4. BÖLÜM: ARAP ALEVİLİK VE KADIN
4.1. ARAP ALEVİLİK NEDİR?
Corrêa Lima formou-se em 1926 com o título de engenheiro-arquiteto,123 recebendo o prêmio “Grande medalha de Ouro”. No mesmo ano participou do Concurso Prêmio de Viagem à Europa, o chamado Prêmio de Viagem Donativo Caminhoá,124 na seção arquitetura com o
tema “Edifícios Comemorativos, um monumento destinado a comemorar os grandes vultos nacionais”.
Uzeda (2006, p. 405) destaca a participação dos alunos da ENBA no Prêmio de Viagem à Europa como “[...] o atrativo mais cobiçado, adaptação do tradicional Prêmio de Viagem a Roma, conferido pela École francesa, que na versão brasileira teve a viagem a Roma acrescida de uma estada em Paris, que lá iam tentar uma das disputadas vagas nos cursos acadêmicos franceses”.
O Prêmio de Viagem à Europa representava uma dupla honra, pensionando o artista no exterior por cinco anos e assegurando, após seu retorno, uma vaga no corpo acadêmico da escola. Os concursos e, consequentemente, as viagens, bem como os cursos de aperfeiçoamento realizados na Europa exerceram durante muitos anos uma relação de trocas culturais e acadêmicas, modificando e atualizando as práticas na ENBA, pois os ex- pensionistas, como professores, costumavam trazer para as salas de aula uma visão renovada da produção europeia. No que diz respeito ao ensino da Arquitetura, isso representava um contínuo contato com as inovações tecnológicas e mudanças plásticas.
Através dos documentos do acervo do Museu D. João VI, Uzeda (2006, p. 406) descreve detalhadamente o Prêmio de Viagem à Europa:
[...] O concurso para o Prêmio de Viagem da seção de arquitetura continuava a obedecer às determinações dos regimes internos decretados em 1916. Na primeira
123 Pelo projeto de reforma de 1924, a antiga fórmula, que dividia as disciplinas em um Curso Geral e cursos
especiais, passava a reunir cadeiras básicas e específicas num currículo único, tentando conferir coesão e singularidade ao ensino de cada área de da Escola, conforme Uzeda (2006).
124 O rico engenheiro baiano Francisco de Azevedo Monteiro Caminhoá, vencedor da Medalha de Ouro na
Exposição Geral de 1875, deixaria uma quantia considerável de apólices da dívida pública, com a finalidade de premiar os melhores alunos da ENBA. Do início do nosso século XX até a década de 1930, esses recursos converteram-se em passagens e pensões para estudos na famosa Academia Julien de Paris. Conhecido como Prêmio Donatativo Caminhoá, esses fundos foram oferecidos tanto na ENBA do Rio de Janeiro quanto na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia, sua terra natal. A premiação seria extinta em meados do século XX, em virtude da insuficiência de recursos, já que a quantia inicial foi desvalorizando-se progressivamente (UZEDA, 2006, p. 423).
prova, era pedido um esboço de uma composição arquitetônica decorativa, a ser realizada numa seção de 12 horas, constando de planta, elevação e seções; na segunda prova realizada dois dias após a primeira era a vez do projeto de uma grande composição de arquitetura, também constando de planta, elevação e seções, executadas em uma só seção de incríveis “24 horas”, sendo os trabalhos lacrados em molduras de vidro. Na terceira prova, que ocorria dois dias depois da anterior, o candidato deveria executar, em 90 seções de oito horas, o projeto definitivo, o mais fielmente possível, o rascunho realizado e lacrado da segunda prova. O trabalho deveria apresentar planta, seções, fachada e uma perspectiva do conjunto do edifício, sendo acompanhado por uma memória descritiva da obra. Em todas as seções dessas três provas, o candidato a pensionista permanecia incomunicável.
Em uma das visitas ao acervo de Attilio Corrêa Lima, encontrou-se o regulamento do concurso de 1926 (Figura 79). O regulamento estabelecia que “[...] o local escolhido para desenvolvimento do programa é uma parte dos terrenos conquistados ao mar com o arrasamento do Morro do Castello e de acordo com a planta anexa”. No documento para o concurso havia uma descrição das diretrizes para a elaboração do projeto contendo informações sobre a localização da edificação que deveria situar-se em praça pública, com acesso ao mar, através de escadarias, os monumentos que deveriam ser projetados, que constariam de um edifício principal e outros doze, todos conectados pela escadaria referida. Os monumentos deveriam representar os atributos essências da perfeição humana (bondade, moral, inteligência etc.). Havia também menção aos elementos constituidores da paisagem, tais como as fontes, esculturas e jardins. Os participantes do concurso deveriam projetar o edifício principal de tal forma que fosse “[...] o ponto dominante um grande auditório com capacidade para 5000 pessoas, será decorado com estátuas representando os grandes vultos, inúmeras placas com inscrições, emblemas, etc.”. Para enfatizar a importância da edificação e seu caráter simbólico: “[...] escadarias monumentaes externas darão acesso ao coroamento do edifício, onde haverá lugares para depositar bandeiras, flores, e possantes refletores anunciarão as grandes datas nacionais”. Complementando o programa de necessidades: “[...] o edifício terá, além do auditorium, galerias de circulação, um pequeno museu, serviços administrativos, vestiários e toalettes” (grifo nosso). O regulamento determinava que a entrada seria voltada para o lado da cidade.
No último parágrafo do regulamento, foram estabelecidos os formatos de apresentação, as pranchas e escalas dos desenhos, bem como os prazos para a execução.
Figura 79 - Edital do Concurso Prêmio de Viagem 1926. Fonte: reprodução do acervo particular da família Corrêa Lima.
Reprodução do regulamento do Concurso Prêmio de Viagem de 1926. Escola Nacional de Bellas-Artes
Concurso Premio de Viagem Secção de Architectura
1926
Edificios comemorativos
Um monumento destinado a comemorar os grandes vultos nacionaes.
O local escolhido para o desenvolvimento do programma é em parte dos terrenos conquistados ao mar com o arrazamento do morro do Castello o de acordo com a planta annexa.
O edificio acha-se situado em uma praça publica, dando accesso para o mar por vastas escadarias, que serão arrematadas por [...]decorativos monumentaes.
As escadas farão ligação com o monumento principal por meio de uma serie de doze pequenos monumentos rerpresentando os factores principaes que concorrem para a perfeição humana – a intelligencia, a bondade, a moral, etc.
Fontes luminosas, grupos esculptoricos e jardins, completarão o ambiente.
O edifício principal terá como ponto dominante um grande auditorium com capacidade para 5000 pessoas.
Será decorada com estatuas representando os grandes vultos, innumerosas placas com inscripções, emblemas, etc.
Possantes reflectores e innumeros as airenas annunciarão os grandes datas nacionaes.
O edifício terá, alem do auditorium, galerias de circulação, um pequeno museu, serviços administrativos, vestiarios e toilettes.
A Entrada principal far-se-á pelo lado da cidade.
O esboço será executado em uma só sessão de 24 horas e na escala 1 ½ mm para a planta do edificio principal, 1 cm para as elevações e secções. O desenvolvimento nas escalas de 2 ½ m. p. m. para a planta, elevações e secções de conjuncto, e bem, para os detalhes constructivos e architectonicos. Rio, 21 de setembro de 1926.
Outros colegas e amigos de Attilio C. Lima participaram do Prêmio de Viagem, e, como ele, também embarcaram para a Europa para realizar estudos e aperfeiçoamentos acadêmicos. Na Tabela 3, verificam-se os alunos premiados e contemplados com o Prêmio Caminhoá, no período de 1925 a 1928. Entre eles, estão Lucas Mayerhofer e Paulo Antunes Ribeiro, que embarcaram no ano seguinte ao de Attilio C. Lima. Ambos também cursaram urbanismo no IUUP.
Tabela 3 - Alunos do Curso de Arquitetura premiados entre 1925 e 1928.
Fonte: UZEDA (2006).
Como pensionista Corrêa Lima recebeu instruções dos procedimentos e das atividades obrigatórias que deveria cumprir ao longo de seus estudos. Em meio a tantos documentos, foi encontrado o impresso nos arquivos da família Corrêa Lima, em papel mimeografado (Figura 80) contendo as seguintes recomendações:
Instruções para o pensionista de Arquitetura, Sr. Attilio Corrêa Lima
1. O pensionista deverá residir durante os três primeiros anos na Itália e na França, devendo enviar durante cada ano uma série de estudos do natural dos edifícios característicos de cada localidade.
2. Os desenhos em número não inferior a 12 para cada ano terão as dimensões de 0,50 x 0,60 e serão executados em papel bastante encorpado ou em cartolina e da maneira que o pensionista achar mais conveniente.
3. Durante o quarto ano, o pensionista deverá residir na Grécia executando também estudos da Arquitetura local, nas mesmas condições dos anteriores.
4. O quinto ano, o pensionista empregará para realizar excursões pelos lugares que lhe aprouver, devendo, entretanto, apresentar relatório documentado ao regressar. Secretaria da Escola Nacional de Belas Artes, 21 de janeiro de 1927.
A Comissão.
Figura 80 - Documento com instruções para o pensionista de Arquitetura, Sr. Attilio Corrêa Lima. Fonte: reprodução do acervo particular da família Corrêa Lima.
No início de fevereiro de 1927, Attilio C. Lima formalizou o recebimento da Grande Medalha de Ouro conquistada no concurso e que lhe deu o direito ao Prêmio de Viagem (Figura 81). No documento referente ao aceite, observa-se que na sua parte central há os seguintes dizeres:
Figura 81 - Registro de recebimento da Grande Medalha de Ouro em 1927 por Attilio Corrêa Lima. Fonte: www.museu.eba.ufrj.br/
Após ter recebido as instruções como pensionista do Prêmio de Viagem, Attilio C. Lima, casou-se com a namorada de adolescência, Olga Fernandes. Segundo relatou seu filho, Bruno C. Lima, “[...] eles partiram no início de fevereiro de 1927, no vapor Raul Soares. Passaram pela costa brasileira, pelas cidades de Vitória e Recife em direção a Lisboa”.125
Bruno C. Lima afirmou que o casal tinha muitos planos para a nova fase da vida, abertos a diferentes experiências e conhecimentos no Velho Mundo.
Figura 82 - Os noivos Attilio Corrêa Lima e Olga Fernandes. 22 de janeiro de 1927. Fonte: reprodução do acervo particular da família Corrêa Lima.