Além de Flaubert, outros escritores também se atrelaram ao modelo das ciências positivas. Com efeito, no século XIX, a dimensão matésico- referencial e taxionômica da ciência relacionada à literatura evidencia, ou tenta fazê-lo, as mais variadas relações entre o homem e a natureza física e biossocial que lhe é circunvizinha e à qual pertence. Nesse sentido, textos que nos mostram as realidades geográficas e sociológicas do mundo se tornam, por assim dizer, recorrentes. Pretendem sublinhar os contornos objetivos da realidade, de modo a aproximar o texto literário do saber das ciências positivas. Ao mesmo tempo, o processo de autonomia dos campos do conhecimento promove a separação epistemológica mais ostensiva entre os saberes, o que instaura disputas entre determinadas áreas, as quais, inclusive, avançam sobre a dimensão eventualmente relacional entre a ciência e a literatura. Assim, as disputas entre os campos e os autores se tornam cada vez mais claras e acentuadas. Cada área do conhecimento se separa, mais ou menos rapidamente, acarretando, do ponto de vista epistemológico, fronteiras interdisciplinares que se tornam progressivamente delimitadas, reconhecidas e respeitadas. A literatura não foge a este processo. Confrontada à ciência, delimita o seu campo. De acordo com Joseph Jurt, a concorrência, a rivalidade entre a ciência e a literatura, no
decorrer do século XIX, parece substituir a antiga função exercida pela religião e pela moral: a interpretação do mundo e a orientação da prática humana. 136
A relação entre o saber científico e a literatura, numa dimensão eventualmente conflituosa ou aproximativa, pode ser contemplada também, em âmbito literário, quando lemos o prefácio de A Comédia Humana, de Honoré de Balzac. Neste texto, há uma referência a Buffon e à sua História Natural. Naquela obra, Balzac afirma que pretende ser para a sociedade o que Buffon havia sido pela zoologia. Contudo, o que parece haver é uma zoologia social, na qual cada indivíduo ou grupo da sociedade responde a determinadas classificações, das quais formamos uma idéia de tipologia social e psicológica a partir do comportamento de cada um dos indivíduos, analogamente às classificações zoológicas por espécie. Desta forma, essa visão de época, implícita ou não, segundo a qual o cientista deve servir de modelo ao escritor, incute, no literato, um desejo de observação e de análise dos eventos e objetos do mundo social. Como outros escritores, Gustave Flaubert, devido à sua curiosidade científica, adotou, em determinados romances, como Madame Bovary, Salammbô e Bouvard et Pécuchet, uma metodologia próxima à da utilizada pela ciência: a delimitação, a observação e a análise do objeto a ser estudado.
Segundo Florence Vatan, a relação de Flaubert com a ciência pode ser resumida em quatro perspectivas: de início, o seu interesse pelo saber científico. Com efeito, o autor de Madame Bovary leu numerosos tratados de medicina, de arqueologia, de geografia. Contudo, Flaubert não procurava
somente o saber em si, mas eventuais controvérsias que dele adviessem, através de um olhar global sobre a ciência; em segundo lugar, possuía uma forte curiosidade científica, motivada, inclusive, por questões estéticas. Sob esta perspectiva, afirmava que o escritor deve perseguir o saber científico não somente para chegar à verdade, mas também para criar uma ilusão de realidade, baseada no método científico; em terceiro lugar, Flaubert observa que a ciência é um excelente lugar para a procura da bêtise, ou seja, o discurso científico apresenta uma forte carga de presunção e de crenças em verdades absolutas e eternas, além de uma visão, de certa forma, dogmática. Em quarto lugar, Flaubert não age na qualidade de homem de ciência. As diversas leituras compulsivas que fazia sobre temas científicos eram governadas, em última análise, por uma dimensão afetiva da assimilação do saber. Incorporava um processo que não repousa única e exclusivamente sobre a razão consciente, na medida em que a aquisição do saber passa também por uma experiência sensível e estética.137
À época de Flaubert, a ciência se torna um discurso de autoridade, sobremaneira criticado pelo autor francês. Porém, mais do que criticar alguns pontos obscuros do saber científico, o autor de Salammbô criticava também visões extracientíficas, representadas, por exemplo, por ideologias sutis em que transpareceriam, em determinadas ocasiões, uma visão excludente e não-cientificista sobre o mundo, a qual se repousa em supostas superioridades de certas raças e em separação por castas sociais. Ao mesmo tempo, Flaubert parece servir-se da ciência não apenas como um caminho para chegar a uma visão racional e verdadeira da realidade, mas também
137 Cf. VATAN, 2004, p. 4.
para adquirir, de algum modo, um olhar estético da assimilação cognitiva. Para ele, o positivismo, objetivando apresentar as leis físicas gerais e imutáveis da realidade, torna-se, em certas circunstâncias, incoerente, visto que o viés mágico do olhar inconsciente pode, também, assimilar o saber e mesmo transpô-lo para o domínio artístico, para o romance.
Flaubert apresenta, portanto, um ponto de vista segundo o qual o olhar crítico não deve sempre estar subjugado à ciência.138 Este olhar possui
as suas próprias características e autonomia, ligadas às constatações empíricas dos eventos e dos objetos do mundo. Assim sendo, a literatura, na hipótese de fundamentar-se numa cosmovisão objetiva, poderia apreender racionalmente o mundo, mas de um modo controlado, sob o risco de incorrer em divagações perigosas e contrárias ao que é visto na realidade e apreendido pelo sujeito cognoscente. A literatura pode apresentar, inclusive, uma crítica das ciências positivas, mostrando certas incoerências deste saber. Paralelamente, ela se opõe ao olhar científico na medida em que ela mesma possui inumeráveis possibilidades construtivas, entre as quais a capacidade de fazer sonhar, facultando uma visão poética do mundo, a qual ultrapassaria o saber em si, chegando, através de uma experiência estética e individual, a uma esfera de contemplação imaginativa.139
Conforme ressalta Jurt, Flaubert parece evocar a língua científica, que é, ou seria, a única capaz de pôr em evidência a precisão e a observação da realidade. Neste ponto, Flaubert serve-se do paradigma científico, relacionando-o ao fazer literário. Afirmava, inclusive, que o estilo ideal para
138 Cf. VATAN, 2004, p. 7. 139 Cf. VATAN, 2004, p. 6.
um escritor é o da linguagem das ciências.140 O valor positivo que Flaubert
atribui ao saber científico indica como este autor o preconizava. Amalgamando este saber à esfera romanesca, o narrador flaubertiano sublinha a importância da ciência, a única que poderia fornecer um valor de legitimidade à representação da realidade objetiva na obra literária. Além disso, este ideal estilístico oferece também ao escritor um ideal cognitivo, na medida em que a possibilidade de mostrar a realidade tal qual ela é (ou seria), sem projeção subjetivo-ideológica, eximiria o texto literário de uma carga lírica e de idealização pessoal. Sob tal perspectiva, Flaubert salienta que a literatura tenderia a aproximar-se do paradigma científico, visto que ela exporia igualmente os objetos e eventos do mundo, mas de uma forma representativa e artística. Segundo o autor de Salammbô, “a literatura terá, cada vez mais, as aparências da ciência; ela será, sobretudo, expositora, o que não quer dizer didática. É preciso fazer quadros, mostrar a natureza tal qual ela é, mas quadros completos [...]”.141
Logo, ao mesmo tempo em que combate a contaminação subjetiva da Arte, esta visão cientificista entra em choque contra os ideais teológico- filosóficos de uma interpretação modificada e tendenciosa do mundo. Para Flaubert, a Arte deve ultrapassar as interferências subjetivas, que a tornam falsa, imprecisa e sobremaneira pessoal. Dizia que “[...] a Arte deve elevar-se acima das afeições pessoais e das suscetibilidades nervosas! É tempo de lhe dar, através de um método impiedoso, a precisão das ciências físicas!”142
Assim, o autor de Salammbô defende que o fazer artístico, como o científico,
140 Cf. JURT, 2004, pp. 1-2.
141 Correspondance, III, 1991, p. 158. 142 Correspondance, II, 1980, p. 691.
deve expor o exterior do mundo, almejando a objetivação da linguagem científica. Nesse sentido, afirma, inclusive, que o caráter universal do método científico pode ser adotado pela literatura, uma vez que, em função de sua natureza global, a esfera literária pode transcender o particular.
Na realidade, podemos até salientar que o modelo científico de que se serve Flaubert parece norteá-lo no sentido não somente de aproximar a ciência da literatura, mas também de equipará-las, em certa medida. Desta forma, o rigor do estilo despersonalizado, almejado e preconizado pelo autor, instaura certa distância fenomenológica entre o sujeito cognoscente, representado, neste caso, pelo olhar do narrador, e os objetos e eventos da realidade exterior. Em Salammbô, Flaubert utiliza mais ostensivamente o seu projeto de despersonalização, devido, talvez, ao recuado e nebuloso momento histórico que desejava reconstituir literariamente, ou seja, a Cartago de 241 a.C. Desse momento histórico pouco se sabia e, para tornar- se plausível cientificamente, precisaria ser coerente com determinados pressupostos histórico-arqueológicos, relacionados, sobretudo, ao reconhecimento de fontes oficiais, em que reconstruções históricas ou arqueológicas, mesmo hipotéticas, deveriam pautar-se na almejada objetividade.
Na relação entre a estética e a metodologia científica, para Flaubert, se determinado termo possui harmonia sonora e rítmica, é porque a idéia que expressa é exata. Ao lado de uma vasta pesquisa de fontes e de documentos, o autor de Salammbô se lança em direção a uma busca incessante de verificação dos referentes encontrados com suas hipóteses aventadas previamente. Nesse sentido, preconiza que a escrita literária pode e deve
atingir uma dimensão em que a metodologia da clareza, pautada na cientificidade das ciências naturais, forneça à obra um aspecto de verdade, passível de confirmações objetivas na realidade.143 Assim, fundamentando-se
neste ponto de vista, a sua técnica metodológica consiste, com freqüência, em conceber e descrever o objeto ou evento de que precisa de modo a poder, em um segundo momento, confirmar a exatidão referencial do foco descritivo. Assim, o texto literário pode adequar-se não somente à metodologia da ciência, mas também aos objetos referenciais que pretende relatar e descrever. Segundo Flaubert, a literatura pode legitimar a representação de um fato ou objeto, como revela a Louise Colet:
Tudo o que se vê é verdadeiro, esteja segura disso. A poesia é algo tão preciso quanto a geometria. A indução vale a dedução, e, depois, chega-se a um certo ponto, onde não nos enganamos mais com tudo que vem da alma.144
Apresentando um mundo totalmente distinto da época e lugar em que vivia, Flaubert, com Salammbô,titubeava na escolha adequada da linguagem e do estilo que queria empregar. Não sabia exatamente se deveria colocar determinadas palavras ou expressões em suas línguas originais ou transpô- las para o francês. Conforme ressalta Curtis:
Por um lado, ele [Flaubert] reproduziu ou demarcou um número restrito de expressões estrangeiras. Por outro lado, e, sobretudo, adaptou nossa linguagem clássica a realidades novas, forjando alianças de palavras, combinando imagens tão naturais quanto reluzentes, criando símbolos que evocavam um mundo bárbaro.145
Para Suffel, o gosto de Flaubert por cores fortes se unia à sua tristeza interior. Após haver pintado, em Madame Bovary, a banalidade e estupidez dos seus contemporâneos, Flaubert, sobretudo nos últimos capítulos de
143 Cf. DE BIASI, 2008, p. 18.
144 Correspondance, II,1980, pp. 390-395. 145 CURTIS, 1969, p. 11.
Salammbô, marcou o gosto pela tortura e por todo tipo de violência, inerentes ao ser humano.146 Contudo, não se contentava apenas em escrever
segundo uma prosa clara e precisa. Objetivava também nela imprimir uma solenidade rítmica, harmoniosa, o que, em alguma medida, pôde aproximar Salammbô de uma representação, por assim dizer, poética.
Segundo Hugo Friedrich, o estilo flaubertiano, buscando a representação artística de uma possível objetividade científica, ajudou o escritor em sua ânsia por estabelecer paralelos entre a literatura e a ciência.147 Desse modo, o trabalho técnico de Flaubert, em nível textual,
consistiu também na busca constante e justificada do termo adequado a determinado objeto único e recortado textualmente da realidade, criado, eventualmente, pela imaginação baseada em certas hipóteses. Nessa busca, o autor de Salammbô reservava às estruturas textuais e sintáticas um lugar privilegiado, na medida em que deveriam apresentar-se de forma clara, objetiva e adequada à exatidão semântica das seqüências narrativas.
Sobretudo no referido romance, a preocupação em construir uma obra que siga uma lógica científica, na qual o estilo do narrador deva ser objetivo e desprovido de juízos de valor e de comentários, é uma constante. Com efeito, Flaubert não objetivava, ao expor determinado objeto ou evento, promover comentários. Preocupava-se em mostrar os fatos e objetos em seu recuado momento histórico, de modo a representá-los em sua simples aparição objetiva no texto, criada e desenvolvida também na recepção mental do leitor. Em Salammbô, o fatum, ou seja, o momento delimitado e
146 Cf. SUFFEL, 1958, p. 62.
apreendido de um determinado objeto ou evento do mundo, configura-se de modo a tornar-se uma representação possível de um contexto espaço- temporal distante e nebuloso. Neste romance, o fatum responde a uma dimensão narrativa em que as relações de causalidade e de efeito se debilitam, ou mesmo inexistem; a predominância da exclusão de marcadores lógicos de causalidade e de frases de conseqüência auxilia na elaboração de construções paratáticas simples, que não demandam que o leitor faça longas pausas sistemáticas a fim de refletir sobre encadeamento narrativo de cada seqüência de eventos.
Assim, “a técnica da série de situações sem causalidade, baseada numa visão fatalista, exige uma inclusão particular, no romance, de fatos e de eventos por meio dos quais o desenvolvimento [da narrativa] aparece”.148
Nesta perspectiva, Flaubert empreende um grande trabalho de pesquisa, de busca de fontes históricas e arqueológicas, de modo a reunir as informações necessárias para materializar textualmente um fluxo incessante de eventos diversos. A partir dessa técnica acumulativa e progressiva de elementos textuais, como seqüências sem aparentes nexos causais, aproxima-se, cada vez mais, da almejada linguagem observacional-taxionômica da ciência, a qual, desprovida de opiniões subjetivas divergentes sobre um determinado fenômeno natural ou o sobre uma lei da física, relaciona-se ao objeto em análise de modo a encerrá-lo na dimensão do olhar objetivo do sujeito cognoscente, representado, neste caso, pelo narrador, como vemos em Salammbô.
148 FRIEDRICH, 2006, p. 134.
A representação textual de um determinado objeto ou evento do mundo se configura de modo a pretendê-lo isento de juízos de valor e de interferências subjetivas outras do sujeito cognoscente/narrador, como nesta passagem de Salammbô: “[...] Le phare, bâti par derrière, au sommet de la falaise, illuminait le ciel d’une grande clarté rouge, et l’ombre du palais, avec ses terrasses surposées, se projetait sur les jardins...”149 Procurando
seguir o paradigma científico, Flaubert procura evidenciar a pura existência das coisas, sob o olhar de quem as vê. Segundo Friedrich:
Vemos [...] que as coisas não são introduzidas num objetivo ilustrativo ou para formar a cena sobre a qual se desenvolve a ação. Elas não são uma parte da intriga, mas uma parte da atmosfera destes romances. A indiferença do destino relativo aos homens e o afastamento dos objetos são duas formas de dizer que o eu e o não-eu são estrangeiros um em relação ao outro: projetada na temporalidade dos eventos, esta relação de exterioridade mostra o fatum; projetada na intemporalidade das coisas, ela faz aparecer o simples estando na coisa.150
Logo, a relação entre Flaubert e a realidade parece ser um processo de resistência, na medida em que os eventos e objetos se inserem, tão-somente, na sua própria fenomenologia relacional com o sujeito cognoscente que os observa, desejando apreender e expor as suas características exteriores, físicas e delas aventar hipóteses científicas relevantes.
Para Flaubert, “o romance, que [...] é a forma científica [da vida] deve se pautar em generalidades e ser mais lógico que o acaso das coisas”151.
Segundo Jurt, “o paradigma científico não orienta apenas o horizonte de Flaubert; o escritor se serve também do método científico para a produção de seus romances”.152 Salammbô está particularmente inserida nesse caso.
Constatamos também essa aproximação do referido paradigma à literatura,
149 FLAUBERT, 1951, p. 778. 150 FRIEDRICH, 2006, p. 136.
151 Correspondance, IV, 1997, p. 179. 152 JURT, 2004, p. 3.
por exemplo, em uma das cartas enviadas por Flaubert a Srta. Leroyer de Chantepie, datada de dezoito de março de 1857, na qual propõe, para a elaboração de seus romances, a impessoalidade, cara ao método científico, da qual resulta, com freqüência, uma arqueologia preparatória, anterior à criação da obra. Na carta, diz Flaubert:
[,,,] Dedico-me [...] a um trabalho arqueológico sobre uma das épocas mais desconhecidas da Antigüidade [...] É uma história totalmente inventada. Nela, não pus nem meus sentimentos, nem minha existência. A ilusão (se houver uma) vem, ao contrário, da impessoalidade da obra. É um dos meus princípios, não devemos nos inscrever. O artista deve estar na sua obra como Deus na criação, invisível e Todo-poderoso; sentimo-Lo, mas não O vemos. Além disso, a Arte deve elevar-se acima das afeições pessoais e das suscetibilidades nervosas! É tempo de lhe dar, através de um método impiedoso, a precisão das ciências físicas!...153
De acordo com Maurice Nadeau, a exposição impessoal dos fatos e objetos da realidade se harmoniza com a visão de Flaubert relativa ao seu rompimento com a tradição do artista inspirado, porta-voz de forças misteriosas.154 Com efeito, sobretudo após Madame Bovary, Flaubert
defende uma prática analítica, que objetiva, em última instância, expor os eventos do mundo, que, desprovidos de julgamentos pessoais, devem impor à imaginação a maior carga possível de controle, de modo que os fatos descritos sejam retratados fidedignamente. Para o autor de Salammbô, o controle da imaginação e do sentimento deve estar atrelado ao seu projeto estético de produção romanesca. Nesse sentido, o narrador, almejando estar isento de carga subjetiva de apreciação referente aos fatos e objetos descritos e relatados, acaba, por assim dizer, desaparecendo sob o tecido narrativo. Assim, essa lucidez narrativa pode captar “a nuança particular de um
153 Correspondance, II, p. 691. 154 Cf. NADEAU, 1969, p. 129.
sentimento, o detalhe significativo de uma realidade banal, as forças íntimas de um caráter”.155
Como também destaca Nadeau, Flaubert pressupõe nesse projeto estético despersonalizador um modo de relato e de descrição que se baseia, por um viés de possibilidade comparativa, na natureza física.156 Assim como
esta, para Flaubert, a Arte possui também a sua permanência, a sua evidência. Contudo, ao contrário dos objetos e leis naturais, a Arte possui a sua própria auto-regulação interna, isenta de determinadas metamorfoses externas, como, por exemplo, as sofridas pela natureza (mudanças climáticas), e pelas diversas sociedades (modas passageiras e distintas visões culturais, por exemplo). Falamos, portanto, de uma natureza artística das palavras, a qual, mediada por certos nomes considerados atemporais em sua arte, como Homero e Shakespeare, materializa textualmente a eternidade da Beleza criadora. Para Flaubert, a dimensão intemporal da Arte pode estar presente na produção romanesca, que, desta forma, alcançaria o Belo, mediante a perfeição estética.
A conduta estética de Flaubert estabelece um modelo narrativo que surpreende muitos:
Os contemporâneos de Flaubert se espantam porque o autor não toma parte de nenhum partido, porque se absteve sistematicamente de sobrepor um peso em uma das balanças [...] Assim como num fenômeno natural, a sua obra é suscetível de interpretações diversas e pode “fazer sonhar”. Ele a edificou através dos meios de que se servia: a observação dos fatos, a sua aproximação, a sua conjunção, seguindo, passo a passo, e escrupulosamente, as fases da experiência. Chegou onde lhe parecia quase impossível [...] tratar a alma humana com a imparcialidade que atribuímos às ciências físicas.157
155 NADEAU, 1969, p. 130. 156 Cf. NADEAU, 1969, p. 131. 157 NADEAU, 1969, p. 138.
Assim, todo e qualquer tipo de interferência opinativa acerca de determinado objeto ou fenômeno social norteia Flaubert no sentido de conduzi-lo à primazia descritiva do efeito de impessoalidade, de modo a, inclusive, ver na alma humana um fértil campo para experimentação e apreensão objetiva de suas condutas. Contudo, Flaubert não equipara, não confunde a poesia, a Arte, a literatura com as ciências naturais, já que seus objetos são distintos, assim como o são as propostas do cientista e a do literato. A observação artística é diferente da científica, visto que aquela, mediante, por exemplo, um narrador ou um enunciador poeta, pauta-se sobremaneira na dimensão imaginativa e emotiva da criação.158 O escritor
imagina, inventa relatos que, neste caso, têm na realidade exterior a sua fonte, da qual pretende expor os eventos e objetos. Assim, num nível de