3. Kosova’nın Bağımsızlık Süreci
3.1. Kosova’da İlk Direnişler
O direito ao planejamento familiar foi estabelecido no art. 226, §7º, da CRFB33 e regulado pela Lei Federal nº 9.263 de 2 de fevereiro de 1996, definindo a responsabilidade do SUS, das instituições de saúde privada e dos profissionais, no que concerne à saúde reprodutiva e seu exercício pelos indivíduos. No plano internacional, consolidou-se o entendimento de que o planejamento familiar e o livre acesso a métodos contraceptivos compõem uma política de promoção da liberdade escolha individual, fundamentada no princípio ético e jurídico da dignidade da pessoa humana (VENTURA, 2009, p. 87). O consenso sobre o tema está expresso no parágrafo 7.12 do relatório da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, in verbis:
7.12 O objetivo de programas de planejamento familiar deve ser o de capacitar casais e indivíduos a decidir livre e responsavelmente sobre o número e o espaçamento de seus filhos e a ter a informação e os meios de assim o fazer e assegurar opções
33CRFB. Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado. [...]
§7º Fundado nos princípios da dignidade da pessoa humana e da paternidade responsável, o planejamento familiar é livre decisão do casal, competindo ao Estado propiciar recursos educacionais e científicos para o exercício desse direito, vedada qualquer forma coercitiva por parte de instituições oficiais ou privadas. (BRASIL, 1988).
conscientes e tornar disponível toda uma série de métodos eficientes e seguros. O sucesso de programas de educação da população e de planejamento familiar, numa variedade de circunstâncias demonstra que o indivíduo informado pode agir e agirá, em toda parte, com responsabilidade, de acordo com as suas próprias necessidades e das necessidades de sua família e da comunidade. O princípio da livre escolha consciente é essencial ao sucesso em longo prazo de programas de planejamento familiar. Não há lugar para qualquer forma de coerção. Em toda sociedade há muitos incentivos e desestímulos sociais e econômicos que afetam decisões individuais sobre a gravidez e o tamanho da família. No século passado, muitos governos experimentaram planos que incluíam incentivos e desestímulos para reduzir ou aumentar a fecundidade. A maior parte dos planos teve apenas um impacto marginal na fecundidade e, em alguns casos, foram contraproducentes. Os objetivos governamentais de planejamento familiar devem ser definidos em termos de necessidades não-satisfeitas de informação e de serviços. Objetivos demográficos, embora objeto legítimo de estratégias governamentais de desenvolvimento, não devem ser impostos aos prestadores de serviços de planejamento familiar na forma de alvos ou quotas no recrutamento de clientes. (PATRIOTA, 1994, p. 64, grifo nosso). Ventura (2009, p. 88) defende que o acesso aos serviços de saúde integral e às ações de planejamento familiar constituem instrumentos substanciais para a garantia da saúde sexual e reprodutiva da população, especialmente das mulheres, posto que previnem as mortes maternas, os danos resultantes de abortos inseguros, a gravidez indesejada, doenças transmissíveis por via sexual, além de orientar apropriadamente sobre sexualidade e reprodução humana. Entretanto, as políticas públicas relacionadas aos direitos ao planejamento familiar e à liberdade sexual e reprodutiva são continuamente postergadas, tendo em vista, sobretudo, a resistência de segmentos conservadores e fundamentalistas cada vez mais presentes em debates parlamentares e judiciais.
Dentre as tantas lições aprendidas com a epidemia do vírus zika, umas das mais importantes foi a de que tratar da saúde reprodutiva da população, principalmente das mulheres, é uma urgência em saúde pública. O Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos (OHCHR, 2016) assevera que os serviços em saúde reprodutiva, que incluem contracepção habitual e de emergência, aborto legal e seguro, e cuidados com a saúde materna, devem ser prestados de forma a assegurar o consentimento plenamente esclarecido das mulheres, respeitar sua dignidade, garantir sua privacidade e responder às suas necessidades e perspectivas.
Segundo a Human Rights Watch (2017, p. 30), apesar das mulheres possuírem direitos constitucionais e legais de acesso à contracepção gratuita através do SUS, quase metade das gestações no Brasil não é planejada ou é indesejada, indicando que há uma demanda de contracepção não atendida. Quando observada a situação das adolescentes, nota-se que são ainda maiores as falhas no acesso à contracepção, se comparado a outras parcelas da
população34. A organização aponta ainda, que, no ano 2015, cerca de 500.000 mulheres brasileiras vivenciaram abortos, em grande parte, de forma clandestina. O aborto inseguro configura a quarta causa de mortalidade materna no Brasil35.
Baum et al (2016, p. 1) apontam que o Protocolo de Atenção à Saúde e Resposta a Ocorrência de Microcefalia do Ministério da Saúde, apesar de reconhecer que o uso de métodos contraceptivos cumpriria um importante papel no controle dos impactos da epidemia do vírus zika, não considerou os obstáculos enfrentados pela maioria das mulheres afetadas: unidades de saúde com escassos recursos materiais e humanos, a falta de educação sexual adequada enquanto política pública, e até mesmo as dinâmicas desiguais de poder nas relações íntimas e pessoais. Além disso, o documento teria falhado em reconhecer e abordar apropriadamente o fato de que o aborto inseguro - porque ilegal, é uma questão de saúde pública no Brasil, afetando de maneira desproporcional as mulheres vulneráveis.
No epicentro da crise do vírus zika, seria necessária a realização de medidas uniformes, envolvendo os serviços de saúde e de educação, na tentativa de diminuir a quantidade de casos de gravidez não planejada, oferecendo às mulheres informações e serviços abrangentes de saúde reprodutiva, inclusive, garantindo o acesso a opções contraceptivas emergenciais e de longo prazo. Ademais, urgiria a discussão sobre autonomia reprodutiva e acesso ao aborto seguro e legal, de forma ampla a todas às mulheres, para que não precisem recorrer a procedimentos clandestinos e criminalizados, colocando suas vidas em risco.
Ressalte-se, sobretudo, que tanto o direito ao planejamento familiar quanto o direito à informação não se restringem às mulheres, devendo ser disponibilizados a todas as pessoas em idade reprodutiva. A HRW (2017, p. 102) assinala que a ausência de informação e orientação sobre o papel dos homens acaba reforçando a ideia de que as mulheres são as únicas ou as principais responsáveis pela prevenção da transmissão de zika durante a gravidez. Nesse compasso, o acesso às informações e aos serviços necessários também deve ser direcionado aos homens, para que possam tomar decisões conscientes com suas parceiras sobre as opções de planejamento familiar.
34Quase 20% dos nascidos vivos no Brasil são de partos de meninas e adolescentes e meninas de 10 a 19 anos, representando mais de 560.000 nascimentos por ano. (HRW, 2017, p. 31).
35Aproximadamente 17% das mortes relacionadas a aborto no período de 2011 a 2015 ocorreram entre meninas, adolescentes e jovens de 10 a 19 anos (HRW, 2017, p.5).