2.2. Konfüçyanizm ve Klasik Metinler
2.2.1. İdealist Kanat; Meng Zi
Em 24 de novembro de 1862, Salammbô estava comercialmente disposta ao público. Conforme sublinha Dumesnil, o romance apresentou “um sucesso imediato e durável”.101 Segundo Laurent Pichat, amigo de
Flaubert, Salammbô é uma obra inspiradora e portadora de grandiosidade: Eu estava nos [no capítulo em que aparecem os] leões crucificados quando o exemplar que você me enviou chegou. Avanço. Retorno a Cartago como os Mercenários. Só há coloristas como Flaubert, cujo precursor é Gautier. É terrível, inteligente, inspirado, impossível, real. Você vai nos mostrar o quadro desta grande guerra inexpiável, da qual Michelet traçou um grande desenho.
Agradeço-lhe por não ter me esquecido. Aplaudirei sempre e sinceramente as suas audácias e os seus sucessos.102
Sabemos que não apenas os amigos mais próximos e vários literatos aprovaram esta obra de Flaubert e nela reconheceram um valor artístico profundo, mas também o pintor Eugène Fromentin, que lhe escreveu:
[...] Salammbô. É bela e robusta, encantadora e cheia de espetáculo e de uma intensidade de vida extraordinária. Você é um grande pintor, meu caro amigo, mais do que isso, um grande visionário; pois como chamar aquele que cria realidades tão vivas com seus sonhos e que nos faz crer verdadeiras? [...] Novos horizontes mais vastos, uma encenação magnífica lhe permitiram fazer isso. A sua execução, já tão fechada, [...] tomou um relevo que faz de você um homem prático. Eu diria mal, correndo, o quanto esta leitura me causou em surpresa e em íntimo prazer. Gosto muito do autor e gosto singularmente de seu talento. Interesso-me de coração pelo sucesso do livro [...] do qual voltaremos a falar, pois ainda não terminei [...].103
Para o crítico literário Fortuné Calmels, do Boulevard, o romance histórico de Flaubert é uma obra viva e plena de vitalidade:
Um evento acaba de produzir-se no mundo literário: a publicação de
Salammbô, a nova obra de Gustave Flaubert [...] Em Salammbô, Gustave Flaubert evoca uma época e paisagens desaparecidas. Perante estes medonhos afrescos do mundo moderno, era melhor mostrar os homens do mundo antigo, não deprimidos pelas bandeirolas do progresso [...] Salammbô é uma obra viva [...] Nela,
101 DUMESNIL, 1951, p. 693.
102 Carta de 28 de novembro de 1862 apud ABRAMI, 1936 [1910], p. 502. 103 Carta de 29 de novembro de 1862 apud ABRAMI, 1936 [1910], p. 505.
apaixonamo-nos, sofremos, respiramos [...] Esta evocação é mais do que uma criação. É uma ressurreição [...].104
Em uma carta endereçada a Flaubert, Leconte de Lisle expõe sua aprovação em relação a este romance histórico:
Eu já havia lido o seu livro com a mais vívida admiração. É cheio de força e de brilho, e repleto, sobretudo, de um gênio singular, próprio ao nosso século, que reconstrói peça por peça as épocas passadas [...]
Salammbô é, portanto, uma obra moderna por excelência, não importa o que digam os imbecis. Você tem paisagens esplêndidas e robustas que me encantaram [...] Bravo, meu amigo! Você é um poeta e um pintor como há poucos. Se a sua Cartago não se assemelha à velha cidade púnica, pior para ela. Mas você viu e muito bem. Não duvido disso.
Obrigado duas vezes, por ter escrito este belo poema e por me tê-lo enviado.105
Também Théophile Gautier apresentou o seu apoio à obra:
Este dom de ressurreição que o Sr. G. Flaubert possui pelas coisas é tão importante quanto à precisão do lugar das personagens. Com um maravilhoso senso etnográfico, ele retrata cada raça segundo a sua forma de crânio, a sua máscara, as suas cores, a sua pele, a sua aparência, os seus hábitos corporais, o seu temperamento, a sua característica física e moral.106
Em um artigo datado de 28 de dezembro de 1862, em Le Moniteur, Gautier também defende a obra:
Há muito tempo, esperávamos, com uma impaciência muito legítima,
Salammbô, o novo romance do Sr. Gustave Flaubert; mas o autor não é daqueles que se apressam. Sem pôr em prática o nonumque prematur in
annum d’Horace, ele só abandona uma obra no momento em que ele a
crê perfeita, ou seja, quando cuidados, zelos, correções, remanejamentos não podem torná-las mais perfeita.107
Ressalta ainda que:
Não saberíamos exigir de Salammbô, romance cartaginês, a pintura de paixões modernas [...] E, entretanto, a primeira impressão que parece produzir o livro do Sr. Gustave Flaubert sobre a maioria dos leitores e
104 Artigo de Fortuné Calmels sobre Salammbô. Publicado no Boulevard, em 30 de novembro de 1862. Texto disponível em: http://flaubert.univ-rouen.fr/etudes/salammbo/sal_cal.htm Consultado em 14/04/2008.
105 Carta de 16 de dezembro de 1862 apud ABRAMI, 1936 [1910], pp. 502-503. 106 GAUTIER, Théophile. Le Moniteur. Paris, 22/12/1862 apud CURTIS, 1950, p. 79. 107 Apud DUMESNIL, 1951, p. 699.
até mesmo dos críticos é uma surpresa desapontadora. Eles são tentados a gritar: podemos ser cartagineses!108
Para Jules Lemaître, em artigo da Revue bleue, este romance atingiu a primazia do relato e da descrição:
Não devemos nos enganar, Salammbô não é uma epopéia como
Télémaque ou Martyrs, uma história de personagens ideais num lugar vagamente ou parcialmente antigo. Este livro é da mesma mão daquele que escreveu Madame Bovary [...] Esta cena [de Amílcar e do pai do escravo sacrificado] e algumas outras em que encontramos a espécie de verdade cruel e grossa de compaixão inconfessada que está presente em
Madame Bovary mostram bem em que se parecem os dois romances [...] É, no fundo, de um e de outro, um movimento parecido de instintos cegos e de forças fatais [...] Quantas cenas magníficas, quantas descrições eminentes! [...] Estes quadros não são tratados com a palidez lírica com a qual Hugo os teria feito [...] Flaubert é o homem exato, mestre de cada cor que emprega.109
De acordo com o crítico literário E. Lamy, da Revue de la Normandie, Flaubert, mediante sua erudição e apurado estilo, produziu uma grande obra literária:
Eis uma obra que se deve louvar [...] porque ela se nos apresenta com a dupla marca de um grande talento e de uma rara consciência artística. No momento em que escrevo estas linhas, a imprensa de Paris ainda não divulgou o seu parecer [...] Este sábio estudo, de uma natureza tão estranha, de uma originalidade tão viva, tão inesperada, desconcertou, possivelmente, os seus leitores. Esta obra foi para os classificadores e para os pesquisadores das genealogias literárias uma grande surpresa, [uma obra] feita com amor e admiravelmente executada pelo moralista atento e pelo paisagista poderoso de Madame
Bovary.110
George Sand também manifestou o seu apoio e admiração à Salammbô. Em um artigo de 27 de janeiro de 1863, publicado no La presse, afirma:
Sim, meu caro amigo, gosto de Salammbô, porque gosto das tentativas e porque... eu gosto de Salammbô. Admiro um escritor, quando ele não é forçado pelas circunstâncias ou arrastado por sua atividade, a produzir sem cessar, a dedicar-se a fazer um estudo aprofundado
108 Apud DUMESNIL, 1951, p. 700.
109 LEMAÎTRE, J. La Revue bleue. Paris, 1879 apud CURTIS, 1950, p. 80. 110 Artigo publicado na Revue de la Normandie, em dezembro de 1862.
Disponível em: http://flaubert.univ-rouen.fr/etudes/salammbo/sal_lam.htm Consultado em 17/04/2008.
sobre um assunto difícil [...] sem se preocupar se terá ou não sucesso em seus esforços. Nada é menos apropriado para acariciar os hábitos de espírito dos mundanos, dos superficiais, dos apressados [...] isto é, da maioria dos leitores, do que o assunto de Salammbô.111
Segundo Alfred Cuvillier-Fleury, do Journal des débats, Flaubert, embora tendo cometido alguns equívocos na trama de Salammbô, possui um grande valor literário, por conter um admirável trabalho estilístico e de erudição:
O autor de Salammbô não produziu uma obra de arte. Produziu um livro considerável. Uma obra de erudito, de colorista e de escritor, mas exagerou na cor. Fustigou o seu pincel, que se embriagou de erudição. De tudo isto, resultou uma criação sem precedentes em nossa literatura. O Sr. Flaubert talvez triunfe [...] A sua obra não se assemelha senão a ele próprio. Não reflete senão o seu pensamento e a sua pretensão. É um mérito [...] o Sr. Flaubert conhece a fundo a nossa língua, creio. É um clássico pela erudição [...].112
A título anedótico, entre as aprovações diversas, constatamos que, até na esfera da moda, Salammbô se evidenciou, pois durante o carnaval de 1863, muitas mulheres se vestiram como cartaginesas, numa clara alusão à obra.
Dumesnil ressalta ainda que, na recepção ao romance, o músico Berlioz, em seu folhetim do Journal des débats de 23 de dezembro de 1862, exprimiu seu entusiasmo pela obra de Flaubert, manifestando seu apreço: “que estilo! Que ciência! Que imaginação! [...]”.113 Em carta datada de 6 de
setembro de 1863, o músico escreve a Flaubert afirmando que: “ninguém,
111 Artigo de George Sand endereçado a Flaubert, La presse, 27 de janeiro de 1863. Disponível em: http://flaubert.univ-rouen.fr/etudes/salammbo/sal_san.htm Consultado em 14/04/2008.
112 Artigo publicado no Journal des débats, em 13 de dezembro de 1863. Disponível em: http://flaubert.univ-rouen.fr/etudes/salammbo/sal_cuv2.htm Consultado em 15/04/2008.
certamente, sabe mais disso [sobre a matéria de Salammbô], do que o senhor.”114
A preponderância da aceitação positiva de Salammbô, malgrado as críticas tendenciosas e pontuais, evidenciou-se também pelo fato de o próprio Théophile Gautier haver sugerido a Flaubert a composição de um libreto musical. Após a morte de Berlioz, em 1869, o músico Du Locle se prontificou em produzir e finalizar o libreto, respeitando a trama do romance. Reyer, discípulo de Berlioz e seu sucessor no folhetim musical do Journal des débats, compôs a partitura. Em 10 de fevereiro de 1890, houve a primeira apresentação musical de Salammbô, no Théâtre de la Monnaie, de Bruxelas. A erudição presente em Salammbô parece tê-la elevada a patamares tais, que qualquer escritor ou crítico que quisesse alvejá-la precisaria de um profundo e coerente embasamento cultural.
Em contrapartida, houve críticas negativas à obra. Alegavam, entre outras coisas, que Flaubert copiara os antigos. Na realidade, o choque maior, provocado pela aproximação entre a história antiga e a literatura, observava-se entre os especialistas de assuntos como arqueólogos ou geógrafos, a quem Flaubert respondia em tom grave, através de determinadas cartas, endereçadas a seus detratores maiores, as quais justificavam a obra no sentido de que, ao invés de inutilizar o projeto literário, procurava conjugar, de maneira coerente e artística, o saber científico e o fazer literário.
Segundo Dumesnil, os críticos ferrenhos de Salammbô acusavam Flaubert de haver deslocado e confundido os eventos históricos relacionados
114 Apud DUMESNIL, 1951, p. 694.
ao período da Primeira Guerra Púnica.115 Em 31 de dezembro de 1862, por
exemplo, o arqueólogo alemão Guillaume Froehner publicou, na Revue Contemporaine, as suas observações sobre o romance, no artigo “Le roman archéologique en France, Gustave Flaubert: Salammbô”. Abaixo, transcrevemos parte do conteúdo deste artigo:
[...] O Sr. G. Flaubert, mal inspirado por seus precedentes, desceu aos mistérios de um povo, de uma história, de uma sociedade quase desconhecida, para nisso procurar um interesse novo para os seus poemas? [...] Estas mil pequenas coisas familiares da vida que nos cercam, com as quais não temos cuidado, o Sr. Flaubert as descreveu todas e de forma admirável [...] Esta clareza de pincel, esta verdade de imaginação, acompanharam-no na época recuada e no país longínquo que escolheu para a sua nova obra? Existe um suspiro de poesia que só existe na pátria e o qual nos falta logo que cruzamos a fronteira. O fracasso do Sr. Flaubert nos dá a prova disso. Percorrendo o seu grosso volume pseudo-cartaginês, de título pomposo e de aparência arrogante, não sabemos se é uma obra de um espírito fantástico, que quis criar um mundo impossível, ou se é um esforço desesperado de um homem de gosto que tem horror à natureza insossa do romance moderno [...].116
Sabemos também que, assim como Froehner, Sainte-Beuve endereçou pesadas críticas contra o romance, nos exemplares do Constitutionnel de 8, 15 e 22 de dezembro de 1862, listando os equívocos cometidos por Flaubert:
O romance histórico supõe necessariamente um conjunto de informações, de tradições morais [...] a inteira familiaridade e afinidade com o assunto [...] Aqui, no assunto escolhido pelo Sr. Flaubert, os monumentos, como os livros, não forneciam quase nada. Trata-se, portanto, de um grande esforço que ele pretendeu fazer, e nada mais de surpreendente do que, para mim, o seu fracasso [...] O autor não se coloca acima de sua obra: nela se aplicou demais [...] ele parece não a ter considerado antes e após no seu conjunto, nem em nenhum momento dominá-la [...] A Arte não é uma coisa puramente abstrata, independente de toda simpatia humana [...] Como o senhor deseja que eu vá interessar-me por esta guerra púnica, enterrada nas areias da África?117
115 Cf. DUMESNIL, 1951, p. 693.
116 FROEHNER, Guillaume. Le roman archéologique en France. Revue contemporaine. Paris, 31 de dezembro de 1862.
Texto disponível no site: http://flaubert.univ-rouen.fr/etudes/salammbo/sal_del2.htm Consultado em 02/03/2008.
117 Artigos disponíveis em: http://flaubert.univ-rouen.fr/etudes/salammbo/sal_sai2.htm Consultado em 28/02/2008.
Sainte-Beuve, nos artigos do Constitutionnel, exigia também um léxico para se ler Salammbô. Flaubert, tendo sido objeto de críticas de Sainte- Beuve, respondeu-lhe afirmando que havia sido sincero em seus estudos e pesquisas:
Quis fixar uma miragem aplicando à Antigüidade os procedimentos do romance moderno [...] Quanto à minha heroína, não a defendo [...] Não tenho certeza de sua realidade; pois nem eu, nem o senhor, nem ninguém, nenhum antigo e nenhum moderno pode conhecer a mulher oriental [...] Eu poderia ter atordoado o leitor com palavras técnicas. Longe disso! Tive o cuidado de traduzir tudo em francês [...] Segundo todas as verossimilhanças e minhas impressões, creio ter feito algo que se assemelhe a Cartago. Isso não vem ao caso. Não me preocupo com a arqueologia! Se a cor não é essa, se os detalhes não procedem, se os modos não derivam da religião e os fatos das paixões, e os caracteres não são exatos, se as roupas não são adequadas aos usos e as arquiteturas ao clima, se não há, em uma palavra, harmonia, serei inexato [...] O senhor está curioso em conhecer o erro enorme [...] que encontro no meu livro? Ei-lo: o pedestal é muito grande para a estátua [...] eu precisaria de mais cem páginas relativas à Salammbô [...].118
Em outra resposta, numa carta de 2 de fevereiro de 1863, desta vez ao Sr. Adolphe Guéroul, diretor do Opinion Nationale, Flaubert terminava observando ironicamente que: “Resta-nos agradecer, caro senhor, eu, por ter aberto o seu jornal espontaneamente; e quanto ao Sr. Froehner, ele deve lhe ser grato; o senhor lhe deu a oportunidade que o mundo conhecesse a sua existência [...].”119
Portanto, devido à recepção polêmica de Salammbô, esta obra se configurou como objeto de inúmeros debates e críticas, sobretudo relacionadas aos graus de verossimilhança histórico-arqueológica. Contudo, parece que nem as críticas negativas dos especialistas foram capazes de relegar o romance flaubertiano ao esquecimento. O impacto maior que este romance causou sobre o público-leitor parece ter sido em função da
118 Carta a Sainte-Beuve, 24/12/1862. Correspondance, III, Paris, 1991, pp. 275-285. 119 Apud DUMESNIL, 1951, p. 695.
abundância de detalhes plásticos e de sua suposta reconstituição de uma época e de uma sociedade assaz distintas, as quais parte dos leitores, à época, parece não haver compreendido bem, embora tenha ficado surpresa e até encantada.