3 16 YÜZYIL OSMANLI DÖNEMİ SANAT HAYAT
6.3. Çadır Çeşitler
Como já vínhamos discutindo, o processo exclusão social além da forma de segregação, é uma ação de impedimento da participação de certos grupos sociais em determinados aspectos da vida coletiva, tais como o acesso ao consumo, bens e serviços. Contraditoriamente pode-se estar excluído daquilo que se constitui um conjunto de bens e serviços e ao mesmo tempo estar incluído de forma insuficiente, perversa, precária, instável, marginal que, segundo José de Souza Martins, é uma forma “indecente de inclusão”.
Portanto, percebemos que é necessário compreender a exclusão não de forma imprecisa e vazia, mas entendida como processos de exclusão integrativa ou modos de marginalização, pois o excluído não é só aquele que se encontra em carência material, mas aquele que não é reconhecido como sujeito, que não se reconhece nem atua enquanto sujeito. (MARTINS, 1997, p.16).
Seguindo esta linha de argumentação, Martins (1997, p.18) destaca:
A exclusão é apenas um momento da percepção que cada um e todos podem ter daquilo que concretamente se traduz em privação: privação de emprego, privação de meios para participar do mercado de consumo, privação de bem-estar, privação de direitos, privação de liberdade, privação de esperança. É isso em termos concretos, o que vulgarmente chamamos de pobreza.
Ainda seguindo a reflexão feita por Martins (1997), é necessário termos cuidado ao mudarmos o nome de pobreza para exclusão, pois corremos o risco de estarmos escamoteando o fato de que “a pobreza hoje, mais do que mudar de nome, mudou de forma, de âmbito e de conseqüências”.
Atualmente, não podemos dizer que pobre é só quem não tem o que comer, pois a realidade hoje da pobreza10 inclui mais do que a comida, inclui também uma negação subjetiva por parte dos pobres, existe uma dimensão moral, na medida em que os pobres não querem se reconhecer como tal. Afirma Martins, (l997, p.18) que “isso se deve ao fato de que a pobreza, no mundo moderno, é relativa. A linha que separa ricos de pobres é uma linha móvel, constantemente redefinida por uma cultura que também muda, e que define de modos sucessivamente diferentes e até contrastantes o que é a pobreza”.
Vejam o que um adolescente privado de liberdade disse a sua mãe quando a mesma soube que ele estava roubando, assaltando...
[..] Ela reagiu, reagiu, querendo meu bem, mas eu pensava que ela queria meu mal, mas minha família queria meu bem, né, eu pensava que era o mal, aí brigava, discutia com minha mãe, dizia não! Não quero sair dessa vida, que é com essa vida que vou ter alguma coisa, pensava isso, mas foi! Chegou a um ponto que comecei a sofrer e botar todo mundo pra sofrer, minha mãe, meus irmãos [..]. (E.C.S.M., 20 anos).
Nesse sentido, acrescenta Martins, a antiga pobreza oferecia ao pobre a possibilidade de ascender socialmente, a duras penas, com economias feitas à custa de muitas privações ou através da escolarização. A atual pobreza além de ter mudado de forma, de âmbito e de conseqüências, já não oferece a possibilidade de ascensão a ninguém.
10 A linha de pobreza é determinada pelo valor da renda mensal para satisfação de todas as necessidades
básicas de um indivíduo (habitação, transporte, alimentação, educação etc.), em que se consideram sem posição, abaixo ou acima desse teto mínimo. Segundo relatório do Banco Mundial (1995), sobre avaliação da pobreza no Brasil, esta resulta da grande disparidade de renda que se verifica, sobretudo no plano regional. O Nordeste possui 32,4% de pessoas abaixo da linha da pobreza, enquanto que no sul, esse percentual é apenas de 11,8%. Segundo estudos do IPEA, a linha de pobreza corresponde ao ganho de R$ 60,00/mês. (CARVALHO, 2003, p. 163).
Concordamos com o pensamento de Martins (1999, p.19) quando o mesmo afirma:
Ela cai sobre o destino dos pobres como uma condenação irremediável. É preciso, pois, saber se o uso mecânico e economicista da palavra exclusão correspondem, nas consciências das vítimas da exclusão, àquilo que nelas é juízo moral condenatório do que as penaliza, integrando-as de outro modo, e não as excluindo parcial, incompleta e insatisfatoriamente nos mecanismos de reprodução e consolidação da sociedade atual.
Podemos perceber claramente esse destino condenatório, esta privação de esperança e de possibilidades, na fala de um adolescente quando pergunto se a Instituição CEDUC tem lhe ajudado. Nesse sentido, ele anuncia:
[..] tem nada, só leva a pessoa pra trás, ou cadeia ou cemitério, pois a pessoa entra nesse mundo sabendo, se entrar a pessoa vai de vez, pensa que é bom, finda levando uma READA e acaba FUDIDO”.[...] também, porque a maioria da minha família já vive nesse mundo, aí a pessoa já nasce vendo aquilo, quando crescer só pensa em fazer besteira, já nasci vendo isso, aí já nasce vendo besteira. (...) Que tem esses problema tem meu irmão, minha mãe e meu padrasto e eu agora, né?(Adolescente privado de liberdade e de esperança, A . S . M. 15 Anos).
Para Martins (2002, p.10), a questão não é apenas gerir a distribuição de renda, como defendem muitos que se deixam conduzir pelo economicismo ideológico produzido pela mesma economia injusta e tirana, causadora da pobreza que condenamos. Na realidade trata-se da necessidade de uma distribuição eqüitativa dos benefícios sociais, culturais e políticos que a sociedade presente tem sido capaz de produzir, mas não tem sido capaz de repartir. Porém a demanda é muito mais social do que econômica.
Nesta perspectiva, é complicado reconhecer que haja desenvolvimento quando seus benefícios são acumulados muito distantes de um expressivo contingente
da população, sendo complexo pensar um modelo de desenvolvimento que exclui legiões de seres humanos de ter acesso aos frutos da riqueza socialmente produzida, como também de não participar da produção dessa riqueza. Parece-me que este é um tipo de desenvolvimento perverso, que minimiza a problemática social e econômica dos que vivenciam o processo de uma inclusão precarizada. Assinala Martins (2002, p.10) que:
[…] esse desenvolvimento torna-se difícil quando nos deparamos com a monstruosidade de desenraizamentos, desigualdades e pobrezas agravadas e acumuladas ao longo de pelo menos meio século de distorções na ação do Estado. Os esforços para reverter esses efeitos tendem a se perder na lentidão dos resultados em face de uma consciência social que, com justiça, quer e tem pressa.
Portanto, esse desenvolvimento, segundo Martins (2002, p.10-11), é atípico e não se manifesta apenas nas privações que produz e dissemina,
Manifesta-se mais ainda nas estratégias de sobrevivência por meio das quais os pobres teimam em fazer parte daquilo que não os quer senão como vítimas e beneficiários residuais de suas possibilidades.[...] Porque não nos iludamos, o capitalismo que se expande à custa da redução sem limites dos custos do trabalho, debitando na conta do trabalhador e dos pobres o preço do progresso sem ética nem princípios, privatiza ganhos nesse caso injustos e socializa perdas, crises e problemas sociais. Por diferentes caminhos, essas deformações se disseminam, penalizando a todos e não só a alguns, até mesmo os principais beneficiários desse modo de produzir e acumular riquezas, pois não podemos esquecer que é esse modelo do sistema econômico que alimenta a exclusão.
A seguir, um trecho da fala de uma mãe em busca de seu filho...
[...] Aí eu procurava ele, porque pra E.C.S.M.(seu filho) nunca teve essa proteção de menor, aí nem um de menor é conhecido que sai no jornal sem uma faixa preta nos olhos, né? Não existe isso pra E.C.S.M. Começou a sair no jornal a cara dele estampada pra todo mundo com 14 anos, como também já batiam nele. [..] Ói, nunca
respeitaram, botavam..., ele foi acusado aqui de um crime pela imprensa que ninguém, ninguém no mundo suspeitou que esse crime tinha sido E.C.S.M., a imprensa acusou, botou a foto dele no jornal ao lado do defunto, acusando ele de criminoso, ele correu risco de vida, a família correu risco, eu aqui, nós aqui, o homem que morreu morava aqui ao lado da família, eles podiam ter se juntado tudinho e ter vindo matar nós aqui.(M.S.J.S. 41 Anos, mãe do adolescente).
É evidente que além de alimentar a exclusão, os efeitos deletérios dessa situação vão conduzindo essas pessoas, essas famílias a um rebaixamento na hierarquia social, são estigmatizadas e dificilmente conseguem um caminho de volta.
Vejam a seguir como depois do estigma fica difícil não só para o adolescente, mas para a própria família conseguir trabalho...
[...] tão me prejudicando mais do que a ele, por causa de E.C.S.M., perdi o emprego, deixei de trabalhar aqui dentro de Mossoró, o povo não me dava mais emprego. Eu era conhecida aqui dentro de Mossoró, era não, eu sou conhecida. Trabalhei vinte anos aqui dentro de Mossoró, na sociedade de Mossoró, nas casas deles. Eu perdi tudo. Todo mundo me conhece, todo mundo conhece meus filhos. Perdi amizade, você sabe como o povo é falso. Ninguém tem coragem...menina, o povo é tão falso, o povo é tão pobre de espírito, que é tão difícil você dá apoio a outra pessoa. Porque eu mesmo acho que o ser humano tem obrigação de ajudar a outro ser humano, nem que seja com uma palavra de conforto, mas é tão difícil você encontrar um ser humano assim... deve haver, não sabe? Que dê uma palavra verdadeira na hora certa a você. Só depois, não tem mais precisão, quando aquilo não lhe interessa mais, você acha futuro? Mas na hora mesmo, porque a gente sabe quem é as pessoas, na hora, né? Quando eu tava brigando com o mundo todo aqui em Mossoró, todos era hora de chegar né?aqueles que realmente fossem amigos, mais não, eu particularmente trabalhei dez anos na casa dela e quando eu cheguei na loja dela, ela virou a cara pra mim... eu voltei, sabe por que? Porque eu me achei melhor do que ela e muitas pessoas, muitas e muitas e muitas que me viram a cara. (M.S.J.S., 41 anos. Mãe de um adolescente privado de liberdade).
Essa questão é extremamente complexa e exige uma reflexão crítica do que podemos chamar de excluídos e incluídos. Portanto, faz-se necessário ter clareza e compreender a sociedade como totalidade contraditória e crítica, como processo social e
histórico, faz-se necessário ultrapassar o senso comum, compreendendo as origens, as formas e expressões que manifestam continuamente os desastres sociais que perversamente tem nutrido a exclusão social a que considerável parcela da população está submetida.
Podemos aqui perceber esta realidade na fala de M.S.J.S., 41 Anos (mãe de um adolescente) quando revela que:
[..] meu sonho maior do mundo, maior de todos os sonhos do mundo, que eu queria de verdade, não era sair do sufoco, tem dia que eu não tenho o que comer, tem dia que eu tô preocupada com o outro dia com o que eu vou comer, eu não mim preocupo com isso não, eu sei que aparece, mas meu sonho mesmo, era um dia ver E.C.S.M ser respeitado aqui dentro de Mossoró, ver ele passar e alguém dizer: rapaz quem foi esse menino? E agora não quero nada demais pra ele não, só que ele volte a estudar... mesmo começando tudo de novo, começando da 1ª série, eu conheço gente de 60 anos que ta fazendo a 1ª série, um trabalho, não precisa ganhar esse dinheiro todo do mundo não, pra ele se manter, podia ser ganhando quanto fosse, uma chance de qualquer coisa, que todo dia ele saísse, tomasse o café dele e dissesse: mãe vou trabalhar, não quero saber nem em quê, se é varrendo a rua, apanhando papel, papelão, limpando loja ou engraxando sapato, eu não sei em quê não, sabe! Mas só em ver ele dizer todos os dias, mãe eu vou trabalhar, seria a minha maior riqueza que eu podia ter na vida, não é dinheiro, não é profissão, não é riqueza, não é a garantia de eu ter tudo na minha casa, na minha mesa.
O que pudéssemos aqui dizer, seriam palavras vãs diante da fala que nos permite a análise desse processo perverso de inclusão dessas populações e mais especificamente das famílias que se encontram na sua particularidade privadas de liberdade – de vida, de trabalho, de cidadania.
- A cidadania negada
Na verdade, para Martins, a sociedade que exclui é a mesma que inclui e integra, que designa formas desumanas de participação, na medida em que delas faz condição de privilégios e não de direitos. Reafirmamos esta situação quando Emerson
Capaz, que foi Secretário de Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo, num artigo da Folha afirma: Os Estados estão hoje praticando no Brasil um Robin Hoodismo às avessas, tirando dos pobres para dar aos ricos.
Coloca-se assim, um grande desafio diante da atual conjuntura: a questão da inclusão social entendida numa perspectiva de construção da cidadania, numa articulação entre direitos sociais/coletivos e deveres individuais, pois segundo afirma Zaluar “optar pela inclusão é optar por um patamar comum de identidade e pertencimento social, sobrepujando as diferenças” (1997, p.30). Nesta perspectiva, podemos questionar: O que significa de fato ser incluído numa sociedade sob uma perspectiva de cidadania e usufruto de direitos, consubstanciados em princípios democráticos essenciais ao exercício da cidadania, fundamentado na universalização de direitos?
Concordamos com Gusmão (1997, p.8), quando afirma:
A conquista da cidadania não se dará através da universalização excludente. Também não se dará sem a participação direta das organizações populares e sindicais na conquista de um ‘padrão civilizatório’. A Política de Assistência Social ou é construída com a presença popular, ou permanece no patamar residual. A defesa da Política de Assistência Social nos marcos do capitalismo neoliberal é muito importante. Mas, a nossa luta como cidadãos deve ir além da Assistência Social, na defesa da Reforma Agrária, do Emprego e dos Direitos.
Na percepção de Volpi (2001, p. 98), a luta por uma cidadania, expressa-se como segue:
O exercício da cidadania é o direito que cada cidadão tem de ter direitos a exercê-los no cotidiano através de sua ação ou da ação do Estado naquilo que lhe cabe como atribuições. Além do direto a ter direitos e do direito ao exercício, ao usufruto ou à garantia dos direitos no cotidiano, incluímos nesse conceito o direito a produzir novos direitos para dar um alcance mais dialético à nossa concepção de cidadania.
Nesta mesma direção, Tavares discute um desenvolvimento com justiça social, afirmando que:
Um processo de desenvolvimento capaz de engendrar uma sociedade mais justa e solidária representa uma ruptura com tendências históricas do capitalismo brasileiro altamente concentrador do poder, da riqueza e da renda e gerador de exclusão social de massas crescentes da população. Obter justiça social implica um novo pacto de poder político que ponha em prática os direitos sociais universais reconhecidos na Constituição de 1988 e que aceite, como tarefa permanente, o ataque às raízes estruturais das desigualdades. Significa reconhecer a necessidade urgente de democratizar a propriedade (pública e privada), o crédito interno, a carga fiscal e os serviços públicos, transformando-os em bases de sustentação do crescimento da produção e do emprego, com distribuição de renda e oportunidade para todos.
No entanto, ao analisarmos as falas dos adolescentes percebemos que o que se evidencia é o descrédito, a contramão de um processo de construção da cidadania. Referindo-se ao CEDUC, um dos adolescentes assim se expressa:
[..] Não contribui não, se a pessoa... se aqui fosse no meio de uma sociedade, tudo bem, né?”. A pessoa ficava naquela, não fazia essas desordens que a gente tenta fazer, não. Aqui a gente é tratado que nem porco, agora se fosse num canto que tivesse iluminação, fosse num assim...numa cidade , num canto assim, né? Que tivesse movimento pra mãe da pessoa vim. A pessoa não fazia isso não, porque tem gente aí que nem visita tem. Eu recebo visita mas não é todo dia não. Recebo de mês em mês, porque meu padrasto é aposentado, sabe? Quando recebe dinheiro, minha mãe faz umas comprinhas pra mim, vem deixar R$ 5,00(cinco reais), entendeu? Ela não tem condições de vir sempre não, por causa que é longe demais. Ela mora nos Guarapes, aqui é longe. Pra ela chegar aqui, ainda desce e pega a Kombi aí. Às vezes ela vem de pés, né? Eu digo, mãe não venha não. Não venha me visitar não, pra senhora vim a pé, é melhor nem vim. A senhora deixa pra vim quando tiver dinheiro. (P. C.F.S. 18 ANOS).
Logo, quando pensarmos analisar a questão das famílias dos adolescentes autores de atos infracionais, não podemos fazê-la de forma dissociada da questão dos direitos sociais, humanos e de todo entorno social, os quais devem ser compreendidos
de forma ampla, não se resumindo às garantias de direitos individuais, o que por sua vez guarda estreita coerência com o próprio Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA. Nesta perspectiva, entendemos que “os direitos do homem nada mais são do que os direitos do cidadão, e são direitos daquele somente enquanto são direitos destes” (BOBBIO Apud BUSSINGER, 1997, p.7). Que estas palavras possam um dia ver-se cumpridas, pois nesta perspectiva, sabemos que os “Direitos Sociais” são segmentos dos “Direitos Humanos”, e que encontram voz nos “direitos fundamentais do homem”. (SOUZA,1988, p.92).
Neste capítulo, procuramos nos adentrar nas discussões sobre a temática que envolve e perpassa o nosso objeto de estudo, refletindo a partir de percepções distintas as contradições sociais que se fazem presentes na historicidade da problemática que objetivamos desvendar neste trabalho, e que não podem ser analisados de forma isolada, mas numa perspectiva de totalidade.
Chega estampado, manchete, retrato Com venda nos olhos, legenda e as iniciais Eu não entendo essa gente, seu moço Fazendo alvoroço demais O guri no mato, acho que ta rindo Acho que ta lindo, de papo pro ar Desde o começo, eu não disse, seu moço Ele disse que chegava lá
CAPÍTULO 3 - O ATO INFRACIONAL E OS SEUS SENTIDOS SOCIAIS: OLHARES DE QUEM SOFRE E EXERCITA A VIOLÊNCIA NO COTIDIANO.
3.1 – Infração e o Ato Infracional
Evidentemente, não nos parece simples conceituar ato infracional se o consideramos como algo socialmente construído, e sabedores que somos que as teorias que o estudam possuem múltiplas e complexas dimensões tendo os autores percepções distintas acerca da temática.
Para Volpi (2001, p.58), as concepções mais veiculadas no debate sobre ato infracional, estão de um lado, vinculadas a uma explicação do ato infracional como reflexo das injustiças sociais, sendo dessa forma o seu autor vítima do sistema e, de outro, a prática do delito é atribuída à índole má do indivíduo, ficando o sujeito submetido a um processo de recuperação e punição.
Em ambas concepções é necessário sermos cautelosos para não simplificarmos o debate culpabilizando o infrator como se ele fosse o único responsável, sem fazer uma análise das determinações que o levaram a cometer o delito. Tampouco, deveríamos conceber a idéia do infrator como vítima, naturalizando o seu comportamento, concebendo-o como mero reprodutor de comportamentos tidos como desviantes ou permissivos. Porém, não estamos simplesmente diante de um infrator, que, por acaso é um adolescente, mas, de um adolescente, que, por circunstâncias, cometeu ato infracional.
Recorrendo a Volpi (2001, p.58), acreditamos que “enxergar o infrator sem perceber seu entorno social, as relações e estruturas políticas, econômicas e culturais
implica em negligenciar a condição fundamental da natureza humana. O homo sapiens é sempre na mesma medida do homo socius”.
Porém, não podemos negar a condição do homem enquanto sujeito, capaz de fazer história, que dentro de uma concepção marxista “o modo de produção da vida material condiciona o processo em geral de vida social, política e espiritual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência”. (Marx, 1982, p.24).
Nesse sentido, a vida aqui é entendida como totalidade do ser social que produz determinados conteúdos da consciência, pois a consciência é produto do ser social e, a partir dessa consciência o homem intervém para modificar a realidade.
Seguindo esse raciocínio, nos apoiamos em Volpi (2001, p.61) quando afirma:
Adotamos um conceito interativo do delito, concluindo que ele é produzido socialmente e reinterpretado individualmente, para ser reconstruído socialmente num processo dialético permanente. Sendo que algo que seja delito hoje pode não sê-lo no futuro e algo que foi delito no passado pode não ser no presente.
Para melhor compreensão do conceito, podemos perceber claramente quando SIMÃO (2003, p.59-60) informa que um exército de 120.000 menores sustenta as guerras tribais na África, onde Charles Taylor, presidente da Libéria, é responsável por desmandos e crimes espantosos mesmo para os padrões africanos. Taylor armou um exército de crianças e obrigou-as a cometer atrocidades contra os próprios pais e amigos. Atualmente, há 18.000 crianças-soldados, sendo as menores com apenas 7 anos de idade. Taylor aterrorizou a população da Libéria e se elegeu presidente em 1997. Em