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İş Yerinde Psikolojik Şiddetin İş Tatmini Üzerine Etkileri

Mas não é apenas o tipo de interação com os personagens o que chama a atenção do filme. Carreño (2011, p. 211) e Ruffinelli (2012, p. 203) salientam, como o maior acerto da obra, a representação— para além da coleção de tipos sociais populares— de um conjunto de histórias de vida.

únicos da região e em um “cantado” muito característico. Maracaibo é muito famosa pelo humor dos seus habitantes e sua facilidade para a ironia e a piada.

192 Waugh destaca que a vigência que têm ainda “gêneros” atrelados ao “frio” estilo observacional de autores

como Wiseman, por exemplo, se sustenta geralmente em: a) filmes em que o cineasta estabelece uma relação íntima com seus personagens, com performances à câmera claramente permitidos, dirigidos, cheios de elementos improvisados produto desse relacionamento. b) filmes cujos personagens dedicam-se a ofícios performáticos, como a atuação ou a música. (WAUGH, 2011, p. 80-81).

193 Proxémica é a parte da semiótica (ciência que estuda o sistema de signos utilizado na comunicação) que

estuda a organização do espaço na comunicação linguística. A proxémica estuda as relações — de proximidade, de afastamento, etc. — entre as pessoas e os objetos durante a interação, as posturas adotadas e a existência ou ausência de contato físico. Também pretende estudar o significado decorrente de tais comportamentos. (CVC)

O elemento narrativo pôde ter ficado no impressionismo, em rápidas pinceladas sobre a diversidade de situações, mas, afortunadamente, vai muito além, para descobrir histórias (RUFFINELLI, 2012, p. 203) [tradução nossa]194

Não são rostos à deriva. Muitos deles contam histórias e através delas compreeendemos mais aprofundadamente o porquê desses rostos marcados na sua expressão de vida implacável (...) assim passam na frente de uma câmera muito atenta e respeituosa, motoristas, mulheres vendedoras, cuidadores de sanitários, adultos e crianças wayuu, passageiros (CARREÑO, 2011, p. 211) [tradução nossa]195

A proximidade atingida pelo sujeito-da-câmera em El Terminal de Pasajeros

de Maracaibo permite que os personagens se abram. O ancião vendedor ambulante revela sua prodigiosa idade (106 anos) e afirma que ainda conserva o otimismo. A adolescente wayúu explica por que trabalha para estudar. O menino de rua conta quando foi abandonado pela mãe, do seu trabalho vendendo “cartões de amores” e dos seus anseios de virar motorista.

Uma destas figuras é La Magallanera, uma mulher divorciada que sobrevive, há 16 anos, trabalhando como vendedora ambulante. A mulher aparece em duas sequências. A primeira (00:13:33-00:14:32) consiste na montagem paralela de a) um plano-sequência, em câmera-na-mão, que a segue em um trajeto por uma das plataformas do terminal e b) um testemunho dela olhando para a câmera cujo áudio acompanha, em off, parte do plano- sequência anterior.

No plano-sequência é possível perceber a alegria da personagem e a cumplicidade dela com Yanilú Ojeda — a quem chama de mami (um vocativo carinhoso na Venezuela). Bem-humorada, La Magallanera tenta convencer um motorista apelidado

Mataperro (Mata-cão) de sair na gravação. O testemunho para a câmera, pelo contrário, começa bastante severo. Nele defende seu direito de trabalhar e, com um giro picaresco, reivindica seu direito a uma qualidade de vida:

Aqui trabalho honestamente. Luto de 7 a 7. Deixo a pele e trabalho. Ninguém pode me assinalar de nada porque nunca faço nada errado. Trabalho porque tenho 62 anos e não quero pedir, ninguém me dá um tostão e emprego também não me dão. Então, o que eu quero é trabalhar! Deixa-me trabalhar porque tenho meus gastos pessoais!

194 Original em espanhol: “El elemento narrativo pude haberse quedado en el impresionismo, en súbitos

brochazos a la diversidad de situaciones, pero afortunadamente va mucho más allá, a descubrir historias.”

195Original em espanhol: “No son rostros a la deriva. Muchos de ellos cuentan sus historias, y a través de ellas

comprendemos más a fondo el porqué de esos rostros marcados em su expresión de vida implacable (...) Así pasan delante de uma cámara muy atenta y respetuosa, choferes, mujeres vendedoras, cuidadores de baños, adultos y niños wayuu, pasajeros”.

Eu também como! Eu pago para ir ao banheiro, eu tomo café e de quando em quando me mando um uísque! Isso sim! (risos) [tradução nossa]196

A segunda sequência (00:49:32-00:50:48), decorrente da anterior, mantém o mesmo esquema de câmera e montagem, com a diferença que a angulação do testemunho é em contra-plongée — um aspecto estilístico sobre o qual voltaremos depois. La Magallanera, com expressão cansada, faz contas enquanto descansa em um banco. No testemunho, com a mesma firmeza, a mulher revela detalhes da sua história de vida pessoal:

Acontece que às vezes acordo com muito estresse, a solidão, o tanto que eu já lutei... Porque eu já fui uma mulher de negócios, uma mulher muito encorajadora com meu marido, que se a gente tinha que vender — e desculpa a vulgaridade— bolinhas de merda na esquina eu não falava ‘ai não, não’... Vamos vender! A gente teve negócios, residências, um restaurante. Eu achava que como tinha talões de cheques e funcionários, tinha ‘deus agarrado pelas barbas’. Me enganei! Esbarrei! Essa prepotência!... Do jeito que eu vivia cheia de joias e falava para meus sobrinhos, meus filhos, meus afilhados, quando passávamos no camelô “mãe!, mãe! olha!” e eu “não compre, porque isso é lixo”. E que agora eu tenha que vender aquilo que chamava de lixo para sobreviver! Vou te falar, meu bem! Isso é um golpe muito forte para mim... Com a prepotência que eu achava que ia ter na vida! [tradução nossa]197

Este é um dos momentos epifânicos do documentário pela força ética e dramática do testemunho. Ele evidencia um elemento de valor cinematográfico: uma história com ciclo dramático: a mulher que, rica, cai em desgraça, empreende uma viagem e, longe consegue, sobreviver e manter a dignidade, aprendendo sobre valores como humildade e compaixão. Por outra parte, La Magallanera parece representar uma das muitas mulheres venezuelanas e latino-americanas abandonadas pelos maridos — ou fugidas deles—que encaram a vida com pé firme. Neste sentido, destacamos o caráter arquetípico da personagem no mosaico de personagens da rodoviária.

196 Original em espanhol: “Aquí trabajo honestamente. Lucho de 7 a 7. Largo el forro y trabajo. Nadie me puede

señalar de nada porque no hago nunca nada malo. Trabajo porque tengo 62 años y no quiero pedir y nadie me da ni medio y empleo tampoco me dan. Entonces lo que quiero es trabajar. Déjame trabajar porque tengo mis gastos personales! Yo también como!, yo pago para ir al baño, yo tomo café, de vez en cuando me tiro un whisky (risas), ah eso sí!”

197 Original em espanhol: “lo que pasa es que a veces me paro con mucho stress, la soledad, tanto que he

luchado, porque yo he sido mujer que he tenido negocios, yo soy una mujer muy impulsadora con mi marido, que si tenemos que vender —por decirte, y discúlpame— peloticas de mierda en la esquina yo no le decía 'ay nooo, nooo', vamos a venderlas! Tuvimos negocios, tuvimos residencias, también tuvimos un restaurant. Que yo me creía que como manejaba chequeras y tenía personal, yo creía que tenía a dios agarrado por las barbas, me equivoque!, me estrellé!, esa prepotencia... como vivía llena de prendas, y yo le decía a mis sobrinos, a mis hijos, a mis ahijados cuando andábamos de compras que le veía a los buheneros! 'ay tía' o 'ay mami mami mira esto' — no compre eso, que eso es basura— y que ahora yo tenga que vender lo que yo llamaba basura para sobrevivir! Noooo mi reina! Eso es un golpe fuerte para mí con la prepotencia con que yo creía que iba a tener la vida!”

Já no âmbito do estético, a gestualidade, a raça miscigenada, a prosódia e os referentes nacionalistas que a personagem leva no corpo (camiseta e boné de Los Navegantes

de Magallanes, um dos times mais populares do esporte nacional — béisibol—, e brincos com o tricolor nacional), também aludem ao imaginário cultural que existe no país sobre mulher venezuelana.198

Gráfico 3 – Fotogramas de sequência I / El Terminal de pasajeros de Maracaibo.

Legenda: La Magallanera. No primeiro fotograma, a câmera acompanha um recorrido da personagem pelas plataformas da rodoviária. No segundo, a angulação contra-plongée do testemunho da segunda sequência em que a personagem aparece.

Todos estes elementos nos levam de novo às ideias de Miranda quando identificava um dos grandes traços do documentário do período 1975-1989 na busca do personagem “ao mesmo tempo excepcional e emblemático, que remete a todo um contexto (...)” (MIRANDA, 1994, p. 94), em outras palavras, o acesso à idiossincrasia popular através de personagens arquetípicos.

Este registro se cumpre com La Magallanera e com outros personagens. Para chegar nele é evidente que o sujeito-da-câmera, especialmente Yanilú Ojeda como diretora e câmera, ganhou a confiança dos personagens, produto do respeito e do compromisso com

198 Não é, nem de longe, nossa intenção falarmos sobre os traços que definiriam tal ideia de “mulher

venezuelana” ou “latino-americana”. Porém achamos conveniente citar o trabalho do cientista social

venezuelano Samuel Hurtado Matrisocialidad (Caracas: FACES/EBUC, 1998). Hurtado estuda a organização social sob uma perspectiva cultural, transcendente aos grupos étnicos, que aprofunda na estrutura psicodinâmica básica da família venezuelana. Esta perspectiva adota o modelo etnológico da sociologia e incorpora elementos da psicanálise (etnopsiquiatria) (HURTADO, 1998, p. 19). O autor afirma (1998, p. 286, 290-291) que a sociedade venezuelana arrasta um complexo matrisocial: uma sociedade cujo ethos patriarcal contradiz as formas reais de socialização, caracterizadas por um papel de mulher/mãe autoritária, que sustenta a dignidade e economia familiar, e que reproduz um papel masculino de homem mimado, esvaziado de responsabilidades, constituído em um machismo primário sexualizado (homem mulherengo) que não se realiza como pai e termina sendo afastado do núcleo da família/útero. Isso explica, em parte, o imaginário de mulher venezuelana solteira e lutadora que consideramos representado em La Magallanera.

eles. Este compromisso se vê representado no trabalho de câmera, que queremos analisar aqui a partir uma perspectiva ética.