B. Kıraatlerin GeliĢim Süreci
2. Kur‟an‟ın Çoğaltıldığı Dönem ve Sonrası
O conceito de capital social é bastante eficaz para a compreensão do funcionamento dos SPGs, pois trata-se de uma visão de que as relações entre os indivíduos importam. Em outras palavras, não é a visão centrada no indivíduo ou na estrutura isoladamente, mas a ampliação desta visão para a relação entre indivíduos que são agentes inseridos em dada estrutura social organizada por instituições. Para Field (2008), estabelecendo e mantendo conexões, as pessoas conseguem trabalhar juntas para alcançar objetivos que não conseguiriam sozinhas ou que exigiria muito tempo e esforço. Essas redes interpessoais ajudam a arrumar emprego, uma boa escola, indicação de médico, ou seja, acessar informações e serviços adaptados aos valores específicos de um grupo. Neste sentido, como coração do conceito estão os membros da rede e os valores compartilhados por eles e, por isso, se constituem como recursos a partir do momento que geram benefícios tanto individuais quanto coletivos.
De acordo com Durston (1999), o termo capital social se refere às normas, instituições e organizações que promovem a confiança e a cooperação entre as pessoas, as comunidades e a sociedade em seu conjunto. Esta formulação e a do neoinstitucionalismo econômico que em parte a fundamenta, se concentram em suas manifestações coletivas, afirmando que as relações estáveis de confiança e cooperação podem reduzir os custos de transação (COASE, 1937), produzir bens públicos (NORTH, 1990) e facilitar a constituição de atores sociais ou até de sociedades civis saudáveis (PUTNAM, 1993). Assim, a organização e construção destas normas e instituições funcionam como recursos para a produção da certificação participativa enquanto bem coletivo.
Para Durston (1999), os autores que trabalham com o conceito de capital social possuem dúvidas em relação à criação desta ferramenta. Para Putnan, por exemplo, isso levaria décadas e dependeria de uma série de questões. Mas, Durston (1999), através da realização de trabalho empírico na Guatemala constatou que é possível construir capital social a partir das estruturas de reciprocidade que já existem dentro do universo camponês. De acordo com ele, em todos os grupos locais pequenos, existem normas e práticas de reciprocidade, como a cooperação e a responsabilidade em desempenhar funções coletivas que constituem parte da maioria das culturas, como mutirões, festejos e trocas de bens materiais e não materiais. As sociedades complexas mudam constantemente através de uma “coevolução” das estratégias de diversos atores. As modificações das elites nacionais e o empoderamento de outros grupos sociais oferecem possibilidades de surgimento de capital social local, principalmente quando são realizadas alianças com setores reformistas do governo. Além disso, atualmente existem metodologias e técnicas de desenvolvimento de capital social que permitem criá-lo à vontade, ao invés de esperar que surja como um subproduto de outras atividades ou como um fenômeno espontâneo.
Caldas (2013) ao comparar o funcionamento da rede Ecovida no Brasil e a tentativa de criação de um SPG na Espanha concluiu que para este formato de certificação funcionar, é necessário haver capital social consolidado, ou seja, estruturas de confiança e reciprocidade nas relações entre os atores envolvidos para que a organização minimamente consiga articular benefícios para estes atores. Assim, verifica-se que a exigência do capital social para o bom funcionamento dos SPGs é algo que pode ser trabalhado a partir das diversas formas de reciprocidade já existentes na realidade local.
Isso não significa que este modelo se adéqua a qualquer realidade, é necessário perfil participativo e disposição para implementar esta tecnologia, mas que, mesmo onde ainda não exista uma organização formal de agricultores, estruturas institucionais informais podem ser o início da construção da cultura da participação. Quando há assistência técnica por parte do Estado ou de organizações não governamentais, esta transição tende a se acelerar, conforme relatado por Roberto Mattar, um técnico do MAPA, em entrevista realizada para a pesquisa. O problema é que, historicamente, a extensão rural pública no Brasil foi desestruturada e substituída por atores privados que muitas vezes possuem interesses econômicos, como a venda de insumos sintéticos e maquinário.
De acordo com Sabourin (2010), muito embora as evidências empíricas acerca da relação entre reciprocidade, confiança e reputação tenham trazido grandes contribuições ao debate de bens comuns, Ostrom permanece dentro dos limites do postulado binário da troca e das expectativas da sua regulação por uma minoria de indivíduos altruístas e “reciprocitários”, interagindo via redes. Para abordar a reciprocidade, ela recorre previamente à confiança, enquanto que, para a teoria da reciprocidade, são as relações de reciprocidade simétrica nas estruturas de compartilhamento (de recursos comuns) que produzem a confiança.
É o que demonstram as repetições modeladas de jogos que fazem intervir a confiança e a reciprocidade, quando existe experiência capaz de introduzir uma variável de conhecimento do comportamento do outro, ou seja, com as repetições os indivíduos tendem a se conhecer e ser recíproco em relação ao comportamento do outro.
É, inclusive, uma verificação comum entre os dois enfoques que explica que a gestão partilhada de recursos funciona apenas em grupos de proximidade onde laboram o inter- conhecimento ou o respeito de regras comuns. As relações mútuas funcionam tanto melhor quando cada um sabe que o outro se situa também num quadro de reciprocidade. É neste sentido que o reconhecimento institucional ou público dos dispositivos de manejo partilhado de recursos fundados em relações de reciprocidade pode garantir ou facilitar tanto a perenização dessas estruturas como a reprodução dos valores éticos que elas ajudam a produzir: confiança, reputação, respeito mútuo, responsabilidade etc. As repetições do jogo recíproco do face a face começaram logo no início da humanidade e a recorrência dos resultados desta relação original tem construído a figura de uma estrutura elementar de reciprocidade. A tendência que leva a dar, receber e retribuir é de fato uma característica da humanidade (SABOURIN, 2010).
Neste sentido é que olhar para as visitas de pares e de verificação como mecanismos de trocas, em que um agricultor visita o outro e atesta a sua qualidade orgânica é válido, uma vez que recupera elementos culturais do mundo rural para a inserção em mercados que valorizam
atributos de solidariedade. A reciprocidade nesses casos gera laços que permitem a redução das assimetrias de informação e leva o olhar do pesquisador para as relações e não para os indivíduos. Por isso que Sabourin (2010) afirma que “nem sempre existem explicações para os comportamentos da natureza humana” e, por isso, segundo este autor, a explicação deve ser procurada nas relações sociais e culturais e não nas bases biológicas do indivíduo, conforme tenta Ostrom. Não podemos nos esquecer que essa autora tem uma tradição do pensamento da escolha racional pautada no indivíduo e, que por isso, essa escolha dela é justificada.
As evidências empíricas deste trabalho nos levam a buscar um olhar na direção das relações, ou seja, em como os indivíduos se relacionam para atingir os seus objetivos que são individuais, mas também coletivos de conquista do selo como um símbolo do seu esforço de trabalhar em conformidade com as normas da agricultura orgânica impostas pela legislação, mas também por um arcabouço institucional mais amplo que diz respeito aos princípios, valores e ideologia que existem nesse ramo. Apesar disso, é importante ressaltar a valiosa contribuição de Ostrom ao debate da gestão de bens comuns, observação que vai ao encontro dos dados empíricos coletados ao longo da pesquisa de campo, conforme veremos no capítulo 05.