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İşyerinde Psikolojik Şiddet İle Başa Çıkma Yöntemleri

Um primeiro elemento a ser destacado nesta ideia da “diversificação ideológica” é a pouca atenção que Miranda (1997, p. 95-96) e Penzo (2002, p. 33-34) parecem ter dado aos documentários produzidos na década de 1990, inclusive àqueles que — a contramão do que eles próprios sustentam— trazem questionamentos sociopolíticos.

Os autores apenas mencionam títulos bem críticos como Zoológico (Fernando Venturini, 1991), Parque Central (Andrés Agustí, 1992) e Los guerrilleros al poder (Miguel Curiel, 1998; mencionado só por Penzo). Eles abordaram assuntos como a crise dos artistas de classe média e seu impasse com o próprio país (tema em Zoológico); a metáfora do fracasso do projeto modernista-petroleiro venezuelano da década de 1970, evidenciado na decadência do conjunto arquitetônico Parque Central121; ou bem o devir político e ideológico dos líderes ex-guerrilheiros da década de sessenta que entraram para a vida política formal na década seguinte e terminaram bandeirando as reformas neoliberais da década de 1990. 122

Até mesmo o cinema político de esquerda, representado na obra das cineastas e docentes Liliane Blaser e Lucía Lamanna, apenas mencionada por Penzo, é minimizado. O documentarista contemporâneo e sociólogo Marc Villá dirá, em 2012, que se trata de filmes:

...Caraterizados por uma representação irônica e desiludida da política da época. Eleições fraudulentas, discurso neoliberal, privatizações e repressão. A estas práticas se junta o trabalho formativo, descolonizador e alternativo, que têm feito Liliane e Lucía em seu Instituto de Formación Cinematográfica COTRAIN. A entidade já capacitou duas gerações de documentaristas. Sua importância radica na condição de ser a única opção acessível, na década de 1990, para a formação cinematográfica que

cuyas típicas manifestaciones son los videoclips y el el cine de la acción extrema y violenta, esa especie de euforia esquizofrénica de la que habla Jameson (1992)”

121 O Parque Central, localizado no centro de Caracas, é um complexo urbano de propriedade estatal integrado

por oito megablocos de apartamentos, áreas comerciais, áreas culturais e dois arranha-céus de 59 andares onde têm sede vários órgãos públicos. Foi construído a partir de 1969 e os prédios foram inaugurados entre 1972 e 1983. Na década de 1970 foi considerado o empreendimento urbano mais moderno da América Latina, mas no final dos anos oitenta entrou numa espiral de deterioro por falhas na administração e pelos elevados custos de manutenção. É um símbolo da Venezuela Saudita.

122 Um deles, Teodoro Petkoff, fundador do partido MAS, em 1971, foi Ministro de Planejamento do Estado no

tinham os setores médios e baixos da sociedade venezuelana. (VILLÁ, 2012, p. 6). [tradução nossa]123.

Por outra parte, acreditamos que os autores desconsideram dois fenômenos que ganham visibilidade na época: a aparição e popularização de séries de documentários na televisão e de coletâneas distribuídas em VHS e DVD por casas produtoras privadas.

Por exemplo, 1986 e 1998 o rede de TV privada RCTV produziu uma série de documentários de temática naturalista chamada Expedición, com capítulos de uma hora de duração caracterizados por uma narrativa clássica, expositiva e didatista. A produção foi vendida a Discovery Channel e outras programadoras da Espanha e o Japão, e depois disponibilizada em VHS e DVD124. O documentário sobre natureza (conhecido na Venezuela como “conservacionista”) caracteriza-se por um alto orçamento de produção e viagens a locais naturais remotos da geografia do país. Ele foi, no seu momento, uma novidade nas práticas de representação venezuelanas e levantou um interesse significativo do público. Podemos relacionar esta prática com documentários do nosso corpus como Más allá de la

cumbre (Juan Carlos López-Durán, 2008) e Extremos (idem, 2010), e posteriores, fora do nosso escopo, como Verde Salvaje (Belén Orsini, 2014).

É o caso, também, da Colección Cine Archivo (antiga Colección Cine Archivo

Bolívar Films), uma coletânea de 36 títulos lançados a partir de 1992 pela produtora Cinesa, empresa que comercializa e produz a partir do arquivo fílmico da Bolívar Films, o maior e mais conservado da nação. Já a Bolívar Films, que funciona desde 1948, tinha lançado em 1975 Juan Vicente Gómez y su época (Manuel de Pedro), o primeiro longa-metragem documentário venezuelano exibido em salas comerciais da Venezuela (MOLINA, 1997, p. 77) e que é, de fato, o primeiro título da coletânea.

Nos primeiros anos da década de 2000, um dos títulos da Colección Cine

Archivo, Caracas, crónica del s. XX (Carlos Oteyza, 1999125), foi lançado em salas de cinema. O filme tratou da evolução urbanística da capital venezuelana. Em 2001, um dos três filmes nacionais estreados em salas durante o ano foi Alfredo Sadel, aquél cantor (Alfredo Sánchez,

123 Original em espanhol: “Caracterizados por una representación irónica y desilusionada de la política de la

época. Elecciones fraudulentas, discurso neoliberal, privatizaciones y represión. A estas prácticas se une la labor formativa descolonizadora y alternativa que desde su Instituto de Formación Cinematográfica COTRAIN han hecho Liliane y Lucia, el cual ya ha capacitado a dos generaciones de documentalistas. Su importancia radica en que en los años noventa era la única opción accesible para la formación en cine que tenían los sectores medios y bajos de la sociedad venezolana.”

124 Dados obtidos do site da RCTV International e seu perfil em YouTube. Disponível em: <

http://www.rctvintl.com/esp/>, acesso em:13.09.2014

1996126), um documentário dirigido pelo filho do músico, cantor e compositor lírico e popular Alfredo Sadel, um ídolo midiático durante as décadas de 1950 e 1960, o qual foi ampliado para 35 mm graças a um incentivo do CNAC (CNAC, 2003, p. 12-13).

Por outro lado, o longa-metragem El misterio de los ojos escarlata (Alfredo Anzola, 1993) foi lançado em salas comerciais e é mencionado por Ruffinelli (2012, p. 102- 103). O documentário de arquivo, com traços reflexivos, conta a história do pai do diretor, Edgar Anzola, um pioneiro do rádio, do cinema e da televisão venezuelanos durante as primeiras décadas do século XX. O filme assume o recurso de uma rádionovela de aventuras, a qual é encenada na narrativa, para falar dos avanços tecnológicos e midiáticos da época no cotidiano da pequena burguesia caraquenha. A representação elude qualquer comentário político sobre o atraso econômico, político e social da ditadura de Juan Vicente Gómez (1908- 1935), motivo pelo qual Anzola recebeu críticas.

Experiências como estas que surgiram relativamente fora dos circuitos tradicionais de incentivos financeiros do Estado127, em linhas gerais não privilegiaram a figura do autor128, não apresentaram — de forma explícita ou alegórica— uma posição crítica perante a sociedade capitalista e não trataram diretamente temas sobre cultura popular ou denúncia das contradições de classe, salvo alguns casos de denúncia ecológica não agenciada a nenhum ator político ou social em particular. Talvez por isso, foram absolutamente ignoradas por Miranda e Hernández, como também aconteceu com a produção anterior à deflagração militante de 1965, notadamente Araya, de Margot Benacerraf.

Marc Villá, em um ensaio recente, ilustra este viés: o cineasta reconhece a existência da produção de Cinesa na década de 1990, mas se posiciona criticamente perante a orientação ideológica desta filmografia:

De qualidade variada, os títulos [da Colección Cine Archivo] mostram claramente seu perfil político em adequação à política puntofijista do regime ‘democrático’, uma Venezuela sem muitos conflitos sociais, próspera, livre, que se afirma em um discurso desenvolvimentista e na satanização de ‘movimentos insurgentes ou terroristas’ (...) Estes documentários, muito comprazentes com determinado poder político, empresarial, petroleiro e eclesiástico têm sido exibidos em salas, emisoras

126 Data de produção.

127 Falamos “relativamente” porque o filme de Anzola recebeu aportes parciais de Foncine (ANZOLA, 1993),

enquanto que o de Sánchez obteve incentivos de produção associada e de transferência a 35 mm do CNAC. (CNAC, 2003, p. 12).

128 Referimo-nos especificamente ao seriado Expedición e aos títulos da Colección Cine Archivo que, ainda

contemplando a figura de diretores contratados, têm uma estrutura fixa, contida numa bíblia de produção bastante fixa e rígida, à qual o diretor deve se ajustar.

de televisão privadas e atualmente são vendidos em grandes lojas de farmácia. (VILLA, 2012, p. 5) [tradução nossa]129[grifos nossos].

Contudo, e apesar da falta de referenciais teóricos sobre o documentário da década de 1990, consideramos ter elementos suficientes para pensar que esta época caracteriza-se por uma diversificação ideológica nas práticas de representação do documentário venezuelano.

As práticas de representação do “documentário nacional” já não estariam — apenas — atreladas ao trabalho de realizadores com formação de esquerda, posicionados relativamente à margem do sistema capitalista, críticos das contradições sociais, centrados massivamente na representação das classes populares, que produziram sob o manto das instituições culturais e cuja obra circulou em um circuito restrito de cineclubes. Tomam notoriedade — pelo contrário— atores de direita ou não alinhados com um pensamento político determinado, que agiram na constelação do capital privado e cuja obra buscou atingir um público maior.