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BAŞKA BİR DİLDE YABANCILAŞMA DUYGUSU

II. BAŞKA BİR DİLDE TİYATRO PRATİĞİ

II.IV. BAŞKA BİR DİLDE YABANCILAŞMA DUYGUSU

Os últimos governos militares viveram, indiscutivelmente, no mais absoluto isolamento político. Não apenas enfrentaram a perda de seus alia- dos políticos — os empresários, a classe média e, fundamentalmente, os camponeses, fator de contrapeso — como, na esteira da profunda decompo- sição ideológica, viram-se sem apoio em seu próprio entorno institucional. Sua orfandade política e a fragmentação interna contribuíram para a derru- bada de seus mitos autolegitimadores, que haviam sustentado seu acesso ao poder, e a permanência nele.

6 Na convocação das eleições de 1978, 23 partidos se apresentaram. Três meses depois, e em meio ao debate sobre a reforma eleitoral, surgiram 53 novos partidos, em um processo de divi- são que não se encerrou em 1979: para as eleições de 1980, a Corte Nacional Electoral regis- trou 72 partidos, revelando profundas polarização e atomização sociais.

7 Na verdade, é o movimento civil regional (fator de agregação final) que acaba rompendo a unidade militar e deslocando o cenário das negociações: enquanto este movimento não entrou em cena as decisões políticas se concentravam na sede do governo. Por isso mesmo, o surgi- mento desse novo fator desestabiliza a lógica espacial do controle militar concentrado no alti- plano boliviano, situação aproveitada pelas facções militares dissidentes, que, por sua vez, buscam o apoio de seus conterrâneos da região oriental da Bolívia. A identidade cultural dos dissidentes orientais em seu espaço natural torna-se fator relevante na negociação e solução do conflito. Desse modo, a incorporação política às decisões nacionais de uma zona marginal e o ânimo regional de neutralizar projetos de desenvolvimento que pudessem reduzir seu cresci- mento evidenciam uma nova fase estatal caracterizada pelo deslocamento do eixo econômico e político do ocidente para o oriente. A queda do regime militar inaugura esta nova fase, consti- tuindo-se em momento formativo de um novo projeto de modernização nacional.

Ao longo do ciclo autoritário, a instituição militar jamais conseguiu estabelecer uma ordem política estável em sua relação com a sociedade, nem tampouco satisfazer às múltiplas demandas corporativas. Os diversos governos militares, além de usarem a rede clientelista com certo grau de su- cesso, recorreram repetidas vezes à força para conter a revolta social. A dé- bil articulação ideológica das Forças Armadas e a pouca legitimação de seu governo foram os fatores que, desde o começo, se salientaram na transição. Durante a última década, as Forças Armadas passaram por crises po- líticas inesperadas, que evidenciaram a persistência de um forte sentimen- to nacionalista, como os protagonizados pelos governos de Ovando-Torrez até a instalação do nacionalismo de direita dirigido por Bánzer. A oscilação ideológica das Forças Armadas gerou a desordem interna, pois, enquanto al- guns repetiam o libreto progressista da Revolução Nacional da soberania e da autodeterminação do Estado boliviano, os governos militares de direita assestavam duros golpes contra a matriz produtiva, a capacidade de gestão e negociação estatal e as alianças estratégicas que de algum modo manti- nham um equilíbrio, ainda que instável, nas arenas política e econômica.

Essa tensão ideológica caracteriza a administração militar entre 1969 e 1978. A partir de então, tende a desaparecer, cedendo lugar às manifesta- ções do tradicional discurso da segurança nacional, que seria o sustentácu- lo básico do poder militar. Em conseqüência, as administrações militares já não se esforçam para legitimar um programa de governo dotado de conteú- do ideológico-político. Antes, reforçam anodinamente um discurso hobbe- siano de ordem e segurança. O traço mais patético dessa espécie de “levian- dade ideológica” é a circularidade de sua lógica de desenvolvimento, que consiste em separar, quase totalitariamente, as premissas de ordem, paz e trabalho. Por isso mesmo, os governos militares não resistem ao mais leve questionamento e se esforçam, por outro lado, para culpar os outros por suas falhas administrativas.

Como Mayorga (1991) muito bem assinalou, ao longo de toda a transi- ção, as Forças Armadas foram-se atribuindo uma espécie de princípio ontoló- gico de representatividade pura da nação e de intangibilidade histórico-políti- ca, pela qual se tornavam a instituição depositária da soberania nacional, fi- cando acima da história, dos conflitos sociais e dos interesses particulares.

O discurso da doutrina de segurança nacional, vinculado à instauração de uma ordem política fundada em lógicas binárias excludentes, como a de amigo-inimigo, ou de pátria-antipátria, ordem-caos, constitui o traço mais destacado do receio de perder seu valor institucional maior — sua autono- mia. Este é um dos suportes ideológicos mais fortes que começou a se esgo- tar durante a transição por dois motivos: primeiro, porque tal autonomia ins- titucional revelou-se absolutamente insuficiente para garantir a unidade mili- tar em processo de decomposição e, segundo, porque sua vitalidade corpora- tiva desabou diante dos dramáticos efeitos da administração do governo de García Meza. O conluio entre o narcotráfico e os paramilitares em benefício de uma casta cleptocrática feriu profundamente os princípios profissionais da maioria dos militares. Esta situação pôs por terra a típica argumentação da ra- zão estatal e sua correspondente deificação.

A capacidade de organização e a força sindical que cresceu vertigino- samente entre 1978 e 1982 levaram as Forças Armadas ao emprego da vio-

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lência quase como um fim em si mesmo. Essa conduta tem uma explicação histórica, relacionada com a frágil formação ideológica, fustigada pelos fra- cassos militares do século XIX e princípios do XX: as conseqüências trau- máticas da Guerra do Chaco e a dramática derrota política sofrida durante a Revolução Nacional. Todos estes fatos impediram o adequado desenvolvi- mento doutrinário e militar e, devido a isso, sua plena integração e legitima- ção institucional frente à sociedade.

Vale dizer, a memória institucional das Forças Armadas não se estru- turou, como devia, em correspondência com a construção de um Estado Nacional, simplesmente porque tal Estado foi, como afirma Almaráz (1989), provisório. Ao contrário, tal memória serviu essencialmente à eficácia insti- tucional contingente articulada em torno de seu êxito no que diz respeito à segurança e ao controle social internos. Por isso a morte de “Che” Guevara na guerrilha de Ñancahuazú aparece como seu maior feito institucional no século XX.

Para as Forças Armadas, a possibilidade de perder o controle do po- der numa situação de profunda crise política significava reeditar seu trau- mático passado, que configurara sua memória da derrota durante a Revolu- ção Nacional. Pelo mesmo motivo, ante a pressão social, a instituição ape- lou para aquilo que se pode denominar seu “ídolo ético”. Vale dizer, apelou para essa memória, como efeito psicológico, para produzir uma conduta cor- porativa uniforme. Foi essa memória traumática que subsistiu como denomi- nador comum neste ciclo de transição política violenta.8

A lógica tutelar, a que continuamente as Forças Armadas recorreram para defender sua intervenção na política, sofreu um rápido desgaste du- rante a transição. As Forças Armadas, que sempre se apoiaram no recurso à força para lograr sua modernização, viram na transição a certeza da perda dessa lógica. Para mantê-la intacta, recorreram ao típico expediente de apre- sentar a UDP como a versão mais perigosa para a viabilidade política e eco- nômica do país. Acusaram-na de encarnar “o reino do terror marxista”, ar- gumento que serviu igualmente, ainda que de modo menos explícito, ao golpe do general Padilla, mas que adquiriu contornos quase grotescos du- rante o golpe de García Meza.

A intervenção militar na Bolívia tem sido repetidamente precedida pelo peso de seus traumas históricos. Esta situação fez com que as Forças Armadas reagissem diante de qualquer tipo de ameaça a sua autonomia. A renúncia a tal autonomia quase sempre foi associada à perda de sua possibi- lidade de modernização, já que esta é a dimensão a partir da qual, historica- mente, sempre conseguiram se desenvolver.

8 Embora o golpe de Estado na Bolívia revele muito pouco como fato em si, já que o hábito de mudar governos por esta via ocorre aqui constantemente, é um meio de revelar uma crise mili- tar. De nosso ponto de vista, ainda que expressem um determinado grau de unidade corporati- va diante de uma ameaça externa, os golpes de Estado na Bolívia são utilizados, ainda que não de maneira explícita, como recurso para manter a coesão militar. Os tradicionais argumentos de “caos social”, “anarquia”, “debilidade do Estado” fizeram a instituição se ver como detentora da razão do Estado, o que permitiu que se convencesse de sua tutela política da sociedade.

A desprofissionalização

Outro fator que presidiu o colapso do regime militar foi, sem dúvida, sua profunda crise profissional, situação que impediu o planejamento de uma retirada ordenada. Sua transformação pretoriana, desde meados da dé- cada de 1970, obrigou as Forças Armadas a maximizar o emprego de seus re- cursos repressivos, com a conseqüente debilitação de suas próprias bases de apoio orgânico. O crescente inconformismo, dentro do setor institucionalis- ta, não apenas com a forma de governar, mas também com o insucesso go- vernamental, acabou por interpor-se na já difícil tarefa de administrar os conflitos sociais.

A rápida deterioração do governo militar e a iminente transferência do governo aos civis inquietaram ainda mais grandes grupos militares que ainda não haviam usufruído do poder. Tais grupos afirmavam que não esta- vam dispostos a abdicar facilmente dos privilégios e prerrogativas das sine- curas que se haviam tornado costumeiras nas Forças Armadas. Aferrados a essa lógica, converteram as Forças Armadas em um campo de batalha, ten- tando convencer uns e outros de que ainda não havia chegado a hora de en- tregar o poder aos civis.

Essa lógica explica de certa maneira por que os governos militares nunca assumiram a administração governamental como um projeto institu- cional coerente, e sim como uma expressão de poder apoiada numa “lógica utilitária de caráter hereditário e messiânico” que encontrava justificação nos vazios conjunturais de poder.

Durante o longo ciclo governamental de Bánzer, por exemplo, o rodí- zio de oficiais na burocracia governamental, como parte de um butim políti- co mascarado como “prestação de serviços patrióticos à nação”, foi menor nas Forças Armadas e, de certo modo, bloqueou o acesso aos benefícios esti- pulados nos tradicionais códigos burocráticos utilitários. Contudo, uma vez aberta a comporta da transição, a desesperada busca de usufruto estatal de- sencadeou uma luta surda e tenaz por promoções, situação que se repetiu entre os oficiais que diziam encarnar um mandato e uma liderança institu- cionais indiscutíveis.

Não se sabe com certeza quantas tentativas de golpe de Estado ocor- reram entre 1978 e 1982 em conseqüência dessa lógica messiânica. Afirma- se anedoticamente que cada dia que passava constituía um golpe frustrado e o início do planejamento do próximo. Isso explica o grau de politização da carreira militar e seu extravio profissional, já que o parâmetro de competên- cia militar havia se deslocado para o plano político, deixando o desenvolvi- mento profissional na orfandade.

Entre 1974 e 1978, várias tentativas malsucedidas de golpe de Estado tiveram como argumento a retomada do profissionalismo. A de Padilla, em 1978, teve êxito, mas outras que se apoiaram neste mesmo argumento, prin- cipalmente as que foram comandadas pelo tenente-coronel Emilio Lanza, a partir da cidade de Cochabamba, e as de Añez e Cayoja, a partir de Santa Cruz, contra García Meza, tiveram de esperar um pouco mais para ver seus esforços coroados de êxito.

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O fracasso das aventuras golpistas causou muitos problemas nas For- ças Armadas. Os vínculos corporativos — o chamado “espírito de corpo” — sofreram tanto com a arrogância dos vencedores quanto com a humilhação dos vencidos. Armas, turmas e gerações assimilaram o trauma dessa cons- tante oscilação política.9 As deportações, os exílios, as baixas ou processos de depuração constituem os sintomas mais agudos da fragmentação inter- na. Tudo isso assinalava que o território da disputa pelo poder entre as For- ças Armadas e a sociedade havia sido incorporado ao próprio cenário insti- tucional. A profunda divisão entre as armas durante o governo de García Meza é testemunho disso. García Meza sofreu assédio militar de vários flan- cos geográficos, mas também conspirações provenientes de diversas frentes institucionais. Em muitos casos, as profundas divisões internas foram apla- cadas provisoriamente por um conjunto de sinecuras corrosivas denomina- das bonos de lealtad (bônus de lealdade).

Assim, as conseqüências de uma longa permanência no poder se fa- ziam sentir através do que se pode denominar a reinstalação da cultura ple- biscitária, sinecurista e clientelista nas Forças Armadas, hábito de politiza- ção e desprofissionalização que operava de forma paralela a seus registros hierárquicos. Tais práticas não eram novas, já que o MNR as praticara, pro- vavelmente com menos sofisticação, durante seu governo (1952-64).

Conquanto a desprofissionalização militar tenha se produzido no go- verno civil do MNR, as fases mais críticas se desenrolaram durante os regi- mes de Bánzer e García Meza. Incapazes de conseguir a unidade militar, es- tes entregaram a círculos muito próximos, marcados pela corrupção, cargos da máxima responsabilidade administrativa.

Particularmente durante o governo Bánzer, violaram-se sensíveis có- digos corporativos. Nunca, até então, os próprios militares haviam dado fim misterioso e trágico a seus camaradas de oposição. As mortes misteriosas do coronel Andrés Selich, principal aliado no momento do golpe, assim como o estranho assassinato de Zenteno Anaya na França e a brutalidade com que as- sassinaram Torrez em Buenos Aires geraram profundo mal-estar nas Forças Armadas.

O prolongado ciclo de governo das Forças Armadas produziu um proces- so de conversão funcional de suas tarefas de defesa para as de ordem interna. Isso deteriorou profundamente seu padrão de profissionalização. A ditadura praticamente transformou as Forças Armadas em polícia, a ponto de transtor- nar os padrões convencionais de competência profissional.10 Não só se en-

9 Durantes as décadas de 1960 e 70, as Forças Armadas enfrentaram inúmeros conflitos de ge- rações derivados das fases históricas que marcaram a memória das gerações através do desen- volvimento profissional no Colégio Militar do Exército. A presença de oficiais que haviam conquistado suas patentes em combate durante a Guerra do Chaco, a geração que estudou de- pois da guerra nos institutos militares, amparada por um modelo educativo ideológico e oligár- quico, e os que fizeram parte das reformas provocadas pela Revolução Nacional enfrentaram conflitos ideológicos e corporativos insolúveis em muitos casos. Para compreender como se formaram as memórias corporativas cíclicas, ver Quintana (1996).

volveram na ocupação dos centros mineiros, como chegaram até a utilizar instalações militares para práticas policiais, tanto para detenção e confina- mento, quanto para tortura. Assim, os oficiais se viram envolvidos em práti- cas policiais, ferindo com isso seu decoro e sua orientação ética e profis- sional.11

Os movimentos institucionalistas reprimidos por meio de depura- ções radicais foram deslegitimando o poder governamental das Forças Ar- madas e instalando um clima de suspeita e incerteza. Essa situação refor- çou o vezo centralizador, autoritário e arbitrário do presidente, que em vá- rias ocasiões exerceu uma tríplice função: chefe do Executivo, capitão-geral das Forças Armadas e comandante-em-chefe das mesmas. Contudo, a im- possibilidade de administrar o descontentamento militar levou ao desenvol- vimento não só de práticas clientelistas, como de um vasto sistema de inteli- gência doméstica no interior das Forças Armadas.

O uso discricionário e instrumental das normas para conferir, ampliar ou reforçar prerrogativas, juntamente com a falta de um projeto de moderni- zação institucional produziram também uma notável irritação na tropa. Apro- fundou-se a crise de identidade entre os que aderiam incondicionalmente ao governo e os que mantinham uma conduta profissional, produzindo-se crises disciplinares muitas vezes incontroláveis. Por exemplo, o fracasso da política internacional do Poder Executivo quanto à reivindicação marítima do Chile, em 1976, levou a uma tentativa de golpe de Estado.12

Durante o governo de García Meza, a transformação do padrão de competência profissional, que se apoiou na eficiência repressiva dos órgãos de inteligência, foi um dos elementos que mais afetou o desenvolvimento profissional. A ligação de membros das Forças Armadas com paramilitares, militares argentinos e narcotraficantes prejudicou ainda mais a unidade mi- litar, abatendo profundamente o moral do corpo de oficiais não envolvidos na trama governamental.

Dunkerley denomina este período “ditadura da delinqüência”, deno- minação que corresponde com propriedade ao padrão atípico de interven- ção militar e à forma de administrar o poder entre 1980 e 1981. Este foi, sem dúvida, um dos golpes mais cruentos da história do século XX, no qual se combinaram três elementos jamais registrados até então: financiamento e apoio de certos grupos pertencentes ao mundo do narcotráfico; forte apoio de militares argentinos, da linha mais dura da repressão, no processo de pla- nejamento e execução do golpe; e, finalmente, a presença de grupos parami- litares ligados a redes internacionais de terrorismo e tráfico de drogas.

11 As Forças Armadas viveram em constante crise e questionamento quanto à forma pela qual se articulou e se projetou a imagem do governo. Não observaram qualquer fronteira entre o processo de policialização e de politização institucional. A transformação que sofreu em razão da aliança firmada com os partidos de direita converteu a instituição militar no braço armado da Frente Popular Nacional. Da mesma forma, os efeitos visíveis do poder eram assimilados tanto pelos partidos, quanto pelas Forças Armadas. Assim, o empanamento da imagem institu- cional debilitou o compromisso de muitos oficiais com o governo.

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Até 1980, as intervenções militares tinham dois traços característi- cos. O primeiro era um bom grau de autonomia com pouca participação ci- vil, como foram os casos de Barrientos, Padilla e Pereda. Já outros golpes militares contaram com importante apoio e participação de partidos políti- cos, empresas privadas e membros destacados da sociedade, como os de Ovando-Torrez, Bánzer e Natusch. Mas o golpe de García Meza diferiu de ambos os esquemas, como já mencionamos. Esse golpe frustrou temporaria- mente as aspirações sociais de consolidar um modelo democrático de poder e introduziu graves transtornos na sociedade boliviana. Foi, sem dúvida, um governo carente de legitimidade e sua existência dependeu em grande parte do uso puro da força e da repressão. Comparativamente, esse foi um dos go- vernos militares mais distantes da sociedade. Foi, em muitos sentidos, a ex- pressão de uma aguda crise da instituição militar e de sua dificuldade em arti- cular-se com a democracia.

O inesperado aparecimento de García Meza no cenário converteu a ca- pacidade de negociação das Forças Armadas em uma derrota catastrófica. O golpe militar de julho de 1980 foi produto não só da débil articulação interna para fazer frente a uma sociedade que se obstinava em retornar aos cami- nhos da democracia, como uma reação a dois fatores convergentes: primei- ro, a incapacidade da instituição em articular-se em um modo de convivên- cia democrático e, por isso mesmo, sua incapacidade de definir os termos da transição. Os golpes e contragolpes ocorridos antes de julho de 1980, junta- mente com os discursos institucionais, revelam a sensação de perda de con- trole dos acontecimentos e, diante disso, a melhor solução encontrada foi o uso da força. Segundo, os interesses circunstanciais da máfia do narcotráfi- co, que se associou às figuras mais proeminentes do golpe militar.

Esse governo se sustentou puramente na força, posto que não encon- trou justificativas plausíveis — pior ainda, não tinha qualquer convicção — para negociar com a sociedade. Por isso, converteu-se em duplo refém. Primei- ro, das máfias de paramilitares e narcotraficantes, das quais extraía bons lu- cros em troca de sua livre atuação. Segundo, também se transformou em re- fém dos marcantes efeitos que essa associação ilícita produziu entre um vasto número de oficiais que controlavam não só a máquina burocrática do gover-