenso contingente de homens e mulheres que em nada contribuem para a acumulação do capital, que se transformaram em seres inúteis, descartáveis para ao capital. Portanto, é essa sociedade de morte que temos que negá-la.
Para Carvalho, A. (2003) o Brasil da “Era Lula” é um terreno fecundo de possibilidades e oportunidades para construir o novo projeto societário, sendo necessário compreendermos o atual governo no contexto nacional, latino-americano e no cenário internacional. Entretanto Carvalho, A. (2003, p.3) chama atenção para que se avalie com lucidez, “o cenário de possibilidades e limites desse governo na sua complexidade, após treze anos de ajuste neo-liberal e de uma eleição condicionada por um arco de alianças muito amplo, congregando interesses contraditórios”.
Enfim, até o momento o que temos é o anúncio das pesquisas que mostram que há um descompasso entre a condução da política macroeconômica e os esforços de implementação de políticas e programas específicos de inclusão. Na realidade o governo “Lula” não vem conseguindo efetivar o programa que foi apresentado a seus eleitores, dando continuidade e aprofundando a política desastrosa da chamada “herança maldita” de FHC, aprofundando o desemprego e, conseqüentemente, a questão social brasileira.
Segundo Carvalho, A. (2003, p.4), faz-se necessário fazer uma ampla análise do porque da dificuldade de mudança em nível macroeconômico, sendo necessário pontuar alguns elementos para reflexão:
Primeiro, devemos reconhecer a pesada herança de mais de 13 anos de ajuste neoliberal, sobretudo na “era FHC”, onde o atual governo recebe o país marcado por um brutal agravamento da vulnerabilidade externa; uma economia com abertura abrupta, abertura comercial sem restrição; numa posição periférica no mercado global; alto índice de “risco Brasil”; ameaça de retorno à inflação e uma gravíssima questão social.
Segundo, ter ganho as eleições para a Presidência da República foi significativo para o partido de oposição, do ponto de vista político, com a conquista de uma parcela da sociedade política, uma porção importante, mas parcial do Estado, lembrando ainda que, poder judiciário/ parlamento/ determinadas instituições estatais,
não mudaram, não fazendo parte da hegemonia da nova força política defendida pelo Governo Lula. Para Carvalho A. (2003), a sociedade civil, nos seus embates e interesses não foi desfigurada, pois ainda prevalecem em nossa sociedade os interesses do capital, confrontando-se com as forças de resistência. Não podemos negar esta tensão de uma estrutura social contraditória, mas marcada pelo domínio econômico, político e cultural das elites e paralelamente a histórica subalternidade das massas.
Terceiro, observar que em função do vasto arco de alianças e adesões, tornou-se possível o trunfo eleitoral de Lula, existindo dentro do governo uma disputa de projetos, ou seja, o projeto que defende os interesses do grande capital e o projeto que defende os interesses do trabalho. Esse governo é marcado pela contradição, essa tensão capital x trabalho.
Nesse sentido, temos que lutar por uma sociedade civil organizada capaz de atualizar-se e responder as exigências do momento. Não podemos continuar acreditando que só existe a sociabilidade do capital, temos que ter consciência da nossa responsabilidade histórica, e dar continuidade a um projeto societário que é o grande desafio e dilema na atual conjuntura.
À luz do que analisamos, a partir dos resultados da pesquisa, trazendo à tona a vida das famílias dos adolescentes privados de liberdade e a problemática que os envolve, somos levados a nos questionar e a nos indagar a cada segundo, não só pelo que observamos, mas sobretudo pelo “clamor” que ouvimos nas falas dos entrevistados.
Nesta direção, temos que continuar indignados com a sociedade que temos, com a “sociedade de morte”, temos que desenvolver nossa capacidade crítica, ultrapassar o senso comum e desenvolver nosso potencial enquanto sociedade civil organizada para podermos continuar a luta pela sociedade que queremos, uma sociedade capaz de lutar por uma sociedade de inclusão.
Nas palavras de Mercadante, a caminhada em direção a esta nova sociedade deve:
Assegurar uma cesta básica de direitos sociais que implica orientar a ação do Estado e da sociedade na perspectiva de que o combate à pobreza é combate à desigualdade social e visa a inclusão social. Para viabilizar este objetivo, é essencial o estabelecimento de um orçamento social com vinculação explícita dos recursos fiscais às políticas e programas de educação, saúde, assistência social e combate a pobreza. Dentro deste contexto, a estratégia de transição proposta envolve um esforço convergente em três planos interligados: ações emergenciais que tem o propósito de enfrentar os problemas críticos de insuficiência de renda e de precariedade de serviços sociais básicos; as políticas de retomada do crescimento econômico, a partir do qual se reconstruirão as bases materiais para a universalização das políticas públicas; e as reformas estruturais, centradas na democratização do Estado e da propriedade e na transformação do social no eixo da política de desenvolvimento nacional. (1999, p.15).
CONSIDERAÇÕES (NÃO) CONCLUSIVAS
A análise empreendida a partir do resultado desta pesquisa nos dá elementos para pensar o Brasil contemporâneo, marcado por um cenário de extremas desigualdades sociais, concentrando diversas expressões da questão social, sendo necessário compreendê-la em suas múltiplas determinações, como a miséria, a fome, o desemprego, drogas, e as várias formas de violência que atingem amplos segmentos da nossa população, particularmente as famílias dos adolescentes que cumprem medida sócio-educativa de privação de liberdade, pois diante da constatação de que a maioria dessas famílias sobrevive em condições precárias e até subumanas, observamos que a pobreza não se restringe apenas à dimensão material da existência humana, mas adentra na vida espiritual desses sujeitos, levando-nos a uma primeira síntese - essas famílias são privadas de liberdade.
As condições sociais, econômicas, políticas e culturais das famílias dos adolescentes privados de liberdade, reafirmadas pelos resultados da pesquisa, nos obrigam a refletir sobre todas as privações por elas vivenciadas e sobre as qualidades das políticas públicas desenvolvidas no Brasil, expressas nas palavras de Carvalho (1995, p.28): “Na cultura tutelar reinante em nosso país permanece uma regra difícil de ser eliminada: para pobres bastam programas pobres”.
A pesquisa evidenciou que 75% das famílias, algumas com até oito pessoas, sobrevivem com apenas um dólar por dia, o equivalente em média à RS 3,00 (Três reais) per capita. Contraditoriamente, o Estado gasta aproximadamente R$ 1.300,00 (Hum mil e trezentos reais) por mês com os adolescentes que estão privados de liberdade, desenvolvendo um trabalho sem expressão comprovada, um trabalho pontual, e um trabalho não articulado com suas famílias, não levando em consideração o seu
contexto histórico e social, mas, ao contrário reforçam a sua condição de privação, de excluído, já que também não se oferecem as condições mínimas de incluí-los em serviços essenciais como educação, saúde, profissionalização, entre outros, fundamentais à sua inserção social.
Parafraseando Marx (1978, p.18), diríamos, portanto, que “a ausência de medidas e as desmedidas passam a ser a verdadeira medida” das políticas sociais focalistas, nas quais as necessidades dos pobres e miseráveis passam a ser reduzidas “à mais miserável manutenção da vida física, e sua atividade, ao mais abstrato movimento mecânico”.
Observamos ao longo de nosso estudo, que por parte do Estado, para implementação das políticas sociais, os recursos são escassos e os Programas destinados às populações das classes subalternas são programas focalistas. Os programas direcionados às famílias dos adolescentes privados de liberdade – sujeitos desta pesquisa – não atingem as raízes dos problemas sociais com os quais essas e outras famílias convivem, numa situação de extrema pauperização.
Esta problemática pode ser explicitada pelo que vivenciamos quando estivemos na coordenação do CEDUC – Pitimbu. Recebemos um ofício da Vara da Infância e Juventude, informando que deveríamos devolver um adolescente à sua família, uma vez que esse adolescente já havia ficado seis meses privado de liberdade, por assalto à mão armada.
Cumprindo a determinação judicial, fomos entregar esse adolescente à sua família, residente, então, na Favela do Satélite. Ao chegarmos à favela, localizamos o barraco, um lugar pequeno, sem ventilação, escuro, um cubículo, que não dava para abrigar nenhum ser humano com dignidade. À porta, uma senhora sentada, pois segundo ela estava fazendo muito calor e lá dentro era muito abafado. Ao ver o
adolescente, a mãe disse: “Meu Deus! Esse menino já saiu de lá, aqui não tem nem o que comer, é melhor que ele fique por lá, pelo menos tem comida e ele não pode aprontar”. Cumprindo a determinação judicial, entregamos o adolescente e solicitamos que ela assinasse o recebimento. Ela não sabia ler e escrever, então colocamos as digitais. Logo em seguida o adolescente nos olhou e disse: “Agora tchau, já vou embora...” e saiu correndo pelos becos enlameados da favela. Meses depois, esse mesmo adolescente retornou ao CEDUC porque havia cometido um latrocínio, ou seja, foi assaltar e acabou matando a vítima.
Tal experiência evidencia que enquanto não tivermos uma proposta de trabalho em que a família seja objeto de atenção integral e esteja envolvida numa perspectiva de acolhimento ao adolescente, estaremos realizando um trabalho infrutífero, estéril, sem resultado. Programas e projetos que integrem ações de ajuda familiar, visando ao restabelecimento de vínculos e condições de auto-sustentabilidade, são exigências que poderão garantir resultados qualitativos no processo de intervenção junto às famílias dos adolescentes privados de liberdade e em conflito com a Lei.