• Sonuç bulunamadı

BETWEEN 2006-2010 ABSTRACT

2. LİTERATÜR TARAMASI

A questão da aposentadoria me é um tema tão próximo, tão familiar, de tamanha intimidade, que percebo, algumas vezes, haver incorrido em três erros:

• Algumas vezes acreditei já conhecer o suficiente e, portanto, deixei de perguntar;

• Algumas vezes acreditei desconhecer e deixei de responder;

• E outras vezes, perguntei, embora já tivesse a resposta, mas tendo me esquecido, somente, deixei de aplicá-la.

Continuo, todavia, dando aulas e palestras, escrevendo e formando colegas, mesmo reconhecendo as muitas impropriedades que propaguei e nas quais já acreditei, algumas das quais, simplesmente, repeti, outras eu mesma criei. Hoje em dia tenho maior disposição para trocar idéias do que para ensinar. Se for para

ensinar o certo, muitas vezes eu não sei o que dizer. Se for para debater a respeito,

Em sala de aula os alunos ficam intimidados. Mal acreditam numa proposta em que um professor se a proponha dialogar. É preciso usar de algumas horas para convencê-los a largar o medo e usufruir prazerosamente o encontro em sala de aula, até estarem mais livres para criar. Quase sempre conseguimos e, sem o medo de errar, os resultados logo se fazem sentir. A aprendizagem se faz célere, sem esforços desnecessários, a energia flui e ficamos muito mais motivados.

Estava eu dando uma palestra em Vitória, no Espírito Santo, bem no meio à crise do setor de aviação, o apagão da malha aeroviária. Deveria ter chegado à cidade na noite anterior, dormido tranquilamente, tomado meu café e passeado um pouco a pé, antes de me apresentar ao Seminário de Empreendedorismo na Terceira Idade, promovido pela VK Comunicações, com o apoio da GEAP – Fundação de Seguridade Social e outros órgãos. Já havia alguns anos que

editávamos esse seminário pelo Brasil, buscando estimular a adoção de atitudes

empreendedoras por parte dos aposentados da Força Sindical e outros convidados. Cansada por ter passado a noite em claro e chegado em Vitória quase à hora da minha apresentação, pensei: Ou me divirto junto ou vai ser um fiasco. Meu tema:

O sucesso não cai do céu. Eu pretendia fazer uma apresentação bem humorada

sobre as nossas capacidades mentais que, estimuladas, mesmo quando já se tem bastante idade, apresentam resultados positivos surpreendentes.

Em meio a muitas brincadeiras, risadas e provocações, um senhor se apresentou: Quero levá-la para o nosso sindicato. O seu jeito de apresentar as

coisas fala ao coração das pessoas e elas entendem. É disso que precisamos. De quem fale com elas e, não para elas.

Almoçamos juntos, descontraidamente, num restaurante por quilo que muito deixou a desejar. Mas nossa conversa foi fascinante. Ele era e ainda é (até 2008, com certeza), nada mais nada menos que presidente do Sindicato Nacional dos Aposentados, exatamente alguém que poderia me facilitar o contato com aqueles

que já não têm mais nada a perder, nas suas próprias palavras e que, por isso

mesmo, não têm medo de botar a boca no trombone.

Nos seminários de PPA que conduzo, de fato, nem sempre os participantes são totalmente sinceros e transparentes. Fácil de entender: temem represálias. Somente quando dispomos de mais tempo para estabelecer um contrato da mais absoluta confiança é que eles se abrem entre si e comigo. É nos corredores, durante os intervalos e pelos cantos das salas que acontecem as confidências, onde as

amarras das máscaras são desatadas e as palavras trocadas não se limitam àquelas da boca pra fora. Individualmente ou em pequenos grupos e, mais raramente, em meio ao seminário, ouve-se o protesto engasgado daqueles que vêm sendo ou já foram violentamente atacados na sua moral:

... E puseram a gente em fila, como se fosse gado, empurrando e dizendo: “Você sai, você fica. Você já tá velho, cara, ninguém mais te quer por aqui. Sai. Tá fora!” E o pior não eram nem só as palavras, mas o jeito e a risada de deboche. O prazer com que faziam isso. Não dá para entender. Até ontem, meu colega. Hoje, meu algoz. O que é que dá neles?! Um olhar maldoso! Parece que viveram a vida toda esperando por aquele momento!”

Ou ainda, mais caracteristicamente, assediados:

... Cheguei a casa arrasado de vergonha. Botaram um sujeito no meu lugar que não entendia nada. Era um trainee formado, que só sabia de teoria. Como é que eu ia respeitar um chefe que nem o nome das peças sabia? Eu tinha que ensinar tudo para ele! Dava para eu aceitar que ele ganhasse quase o dobro, eu ainda tendo que ensinar?! Falei que não ia, que não ensinava. Então fui chamado pelo diretor, que disse que me demitiria por justa causa, que eu estava impedindo a empresa de progredir. Mas eu sei dos meus direitos. Isso não dá justa causa. Disse para ele que eu não ensinaria e nem pediria demissão. Que se eles quisessem, que me pagassem meus direitos. Daquele dia em diante foi o inferno na terra para mim. Tiraram tudo de mim. Não tive mais nenhuma oportunidade. São quatro anos que resisto nessa situação de ignorado. Eu não existo. Nem meu chefe me cumprimenta, não me dirige a palavra. Só critica o pouco que faço. E diz que faço pouco porque já estou velho e não sabe o que eu ainda estou fazendo ali. E não tem com quem falar. Acima dele, só o diretor. O mesmo que queria que eu saísse. Estou resistindo. Mais quatro meses eu entro no período do dissídio e fico garantido. Então vou conseguir descansar, que eu estou doente, no duro. Eu não durmo, não como direito. Emagreci 16 quilos. Não vejo a hora de me aposentar direito. Mas até lá, vão ter que me agüentar. A patroa é que diz ter medo de que eu venha a ter um treco. Já tive, eu digo, já tive. Já deixei até de ser homem. Pior não tem. Até isso eles me tiraram. Mas eu preciso do dinheiro, não posso viver a descoberto. Tenho que formar o terceiro filho. Daí, eu paro

Conversando com o senhor presidente do Sindicato Nacional dos Aposentados, perguntei-lhe se ele conseguia enxergar as coisas do meu ângulo, junto comigo: Se constituiriam os pré-aposentados numa população de alto risco

para serem abusados e sofrer danos morais e assédio moral no trabalho? Os sindicatos, teriam eles conhecimento desse tipo de abuso, desses crimes praticados contra os trabalhadores mais velhos? Se sim, o que fazem a esse respeito? Se não, o que veio impedindo essa discussão? Valeria a pena continuar com essa linha de pesquisa? Ele me ajudaria?

O presidente entrou em estado de agitação. Derrubou água na mesa, deixou cair comida e guardanapo no chão, se engasgou todo:

Doutora! Brilhante! Se vale a pena? Se vale a pena?! A senhora não faz nem idéia da enormidade daquilo que acaba de me dizer! Eu viajo o mundo. Agora mesmo estou chegando da Itália. Vou e volto, dou a volta ao mundo e até hoje nunca, mas nunca mesmo, ouvi uma palavra sequer a esse respeito! Seu raciocínio é brilhante! A senhora está coberta de razão. Esse é mais um ovo de Colombo! Se eu posso ajudá-la? Não só posso como quero! Me comprometo pessoalmente a abrir-lhe todas as portas, para a senhora ouvir quantos aposentados e aposentadas desejar. Pois se aqueles que ainda estão no emprego ficam quietos por medo de falar, por medo das conseqüências, os que estão fora, esses têm muito a lhe contar! Eu vou lhe ajudar.

Novamente era meu estômago que respondia. Entendi perfeitamente a expressão: E mil borboletas bateram as asas dentro de mim. A sensação de achado é quase indizível.

Trocamos nossos cartões e, de volta a São Paulo, passaram-se quase três meses até que nossas agendas se conciliassem. Por duas vezes fui até a Rua do Carmo, no Centro da cidade, em São Paulo, para ouvir que ele não estava, mas já

iria chegar. Duas a três horas de espera e, nada. Na terceira tentativa, fui recebida

pela sua filha, cujo consultório fica lá perto e ela não sabia de nada. Somente na quarta tentativa deu-se o encontro: uma rápida reunião, em que marcamos outra para dali a três semanas. Era muita viagem, de parte a parte, entre nós.

Chegado o dia, fui apresentada a vários diretores do sindicato. Todos muito solenes. Eu, absolutamente intimidada. Parecia-me não encontrar as palavras certas e poderia jurar que minha língua crescera dentro da boca que teimava em se torcer enquanto eu me apresentava àquele grupo de senhores sérios e atentos. Dentro de mim voltei a encontrar a jovenzinha atrevida, ainda que medrosa sabatinada pelo mais bravo e rigoroso comitê de professores doutores.

Como se tivesse havido um engano dos sentidos, presente e passado se alternavam. Minhas pretensões futuras sendo apresentadas. Ouvia minha voz, que não era minha voz, apresentando meu trabalho junto aos pré-aposentados e tecendo considerações sobre os riscos a que hoje estão sujeitos. Questões de Estado. Questões políticas e administrativas. Todos permaneciam quietos, simplesmente ouvindo, enquanto eu apresentava meus argumentos e lhes dizia o motivo de estar ali: pedir-lhes apoio para pesquisar as condições em que as pessoas se aposentam, como são tratadas enquanto ainda estão na empresa, faltando pouco

para sair ou serem saídas, em que condições saiam, como ficavam em seguida, uma vez que eu estava desconfiada que esses trabalhadores têm estado desamparados, em relação a toda uma sorte de abusos. Respirei fundo, tomei coragem e continuei.

Na verdade, eu os vejo como a uma população de alto risco para a exploração, para o assédio moral e para o padecimento por conta dos danos morais, para o que os sindicatos muito contribuem.

Pelo muito que ouço e testemunho da parte dos aposentados, ao longo desses meus 26 anos cravados de trabalho nessa

área, o que fazem os sindicatos que não os instruem para o momento da saída, preocupando- se quase que exclusivamente com o seu percurso, além das condições de entrada ou de ingresso, como se diz.

Pronto, eu havia dito que o rei estava nu*. A partir desse ponto, a discussão entre eles começou e o presidente reafirmou a importância e

o valor do meu achado, tal como havia feito lá em Vitória, quando nos conhecemos, convidando seus companheiros a me apoiarem na pesquisa pretendida. Foi quando um deles fitou-me nos olhos longa e profundamente e disparou: A senhora é louca!? Foi então que o tempo parou até que eu disse: Se enxergar as coisas dessa

maneira, sim, sou. E vim convidá-los a “enlouquecer” junto comigo ou fazer-me desistir dessa idéia, se ela não tiver pé nem cabeça.

A resposta veio rápida:

Eu vou lhe dizer mais, minha senhora. Os sindicatos fazem ainda pior. Nos dissídios, eles negociam a saída dos mais velhos para gerar empregos para os mais novos. Só que isso nunca vai por escrito. A senhora nunca vai encontrar um único documento de comprovação. É tudo na palavra, mas ninguém está pensando nos mais velhos, não. Eu mesmo nunca tinha pensado nessa história pelo ângulo que a senhora trouxe. Me desconsertou. E, virando-se para os demais: A vocês, não?

Os que haviam permanecido na sala disseram que sim, que também haviam se surpreendido e haveriam de colaborar, que as portas do sindicato estariam

abertas, que era só pedir e eles fariam contatos e o material iria circular. Outros

saíram rapidamente e não os vi mais.

*Trata-se de um conto infantil*, escrito por Andersen, onde na sua inocência, uma criança desafia o status quo, dizendo em voz alta o que ninguém tinha coragem de dizer, por não poder ser dito.

*A Roupa Nova do Rei, conto de Hans Christian Andersen (1805- 1875), poeta e escritor dinamarquês de histórias infantis.

Combinamos firmar um documento entre a minha empresa de consultoria e o sindicato. Nesse documento, haveríamos de detalhar o que caberia a cada parte. Mas o documento entregue por mim em mãos e, protocolado, morreu no nascedouro.

De tudo isso restou três encontros que mantive com os aposentados sindicalizados, através da associação da região de Mogi Mirim, cujo presidente, que se apresentava por Benê, o qual convidou alguns conhecidos seus para dar depoimentos em grupo ou isoladamente e cujo maior interesse era e continuou sendo o convívio social, saúde, assistência médica, cesta básica, transporte e baile.

Minha idéia inicial de que eles teriam, sim, o que falar, foi corroborada. No entanto, perguntava-me: E eles querem falar? Não me pareceu o caso.

Minha impressão é a de que eles podem até relatar o que aconteceu consigo, com colegas ou familiares, porém seu relato é destituído de qualquer vontade de contribuir para mudar, para melhorar a situação daqueles que hoje passam pelo mesmo descaso e dor, que vivem a mesma ofensa que eles já viveram. Não porque a tenham superado ou esquecido, mas porque o sentimento de solidariedade se esgotou.

O continente vivencial onde habitam os já afastados, tanto os banidos, como os premiados pelo sistema de aposentadoria, efetivamente não tem nada a ver com o continente vivencial daqueles que ainda não chegaram lá, daqueles que ainda não fizeram a passagem. Eles se ignoram mutuamente. Não se visitam, não há transporte nem trocas que possam enriquecê-los, um único pensamento sequer, que consiga promover entre eles uma inserção criativa e estética, que remeta ao fruir e usufruir, no tempo presente, do prazer da vida.

Sem essa dimensão estética, portanto, sem esse tipo de troca, como produzir uma cultura não alienante? Como promover mecanismos de resistência autêntica e proferir palavras que de fato transformem, façam crescer, contribuam para uma vida com significado? Por enquanto, o não-diálogo entre aqueles que estão próximos à aposentadoria e os que já estão há alguns anos aposentados é uma conversa oca, cheia de palavras vazias que entram no lugar de nada! Vejamos agora como dialogam as ciências entre si, com relação à aposentadoria e ao aposentar-se.

3 UMA VISÃO TRANSDICIPLINAR SOBRE A APOSENTADORIA: AS

CIÊNCIAS DIALOGAM ENTRE SI

Para melhor compreender questões de tal magnitude e complexidade, busquei saberes de várias áreas do conhecimento e elegi a abordagem transdiciplinar, especialmente a partir da antropologia, em meio às ciências sociais, sem contudo, dispensar aqueles conhecimentos advindos da minha primeira formação acadêmica, a psicologia.