GEREÇ VE Y ÖNTEM
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“E a Pampulha despontou para mim, mal saído da escola, como uma oportunidade inesperada, e nela me debrucei entusiasmado, consciente que um mundo de formas novas se abriria para a arquitetura.”
Oscar Niemeyer
Se há uma paisagem marcante dentro do cenário de Belo Horizonte, esta, com toda certeza, é a Pampulha, internacionalmente conhecida pelo seu complexo arquitetônico. De acordo com Flávio Carsalade (2005), nenhum outro ícone da cidade tem a força referencial quanto os criados pela Pampulha.
O Projeto Pampulha origina-se nos anos de 1930, baseado nos preceitos da ciência do urbanismo, em que se observa a preocupação com o zoneamento funcional, a expansão urbana, o abastecimento de água, os polos de lazer etc. Estas questões estiveram fortemente presentes nos estudos da Comissão Técnica Consultiva da Cidade e nas administrações de José Oswaldo de Araújo e Otacílio Negrão de Lima. Na década de 1940, o governo de Juscelino Kubitscheck retoma o Projeto Pampulha. O então prefeito visualiza a lagoa como o local de turismo, lazer e habitação que faltava à capital moderna (CARSALADE, 2006, p. 273).
O fio que une essas atitudes, o traço cultural que caracteriza sua similitude, é a mesma ideia, portanto, da cidade moderna, racional e saudável que vem permeando a cidade desde seu nascimento e que caracteriza a nova capital mineira, o ideário da modernidade e da transformação que vem da nova realidade política e dos avanços científicos e que JK soube perpetuar, reforçando a ideia da capital de Minas como a cidade moderna por excelência, em oposição à “velha” Ouro Preto (CARSALADE, 2006, p. 273).
O convite para que Oscar Niemeyer projetasse alguns dos principais edifícios do complexo da Pampulha surgiu depois de um fracassado concurso para o desenho dos prédios públicos, incapaz de representar a imagem futurista almejada por Kubitscheck. O arquiteto e o prefeito, juntamente com outros artistas renomados – o pintor Candido Portinari, o paisagista Burle Marx e o escultor Alfredo Ceschiatti – carregaram as obras da Pampulha de valores arquitetônicos e históricos, como demonstra Flávio Carsalade a seguir:
Primeiramente a sua âncora no imaginário que tem caracterizado Belo Horizonte como o lugar da Modernidade. Depois, a forte presença fática da forma, caracterizada por um desenho original, exclusivo e diferenciado, inclusive de outras obras do próprio arquiteto, facilmente reconhecível pela população. Como terceiro ponto – e não menos importante – o lugar que a História reconheceu (e que depois a própria Brasília ajudou a consolidar) da Pampulha como berço da moderna Arquitetura brasileira e de sua importância mundial como consolidação das novas possibilidades arquiteturais que o mundo, então, via nascer (CARSALADE in IGREJA DA PAMPULHA: RESTAURO E REFLEXÕES, 2005, p. 59).
A Pampulha tornou-se um ponto simbólico em Belo Horizonte, presente no cotidiano da cidade como local de lazer, cultura e esporte, composta pelo Museu de Arte, a Casa do Baile, a Igreja de São Francisco de Assis, o Jardim Zoológico, o Iate Clube, o Pampulha Iate Clube e os estádios esportivos, Mineirão e Mineirinho. Em 2004, a Pampulha passou por um processo de requalificação, recebendo o Parque Ecológico Francisco Lins do Rego e tendo sua orla recuperada, oferecendo um espaço totalmente novo para a prática de esportes e caminhada.
FIGURA 4 - Pampulha Iate Clube.
Leonardo Barci Castriota (2005) aponta o paradoxo que se cria na Pampulha ao adotar o tombamento para uma obra moderna, ou seja, uma obra que representa o futuro, o original. A necessidade de tombar a Igreja de São Francisco de Assis se deu, primeiramente, pelo fato de sua composição não ter sido aceita pela Igreja conservadora, habituada a uma tipologia já característica de casa religiosa, e pelas ameaças de demolição que sofreu durante os mandatos posteriores ao de Juscelino Kubitscheck. Neste cenário, inicia-se o processo de tombamento da Igrejinha da Pampulha, em 1947, mesmo estando inacabada.
Segundo Lúcio Costa citado por Castriota (2005), o tombamento preventivo vem trazer o reconhecimento antecipado do valor singular da obra e prevenir que o bem fosse a ruínas. “Não há melhor exemplo, a meu ver, do tratamento que o moderno oferece à ideia do clássico: mais que uma distinção temporal, deveria se preservar aquilo que o moderno oferece à eternidade – e que deve, portanto, se perpetuar.” (CASTRIOTA in IGREJA DA PAMPULHA: RESTAURO E REFLEXÕES, 2005, p. 80).
Em 1º de dezembro de 1947, a Igrejinha, bem como suas obras de arte, são inscritas no Livro do Tombo das Belas-Artes do IPHAN. Em 15 de dezembro de 1997, todo o complexo arquitetônico da Pampulha é registrado simultaneamente no Livro das Belas Artes, Histórico e Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico. Além do tombamento federal e estadual, o complexo recebe tombamento integral pelo município em 14 de outubro de 2003.
FIGURA 5 - Igrejinha da Pampulha
Entretanto, para proteger um bem, não basta decretá-lo como tombado e inscrevê-lo em um dos livros do tombo; especialmente em se tratando de um conjunto urbano como o da Pampulha, tão influenciado por agentes externos de diversas naturezas e tão a mercê de interesses difusos.
Castriota (2005) transcreve seu próprio trabalho escrito em 1998, em que comenta:
[...] no coração da pesquisa contemporânea, interdisciplinar e crítica, vai estar fortemente estabelecida a noção de que o patrimônio cultural é uma construção social, resultado de processos sociais específicos, espacial e temporalmente, como foi demonstrado magistralmente por Françoise Choay em A Alegoria do Patrimônio (CASTRIOTA apud CASTRIOTA in IGREJA DA PAMPULHA: RESTAURO E REFLEXÕES, 2005, p. 84).
Atualmente, se tem uma ampla gama de bens patrimoniais que são considerados passíveis de proteção por decisão consciente de pessoas ou instituições, espelhada no contexto e nos processos sociais (CASTRIOTA in IGREJA DA PAMPULHA: RESTAURO E REFLEXÕES, 2005, p. 84). Compreender essas questões é essencial para estabelecer políticas para a proteção do patrimônio, bem como compreender a posição de cada grupo social em relação ao assunto.
[...] através do planejamento compreensivo para a gestão da conservação, vêm se desenvolvendo perspectivas integradas e interdisciplinares para a preservação do meio-ambiente construído que respondem às condições da sociedade contemporânea (CASTRIOTA in IGREJA DA PAMPULHA: RESTAURO E REFLEXÕES, 2005, p. 86).
FIGURA 6 - Igrejinha da Pampulha e seu entorno imediato Fonte: José Octavio Cavalcanti, 2010, p. 124.
Pensando nessas questões, faz sentido haver uma legislação específica que proteja regiões únicas dentro da cidade, como é o caso da Pampulha em Belo Horizonte. Assim, em 2001 e 2002, foi realizada a 2ª Conferência Municipal de Política Urbana, com a participação de técnicos, representantes da comunidade, do empresariado e da prefeitura. Neste encontro, discutiram-se diretrizes para instituir a Área de Diretrizes Especiais da Pampulha, atentando-se para a diversificação de usos, sobretudo no que concerne o turismo e o lazer. Além disto, nesta ocasião, foi estabelecido que a volumetria da edificação e a taxa de permeabilidade fossem mantidas (CASTRIOTA in IGREJA DA PAMPULHA: RESTAURO E REFLEXÕES, 2005, p. 86).
Castriota (2005) expõe um novo encontro que seu deu entre os anos de 2003 e 2004, em que se buscou a elaboração de uma proposta de regulamentação para as ADEs da Bacia da Pampulha, da Pampulha e do Trevo, tendo participado a Prefeitura de Belo Horizonte, instituições ligadas ao patrimônio histórico, o Consórcio de Recuperação da Bacia da Pampulha e diversas associações comunitárias. Desta discussão, apesar da dificuldade em conciliar os vários interesses em pauta, culminou uma Minuta de Projeto de Regulamentação das ADEs, cuja proposta final foi estudada e aprovada pelo COMPUR.
O Projeto de Lei nº 1659/04 instituía o plano de ação na Bacia da Pampulha e regulamentava as ADEs da Bacia da Pampulha, da Pampulha e do Trevo. Desde a sua proposição, o Ministério Público já atentava para os riscos que sua aprovação poderia trazer para a região da Pampulha, em especial para o complexo arquitetônico tombado, em virtude da possível permissão de verticalização pelo PL em questão. Outras diretrizes do documento propunham, no que se refere à orla da lagoa, a transição do uso residencial para usos ligados ao entretenimento e lazer, como previa a proposta original do Conjunto da Pampulha. O Projeto de Lei foi vetado pelo Executivo em 23 de maio 2005.