II. BAŞKA BİR DİLDE TİYATRO PRATİĞİ
III.II. LUCA FIORELLO
O fim do ciclo de 1952, marcado pela aplicação de um modelo econô- mico neoliberal que impôs a abertura do mercado e a radical suspensão de subsídios, desnudou por completo os traços de uma modernização militar en- ganosa, mantida por mais de três décadas. Desde então, setembro de 1985, esse modelo exigiu das Forças Armadas um drástico redimensionamento, que até hoje não foi posto em prática. Apesar de dispor de menos recursos e de estar sujeita a maior controle estatal e social, a instituição militar se move com dificuldade entre duas águas: nem renuncia por completo ao passado, porque o sistema político não criou as condições necessárias para tanto, nem se incorpora ao projeto de modernização estatal, devido às restrições econô- micas e também funcionais que o modelo do qual depende atualmente exige.
A convergência de múltiplos fatores, como a queda do socialismo real e a globalização, a reinterpretação do tradicional conceito de soberania, o declínio do nacionalismo impulsionado pela força do mercado, a volatiliza- ção da tutela militar devido à democratização dos Estados, afetou notavel- mente suas referências supranacionais. Faz parte dessa pressão moderni- zante a dessacralização dos mitos histórico-institucionais que lhes davam uma certa coerência ideológica e unidade corporativa. A erosão de seus ído- los éticos fortemente vinculados à idéia da defesa territorial, da soberania do Estado e ao sentimento de último depositário do espírito nacional foi praticamente extirpada pela via do mercado.
Diante das profundas mudanças estatais e internacionais que, no mo- mento, parecem irreversíveis, as Forças Armadas modificaram tanto o tom, quanto o apelo a seus tradicionais discursos emblemáticos. Estão tratando de ajustar suas idéias à orientação seguida pelo modelo estatal. Em conse- qüência, seu esforço maior parece concentrar-se em demonstrar um franco compromisso de adaptação democrática e, por isso, estão no caminho de sua relegitimação institucional.
A luta contra a pobreza e, em especial, sua disposição de enfrentar fa- tores não-convencionais que dizem ameaçar a segurança nacional, como o narcotráfico, o terrorismo, a depredação do meio ambiente e outros estão abrindo espaço para sua neo-ideologização. Apesar da dimensão do “efeito narcotráfico” não comprometer a segurança do país, nem muito menos a saúde pública, as Forças Armadas estão tendendo a sacralizar esse argu- mento como princípio norteador de sua adaptação aos novos tempos da se- gurança. Na falta de uma definição política, convencionaram, quase auto- nomamente, que sua flexibilidade institucional no novo espectro de amea- ças é essencial para obterem a legitimidade que lhes foi negada pelo modelo estatal.
Além de controvertida, essa redefinição ideológica é traumática para Forças Armadas que não tenham conseguido consolidar uma doutrina coe- rente com as necessidades reais de defesa do Estado. Essa situação implica não só reconhecer seu fracasso institucional, como admitir sua própria des- valorização estratégica. Em conseqüência, mais que um processo de adapta- ção ao novo formato da segurança, a flexibilidade funcional é um cômodo expediente mimético para mascarar sua profunda crise orgânica.
Nesse contexto, a busca de legitimação institucional baseia-se numa forte demanda de inserção em três âmbitos simultâneos: a) intervenção mais ampla no combate às drogas; b) intervenção institucional na luta con- tra a pobreza, e c) inserção no âmbito da segurança internacional. Embora o primeiro e terceiro cenários assinalem uma demanda de modernização vin- da de fora, visto que existe forte intervenção e ajuda norte-americanas, o se- gundo cenário é mais uma espécie de prolongamento atualizado das ativida- des exercidas no passado pela Acción Cívica. Convém lembrar que a nova mudança funcional das Forças Armadas, que passa pela desvalorização ou subsunção de sua função constitutiva, expressa aquilo que se pode chamar de sua “liberalização funcional centrífuga”, a perda de um horizonte estraté- gico e, em conseqüência, o esvaziamento profissional.
Sua ampla intervenção na luta contra as drogas revela uma fase de franca politização. O apoio da Força Aérea, através dos Diablos Rojos, da For- ça Naval, com os Diablos Azules e, finalmente, do Exército, com os Diablos Verdes, fecham o círculo do que hoje se denomina na Bolívia “militarização antidroga”. Se, no início, essa participação se limitava a apoio logístico, hoje, além de operacional, estendeu-se à erradicação das plantações de coca. Des- de fins de 1995, mais de 2 mil soldados foram deslocados para as regiões de plantio da coca. Praticamente 10% das Forças Armadas estão concentrados em dois dos 311 municípios do país.35
Esta nova situação gera diversos efeitos nas relações das Forças Arma- das com a polícia e com a sociedade. Em primeiro lugar, a intervenção mili- tar em ações de interdição e erradicação está em vias de perturbar os pa-
35 Durante o governo de Paz Estenssoro foi restabelecida a cooperação e a ajuda militar dos Es- tados Unidos. Isso deu início às manobras militares Bolívia-EUA, assim como à intervenção militar em operações de combate às drogas (Gamarra, 1994).
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V DE M O C R A C I A E FO R Ç A S AR M A D A S N O CO N E SU Ldrões tradicionais de profissionalização. O atual deslocamento militar, a re- formulação da estrutura operacional, a ênfase no trabalho dos órgãos de inteligência, assim como o forte apoio militar norte-americano à capacita- ção e ao treinamento das Forças Armadas estão condicionando as novas for- mas de competência profissional.
É inegável a relação direta entre a participação militar e o aumento da ajuda econômica dos EUA às Forças Armadas.36 As novas funções milita- res conseguiram restabelecer a parca ajuda militar que se havia reduzido desde o final da década de 1960 até meados da de 1980. O refluxo da ajuda militar norte-americana promoveu o aumento da intervenção externa na Bolí- via e reforçou a dependência das Forças Armadas no que diz respeito a esse item importante para a segurança norte-americana.
Segundo, o combate às drogas reviveu memórias de conflitos entre as Forças Armadas e a polícia que datam da Revolução Nacional de 1952. Nos últimos anos, espaços que tradicionalmente se encontravam em poder da polícia foram ocupados pelo Exército, provocando conflitos institucionais. A demanda de recursos e uma concorrência hostil na atribuição de êxitos no combate às drogas entraram na própria agenda de conflito entre os ministé- rios de Governo e da Defesa Nacional. Assim, o combate às drogas revela, através de uma ácida disputa militar-policial, fortes demandas externas de modernização e profissionalização.
Terceiro, a fronteira entre a segurança interna e a ordem pública é cada vez mais imprecisa, situação que também contribui para acentuar os atritos institucionais. A repetida intervenção militar nas manifestações sociais urba- no-rurais, a incursão em ações de repressão ao contrabando, a participação no controle de produtos químicos, a intervenção sindical, a garantia da seguran- ça física de instalações privadas e públicas, assim como a mobilização militar para fiscalizar o cumprimento da Lei Seca em alguns departamentos levaram estas instituições a uma situação de franco conflito.37
A presença militar no âmbito da ordem pública e do combate às droga causou sensíveis enfrentamentos com a sociedade. Uma vulnerabilidade so- cial maior ao abuso militar assim como condutas que resvalam na violação dos direitos humanos por membros das Forças Armadas são o resultado des- sa situação que tem forte impacto sobre o prestígio institucional. Há dezenas de denúncias até hoje não apuradas no âmbito parlamentar, assim como na defensoria pública e nas organizações civis de direitos humanos. O processo de “policialização” militar, que mostra o lado crítico da liderança civil, pratica-
36 Mais ainda, o governo de Paz Estenssoro não só restabeleceu o vínculo militar com os EUA, como se encarregou de fortalecê-lo a ponto de fazer as primeiras compras de equipamento e material de transporte norte-americanos, enquanto as Forças Armadas se haviam privado du- rante quase uma década de realizar aquisições militares.
37 A apropriação militar de espaços policiais, sujeita à decisão e à permissividade dos governos democráticos, obedece fundamentalmente à necessidade de implantar uma drástica ordem so- cial no contexto de aplicação do modelo neoliberal. Pode-se aqui afirmar, sem equívoco, que a militarização da ordem pública foi diretamente proporcional à incapacidade estatal de contro- lar o elusivo movimento social.
mente conseguiu converter as Forças Armadas no fator-chave do ajuste polí- tico e no recurso mais eficaz de contenção social.
Um segundo plano em que se pode observar o forte desejo de relegiti- mação é, sem dúvida, a ampla participação das Forças Armadas nas assim chamadas ações de apoio ao desenvolvimento nacional. Contudo, no fun- do, essas ações revelam novamente a face crítica de sua desprofissionaliza- ção. Em que pese à boa vontade de restaurar sua imagem institucional, sua vigorosa intervenção neste campo tende a deslocar seu centro de gravidade profissional.
A impossibilidade do auto-redimensionamento das Forças Armadas tenta sublimar-se através de sua disposição de assumir essas tarefas. Seu próprio discurso impregnou-se de apelos relativos ao investimento de recur- sos humanos e materiais na “luta contra a pobreza”. A criação do Vice-Mi- nistério de Apoio ao Desenvolvimento Nacional e do Departamento de Ação Cívica e Operações Comunitárias nas Forças Armadas são exemplos desse novo enfoque funcional.38
Impedidas de dirigir e protagonizar politicamente os efeitos das ações de apoio ao desenvolvimento, sem capital político e sem recursos para a ma- nipulação comunitária, a instituição militar finalmente obedece à ênfase que a sociedade civil atribui a seu desempenho institucional. Nesse sentido, seu maior trabalho de cobertura concentra-se na assistência à saúde pública, à construção de infra-estrutura básica, meio ambiente, capacitação técnica de soldados e apoio à formação de recursos humanos em programas sanitários. Devido à abrangência do envolvimento militar, os valores de competência profissional tendem a modificar-se. A esse respeito, é ilustrativa a reconver- são de unidades tradicionalmente operacionais, localizadas na fronteira, em unidades produtivas e de proteção ecológica.
Não mais havendo uma notável incapacidade política para estabelecer novos padrões de relacionamento civil-militar, as Forças Armadas desenvolve- ram atitudes autônomas, mas construtivas, com a sociedade. Os laços cada vez mais fortes entre as Forças Armadas e a universidade refletem um notável avanço nesse âmbito historicamente conflituoso. O maciço acesso de oficiais às universidades, públicas e privadas, está estabelecendo um novo tipo de co- municação, que, além do mero benefício educativo, contribui para desenhar e desenvolver projetos conjuntos em prol do serviço militar. Essa obrigação constitucional também foi reformada. Constitui, atualmente, a plataforma au- xiliar mais importante do processo de reconversão, tanto técnica quanto políti- ca, das Forças Armadas à democracia. O serviço militar já não é mais um re- curso de legitimação via militarização e integração social unívoca, ou recurso
38 Surgiu nas Forças Armadas uma nova visão de apoio ao desenvolvimento estreitamente rela- cionada com as reformas estruturais do Estado. A este respeito, a autonomia de que gozara para impor um modelo nacional de Acción Cívica cedeu lugar a uma nova lógica, que vincula o desen- volvimento às necessidades locais e departamentais. Por isso, a participação militar nessas ativi- dades, além de diminuir em escala e autonomia, efetua-se atualmente no quadro das demandas locais, canalizadas principalmente pelos municípios e pelas organizações não-governamentais.
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V DE M O C R A C I A E FO R Ç A S AR M A D A S N O CO N E SU Lcivilizador exclusivo. Essa instituição de alcance nacional converteu-se em um espaço misto: militarização para a defesa, mas ao mesmo tempo acesso a am- plas facilidades e oportunidades educativas para a capacitação técnica e a for- mação de mão-de-obra voltadas para os soldados, por origem social e geográfi- ca, mais pobres do país. Assim, a renovação desse instrumento institucional por parte das Forças Armadas foi essencial para a melhoria da própria ima- gem institucional, ainda que continuem existindo práticas racistas, de discri- minação e de violação dos direitos humanos que cerceiam direitos cidadãos.39
O restabelecimento do serviço pré-militar para os jovens estudantes do último ano do secundário, provocado pelo declínio no recrutamento para o serviço militar tradicional, respondeu a um interesse instrumental para cap- tar votos do governo que saía em 1997, mas foi decisivo para a inserção das mulheres nas Forças Armadas. Essa inédita decisão institucional reflete um dos passos mais significativos na melhoria de sua capacidade defensiva, de sua imagem institucional e, ao mesmo tempo, de seu vínculo com a comuni- dade. Com grande impacto social, os programas experimentais executados em 1997 e 1998 conseguiram introduzir práticas de organização social de base tendentes a institucionalizar sua relação com as Forças Armadas. Esse serviço, que a princípio enfrentou a resistência das Forças Armadas, mas que foi finalmente exigido pelas jovens, pôde ser desenhado em consonância com as políticas públicas do país e com um inovador enfoque de gênero, eqüida- de e igualdade de oportunidades para acesso a espaços públicos como o quar- tel.40 Após a inserção das mulheres nas Forças Armadas, está em curso um estudo para sua profissionalização a partir do ano 2000.
As reformas dos serviços militar obrigatório e pré-militar têm a ver, fundamentalmente, com a crise e o declínio do prestígio profissional das For- ças Armadas. A drástica queda verificada nos padrões de convocação social à carreira militar, de 5 mil candidatos em 1980 para 400 em 1998, constitui um excelente indicador. Em conseqüência, para melhorar sua imagem e dar a seus integrantes melhores condições democráticas, as Forças Armadas ado- taram uma nova política de proteção e garantia dos direitos humanos. A ins- talação de um escritório de direitos humanos em cada unidade militar, as- sim como a incorporação dessa matéria em todo o sistema educacional, reve- la o interesse na garantia da condição cidadã de seus membros, assim como na melhoria do nível de confiança da comunidade.
O âmbito acadêmico-militar também está em processo de reforma. Além de se reconhecer o status profissional dos egressos das Forças Arma- das, deu-se início a uma fase de renovação de seus programas de estudo. Os espaços de ligação com a sociedade, como a Escuela de Altos Estudios Na-
39 Em novembro de 1998, produziu-se um dos fatos mais vergonhosos para as Forças Armadas do país. Dezenas de soldados da guarda presidencial foram alugados a uma empresa privada pelo próprio comandante-geral do Exército. Embora não se tenha conseguido processar o responsável, sua posterior exoneração resultou deste fato. A exoneração não veio a público. As condições indig- nas em que os soldados se encontravam foram repudiadas pela sociedade. La Razón, 3-11-1998. 40 Quintana (1997).
cionales e a Universidad Militar de Ingenieros estenderam seus espaços acadêmicos às cidades de Santa Cruz e Cochabamba.
A própria política de defesa está sendo elaborada com base em pro- gramas de pesquisa que se desenvolvem atualmente no âmbito institucio- nal da Unidad de Análisis de Políticas de Defensa, importante espaço acadê- mico de debates e pesquisas integrado por civis e militares.41 Essa experiên- cia, inovadora e original, está permitindo trazer a agenda da segurança para o debate público, com o objetivo de melhorar a cultura estratégica da socie- dade. A esse respeito, a mesma unidade está conduzindo um programa de relações acadêmicas com a universidade que contempla a assistência recípro- ca em matéria de pesquisa e apoio técnico no campo da história e da pesqui- sa sociológica.
Embora não se trate de um fenômeno novo, nos últimos anos vem se fortalecendo a tendência de participação de militares da reserva no sistema político partidário. Os partidos políticos, em especial os tradicionais como a Acción Democrática Nacionalista (ADN) e o MNR, são os que conseguiram cooptar a maioria dos oficiais da reserva. Os partidos de esquerda são os que menos se beneficiam com esse tipo de adesão militar. Apesar dos im- portantes avanços na relação civil-militar, persistem enclaves de autonomia que o sistema político não conseguiu modificar. Trata-se da independência dos tribunais de justiça militar, redutos pouco confiáveis e de duvidosa transparência, que interferem com o princípio da universalidade jurídica e a respectiva qualidade democrática. Apesar da rapidez com que levam a cabo seus processos, os tribunais militares são alvo de críticas pela incom- petência profissional de seus membros, pela lógica de funcionamento cor- porativo, pela extremada parcialidade e inconstitucionalidade. A Carta Mag- na não reconhece foros de nenhuma natureza.42 Por outro lado, as institui- ções militares geradoras de recursos não foram até hoje fiscalizadas por qualquer autoridade pública.
Em todo o período democrático houve apenas uma tentativa fracassa- da de reformar a instituição militar, levada a cabo pelo governo de Zamora (1989-93). Em 1991, essa iniciativa foi expressa através de uma directiva pre- sidencial que propôs “planejar a adequação da estrutura das Forças Arma- das da nação no marco das atuais situações nacional, latino-americana e mundial e das perspectivas de seu desenvolvimento no próximo século”.43 Os aspectos fundamentais que deviam ser tratados pelas comissões de estu- do e planejamento eram: a) o ordenamento jurídico e legal das Forças Ar- madas; b) a eficiência militar e operacional das Forças Armadas; c) a produ- ção destinada a potencializar e apoiar o desenvolvimento nacional e, d) a
41 A Unidad de Análisis de Políticas de Defensa foi criada em fins de 1997 com o objetivo de inte- grar esforços civis e militares para desenhar e debater uma ampla agenda de política de defesa. Nesse contexto, estão sendo realizadas pesquisas sobre o papel do parlamento, dos partidos políti- cos e dos meios de comunicação na segurança e na defesa. Faz parte, ainda, da agenda de trabalho, pesquisas sobre economia de defesa, e política internacional e Forças Armadas (Udapde, 1999). 42 Justicia Militar, privilegio de casta que debe terminar. La Razón, 21-2-1999.
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V DE M O C R A C I A E FO R Ç A S AR M A D A S N O CO N E SU Lmelhoria psicossocial do pessoal profissional. Apesar da vontade do gover- no, a directiva presidencial não produziu resultados.44
O esforço de modernização da diplomacia boliviana para inserir dina- micamente o país no processo de integração regional e levar a cabo iniciati- vas fundamentais em matéria de relações exteriores não conseguiu superar seu absoluto divórcio em relação à política de defesa. Além de não renovar a tradicional concepção das relações de poder, acentuaram-se os sentimen- tos militares nacionalistas quanto ao processo de capitalização das empre- sas estratégicas. Atualmente, e devido à presença de um militar na Presi- dência, a política marítima deu uma guinada previsível. A decisão do gover- no do general Bánzer de nomear para comandante-em-chefe das Forças Armadas um oficial de alta patente da Força Naval reforça a tendência na- cionalista, mas, na realidade, é mais uma retórica política do que uma práti- ca construtiva. Essa tentativa emblemática que aponta para a manutenção da memória territorial sobre o Pacífico reitera a errática política boliviana em matéria de relações internacionais.
Apesar da inércia e da desvinculação entre diplomacia e defesa, as Forças Armadas bolivianas conduziram gestões visando a sua participação nas forças de paz das Nações Unidas. Do mesmo modo, a Chancelaria, com o apoio do Ministério da Defesa, tenta desenvolver um de seus ambiciosos projetos, relacionado com a criação de um Centro de Prevención de Conflic- tos para América Latina, com sede na Bolívia, no marco do Grupo do Rio.45 Nesse mesmo contexto preventivo de conflitos, e com a intenção de fortale- cer as capacidades dos Estados em matéria de segurança da Região Amazô- nica, o governo boliviano pleiteou a ampliação do Tratado de Cooperação Amazônica (TCA), com o objetivo de criar uma agenda de segurança e pro- mover uma integração maior em medidas de fomento da confiança entre os países participantes do tratado.46
A inserção das Forças Armadas em operações de manutenção da paz fora do território nacional sem que se decidisse um desenho mínimo de capa- cidade dissuasiva externa revela os problemas estruturais e o errático curso que segue a defesa nacional. Neste sentido, e apesar do que foi dito, o interes- se militar no que diz respeito à segurança e à paz internacionais permitiu an- tecipar sua reestruturação parcial, convertendo as maiores unidades mili-