3 16 YÜZYIL OSMANLI DÖNEMİ SANAT HAYAT
7. ÇADIR TEMALI MİNYATÜRLERİN İNCELENMESİ
A realidade infanto-juvenil apresentada antes da promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, era vista, com base no antigo Código de Menores, instituído em 1927 como atos de delinqüência infantil. Até então, o referido Código se constituía a única legislação existente para tratar “o menor”, tendo um caráter eminentemente coercitivo, repressor e aplicado exclusivamente aos “menores” que possuíam comportamentos “desviantes”. Sua ação era restrita apenas à questão da criminalidade e/ou delitos praticados por estes, e a terminologia “menor” era usada de forma pejorativa.
A questão da proteção às crianças e adolescentes, enquanto sujeitos detentores de direitos, ganhou destaque no cenário social na passagem dos anos 80 para os anos 90, transformando-se em objeto de discussão entre vários organismos e atores sociais, envolvidos, direta ou indiretamente, com a política de atendimento e de defesa de direitos a essa parcela da população. Entretanto, conquistas não se deram por acaso, trata-se de um período de avanços nas lutas sociais, de grandes reivindicações de direitos que foram assegurados na Constituição Federal Brasileira.
Em 1990, as Nações Unidas aprovam as “Regras mínimas para os jovens privados de liberdade”, objetivando estabelecer as normas mínimas para a proteção desses jovens, compatíveis com a garantia dos direitos humanos e liberdades fundamentais, entendendo a expressão “proteção”, não no sentido estreito, castrador e tradicional de “proteção tutelar”, mas concebendo-a enquanto proteção integral, ou seja, no sentido lato, como intitula o Art. 1º do ECA: “Esta Lei dispõe sobre a proteção integral à criança e ao adolescente”.
As questões que envolvem crianças e adolescentes despertam interesse por tratar-se de pessoas que se encontram na condição peculiar, sujeitos em processo de desenvolvimento físico, mental, espiritual e social; considerados como detentores de direitos fundamentais no que concerne à sua proteção, sob quaisquer circunstâncias, segundo a política de garantia dos direitos da criança e do adolescente que as coloca como prioridade absoluta, conforme preceitua o artigo 227 da Constituição Federal Brasileira.
É dever da família, da sociedade, do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. (BRASIL, 1998)
Este artigo constitucional nos imprime, nos cobra, o que deve ser posto em prática, uma vez ainda que é reafirmado pela Lei nº 8069/90 – ECA.
A política de garantia dos direitos da criança e do adolescente, no Brasil, está concretamente explicitada na Constituição Federal, que a define como prioridade absoluta, em seu artigo acima citado, como também nos documentos internacionais, ratificado pelo Congresso Nacional, com especial destaque para a Convenção das Nações Unidas, em seus artigos 37 e 40 sobre os direitos da criança e do adolescente. (ANEXO B).
Entretanto, nos indagamos sobre a lentidão do processo de implementação do ECA, da sua não operacionalização, tampouco de sua apreensão por parte do Estado e da sociedade civil. Em nossa pesquisa, assim os adolescentes se expressam:
Aqui no CEDUC não ajuda, não! Porque aqui não tem apoio toda hora pra pessoa...Quem tá aqui, não tem nenhuma tarefa assim, pra ta tirando o mau pensamento da cabeça, só vive dentro do pavilhão trancado, fica só pensando...pensando em fugir e pensando em coisas ruins, que quando sai vai fazer. Se tivesse uma tarefa pra pessoa ir fazer, pra quando sair daqui já sair com alguma coisa, já saísse com alguma profissão, assim! Aí era melhor. (C.L., 15 Anos).
Em uma das falas, observemos como a agressividade se torna banal no entendimento dos adolescentes e dos educadores,
Aqui (CEDUC) um fura o outro, briga, não sei o que... Tem que chamar o educador, às vezes o educador não vem... A pessoa fica ali. Se quiser beber água, muitas vezes também não vem, se quer descer (sair do pavilhão) também não pode. (P.C.F.S.,18 Anos).
O CEDUC do jeito que tá não ajuda a ninguém, do jeito que tá, não! Só se tiver alguma melhora. Porque se a pessoa tá no pavilhão, leva choque, aí os rebocos cai, às vezes a comida não tá muito boa, alguns dias são bons, alguns dias são ruim. (C.S.M., 20 Anos).
Um outro adolescente detona e trás à tona um efeito analisador e desvelador das suas vidas. Vejam a seguir:
Aqui o pessoal acha que é uma casa de recuperação, mas eu não acho não, no modo de eu pensar, a pessoa vem pra cá, passa um tempo, quando sai daqui, sai mais revoltado daqui de dentro e aprende mais coisa aqui com os meninos aqui. Aprende, pois passa o dia todo no pavilhão se combinando quando sair daqui vai matar fulano, assaltar supermercado não sei de quem, fazer um bocado de coisa ruim.(P.H.A.M, 18 Anos).
Assim sendo, constatamos que com estas falas evidencia-se claramente a falência dos internatos, não como fracasso, mas parece-nos ser a lógica do seu projeto. Acredito que a sociedade aposta no fracasso, no descaso, como algo irreversível. Já que estão certos disso, para que investir em algo sem retorno? Agora, tudo é culpa do ECA,
e anteriormente ao ECA, o que conseguimos com o antigo código de menores? Muita coisa mudou, mas ainda há muito que fazer, pois ainda não conseguimos romper, de fato, concretamente com o modelo prisional repressivo que se faz presente ainda hoje nos internatos, mas considero necessário que rompamos com essa ideologia repressiva da cultura institucional, para que possamos devolver aos jovens que cometem atos infracionais a possibilidade de vislumbrar outros valores, de almejar novas chances, outra forma de sociabilidade.
Segundo Lesbaupin (2002, p. 84-85), é importante ressaltar aqui que a conquista dos direitos humanos e dos direitos sociais é uma conquista tardia, é uma dívida social antiga, e muitas vezes esquecida, pois enquanto os direitos civis datam das primeiras grandes declarações de direitos (1776 e 1789), os direitos políticos são conquistados no decorrer da segunda metade do século XIX, e os direitos sociais praticamente só vão ser reconhecidos no século XX, depois de um longo processo de lutas dos trabalhadores em busca da cidadania. Não podendo deixar de observar que esta cidadania pela qual lutamos não atingiu a toda classe subalterna. Na verdade, o que caracteriza os direitos sociais, quando comparado aos demais, é que se trata de direitos que, para se efetivarem, exigem a intervenção do Estado. A educação, saúde, habitação, emprego, ou seja, os serviços sociais básicos necessitam de investimento por parte do Estado.
Neste sentido é percebido claramente nas falas dos adolescentes o descaso do Estado na implementação desses direitos. Questionemos: É dessa forma que o ECA está sendo operacionalizado? É essa a proteção integral? Essa situação contraria o ECA, em seu Art. 3º, que afirma:
A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerente à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-lhes, por lei ou por outros meios, todas as
oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral espiritual e social, em condições de liberdade e dignidade.
Na concepção neoliberal, o Estado apresenta-se não como o maior responsável pelo bem-estar da sociedade, cabendo a cada um individualmente, de forma privada, através do mercado, buscar o emprego, a saúde, a educação, etc.
Em verdade, negar a responsabilidade do Estado nesse sentido, é negar os direitos sociais que vem sendo castrados desde a Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovados pela ONU em 1948.
Para Lesbaupin (2002, p. 85-86):
[…] o que esta política fez em todo o mundo foi substituir a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) pela Declaração Universal dos Direitos das Empresas – declaração não escrita, mas praticada – segundo a qual os trabalhadores só têm o direito que lhes é concedido pelo mercado ou, o que é dizer o mesmo, pela ‘lei da selva’ do mercado, onde só sobrevivem os mais fortes.
Ainda em relação à política de garantias de direitos da criança e do adolescente mostra-nos Volpi (1997, p.13) que a mesma se materializa num sistema articulado de princípios como descentralização administrativa e participação popular; de políticas sociais básicas como educação, saúde e assistência social e de programas especializados destinados à proteção especial, quando suas crianças e adolescentes são violados em seus direitos por ação ou omissão do Estado ou da sociedade, por falta, omissão ou abuso dos pais ou responsáveis e quando excluídos em razão de sua conduta ou de prática de atos infracionais.
Parafraseando Volpi (1997, p.169) a opção por um tratamento diferenciado no jovem infrator – conceituado como “delinqüente” na linguagem dos opositores do
ECA – resulta de uma disposição política do Estado, na busca de uma cidadania que se perdeu ou jamais foi conquistada.
No processo de apreensão do nosso objeto de estudo é necessário questionar se de fato conquistamos essa cidadania, uma vez que o ECA ainda não saiu da lei para se efetivar concretamente. Isso se evidencia na fala de uma das mães, quando afirma:
[..] às vezes me dá uma força que não sei de onde é que vem, que às vezes muita gente diz assim: não sei como é que você tem coragem, tem força pra enfrentar um negócio desse. Porque é uma barra muito pesada, não dá pra enfrentar não. Ah! Mas eu enfrento. Eu saía, tinha dia aqui que eu brigava tanto que eu ficava rouca, eu saía nesses colégios tudinho defendendo ele (meu filho). O povo já tinha tanto medo de mim, que quando me via de longe, batia as portas do colégio, porque ninguém queria aceitar ele na escola, não. Porque diziam, mulher, que ele estava invadindo os colégios atrás de estuprar as crianças, eu sabendo que ele não tava, que era só imaginação da cabeça dela. (sic).M. S. J. S., 41 Anos.
- Os Avanços do ECA – O que mudou em face da historicidade das leis
Mesmo a lei garantindo ao adolescente direito à saúde, ao lazer, à educação, etc, percebe-se claramente que esses direitos ainda não foram de fato efetivados, uma vez que se nega a entrada desse adolescente na escola pelo fato de ter cometido um ato infracional. Evidencia-se dessa forma, que a própria sociedade que gera desigualdades também exclui, estigmatiza esses adolescentes, dificultando a reinserção do mesmo ao convívio social.
É na luta pela cidadania que se formula o Estatuto da Criança e do Adolescente-ECA, (BRASIL, 1990) fruto de toda uma mobilização social, passando a possuir caráter legal e representando um marco na política de atendimento a crianças e aos adolescentes, proclamando direitos e estabelecendo deveres, instituindo, também,
parâmetros de como estes devem se constituir no interior da sociedade, concebendo-os enquanto sujeitos e cidadãos detentores de direitos.
Convém registrar que o Código de Menores de 1927 se preocupava com a “proteção e vigilância” dos “menores em situação irregular” numa perspectiva mais coercitiva; enquanto que o ECA se preocupa em garantir “todos os direitos para todas as crianças e adolescentes”, ou seja, trata-se realmente de assegurar uma proteção integral ao conjunto da população infanto-juvenil brasileira, imprimindo um caráter mais preventivo.
Em meio a esse raciocínio, verifica-se que, legalmente, a problemática em questão deixa de ser tratada enquanto ato individual de delinqüência e passa a ser concebida, numa visão histórica social, como uma realidade determinada por aspectos sócio-econômicos, políticos e culturais.
De um lado, ressalta-se que um dos grandes avanços do ECA foi o sentido de co-responsabilidade social por parte do poder público, família, comunidade e sociedade em geral no que concerne aos princípios de absoluta prioridade e da proteção integral à Criança e ao Adolescente como preceitua o Art. 4º do ECA, sobre o qual já nos referimos neste trabalho anteriormente. Por outro lado, como já discutido anteriormente, não podemos deixar de considerar que é a partir do fim dos anos 80 para início dos anos 90 que se dá a omissão do Estado brasileiro de cunho neoliberal no trato com essa política.
Dentro da complexidade das relações sociais, é necessário compreender a realidade vivenciada pelos adolescentes autores de atos infracionais e as dificuldades enfrentadas pelas famílias desses adolescentes, uma vez que, a orientação política neoliberal em curso adotada pelo Estado brasileiro na perspectiva de minimização, entra em confronto com a política de garantia integral de direitos propostos pelo ECA. Diante
dessa contradição, cabe-nos indagar: o que o Estado, concretamente, tem garantido no cumprimento dessa política? O que mudou efetivamente a partir da aprovação do ECA? Será que em se mudando a nomenclatura, de fato se conseguiu, em mais de uma década de ECA, se modificar a política de atendimento à Criança e ao Adolescente? Ou mais especificamente, não será ilusão pensar ou acreditar que as crianças e adolescentes antes nomeados de trombadinhas passaram de fato a ser cidadãos de direitos conforme preceitua o ECA só porque está na Lei?
Na realidade o que se constata é que o ECA e a LOAS emergem no final da década de 80, início dos anos 90, da luta dos movimentos sociais organizados da sociedade civil, não na contra-mão da história, como parece ser quando internacionalmente se conclamam os ganhos e os avanços do projeto neoliberal, mas buscando estabelecer nexos no jogo de forças, na luta sem trégua para superação de uma política que defende que o Estado não deve intervir na economia, que o mercado deve regular-se sozinho, ou seja, que se deve ter um Estado mínimo.
- Violência Policial
O Estado tem reduzido os gastos com as políticas sociais, pois se trata de um Estado intervencionista, controlador, que defende as vantagens do mercado, determinando juros altos, abrindo a economia, defendendo a privatização dos serviços, Estado este que permite que todos os preços serem regulados pelo mercado, mas não regula o valor da força de trabalho, atribuindo ao trabalhador um salário de miséria que muito mal repõe a energia despendida, ficando este sem ter condições de sustentar a si próprio e a sua família.
Estado este que intervém no sentido de reprimir os movimentos sociais, que defende a flexibilização as leis trabalhistas (CLT) retirando direitos que foram conquistados a duras penas, Estado que não pune assassinatos e torturas de trabalhadores e adolescentes pela repressão policial. Vejamos na fala de um dos adolescentes, que ficam evidenciadas as agressões físicas sofridas pelos internos no CEDUC:
[..] teve um dia da rebelião, aí que eu apanhei de barra de ferro no espinhaço... Um menino de menor tentaram segurar o educador aí, um tal de J. Aí, depois que ele foi solto, os meninos pegaram ele pelo gogó, nesta parte eu peguei a camisa dele assim... Pegou, na hora que acabou a rebelião, chegou logo me dando uma rasteira. Aí me soltou, foi pra fora e chamou os policial. Os policial foram logo entrando com arma na mão, ele mandou ‘baixar o cacete’ em todo o mundo, até em quem não tinha nada haver, apanhou. [..] sei que quem tava lá no pátio saiu todo mundo nu, foi pra parede lá e pegue cacete lá, na gente. [..] J. pegou, chegou lá, meteu barra de ferro no espinhaço, deu murro lá, querendo quebrar o nariz, fez um menino chorar à força, deu demais no menino. Era nessa outra sala que tem aí do lado, dava só de chute no menino. (F.C.N., 19 Anos).
Esta realidade parece se repetir Estado por Estado, desvelando a violência do cotidiano das ruas e das instituições responsáveis em operacionalizar as medidas sócio- educativas de privação de liberdade.
Em relação à violência policial, o artigo de Penteado (2003), “Números de mortos pela PM em maio bate record em São Paulo” – Folha de São Paulo (17/06/03), informa que, em maio de 2003, o número de mortos pela PM chegou a 101, tendo havido um aumento de 51% em relação ao mesmo período de 2002 no Estado de São Paulo – mais de 3 mortes por dia – um recorde mensal nas estatísticas da Ouvidoria das Polícias, pelo menos desde 1998. O crescimento de mortes por PM foi identificado nos dados da Ouvidoria, de janeiro a maio de 2003, quando o índice ficou 35,8% maior que no primeiro trimestre de 2002.
Esses dados denunciam o caos da violência policial no Brasil e em São Paulo, sendo importante registrar que esses números incluem casos registrados como resistência seguida de morte, homicídio doloso e culposo (sem intenção) com PM’s em serviço ou não. (Fonte: Ouvidoria das Polícias de São Paulo).
Outra denúncia escandalosa é evidenciada por KALILI (2003, p.20), que denuncia casas invadidas; torturas; medo de ver, de ouvir; matanças coletivas; cemitérios coletivos; cemitérios clandestinos; desaparecidos; ou seja, uma infinidade de impunidades. Dessa forma, este artigo anuncia que a democracia ainda não chegou para o brasileiro pobre, pois este relatório vai denunciar à ONU as atrocidades da banda podre da polícia. Este relatório da Justiça Global documenta a sistemática de ação dos órgãos de repressão e justiça do país e aponta a falência de diversas instituições brasileiras.
O relatório denuncia que é difícil quantificar a matança, uma vez que os números apresentados não são confiáveis, pois cada Estado os conta de uma maneira, muitos não contam e outros preferem manter seus números em sigilo.
A quantidade de civis mortos por policiais aponta para um crescimento do número de vítimas de 1479, em 2000, para 3017, em 2001.
Na Febem, as ameaças e espancamentos por policiais eram freqüentes. Mesmo os adolescentes tendo cumprido a medida sócio-educativa, os policiais continuavam a intimidar os adolescentes nas ruas, ou seja, foram identificadas ações de grupos de extermínio em pelo menos quatorze Estados, como também algumas vítimas que haviam sido vistas pela última vez em viaturas policiais, eram jovens de 15 a 24 anos, moradores da periferia. Hoje, só no Estado de São Paulo, são 2,7 milhões de boletins de ocorrência por ano. De 10% a 11% viram inquéritos, e o mais preocupante é
que a polícia decide o que vai se investigar, mas não se investiga o policial que mata. (KALILI, 2003).
Nesse sentido, ao mencionarmos acima o que nos RETRATA os dados da impunidade policial, como também a experiência do adolescente F.C.N.(19 anos), questionamos se é dessa forma que o estado pretende resgatar a cidadania e garantir os direitos aos adolescentes privados de liberdade, bem como os seus familiares?
Ainda no que se refere à violência policial, 100% dos adolescentes entrevistados afirmaram já ter sofrido violência policial mesmo fora do CEDUC. Além da violência com seus filhos, as mães também afirmaram ter medo da polícia, pois muitas vezes elas também sofrem a violência policial diretamente. Vejamos a seguir:
Foi assim, aconteceu um negócio lá, e tinha um policial, que, ele vivia lá, ele entrou na minha casa, ele derrubou minhas coisas, ele quebrou um pote, ele tirou retrato, até tem um retrato de P.C. (filho) com essa menina e não entregou, e ele ficava dizendo pra mãe dela que ia arrancar o pescoço dele (filho). [...] Eu vim conhecer esse policial depois que meu menino começou a se envolver com drogas, ele era o único policial que se embiocava dentro de casa. A gente saía deixava a porta fechada, quando voltava a porta tava arrombada, que ele tinha entrado, tinha mexido nas coisas. [...] Aí eu fui lá na delegacia de menor, falei com o promotor, o que é que eu podia fazer, aí ele me deu toda informação, que eu procurasse meu filho e entregasse ele. Eu fiquei com medo porque o policial disse que tinha ordem pra arrancar a cabeça dele, eu fiquei com medo, é melhor ver meu filho preso do que ver morto, porque de uma hora pra outra ele (policial) podia até matar mesmo. Você sabe, policial matando fica por isso mesmo, porque quem morreu é quem se ferrou..., a polícia mata, tanto faz está certo ou está errado, tanto faz, ela (a polícia) não está nem aí. (M.F.S., 39 Anos).
É dessa forma que a população pobre percebe a segurança pública, sendo invadida e ameaçada pela mesma, dentro da sua própria casa. O que mais nos deixa indignados é que essa mentalidade é reforçada e se reproduz, quando a própria justiça tem conhecimento e não toma nenhuma atitude para penalizar esses policiais infratores. Na verdade, estamos assistindo à banalização da violência policial e achando que nada
podemos fazer, nos sentimos impotentes uma vez que as autoridades fecham os olhos para esse tipo de crime, podendo-se dizer que existe verdadeira permissividade, uma cultura policial, ou uma polícia paralela, que faz justiça com as próprias mãos, são os juízes das famílias pobres que agem com um consentimento velado, contribuindo com a