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Konfüçyüs’ün Yeniden Keşfi

Belgede Çin yönetimi ve Konfüçyüs (sayfa 126-146)

Anteriormente, mostramos o interesse de Flaubert pela ciência. Além disso, expusemos a emergência progressiva do paradigma científico durante

174 Cf. CURTIS, 1969, p. 10. 175 CURTIS, 1969, p. 10.

o século XIX, momento em que houve a consolidação do modelo metodológico das ciências naturais, a sua delimitação epistemológica e as suas relações, eventualmente polêmicas, com outras áreas do conhecimento, como a literatura. Vimos como o saber científico orientava Flaubert, durante a produção de sua obra. Na presenta seção, veremos a importância da dimensão histórico-arqueológica na produção de Salammbô.

Ao mesmo tempo, destacaremos a importância de determinadas áreas do saber, como a História e a Arqueologia, para a redação e pesquisa de fontes, na referida obra flaubertiana.

No que tange ao substrato histórico-literário de Cartago, sabemos que Flaubert consultou trabalhos sobre as mais variadas áreas da Ciência. Flaubert afirmava que o seu novo trabalho romanesco demandaria um grande trabalho científico (arqueológico). Os indícios deste trabalho podem ser encontrados na Correspondance e no dossiê “Salammbô: sources et méthodes”, organizado e proposto por Léon Abrami.176

Em relação à dimensão histórica do romance, como os eventos militares e a revolta dos Mercenários contra Cartago, Flaubert utilizou diretamente o texto do historiador Polybe, Guerre inexpiable, fonte nuclear da qual se originou a obra em questão. Além deste texto, destaca-se o de Michelet, em sua História romana, de 1839. Empreendeu também trabalhos de busca em outras fontes, para informar-se a respeito da vida diária da cidade de Cartago, àquela época da Antigüidade, o ano de 241 a.C. No que tange à sua metodologia e às fontes alternativas, o autor de Salammbô afirmava: “o que me faltava de preciso sobre Cartago, busquei na Bíblia

[tradução de Cahen]. Quando não tinha os textos antigos, recorri às viagens modernas e às minhas lembranças pessoais.”177 Segundo Jurt, o método

principal utilizado por Flaubert, para a reconstituição do cotidiano cartaginês, foi a dedução hipotética, a partir de civilizações similares ou de adjacências geográficas.178 Como parte deste processo dedutivo, Flaubert via

em Cartago comparações imediatas com a civilização fenícia, que, inclusive, fundara a cidade púnica, no norte da África.

Entretanto, Flaubert parece haver incorrido em um erro de avaliação, pois a fundação fenícia de Cartago, alguns empréstimos bíblicos (que objetivavam também uma melhor compreensão desta cidade) e as guerras púnicas pertencem a épocas diferentes; logo, haveria, ao menos, dois momentos distintos, o que prejudicaria os paralelos históricos. No entanto, segundo Jurt, “este método indutivo, que pode parecer completamente contestável para um historiador moderno, era bastante comum àquela época”179. Reforçando este método, há o grande número de fontes e

documentos históricos consultados e lidos por Flaubert, o que lhe forneceu as bases históricas sobre as quais empreendeu o seu trabalho romanesco, já que, no século XIX, a Arqueologia possuía como metodologia fundamental o recurso a fontes escritas, de caráter, portanto, filológico. Somente mais tarde essa ciência se configuraria segundo pressupostos de análise relacionados à explicação do passado mediante monumentos figurados.

Além das leituras e pesquisas relativas às fontes disponíveis em sua época, o autor de Salammbô utilizou também observações diretas da região

177 Correspondance, II, 1980, p. 489. 178 Cf. JURT, 2004, p. 4.

da extinta Cartago. Para tanto, deslocou-se, em 1858, até a região da antiga cidade púnica e dela apreendeu, através do seu olhar, seus contornos exteriores, destruídos, o que, mais tarde, motivou-o a fazer um levantamento topográfico da região, servindo-se da observação de monumentos figurados cartagineses.

Em 1844, na França, duas revistas especializadas em arqueologia são publicadas: a Revista arqueológica e os Anais arqueológicos. Em 1846, surge a Escola Francesa de Atenas e, no ano seguinte, uma cadeira de arqueologia é criada na Escola de Belas Artes.180 No século XIX, a Arqueologia se

constitui como campo científico autônomo. Segundo Jurt, a rigidez de separação entre as áreas do conhecimento era defendida, sobretudo, pelo arqueólogo alemão Guillaume Froehner, que, em 1858, defendeu sua tese de Doutorado em Arqueologia, na Universidade de Bonn.181 Para Froenher, era

imprescindível que se separassem os campos do saber. Tendo lido o trabalho de Flaubert, particularmente Salammbô, o arqueólogo reprova a atitude do escritor, sustentando que um romancista diletante não possui a legitimidade para penetrar em áreas tão específicas e distintas do conhecimento, como a Geologia e Arqueologia.182

Froenher possuía uma concepção normativa face ao romance, na medida em que defendia que este gênero literário tinha características próprias e não intercambiáveis com outras áreas. Segundo Jurt, as críticas mais pertinentes de Froenher talvez sejam as ligadas ao método utilizado por Flaubert para a reconstituição histórica de Cartago, concretizado sob a égide

180 Cf. JURT, 2004, p. 6. 181 Cf. JURT, 2004, p. 6. 182 Cf. JURT, 2004, pp. 6-7.

da observação direta dos monumentos figurados e das fontes escritas. Froenher argumentava que as descrições específicas de Flaubert não eram corroboradas em nenhum autor antigo, nem em nenhum monumento autêntico.183 Portanto, a crítica das fontes utilizadas se torna notória. Entre

elas, Flaubert se serviu muito das de caráter documental, que, aos seus olhos, pareciam garantir a autenticidade de um fato. Deveriam, além disso, ser compatíveis entre si.184 O problema reside no fato de que o romancista,

para suprir certas fontes de informação que não podiam ser comprovadas e localizadas, como, por exemplo, o exterior arquitetônico e decorativo das construções da cidade púnica, empregou documentos históricos diversos, mas que pertenciam a épocas distintas, o que prejudicava a coerência historiográfica.

Entretanto, Flaubert focou, sobretudo, o efeito de verossimilhança, aplicado à reconstituição de Cartago. Em última análise, o escritor sempre esteve no terreno das hipóteses, atribuindo, inclusive, alguma carga psicológica a seus personagens. Com efeito, a protagonista cartaginesa Salammbô e o seu pai, Amílcar Barca, possuem determinados perfis comportamentais, os quais se harmonizam com determinadas ações e funções. Salammbô, sobremaneira contemplativa e mística, parece alheia ao ambiente belicoso em que se encontrava; Amílcar, dinâmico e austero, manifesta grande frieza e domínio de suas ações.

Esta obra flaubertiana, pretendendo recuperar uma realidade tão distante no espaço, no tempo e nos costumes, não demandava a prova cabal dos eventos narrados, mas um aspecto de verossimilhança histórica, de

183 Cf. JURT, 2004, pp. 6-7. 184 Cf. JURT, 2004, p. 7.

efeito estético e de literariedade, que pudesse causar, em última análise, um determinado impacto no universo do leitor, conduzindo-o à criação imaginativa de sua própria Cartago.

A outra carga de inverossimilhança atribuída a Flaubert, principalmente pelo arqueólogo Froehner e pelo crítico literário Sainte- Beuve, concerne à dimensão psicológica das personagens. Com efeito, haja vista a enorme distância espaço-temporal e a nebulosidade das certezas sobre Cartago e sobre os seus habitantes, é natural que o autor de Salammbô tenha incorrido em problemas de adequação quanto ao comportamento e a cor local dos cartagineses.

Malgrado as críticas nocivas e pontuais endereçadas a Flaubert, Salammbô permanece fiel à verossimilhança imaginada pelo autor, a qual, mesmo no meio científico atual, é digna de destaque e de confiança. Na realidade, trata-se de um grande trabalho arqueológico. Como observou Paul Vernière, a exploração metódica do sítio de Cartago começaria somente em 1859, sob a direção de Beulé.185 Em 1858, ninguém havia ainda vasculhado

a necrópole de Dar-el-Morali, nem aberto, em Ard-el-Touibi, as tumbas da época de Amílcar; o viajante não podia, como hoje, ver pessoalmente o símbolo de Tanit sobre os blocos dedicados à deusa e a Baal Hamon. Contudo, assim como na época de Flaubert, as fontes recentes permanecem quase que totalmente documentais. E, como lembra Paul Vernière, “[d]os documentos escritos sobre Cartago, Flaubert não deixou escapar uma linha”.186

185 Cf. VERNIÈRE, 1960, p. 28. 186 VERNIÈRE, 1960, p. 28.

Descobertas arqueológicas recentes têm confirmado a grande intuição histórica de Flaubert. Com efeito, os achados de Ras Shamra, na Síria, fornecem argumentos contundentes acerca do parentesco entre o Egito, a Assíria, a civilização hebraica e a de Cartago. Nesse sentido, parece razoável que Flaubert tenha copiado, para as suas personagens, as roupas do Egito, que tenha imaginado, em Cartago, o culto das deusas de cabeça de leoa. Em toda a obra, Flaubert não comente um único erro grave. “Em seu tempo, é ele o erudito e não o pesado Froehner”.187

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