• Sonuç bulunamadı

Havia duas perguntas no roteiro de entrevistas objetivando compreender o que, na visão do servidor, era visto como diferencial positivo em se trabalhar: na carreira de servidor nesse ente federativo (comparado com os demais) e no local onde o servidor estava lotado (também de forma comparativa com as demais lotações). Na resposta para essas perguntas, foram relatados a localização (proximidade da família), o aspecto financeiro (remuneração satisfatória), a qualidade de vida (tempo livre), a estabilidade e a flexibilidade (poder definir o próprio horário de horário) – com grande destaque para os dois últimos.

A estabilidade era um fator esperado nas respostas pela visão do senso comum de que aqueles que ingressam no serviço público por meio de concursos buscam estabilidade – o que foi confirmado em praticamente todas as entrevistas.

Busquei tranquilidade e tempo para minha vida pessoal. Também a questão da estabilidade, nível de cobrança mais baixo – não receber chicoteada do chefe (ninguém fala o que tenho que fazer) (E13)

Surpreendeu, entretanto, a questão da flexibilidade – a qual apareceu com grande força também em outros momentos das entrevistas.

É bom, porque tem flexibilidade, só por isso... e o salário é bom. Melhor coisa na verdade é a flexibilidade. (E3)

Tenho bastante contato com outras [organizações similares]. Acho que a flexibilidade de horário é o grande diferencial da SEPABE: poder fazer o meu horário de trabalho. (E7)

Os servidores parecem perceber a flexibilidade como grande diferencial da carreira na SEPABE. Segundo os depoimentos, esse fator estaria de tal forma consolidado que, mesmo internamente, representaria um fator diferencial ao se comparar lotações diferentes.

O grande diferencial de onde estou lotado é a flexibilidade (em órgão central não tem flexibilidade). Aqui vou o dia que quero, faço o horário que quero, sem ninguém me encher o saco. (E3)

Apesar da valorizada flexibilidade, os depoimentos apontam para frequentes tentativas de se imporem mecanismos de coordenação formal, visando ao incremento de desempenho. A experiência pregressa dos servidores que vieram da carreira militar – a qual é caracterizada pela presença de controles muito rígidos – pode ser uma das causas da valorização dos controles.

O diferencial em se trabalhar na SEPABE é haver um corpo técnico bastante capacitado. Há pessoas com ótima formação. Muitos servidores vindo de escolas com formação em escolas tops do estado em nível nacional. Por exemplo, vindo da área militar. Há muitas pessoas boas tecnicamente para se trabalhar. (E20)

Saí de uma instituição militar com muitas regras, exigia horário. Aqui as coisas não são claras como devia ser feito. Existem muitas névoas nas regras da SEPABE. As coisas correm muito frouxas – como dizem os militares. (E2)

Por outro lado, há quem perceba a implantação de mecanismos de controle como uma forma de traição ou mesmo uma injustiça, conforme direcionam os depoimentos abaixo.

Parece que tem fiscal contra fiscal. Pessoal do órgão central fica só pensando em mecanismos de controle, para ferrar o colega [...] Querem criar esses controles mas esquecem de que voltarão a ser fiscais como nós. Catracas e outros mecanismos de controle são um tiro no pé de quem votará a ser fiscal. (E3)

[...] tem que existir controle mas para todas as pessoas e não só para a classe fiscal4[...](E10)

Segundo esses informantes, a SEPABE estaria caminhando simultaneamente contra uma garantia definida em lei e uma tendência nas organizações modernas. Iria contra normas legais porque a autonomia é uma garantia conferida por lei ao cargo aqui estudado - para que ele possa exercer suas funções de forma independente, sem interferências políticas. Iria contra uma tendência moderna porque, na visão de alguns, a autonomia seria também uma tendência direcionadora de comportamentos em empresas atuais.

Pessoal do órgão central fica só pensando em mecanismos de controle [...]. Estão indo contra tendências atuais. Nas empresas atuais buscam dar maior autonomia. (E3)

Implantar mecanismos de coordenação formal em um trabalho muito técnico como o analisado parece ser algo bastante difícil e que demanda grande reflexão. Trata-se de uma função extremamente complexa e especializada. Além disso, controles e metas para servidores podem direcionar os trabalhos negativamente de diferentes formas. Muitas implicariam a concentração dos esforços, de forma a atender o meio (processo), em detrimento do fim (resultado).

Teve uma época que fixaram que eu tinha meta de número de autos [...]. Comecei então a priorizar as multas formais, que eram mais rápidas. Um belo dia, eu estava cheio de notas fiscais preenchidas de forma incompleta e chegou um caminhão com mercadoria sem nota. O que eu fiz? Fiquei com as notas incompletas e deixei o caminhão para o colega. Fazer o que? Eu estava sendo cobrado por isso. Não se trata de trabalhar menos, eu ia trabalhar de qualquer jeito. Somente concentrei onde estava sendo cobrado. (E21).

Me empenhava muito e ficava horas em casa na madrugada. Meus autos eram lindos – eu ficava chateada quando eles caiam. Quando falaram que tinha que vir três vezes

4 Relato fazendo menção ao fato de os servidores terem que passar sua carteira na leitora para entrar no prédio central (diferente de servidores de algumas outras carreiras)

por semana fiquei desmotivada. Vim para cá porque fiz um auto incrível e veio esse papo de vir três vezes. E eu virando noite na semana! (E13)

Cientes dessa característica, mas também acreditando na importância de se ter controles, alguns ponderam um meio termo, segundo o qual haveria algumas formas de coordenação formal que não prejudicassem a flexibilidade do servidor.

Nós seríamos mais produtivos se existisse controle de produtividade. Poderia existir algum tipo de controle qualitativo/quantitativo sem tirar a flexibilidade. A dificuldade é mensurar a qualidade. (E9)

Os gestores parecem não ter a consciência de que a implantação de mudanças na SEPABE em caráter sustentável depende da confiança e do comprometimento dos subordinados, de forma a garantir a continuidade das ações. Talvez eles não estejam ponderando, por exemplo, a perenidade de seu cargo e a importância de garantir o comprometimento de seus sucessores em potencial com possíveis ideias de mudança. Nesse sentido, o envolvimento dos afetados na discussão previa desses controles representaria uma alternativa na construção de mecanismos sustentáveis.