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Miranda (1997, p. 98-99) destaca a importância que tiveram para os documentaristas algumas etnias indígenas venezuelanas tanto desde uma perspectiva etnográfica, científica87 quanto desde outra perspectiva mais politizada, patente nos filmes Yo

hablo a Caracas (1978), Amazonas negocio de este mundo (1986) e, parcialmente, em Santa

Elena de Uairén (Carlos Oteyza, 1980) e La Guajira (Calogero Salvo, 1985). Estes últimos fizeram uma série de denúncias sobre aculturação, degradação ecológica e genocídio das etnias na Amazônia venezuelana, Guiana venezuelana e delta do rio Orinoco por parte de

85 Trata-se de um tipo cultural tradicional das cidades e povoados das planícies centrais da Venezuela (os llanos),

localizadas geralmente às beiras férteis dos grandes rios da região (daí o nome, que traduzido literalmente significa “da veiga”, “da várzea”). O veguero caracteriza-se por uma ética, tradição oral e musical particulares, bem como a dedicação a diferentes ofícios sedentários (agricultura, comércio e serviços menores). Diferencia-se do tipo cultural do llanero “recio”, dedicado à cria de gado bovino em vastas extensões de terreno (vaqueria). A própria popularidade do ex-presidente Hugo Chávez foi relacionada muitas vezes com sua origem llanera (nasceu na cidade de Sabaneta, edo. Barinas, em pleno llano) e que sua personalidade representaria o tipo

veguero tradicional.

86 De fato, o filme se estrutura em blocos intitulados com os diferentes ofícios que López exerceu na sua vida

(cabelereiro, preparador de tabaco, etc).

87 Miranda menciona filmes como Paraíso amazónico (Daniel Oropeza, 1970); Hoti (Jorge Pacheco, 1976); Wahi paevi wahi (1977) e Los waraos de Winikima (1980) de Alfredo Méndez; Oko Warao (B. Bermúdez e B. Escalante, 1986); El extranjero que danza (1980) e Iniciación de um shamán (1980) de Manuel de Pedro e Los

vários agentes: garimpeiros brasileiros, guerrilheiros, narcotraficantes e igrejas cristãs norte- americanas.

Observamos que o tema indígena continua sendo importante no documentário contemporâneo, mas com mudanças fundamentais no seu tratamento. O indígena é representado como um personagem com voz e cidadania plena graças aos direitos e espaços políticos que as etnias ganharam com a Revolução Bolivariana88. Identificamos aqui um afastamento tanto da prática de representação “etnográfica” do indígena quanto do próprio papel do documentarista como agente de “denúncia”, defensor dos direitos de um sujeito indígena passivo e vitimizado, na chave descrita por Miranda.

Evidenciamos esta colocação em um conjunto de títulos centrados na etnia wayúu do estado Zulia, a mais numerosa e integrada à vida urbana da Venezuela89. O crítico Pablo Gamba90 dirá que o cinema indigenista, caracterizado por um diálogo intercultural com os wayúu, é uma das “linhas de afinidade temáticas” mais interessantes do documentário contemporâneo. Para Gamba, os melhores documentários deste filão seriam El cartero wayúu (2005), de Alejandra Fonseca e El niño Shuá (2006) de Patricia Ortega. 91

Outros documentários indígenas contemporâneos são Ahora la constitución

habla wayuunaiki (Alejandra Fonseca, 2005)92, que aborda os processos de inclusão social dos wayúu depois da promulgação da Constituição Bolivariana de 1999; Waleker, raiz y lucha

entretejidas (Eduardo Viloria, 2008), que trata de um grupo de mulheres wayúu que conseguiu se organizar através de um programa de governo para mães da favela e Nuestra

88 Uma das conquistas políticas mais importantes alcançadas durante a Revolução Bolivariana é a relacionada

com os direitos indígenas. A Constituição de 1999 estabelece participação política dos indígenas nos poderes executivo e legislativo, entanto a Ley para la Demarcación y Garantía de las Tierras y Hábitat Indígena (2001), e a Ley Orgánica de Pueblos y Comunidades Indígenas (2005), entre outras, abriram a possibilidade de

autonomia e propriedade das etnias nos seus territórios (não concretizada em nenhum caso por conflitos com o mesmo Estado e proprietários privados); o reconhecimento de línguas e conhecimentos nas políticas culturais, educativas, de obras públicas, entre outros aspectos.

89 No censo de 2011, 12.6% da população do estado Zulia se reconheceu como membro de alguma etnia indígena

(INE, 2014, p. 11). O povo wayúu é maior do país (58% do total nacional), sua população na Venezuela se estima em 415.498 habitantes (INE, 2013). Outros 200.000 moram no departamento de La Guajira da vizinha Colômbia.

90 Entrevista realizada pelo autor em Caracas, em 20.01.2015.

91 Os filmes de Ortega e Fonseca não pertencem ao nosso corpus, mas fazemos referência deliberada deles

porque deveriam pertencer. Sua ausência, bem como a obra de outros documentaristas relevantes como Rosana Matecki, Jonás Romero, Wanadi Siso, se deve a falta de registro estatístico institucional de filmes não lançados em salas comerciais ou na Cinemateca Nacional. El niño Shuá, por exemplo, é um dos seis filmes venezuelanos mencionados por Ruffinelli (2012, p. 190-191), mas que não aparece nas estatísticas de CNAC e FCN. Este foi uns dos problemas estruturais desta dissertação e é uma das “doenças” crônicas — se não a pior— dos estudos cinematográficos na Venezuela, cujas lacunas de informação pública tornam invisíveis uma enorme parte da produção.

historia está en la tierra (Eliécer Árias, 2008), obra que faz uma revisão crítica do avanço do processo de demarcação de territórios indígenas de várias etnias, previsto na Constituição de 1999 e nas leis indígenas que derivaram dela.

Ojo Indígena (Joanna Cadenas, 2012), por outra parte, indaga a cotidianidade da Universidad Indígena de Venezuela, criada em 2010 como parte da política de autodeterminação indígena da Revolução Bolivariana. Janokosebe iridaja: em busca del

tesoro (Manuela Blanco, 2007), toca no tema das migrações do povo warao, moradores ancestrais do delta do Orinoco, para diferentes cidades da Venezuela, onde costumam passar temporadas em situação de indigência. El terminal de pasajeros de Maracaibo (Yanilú Ojeda, 2008), embora não seja um filme exclusivamente dedicado ao tema indígena, aprofunda na vivência e conflitos dos wayúu que trabalham como vendedores ambulantes no terminal rodoviário de Maracaibo.