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Kurumsal Yönetim Algısı ve İşletmenin Değerine Etkis

AFYONKARAHİSAR İLİ’NDEKİ ANONİM ŞİRKETLER ÜZERİNE BİR ARAŞTIRMA

5. Verilerin Analiz

6.3. Kurumsal Yönetim Algısına İlişkin Önermelerin Analiz

6.3.1. Kurumsal Yönetim Algısı ve İşletmenin Değerine Etkis

POLÍTICOS

A modernidade, conceituada como conjunto de valores e interpretada a partir dos meios vivenciados por uma sociedade (BERMAN 1998; HARVEY, 1998), se reflete, na

prática, através de uma racionalização que se dá na esfera econômica, política e cultural16.

O advento dessa racionalização leva à modificação de antigas formas de produção e à emergência de uma nova mentalidade social, agora permeada por uma maior institucionalização das normas e uma impressão mais universalista dos valores e dos referenciais de moralidade.

16 “A idéia de modernidade está estreitamente associada à da racionalização. Renunciar a uma é rejeitar a outra”

Os processos que levam a essas modificações, segundo Berman (1998, p. 16), mantendo-as “num perpétuo estado de vir-a-ser, vêm a chamar-se ‘modernização’”. Esta conduz à industrialização da produção, transforma conhecimento científico em tecnologia, redefine os ambientes humanos, amplia o crescimento urbano, acelera o ritmo de vida, gera novas formas de poder corporativo, articula sistemas de comunicação de massa e erige um mercado capitalista cada vez mais ampliado e flutuante (BERMAN, 1998).

Entretanto, ao pensarmos em transformações dessa natureza ocorridas no Brasil nos últimos trinta anos, seria possível imaginar que um dos projetos político-econômicos mais obstinados em incorporá-las teria sido produzido num dos estados mais pobres da Federação, o Ceará? Como um estado com elites políticas estruturalmente tão frágeis consegue, contraditoriamente, exercer tanta influência em escala nacional, alcançando um peso político desproporcional à sua importância diante da Federação?

As respostas para essas perguntas passam por duas dimensões complementares que envolvem a natureza interescalar das transformações no Ceará. Por um lado, no plano nacional, a política desenvolvimentista da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), implementada após os anos de 1960, é recebida no Ceará de uma maneira diferente da do restante dos estados do Nordeste, sobretudo por legitimar mais os empresários locais (FERREIRA, 1995; ABU-EL-HAJ, 1997). Por outro, a participação de importantes instituições instaladas no estado e que vão contribuir na construção de uma mentalidade racionalista face aos inúmeros problemas socioeconômicos, num contexto de grande vulnerabilidade climática e ambiental, resulta na incorporação de projetos estruturantes menos resistentes às ideias da modernidade (PARENTE, 2002).

Do ponto de vista da primeira dimensão, Bielschowsky (2004) vai destacar a importância de duas diferentes fases do desenvolvimentismo no Brasil, responsáveis por estabelecer os laços entre a estrutura econômica estatal e o empresariado nacional e multinacional. Na primeira fase, que vai da proclamação do Estado Novo, em 1937, até o Golpe Militar, em 1964, o desenvolvimentismo brasileiro mobilizou um montante de recursos do Estado para assumir a responsabilidade pelo crescimento industrial. Como resultado, nasceram importantes empresas estatais e cresceu a institucionalização da economia nacional. Enquanto isso, na segunda fase, o regime autoritário assumiu os ônus pelos investimentos na infraestrutura, facilitando a expansão do setor privado, ao mesmo tempo em que contribuiu para a formação de uma economia de mercado difundida em grande parte do território brasileiro, como demonstra a quebra do monopólio na produção automobilística de São Paulo e a criação do Pólo Petroquímico de Camaçari, na Bahia.

Essa segunda fase vai influenciar diretamente a formação de uma classe empresarial de mentalidade progressista no Ceará. O desenvolvimentismo no Nordeste ficou marcado pela atuação das políticas regionais, com a criação do Banco do Nordeste do Brasil (BNB) e

da SUDENE entre o fim dos anos de 1950 e o começo da década de 196017. Fortemente comprometida com o crescimento monopolista do capitalismo brasileiro, como informa Oliveira (1977); até 1974, a SUDENE patrocinou mais os investimentos provenientes do Sudeste do país, através dos mecanismos de facilitação fiscal e atração industrial, conhecidos como Artigos 34/18. Após o ano citado, instituiu-se o Fundo de Investimentos do Nordeste (FINOR), que prometeu romper com o desenvolvimentismo tradicional no Nordeste e implementar novos investimentos a partir de propostas como o incentivo à concorrência e à produtividade (ABU-EL-HAJ, 1997; 2002 e 2003).

Criado no intuito de responder às críticas ao modelo anterior de intervenção da SUDENE, em que a indústria pesada e de capital intensivo recebeu mais atenção, o FINOR priorizou os investimentos na indústria tradicional de médio porte e deu-lhes poder de competitividade (ABU-EL-HAJ, 1997). Ao ser excluído dos maiores investimentos até 1974, o Ceará foi o estado mais beneficiado com os projetos do FINOR e isso resultou numa transformação da sua estrutura empresarial, que viu crescer o avanço tecnológico, o fortalecimento da indústria tradicional têxtil e a incorporação de um padrão competitivo de produção industrial, inclusive adotando metodologias gerenciais de produção modernas (FERREIRA, 1995).

Esse movimento incentivou o aparecimento de uma classe burguesa bem sucedida que, pelas suas origens urbanas, diferenciou-se, a um só tempo, das elites políticas tradicionais e da classe empresarial mais antiga, ligada a estrutura econômica do Estado autoritário. Assim, os empresários que se reuniam no CIC a partir de 1978 foram uma das representações constituídas nesse período. Destacavam-se pela sua ação empreendedora no estado e no país como um todo, mas suas formações acadêmicas, realizadas nos cursos de administração e economia de centros como a Fundação Getúlio Vargas (FGV) davam- lhes uma característica diferenciada, marcada pela proposta racionalista de intervenção planejada na economia e na política. Logo compreenderam o contexto histórico do qual faziam parte, tanto no Ceará como no Brasil, e passaram a discutir abertamente temas políticos, principalmente ao convidar importantes nomes (Celso Furtado, Maria da Conceição Tavares, Luís Inácio Lula da Silva, Leonel Brizola, Antônio Ermírio de Morais, Henfil etc.) de oposição ao Governo Federal para difundir a ideia de aceleração da redemocratização nacional (CARVALHO, 1999).

Por outro lado, algumas especificidades cearenses consolidaram a classe empresarial supracitada, dando-lhe condição de impor a sua demanda frente ao comando político estadual. A origem dessa consolidação está ligada à própria natureza estrutural das fragilidades das elites no Ceará, que nunca tiveram a força nem a durabilidade das elites

17 O capítulo 02 trará uma discussão mais detalhada do papel desses órgãos no contexto das transformações

políticas de Pernambuco, Bahia e Paraíba, por exemplo. Essa instabilidade do poder estadual, trabalhada, entre outros, por Parente (2000 e 2002) e Barreira (2002), está diretamente vinculada a fenômenos como a seca que, em função de seu caráter crônico e implacável, sempre atingiu ricos e pobres. Os seus efeitos para o Ceará, portanto, são maiores do que para os outros estados do Nordeste. Enquanto Bahia, Pernambuco, Paraíba, Piauí etc., apresentam apenas parte dos seus territórios sob influência do regime de chuvas do semiárido nordestino, o Ceará tem mais de 90% do território afetado pela seca.

Mas os efeitos nefastos do fenômeno natural, na concepção de Parente (2002, p. 126), trazem consigo outra face: a de favorecer o fortalecimento de um quadro técnico e moderno, “instrumentado não só para conhecer a realidade empírica da região, mas para interferir de forma racional nos seus efeitos”. Assim, a modernização sempre foi uma estratégia de sobrevivência das elites cearenses e isto está demarcado no papel que o estado tem em sediar, entre outros, os órgãos federais técnicos de reconhecida competência, a exemplo do Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (DNOCS) e do BNB.

Faltava à classe empresarial, que se apresentava como pretendente ao comando político estadual, garantir a homogeneidade dos quadros técnicos em seu favor e articular as diferentes porções do território cearense ao rumo do seu projeto, uma vez que as regiões do Ceará, em especial o Cariri (no Sul), Sobral (no Norte) e a Região Metropolitana de Fortaleza, geralmente se colocavam de maneira opositora do ponto de vista político.

Isso foi possível na sucessão estadual de 1982, quando a proposta do Estado central autoritário, de entregar o poder aos civis de forma lenta e gradual, revelou o desgaste e a artificialidade do comando dos três políticos mais influentes do Ceará, os “coronéis” Virgílio Távora, Adauto Bezerra e César Cals. Mesmo com a autorização do multipartidarismo para as eleições daquele ano, parecia que a decisão acerca do nome do novo governador sairia automaticamente a partir da escolha conjunta dos três políticos citados (CARVALHO, 2002). No entanto, não houve um consenso sobre um candidato que pudesse manter a indispensável unidade das facções políticas e a decisão precisou ser tomada no famoso “Acordo de Brasília”, quando o nome do técnico do BNB, Gonzaga Mota, foi imposto aos “coronéis” pelo Presidente da República, na tentativa de uma solução conciliadora para a política local. Com o apoio de Virgílio, Adauto e César Cals, a eleição foi apenas uma formalidade e Mota saiu vitorioso (CARVALHO, 2002).

Os empresários do CIC perceberam o significado daquele momento e convenceram o novo governador a romper o acordo dos coronéis, transformando a farsa eleitoral numa tragédia para os velhos profissionais da arte de fazer política (CARVALHO, 2002). A desarticulação se deu exatamente no jantar de posse do novo governador, quando, num

discurso para os empresários estaduais e para os representantes de várias associações de classe, Tasso Jereissati foi taxativo:

[...] nada obstante, governador eleito Gonzaga Mota, a classe empresarial do Ceará tem grandes esperanças em Vossa Excelência e no seu governo. Com efeito, na condição de primeiro governador eleito nos últimos vinte anos, com grande maioria do voto popular, o seu mandato se deve, unicamente, ao povo que o elegeu e somente ao qual se ligam seus compromissos [...]. Sua condição técnica e sua juventude capacitam-no a identificar as melhores opções (Discurso de Tasso Jereissati num jantar oferecido ao governador eleito Gonzaga Mota, citado por PARENTE, 2000, p. 181).

A crise do “acordo dos coronéis” deixava claro que as mudanças no Ceará não se limitavam à economia, mas também à política. A solidez dos pactos tradicionais, que pareciam imbatíveis em função das estratégias conduzidas pelos dirigentes especializados em fazer política como uma arte de chefia (CARVALHO, 2002), não mais se sustentava. Os resultados das eleições de 1982 apontavam para desdobramentos muito mais devastadores, manifestados no pleito de 1986, que elegeu Tasso Jereissati como governador do estado e destacou a força simbólica do “político moderno” frente ao modo “atrasado” de administrar a coisa pública.

O marketing eleitoral passou a ser um instrumento importante de acesso ao poder e a construção de uma imagem pública pautada no discurso da modernidade enquanto difusão dos valores da sociedade de mercado definiu o percurso de construção de uma nova hegemonia política. Os empresários-políticos do Ceará se afirmaram como nova elite dirigente em função da crítica progressiva ao modelo tradicional e decadente do regime militar. Suas principais ideias ficaram muito bem definidas num projeto de legitimação de caráter burguês, com feição cosmopolita, que muito contrastou com a filosofia desenvolvimentista e corporativa da política brasileira e cearense do período.

Com a conquista do governo em 1986, o projeto foi implantado na política e na economia cearense, com fortes repercussões sobre a sociedade e o território, que passaram a sentir os efeitos de um estilo diferente, porém conservador, de conduzir os rumos do capitalismo no estado. Ao atribuir importância maior aos mecanismos de acumulação privada e industrial, no contexto da nova configuração de acumulação comandado pelo imperativo da competitividade, a proposta dos empresários-políticos aflorou um modelo de articulação interescalar sem precedentes no Ceará.

O movimento do sincrônico e do diacrônico passou a se materializar no espaço e as manifestações particulares e universais se unificaram no conjunto de normas, objetos e imagens produzidos para redefinir um Ceará que estaria pronto para esquecer o seu

passado “atrasado” e preparado para “abraçar” os elementos que representam o novo, isto é, a modernidade enquanto projeto burguês de reestruturação da sociedade e do território.

Enquanto isso, em escala mundial, importantes transformações manifestadas no seio do regime fordista de acumulação redefiniam inúmeras características do capitalismo, em que a alteração do papel central do Estado enquanto regulador das demandas socioeconômicas, a crise dos sistemas produtivos industriais e a ação mais efetiva de agentes financeiros controladores de novas formas de gerar e acumular valor eram apenas algumas das suas expressões.

No Brasil, o sentido político da ação estatal passava a ser determinado mais ainda pela acumulação do capital e os novos agentes financeiros, em sintonia com os interesses de alguns grupos hegemônicos, deflagraram uma abertura dos mercados no intuito de oferecer ao país as condições mais apropriadas de inserção na nova ciranda da mundialização financeira com reestruturação produtiva.

Os empresários-políticos cearenses não só perceberam os rumos dos acontecimentos como participaram ativamente dessas transformações em âmbito nacional, principalmente ao sair em defesa intransigente da economia de mercado e da propriedade privada como essência de uma sociedade aberta e democrática, criticando o intervencionismo estatal e a visão corporativa patronal.

No território do estado, trataram de implementar ações e aparelhar os objetos no intuito de “politizar” a economia e a sociedade, inserindo de vez o Ceará nos rumos da acumulação privada com forte penetração dos mercados na lógica da mundialização. O encontro dos interesses do mercado com os interesses das políticas governamentais foi decisivo para construir a sincronia e a diacronia interescalar e multidimensional do território e, desde então, a sociedade começou a “marchar” em direção a “mudança”.