2.2. Yabancı Kaynaklardan Finansman
2.2.1. Kamu Finansman Kaynakları
2.2.1.1. KOSGEB
Buscou-se na Antropologia Social, como uma Ciência Social, a etnografia para tentar responder ao problema proposto, fazendo-se essa ponte entre essa e a Ciência da Informação, com o objetivo também de que esta modalidade de pesquisa possa contribuir e ser incorporada nesta.
Utilizar-se da etnografia como metodologia de pesquisa exige-nos aprender seus fundamentos e compreendê-la de forma ampla, de forma a subsidiar o processo de pesquisa. Para tanto, alguns pesquisadores nos proporcionaram essa compreensão, como Bronislaw Malinowski (1984), Claude Lévi-Strauss (1970), Clifford Geertz (1989), Gilberto Velho (1978) entre outros de igual relevância para o tema.
Para Lévi-Strauss (1970, p. 16), a etnografia se faz por meio da “observação e análise de
grupos humanos considerados em sua particularidade (...), e visando à reconstituição, tão fiel quanto possível, da vida de cada um deles; [...]”.
Etnografia é também conhecida como: pesquisa social, observação participante, pesquisa interpretativa, pesquisa analítica, pesquisa hermenêutica. Compreende o estudo, pela observação direta e por um período de tempo, das formas costumeiras de viver de um grupo particular de pessoas: um grupo de pessoas associadas de alguma maneira, uma unidade social representativa para estudo, seja ela formada por poucos ou muitos elementos. Por exemplo: uma vila, uma escola, um hospital, etc.(MATTOS, 2001, p. 1).
Eunice Ribeiro Durham (1986), em trabalho sobre a vida e a obra de Malinowski, aponta que
“a grande inovação de Malinowski no trabalho de campo consiste na prática do que é chamada hoje em dia observação participante.” Assim, a etnografia torna-se capaz de
[...] Sem dúvida, para que um trabalho etnográfico seja válido, é imprescindível que cubra a totalidade de todos os aspectos – social, cultural e psicológico – da comunidade; pois esses aspectos são de tal forma interdependentes que um não pode ser estudado e entendido a não ser levando-se em consideração todos os demais (MALINOWSKI, 1984, p. 11- 12).
Malinowski (1984) apresenta a preocupação para com a produção de uma pesquisa de campo com qualidade, para a área científica. A validação de um trabalho exige uma preocupação para com um relato honesto dos dados coletados, aproximando-se o máximo possível desses no momento da apresentação final dos resultados.
[...] Na etnografia, o autor é, ao mesmo tempo, o seu próprio cronista e historiador; suas fontes de informação são, indubitavelmente, bastante acessíveis, mas também extremamente enganosas e complexas; não estão incorporadas a documentos materiais fixos, mas sim ao comportamento e memória de seres humanos. Na etnografia, é frequentemente imensa a distância entre a apresentação final dos resultados da pesquisa e o material bruto das informações coletadas pelo pesquisador [...] (MALINOWSKI, 1984, p. 19).
Em Argonautas do Pacífico Ocidental, Malinowski (1984, p. 20) sugere-nos o agrupamento de alguns princípios metodológicos, para uma pesquisa etnográfica, em três unidades, em que, primeiro, o pesquisador precisa de “objetivos genuinamente científicos e conhecer os valores
e critérios da etnografia moderna”; segundo, ele precisa de “boas condições de trabalho”; e
por último, de praticar “métodos especiais de coleta, manipulação e registro da evidência”.
Portanto, devem-se conhecer seus objetivos, averiguando a aplicabilidade dos valores e critérios etnográficos sobre os mesmos, levando-se em consideração a própria experiência do pesquisador que pode, inclusive, afetar as evidências em campo.
[...] Conhecer bem a teoria científica e estar a par de suas últimas descobertas não significa estar sobrecarregado de idéias preconcebidas. Se um homem parte numa expedição decidido a provar certas hipóteses e é incapaz de mudar seus pontos de vista constantemente, abandonando-os sem hesitar ante à pressão da evidência, sem dúvida seu trabalho será inútil. Mas, quanto maior for o número de problemas que leve consigo para o trabalho de campo, quanto mais esteja habituado a moldar suas teorias aos fatos e a decidir quão relevantes eles são às suas teorias, tanto mais estará bem equipado para o seu trabalho de pesquisa. As idéias preconcebidas são perniciosas a qualquer estudo científico; a capacidade de levantar problemas, no entanto, constitui uma das maiores virtudes do cientista – esses problemas são revelados ao observador por meio de seus estudos teóricos (MALINOWSKI, 1984, p. 22).
Para Malinowski (1984), a pesquisa etnográfica tem como objetivo estabelecer um contorno firme e claro do universo a ser analisado, apreendendo a sua visão de mundo, em busca de sentido. São métodos utilizados empiricamente em pesquisas antropológicas e sociológicas e que podem contribuir para a metodologia de pesquisa no campo da Ciência da Informação.
Desse modo, nas Ciências Sociais, inclusive nas Aplicadas, numa vertente mais
“compreensiva em busca de sentido, [...] a relação com entes pesquisados é de ordem intersubjetiva, a verificação dos resultados inclui os dois contextos, o da descoberta e o da justificação e os resultados alcançados são considerados parciais, provisórios e abertos à crítica” (FROTA, 2007, p. 52).
Assim, observar, descrever, explicar e interpretar o impacto do projeto de inclusão, objetivado por meio de falas entre outras atitudes exige-nos compreender “a expressividade humana que
é capaz de objetivações, isto é, manifesta-se em produtos da atividade humana que estão ao dispor tanto dos produtores quanto dos outros homens, como elementos que são de um mundo comum” (BERGER; LUCKMANN, 2008, p. 53).
Ivan Domingues (2004, p.103) sugere-nos a “necessidade de se articular, num mesmo
método, os níveis descritivo, explicativo e interpretativo (compreensivo) para empreender a análise científica dos fenômenos humano-sociais.”
Assim, procuramos, na etnografia, um caminho para realizar a pesquisa de campo e construir novas perguntas ao responder as já feitas, analisando cientificamente os fenômenos humano- sociais, como sugeriu Domingues (2004), apreendendo como a participação no Centro Vocacional Tecnológico Henfil serviu como elemento de transformação na realidade dos alunos.
Dessa forma, desenvolvemos o trabalho de campo apoiado na etnografia, como fundamento metodológico, com o intuito de compreender o problema de pesquisa.
É oportuno ainda acrescentar que a formulação de Roberto Da Matta (1978) constituiu também aspecto relevante a considerar:
Desse modo, enquanto o plano teórico-intelectual é medido pela competência acadêmica e o plano prático pela perturbação de uma realidade que vai se tornando cada vez mais imediata, o plano existencial da pesquisa em Etnologia fala mais das lições que devo extrair do meu próprio caso. [...] ela deve sintetizar a biografia com a teoria, e a prática do mundo com a do ofício (MATTA, 1978, p. 25).
Matta (1978, p. 35) corrobora as idéias de Geertz (1989), em A interpretação das culturas, e aponta-nos, como ofício de etnólogo, a necessidade da descrição densa, na qual “para
distinguir o piscar mecânico e fisiológico de uma piscadela sutil e comunicativa, é preciso sentir a marginalidade, a solidão e a saudade. É preciso cruzar os caminhos da empatia e da humildade”.
A intenção foi a de identificar como se apresentam as transformações ocorridas com os alunos participantes do projeto de inclusão digital do Centro Vocacional Tecnológico Henfil, tendo como foco a informação social.
[...] A preocupação com a qualidade de vida é uma das grandes conquistas do nosso tempo, mas se não for constantemente relativizada e colocada em seu contexto sócio-histórico adequado pode, inclusive, virar uma arma contra seus próprios propugnadores e ideólogos, à medida que possa mascarar as próprias raízes e origens da problemática. A lição da Antropologia é que o primeiro passo, o mais fundamental é procurar ouvir e entender a visão de mundo dos grupos sociais que vivem diretamente essas situações e procurar perceber seus pontos de vista, com o mínimo de preconceitos e sem paternalismos (VELHO, 1978, p. 15-16).
Assim, a pesquisa de campo tornou-se uma complexa atividade a ser realizada, para além da teoria. Afinal, “não há como propriamente ensinar a fazer pesquisa de campo. [...] A
experiência de campo depende, entre outras coisas, da biografia do pesquisador, [...] e, não menos, das imprevisíveis situações que se configuram, no dia-a-dia, no próprio local de pesquisa entre pesquisador e pesquisados” (PEIRANO, 1995, p. 22).
[...] Como observadores do mundo, eles (os cientistas sociais) também participam desse; suas observações, portanto, são feitas dentro de um esquema mediado, ou seja, um esquema de símbolos e significados culturais oferecido a eles por aspectos de suas histórias de vida que eles trazem para o ambiente observacional. [...] o emprego de dados quantitativos ou de procedimentos matemáticos não elimina o elemento intersubjetivo que representa a base da pesquisa social. A objetividade consiste não em um método per se, mas na formulação do problema da pesquisa e na disposição dos pesquisadores de dedicarem-se a esse problema onde quer que os dados e suas intuições possam levá-los (DENZIN; LINCOLN, 2006, p. 51).
Assim, não havia um modelo pronto de metodologia de pesquisa para o problema aqui proposto e, muito menos, um único método que pudesse dar conta de todo o problema, mas a etnografia pôde ser visualizada como uma contribuição à comunidade.
Em uma ciência social cívica, os fins da etnografia – comunidades fortes, justas, igualitárias – reconciliam-se com os meios para se chegar a esses fins. [...] os meios (métodos) da ciência social são desenvolvidos, aperfeiçoados e estimados por suas contribuições às comunidades que se caracterizam por uma diferença respeitosa e terna, pelas justiças sociais e pela igualdade de acesso ao capital material, social, educacional e cultural (os fins da etnografia) (DENZIN; LINCOLN, 2006, p. 404).
Alguns métodos podem ser utilizados sobre um mesmo problema, com o intuito de auxiliar na pesquisa, contribuindo para o trajeto realizado. E, assim, pensou-se na utilização da etnografia
“para a compreensão do fenômeno urbano” (MAGNANI, 2002), dando voz à periferia.
A pedagogia de resistência, da retomada da ‘voz’, da recuperação da narrativa para si mesmo em vez de adaptá-la às narrativas de uma maioria dominante, foi exposta do modo mais explícito por Paulo Freire no trabalho que realizou com adultos no Brasil (DENZIN; LINCOLN, 2006, p. 398).
Pensa-se que a etnografia permite uma maior aproximação do objeto e um melhor detalhamento dos processos, os quais o problema exigiu conhecer, uma vez que “[...] a
prática etnográfica – artesanal, microscópica e detalhista – traduz, como poucas outras, o reconhecimento do aspecto temporal das explicações” (PEIRANO, 1995, p. 57).
[...] praticar a etnografia é estabelecer relações, selecionar informantes, transcrever textos, levantar genealogias, mapear campos, manter um diário, e assim por diante. Mas não são essas coisas, as técnicas e os processos determinados, que definem o empreendimento. O que o define é o tipo de esforço intelectual que ele representa: um risco elaborado para uma ‘descrição densa’, tomando emprestada uma noção de Gilbert Ryle (GEERTZ, 1989, p. 15).
Geertz (1989, p. 20) nos sugere algumas práticas a partir da etnografia e nos chama a atenção para o esforço intelectual que o pesquisador deve despender na realização da pesquisa de campo, para que consiga uma descrição densa. Afinal, “[...] fazer a etnografia é como tentar
ler um manuscrito estranho, desbotado, cheio de elipses, incoerências, emendas suspeitas e comentários tendenciosos, escrito não com os sinais convencionais do som, mas com exemplos transitórios de comportamento modelado”.
Já dizia Paulo Freire (1996) que estamos sempre em busca do que nos falta, como sujeitos conscientes da nossa incompletude.
Para tanto, o diálogo é importante e não uma perfeição de consenso. Para buscar saber o impacto causado nas vidas dos adolescentes e adultos, que frequentaram o projeto de inclusão digital do Centro Vocacional Tecnológico, em termos de inclusão social, é preciso dialogar com estes e ouví-los. Desta forma, realizou-se a pesquisa visando apreender quais as influências que o acesso à Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) representou para os alunos participantes do projeto de Ribeiro das Neves.
Desse modo, torna-se uma
[...] Etapa fundamental procurar a lógica e coerência internas do discurso do universo pesquisado. Sem isto poder-se-á estar correndo o risco de dar ênfase a conteúdos, possivelmente circunstanciais, relegando a segundo plano princípios classificatórios. Daí a importância do trabalho de campo, com observação participante e entrevistas que devem, em princípio, permitir ao investigador ir além das ‘aparências’ e identificar ‘códigos’ nem sempre explicitados (VELHO, 1978, p. 90).
Velho (1978, p. 113) diz “que cabe sempre lembrar que um estudo de caso não pretende,
necessariamente, encontrar o típico ou médio, mas sim, por meio de um trabalho mais demorado e intensivo, perceber mecanismos e estratégias sócioculturais difíceis ou impossíveis de serem captados por grandes amostragens de enormes universos.”
É, portanto, ir para campo e buscar, nesse pequeno universo, investigar as transformações sociais ocorridas nas vidas desses alunos do Centro Vocacional Tecnológico, na contemporaneidade. “Isto implicará diferentes esforços descritivos: descrições exploratórias
e verticalizadas (em profundidade) [...]” (FROTA, 2007, p. 58). Para descrições ricas em
detalhes, já mencionadas como imprescindíveis à pesquisa, essas “[...] suscitarão a produção
de explicações mais próximas da vertente compreensiva das ciências sociais” (FROTA,
2007, p. 58), o que, por fim, auxiliará na interpretação do fenômeno social, ou seja, nas análises das oportunidades e limitações vivenciadas pelos alunos e alterações ocorridas na realidade social dos ex-alunos do Centro Vocacional Tecnológico Henfil.
Para tal processo descritivo rico em detalhes faz-se necessário o uso de técnicas multimetodológicas que consigam informações diversas e importantes sobre o universo de pesquisa.
As pesquisas qualitativas são característicamente multimetodológicas, isto é, usam uma grande variedade de procedimentos e instrumentos de coleta de dados. Podemos dizer, entretanto, que observação (participante ou não), a entrevista em profundidade e a análise de documentos são os mais utilizados, embora possam ser complementados por outras técnicas (ALVES- MAZZOTTI; GEWANDSZNAJDER, 2004, p. 163).
Nesse universo de pesquisa, dentre “uma grande variedade de procedimentos e instrumentos
de coleta de dados” pensou-se, também, na aplicação da amostragem sistemática e a
amostragem por acessibilidade, devido a possibilidade de contato com os entrevistados.
A amostragem sistemática é uma variação da amostragem aleatória simples. Sua aplicação requer que a população seja ordenada de modo tal que cada um de seus elementos possa ser unicamente identificado pela posição (GIL, 1994, p. 94).
A amostragem por acessibilidade. Constitui o menos rigoroso de todos os tipos de amostragem. Por isso mesmo é destituída de qualquer rigor estatístico. O pesquisador seleciona os elementos a que tem acesso, admitindo que estes possam, de alguma forma, representar o universo. Aplica-se este tipo de amostragem em estudos exploratórios ou qualitativos, onde não é requerido elevado nível de precisão (GIL, 1994, p. 97).
Desse modo, a pesquisa se apresenta multimetodológica, utilizando-se das amostragens sistemática e por acessibilidade, e fundamentada na abordagem etnográfica (entrevistas, questionários e observação participante).
A observação participante, ou observação ativa, consiste na participação real do observador na vida da comunidade, do grupo ou de uma situação determinada. Neste caso, o observador assume, pelo menos até certo ponto, o papel de um membro do grupo. Daí por que se pode definir observação participante como a técnica pela qual se chega ao conhecimento da vida de um grupo a partir do interior dele mesmo.
[...] Na observação artificial, o observador depara-se geralmente com mais problemas que na observação natural (GIL, 1994, p. 107-108).
Portanto, o universo de pesquisa a se apresentar exigiu-nos a aplicação de uma metodologia que conseguisse observar, descrever, explicar e interpretar o impacto do programa social de inclusão digital, na vida de seus participantes.