No processo de desenvolvimento do projeto foram importantes as experiências vivenciadas com a EJA, tanto pela escola quanto pelos educadores. Mesmo assim, convém ressaltar que essa experiência de articulação da EJA com a qualificação profissional é bem singular52e se tornou um desafio para os profissionais envolvidos.
Quanto aos estagiários responsáveis em ministrar as aulas técnicas, ou seja, os conteúdos da qualificação profissional, estes tiveram um suporte didático-pedagógico oferecido tanto pelo coordenador da PUC quanto pelos educadores do projeto. Eram organizadas reuniões e também uma apostila foi disponibilizada pelo coordenador deles. Mesmo com esse suporte, percebemos dificuldades no trato com esses educandos. A Estagiária entrevistada comenta suas impressões sobre o público com que ela trabalhava:
Olha! É difícil e tal. Alguns [educandos] por se tratar de pessoas mais velhas, às vezes, pra eles absorverem, sabe? O que você tava passando, pra eles era difícil. Então, assim, a gente [estagiários] não podia ir muito fundo não [aprofundar no conteúdo]. (ESTAGIÁRIA).
Além disso, outros materiais foram usados pelos estagiários, porém, segundo a percepção da metodologia dos estagiários e articulação da EJA com a qualificação profissional, a Professora de Português disse que os estagiários usavam a apostila, o quadro e
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Souza, Ramos e Deluiz (2007) em artigo que tem como referência uma pesquisa com os municípios do Rio de Janeiro, pressupõem que as ações municipais com vistas ao atendimento de educação profissional, no âmbito dos sistemas de educação locais, são pouco expressivas, e não têm a parceria com outras instituições.
fotocópias de atividades, sem apresentar muita diferença de materiais tradicionais. Na visão dela não havia uma articulação efetiva, um planejamento com base nos princípios da EJA e nas especificidades dos sujeitos. Quanto à concepção estabelecida nas apostilas trabalhadas com os alunos, o coordenador afirma que diante do contexto e perfil de trabalhadores atendidos, ela era alicerçada nos princípios do empreendedorismo, por isso tinha a intenção de dar suporte aos negócios e empreendimentos dos trabalhadores.
Nesse contexto, esta mesma docente explicitou sua preocupação com a falta de experiência em docência dos estagiários: “[...] falta de experiência em docência [dos estagiários], saber qual é o seu papel de educador, não é só conhecimento técnico, teórico, científico, é muito mais que isso para ser educador.” (PROFESSORA DE PORTUGUÊS).
Outra professora entrevistada, também afirma suas impressões sobre a qualificação dos estagiários:
Muitos dos meninos que vinham, os estagiários, eles não tinham. Não é competência, eles não tinham manejo de classe, sabe? Eu acho que isso também prejudicou demais. Depois, nós [educadores] começamos a combinar que não iríamos falar que os meninos eram estagiários, porque isso criava uma barreira dos alunos de respeitá-los como também professor.
(PROFESSORA DE ARTES).
Contudo, no trecho abaixo retirado da entrevista com a estagiária, fica clara essa preocupação dos educadores da rede quanto aos métodos de ensino dos estagiários, o que não pode ser considerado um fator determinante de fracasso na aprendizagem:
Uma senhora lá [aluna], ela era assim, bem simples! Ela tinha um salão. Aí, ela contava pra gente. A gente dava aula de marketing e como montar currículo, como cuidar da sua aparência em uma entrevista, como que você [educando] vai cativar o seu cliente. E ela adorava. (ESTAGIÁRIA).
A proposta de integração da formação geral à técnica exigia um repensar por parte de todos os atores do projeto na organização do currículo. Quando perguntados sobre essa articulação, os entrevistados relatam que foram várias as tentativas de construir uma matriz curricular em consenso com a interdisciplinaridade. Para tanto, o coordenador da qualificação profissional registra em suas falas a importância da “articulação entre os conteúdos do curso”, como no exemplo dado por ele:
Existia a dinâmica da escola, por exemplo, essa semana eles estão trabalhando lá [escola] ecologia. Então, os nossos alunos [os estagiários] aproveitavam aquele assunto pra falar de responsabilidade ambiental das empresas, ou seja, em virtude do ritmo que a escola trabalhava, a gente
tentava buscar uma forma de encaixar os nossos temas. É dentro desse aspecto. (COORDENADOR DA PUC).
Essa articulação era possível de ser sistematizada porque em uma das escolas tinha duas tardes de formação e planejamento pedagógico. Os educadores, junto com os estagiários, se organizavam para definir práticas educativas em consenso com as diretrizes do projeto. Entretanto, percebemos que muito ainda se tem para avançar nas concepções de interdisciplinaridade e currículo integrado. Pelas entrevistas pudemos inferir que havia um rompimento “esporático” na lógica fragmentada das disciplinas, com a organização de projetos temáticos, ainda que isso seja um passo muito importante, é preciso consolidar uma matriz curricular que realmente atenda os preceitos de um currículo efetivamente articulado. Daí a necessidade de estabelecer a formação continuada com os educadores para uma mudança conceitual e prática.
Na entrevista feita com a estagiária da PUC, quanto à articulação dos conhecimentos e a aplicabilidade no ambiente de trabalho, percebemos que tais vivências escolares trouxeram uma riqueza na vida profissional dos educandos.
Eles [alunos] tinham que fazer uma pesquisa de mercado, então, a gente fazia. Como a maioria trabalhava, a gente tentava fazer na escola mesmo, na hora que a gente chegava. Para eles terem uma noção de como funcionava uma pesquisa, como que se montava um questionário, pra fazer uma pesquisa de mercado. Aí a gente fazia na própria escola mesmo. [...] [um exemplo dado] Quero montar um salão pra mim, mas de repente naquele local onde eles queriam montar o salão não era viável eles montarem o salão, era viável um sacolão, porque lá não existia sacolão. Era difícil pra eles saírem e realmente pesquisar no bairro, porque todo mundo trabalhava, tinha filhos, e a gente procurava fazer isso dentro da escola mesmo, pra eles terem essa noção de que não é bem assim “eu quero montar isso” e vai dar certo. (ESTAGIÁRIA).
Vale destacar também a seguinte fala, em que a Estagiária reproduz as impressões dos educandos, e até mesmo a surpresa deles diante do conhecimento e sobre a articulação desses aprendizados escolares e a interferência no trabalho ou sua atividade: “Aí ‘cai a ficha’ [dos educandos]. Nossa! Aí eles brincavam: ‘Nossa! Se eu tivesse montado isso aqui, eu já tinha fechado meu negócio, porque não ia dar certo’.”
Na verdade, é preciso evidenciar que embora os professores estivessem de uma forma motivados pelas novas propostas educativas que o projeto trazia, não havia uma sistematização efetiva para a articulação e reflexão do currículo realmente articulado.