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Quando discorríamos sobre o risco, afirmamos que diante da evolução do seguro social, percebe-se que o tradicional conceito de risco trazido do seguro privado não se amolda ao seguro social. Isso porque para o seguro privado, risco é um evento futuro e

incerto, ao passo que, para o seguro social, apesar de o risco não deixar de ser um evento

futuro, ele pode ser certo ou incerto. Salienta-se que a incerteza implica o

109 PULINO, Daniel. A Aposentadoria por Invalidez no Direito Positivo Brasileiro. São Paulo: Editora

97 desconhecimento da produção do fato, o que não ocorre na prestação em estudo, já que a invalidez é presumida ao se atingir a idade determinada pela lei.

No caso do benefício em estudo e no caso do salário-maternidade, não é conveniente a utilização do conceito tradicional de risco. Em se tratando da aposentadoria por idade, o atingimento de determinada idade não necessariamente significa invalidez, mas presume-se invalidez. O mesmo ocorre quando se trata do salário-maternidade, principalmente no caso da maternidade planejada, mas esse último não é objeto de nosso estudo.

O risco coberto, a saber, é o atingimento da idade legal. O atingimento da idade legal é causa primária qualificadora da necessidade social, que acarreta a perda, diminuição ou redução da capacidade laboral. Orisco idade é da modalidade dies certus

an incertus certus quando, ou seja, conhece-se a data da eventualidade, já que ela depende

apenas do decurso do tempo, mas ignora-se se ocorrerá, pois pode sobrevir outra eventualidade – como a morte – que impeça a sua verificação.110

Miguel Horvath, ao comentar sobre a doutrina espanhola, cita as lições de Manuel Alonso Olea e José Luiz Totuero Plaza. Afirma que:

De todos os riscos cobertos pela seguridade social, decorrentes da falta de renda (ingressos) o mais importante com certeza é o da idade (velhice); enquanto a incapacidade temporária ainda que mais frequente, somente dá lugar às prestações temporárias pagas em períodos curtos de tempo, a invalidez é comparativamente mais escassa [...]. A velhice (atingimento da idade legal) se caracteriza pela frequência de sua ocorrência como “término previsível e normal da vida profissional” agravada pelo progressivo aumento da idade média da população, sendo cada vez mais numerosas as pessoas que alcançam idades de sessenta, sessenta e cinco anos e setenta anos de idade 60, 65, 70 anos. À média que a população envelhece este tema tem se tornado cada vez mais comum nos livros especializados, como o do incremento da população humana e ao contrário o declínio ou descenso da população nos países industrialmente desenvolvidos. Se tem dito que o

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envelhecimento é o fenômeno mais importante dos tempos modernos.111

A proteção se justifica não como um direito ao descanso, mas tem por base uma situação de necessidade social provocada pela redução da capacidade laboral em decorrência do processo biológico de envelhecimento, que acarreta lentidão de raciocínio, reações mais lentas, dificuldade de aprendizado e diminuição auditiva. Mas é de todo oportuno esclarecermos aqui que, de acordo com a sistemática da legislação brasileira, por se tratar de uma invalidez presumida, não necessariamente todos aqueles que atingirem a idade legal para poder usufruir do benefício e que tenham contribuído com o sistema com determinada quantidade mínima exigida pela lei – lembrando que não basta o critério etário, já que o sistema é contributivo – estão incapacitados, e que o referido benefício foi concedido em virtude da incapacidade.

Como ensina o professor Wagner Balera, o risco protegido é a velhice, não as necessidades. Dessa forma, o risco protegido é a incapacidade de ganho de rendimentos devido à perda de trabalho pela presunção da incapacidade fisiológica de se trabalhar por causa da idade. Por se tratar de incapacidade presumida, não necessariamente significa que isso ocorra, ou seja, que o indivíduo esteja, de fato, incapacitado.

A idade avançada é um estado em que se conectam a incapacidade fisiológica, a doença, a invalidez e o desemprego. Contudo, no nosso entender, não há que se confundir idade avançada com doença, porque idade avançada não é sinônimo de enfermidade, já que muitas pessoas atingem a idade avançada e gozam de plena saúde. Ademais, existem critérios próprios para concessão de benefício quando gerada necessidade em virtude de doença.

Nessa mesma linha, não se pode comparar a idade avançada com invalidez, muito menos com desemprego, em que pese sabermos que, com o atingimento de certa idade, aumentam as dificuldades para o exercício de determinadas atividades laboratícias, bem como o reingresso ao mercado de trabalho quando pessoas nessa situação vêm a perder o emprego.

99 A esse respeito, escreveu Thiago Barros de Siqueira:112

Respeitando-se as, atualmente intransponíveis, limitações estruturais e financeiras, tem-se que a determinação de uma idade única padrão da qual decorre o direito à proteção previdenciária não cumpre o ideal constitucional de seguridade social por não considerar as individualidades de cada trabalhador e, consequentemente, não proteger de forma isonômica os seus beneficiários.

Ousamos discordar do Autor, pelo simples fato de que, em nosso sistema jurídico, a regra é genérica e não permite a fragmentação ou individualização para atender à característica individual de cada ator social. Isso sim inviabilizaria a verdadeira prestação da justiça social face à dificuldade de se aplicar a norma, até devido à adversidade encontrada em nosso País – seja adversidade quanto às características pessoais de cada ator social, seja pela adversidade espacial, já que em cada Estado da federação, as condições de sobrevivência são adversas, seja pelo simples fato de ser a lei a mesma para todos.

Nesse sentido, Celso Antônio Bandeira de Mello,113 citando Pimenta Bueno, afirma

que “a lei deve ser uma e a mesma para todos: qualquer especialidade ou prerrogativa que não for fundada só e unicamente em uma razão muito valiosa do bem público será uma injustiça e poderá ser uma tirania”.

José Manuel Almansa Pastor114 aponta algumas diferenças entre o risco etário e

outros como a invalidez, a morte e o desemprego, da seguinte maneira:

- Da incapacidade laboral e invalidez se diferencia, enquanto estas aludem à incapacidade patológica; a velhice se refere à incapacidade fisiológica normal com a idade.

112 SIQUEIRA, Thiago Barros. A Proteção da Idade Avançada no Regime Geral de Previdência Social.

São Paulo: Editora Conceito, 2011, p. 124.

113 MELLO, Celso Antônio Bandeira. O Conteúdo Jurídico do Princípio da Igualdade. 3ª Edição – 18ª

Tiragem. São Paulo: Editora Malheiros, 2010, p. 18.

114 PASTOR, José Manuel Almansa. Derecho de la Seguridad Social. Volume I. Madri: Editorial Tecnos,

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- Da morte produtora de situações de supervivência se distingue, esta pressupõe a extinção da pessoa, enquanto que a velhice implica só na incapacidade laboral de natureza fisiológica.

- Do desemprego, finalmente, enquanto que este se produz em quem pode trabalhar e cessa involuntariamente nele, enquanto que na velhice incide uma incapacidade fisiológica.

Ainda quanto ao risco, conclui Wagner Balera115 que “a velhice é acompanhada de

outros problemas, além dos sanitários e previdenciários. Problemas que dizem respeito à própria existência da pessoa idosa, ao ser do homem que atinge a maturidade, da socialidade e do futuro”.

A institucionalização da aposentadoria funciona como meio de compensação ao risco de privação dos meios de subsistência advindo da perda da capacidade para o trabalho, devido ao declínio físico do envelhecimento. Mas, no ordenamento jurídico brasileiro, que é objeto deste estudo, por ser a incapacidade presumida, não necessariamente significa que o segurado possa somente usufruir da benesse quando estiver em total declínio físico. Para que possa fazer uso dessa benesse, deve apenas preencher os requisitos exigidos pela lei, quais sejam, idade mínima e tempo de contribuição suficiente.

115 BALERA, Wagner. Noções Preliminares de Direito Previdenciário. 2ª ed. São Paulo: Editora Quartier

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