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A forma de medir o tempo usada nos dias de hoje nem sempre possuiu um valor simbólico tão preciso. Os homens buscaram, ao longo de sua evolução, uma forma de mensurar o tempo e fazer dele uma referência universal com a qual todos pudessem igualmente medir as variações de presente, passado e futuro; dos anos, meses e dias; das horas, minutos e segundos.

Como afirma Elias(1998), em seu estudo Sobre o tempo , uma das formas encontradas pelo homem para definir o tempo foi a organização de um calendário que representasse os mecanismos físicos e refletisse necessidades sociais, o que não seria uma tarefa fácil. Foram necessários milhares de anos para que a sociedade aprendesse a organizar seu calendário e colocá-lo em prática sem que houvesse divergência.

A síntese do calendário é uma das formas de se exemplificar a adequação do homem às mudanças ocorridas na natureza, pois a idéia de tempo é, antes de tudo, uma representação das variações sofridas pela natureza. Da mesma forma que esta se modifica ao longo do tempo, o homem também sofre transformações que ocorrem independente de sua vontade; são as mudanças físicas.

A inserção do tempo sistematizado na história implicou a percepção humana de sua irreversibilidade. Como analisa Elias (1998), a sucessão irreversível dos anos representa, à maneira simbólica, a sequência não mutável dos acontecimentos, tanto naturais quanto sociais. O indivíduo consegue, com maior clareza, ter a percepção de que com o decorrer dos anos seu corpo irá sofrer as marcas do envelhecimento. As mudanças físicas proporcionadas pelo tempo ocorreram desde sempre, mas a capacidade do homem de medi-la de forma tão precisa tornou esse processo ainda mais pungente.

Os relógios exercem nas sociedades modernas as mesmas funções que os fenômenos naturais: o de orientação para os homens, inseridos numa sucessão de processos sociais e físicos. Físicos, em razão de sofrerem mudanças biológicas, recorrentes e irreversíveis. Sociais, por representarem para toda uma coletividade um mesmo valor simbólico.

Em nossa sociedade, somos obrigados a inserir todo e qualquer acontecimento no curso do tempo. O relógio, através de seu valor numérico, transmite-nos uma mensagem que indica a que horas acontecerá uma reunião, a que horas teremos que trabalhar, a que horas cumpriremos um compromisso ou iremos dormir. O tempo cronometrado é utilizado por todos os membros das sociedades modernas com uma intensidade cada vez maior, pois necessitamos cada vez mais de instrumentos de regulação e sensibilização do tempo.

Da mesma forma que o tempo sistematizado pelo homem tornou-se instrumento obrigatório, também assumiu, sob o aspecto social, a função reguladora, coercitiva, das ações e valores impostos aos indivíduos da modernidade. Conforme Elias (1998) nessas sociedades, o tempo exerce de fora para dentro, sob forma dos relógios, calendários e outras tabelas de horários, uma coerção que se presta eminentemente para suscitar o desenvolvimento de uma autodisciplina nos indivíduos.

O tempo social impõe a cada um a necessidade de agir conforme as determinações coletivas convencionadas, interferindo nas ações individuais. Para cada ano, mês, para cada período, a sociedade imprime um valor cultural que reflete uma forma coerciva de impor a cada indivíduo um determinado comportamento. Os valores culturais são relacionados ao tempo, na medida em que são convencionadas, por exemplo, datas comemorativas. O Natal é um dos períodos mais expressivos e festejados no Ocidente e possui uma

ideologia que vai muito além do aspecto religioso proposto inicialmente, imprimindo em cada indivíduo a necessidade de adequar suas ações àquele momento.

Com o advento da modernidade o valor social do tempo tornou-se cada vez mais importante sendo transformado em um instrumento de regulação entre os indivíduos, o que gerou uma alteração na dinâmica social como demonstra Maria Judite de Carvalho em suas crônicas. Ocorreu uma transformação de valor social do tempo, visto na modernidade como recurso escasso, que passou a conviver com a percepção já existente, de que há tempo para tudo, o que originou um descompasso, um desequilíbrio no cotidiano das pessoas que apresentavam, ao mesmo tempo, característica dos das duas concepções.

Na crônica Os passeios não são para passear, por exemplo, ela descreve uma situação em que alguns costumes estão sendo modificados em razão da nova percepção do tempo.

A escritora descreve nessa crônica como os indivíduos se comportam ao andarem nas calçadas de Lisboa, de como seu ritmo é frenético, e apressado diante de um tempo que passa cada vez mais rápido, o que contrasta com a ideia conceitual do que seria um passeio.

O passeio foi feito para passear, segundo a escritora, para cada um caminhar lentamente, ao acaso, sem preocupação, mas ele foi construído num tempo em que as horas dos dias eram mais longas e que havia menos gente. Agora, as pessoas se atropelam nas calçadas, andam com muita pressa e determinação para chegarem a algum lugar

E deviam ser, o nome o diz. Nada mais agradável do que caminhar lentamente, ao acaso, sem ir para, sem vir de. Deixar-mo- nos ir, pararmos de vez em quando a olhar para uma montra, a observar um objecto gracioso, um tecido bonito. Fazer cálculos. Ora vejamos... Duzentos e quarenta vezes três... Não, não posso, adiante irmos andando sem apressar o passo. Voltar atrás às vezes. Refazer a conta. Encontrar duas mulheres que conversam, ouvir de passagem três ou quatro frases à lonesco, em que não se diz nada mas em que se gastam paIavras e palavras e palavras. Depois continuar um caminho sem objectivo concreto.

Mas não, já não pode ser assim. Porque os passeios já não são para passear. Onde isso vai! (CARVALHO, 11/05/1968, p. 3)

Ainda há nesse mesmo passeio quem prefira andar lentamente, passeando, prestando atenção em pequenos detalhes, caminhando pelas calçadas para vagarosamente aproveitar seu dia. Mas eles são minoria no tempo da modernidade, contrastam com o ritmo acelerado daqueles que tem sempre um compromisso e precisam estar num certo local em determinada hora pré-estabelecida.

O tempo, na verdade, parece ter encurtado nessa vida moderna e, por essa razão, a sociedade ganha uma nova dinâmica que reflete em seu comportamento e ao mesmo tempo conflita com a ideia do tempo extenso do passado. Segundo Elias (1998, p.11) a modernidade trouxe um enorme sentimento de pressão do tempo sobre nosso cotidiano o que nos obrigou a estabelecer em nossas vidas relações cada vez mais exatas com os relógios.

Maria Judite demonstra essa modificação da percepção do tempo em várias de suas crônicas. Em As suaves ela afirma que a certa altura a mulher deixou de ter tempo. A mulher teve sua vida invadida por atividades relacionadas aos tempos modernos e precisava se encaixar nos padrões novos realizando um infinito número de tarefas como cuidar do jantar, trabalhar, dar atenção aos filhos e ao marido, para se sentir inserida nesse contexto atual

(...) precisamente na altura em que a mulher deixou de ter tempo, em que trabalha em casa e no emprego, em que as empregadas domésticas se tornam raras, em que ela, a mulher, começa e não é sem tempo — a interessar-se por outros problemas, que, até há pouco, eram do domínio masculino. Corre de um lado para o outro, chega cansada, tem de cuidar da casa, de fazer o jantar, de dar atenção ao marido, de ajudar os filhos. Queria ler. Mas quando? Acaba por cair exausta e rendida diante da televisão. (CARVALHO, 20/01/1972, p. 03)

As diversas atividades do cotidiano deveriam ser realizadas em número de tempo muito pequeno em que a mulher se sentia exprimida pelas suas obrigações diárias e não encontrava espaço para o lazer ou descanso. A sensação de aceleração do tempo é cada vez mais frequente entre aqueles que vivem na modernidade.

O que mudou, portanto, é que os indivíduos não tinham que fazer qualquer coisa imposta pelo tempo, mas sim conforme suas consciências, o que, na modernidade não é admissível, pois prevalece a dinâmica social comandada pelo tempo do relógio e do calendário.

Dessa forma, as tarefas cotidianas passaram a ser norteadas pelo tempo exprimido da modernidade que não permite o descanso, exercendo uma ação coercitiva tão forte sobre os indivíduos, uma disciplina tão rigorosa em relação ao tempo, que passou a fazer parte da natureza humana. Sob essa perspectiva da rapidez do tempo, Maria Judite percebeu na sociedade mudanças complexas que alteraram as normas sociais.

Em sua crônica O mundo rejuvenescido retrata o comportamento das pessoas que possuem ―uma pressa doida de viver‖ e, especificamente os ingleses que anteciparam a maioridade em suas leis em razão desse aceleramento mundial

O mundo está cada vez mais novo, as pessoas têm uma pressa doida de viver e os ingleses vão ser maiores aos dezoito anos. Está certo. Os jovens quiseram mostrar aos adultos que já trabalham como gente grande, que, apesar de ainda estudarem, já têm as suas ideias e pensam por si. E, se muitas vezes não pensam «bem» segundo o critério dos adultos, se limitas das ideias deles se perdem à superfície, nos cabelos compridos e nos trajos exóticos, outras vezes o caminho que escolhem é um bom caminho. (CARVALHO, 22/03/1969, p. 03)

A ideia de que a vida passa muito rápido, interfere, como demonstra a escritora, até mesmo nas normas sociais. Os jovens ingleses irão se tornar maiores aos dezoito anos porque já conseguem absorver as atividades dos adultos. Cada vez mais a dinâmica da vida antecipa as responsabilidades de cada indivíduo.

Entretanto, percebe-se que essa mudança não ocorreu de forma rápida e pacífica, ao menos em Portugal, pois Maria Judite retrata em suas crônicas conflitos entre aqueles que permanecem com a percepção de que se deve viver com tranquilidade, com serenidade para aproveitar cada momento, como é o caso dos personagens da crônica Chofeurs de domingo e aqueles que estão absorvidos pela correria do cotidiano moderno. Os chofeurs são condutores que aos domingos buscam apreciar as paisagens, que saem à passeio e não para uma competição, fazem curvas lentamente e não olham para o relógio, pois o tempo é todo deles

Há quem não goste deles, principalmente os outros condutores, os de todos os dias, os que conhecem bem o carro que guiam, as estradas que percorrem, a paisagem. À paisagem conhecem-na mesmo tão

bem que já não a veem, e para eles, passar ali, naquela estrada, naquela terra, naquela serra, porque não? —, é o mesmo que subir ou descer a Avenida. De resto, andam depressa, têm sempre onde estar às tantas horas, vivem em trânsito. Olham, sim, de vez em quando, mas para o relógio, e aceleram imediatamente porque vão sempre atrasados.

São encantadores, os «chauffeurs» de domingo. Eu, pelo menos, acho-os um encanto. Que não sabem guiar, há quem diga. Que transtornam o trânsito. Que são um perigo público. Que há muitos desastres porque eles andam demasiado devagar (não será porque os outros andem demasiado depressa?), porque se atrapalham, porque vão distraídos. (CARVALHO, 07/04/1968, p. 03)

Ainda existem aqueles que preferem viver lentamente, que encontram na serenidade uma harmonia e são capazes de cumprir suas atividades diárias sem pressa. Mas eles são poucos, são aqueles vistos como retrógrados que ainda não se adaptaram ao tempo acelerado da modernidade. A convivência entre eles é bastante conflituosa, como se vê na crônica, pois as duas concepções de tempo não são passíveis de serem conciliadas. Um comportamento embate diretamente com o outro de forma que percebemos a angústia de quem vive sob o domínio desses dois conceitos opostos entre si.

Mais uma vez a escritora descreve o momento de transformação vivido pela sociedade portuguesa em razão da inserção dos elementos da modernidade que, de certa forma, opõem-se aos modelos já existentes. Esse conflito retratado nas crônicas e vivido pela sociedade portuguesa irá gerar, como veremos no capítulo seguinte, um sentimento de instabilidade em razão da perda de um referencial, de incômodo em decorrência das transformações sociais que não são fáceis de serem aceitas.