2. KOBİ KAVRAMINA KAVRAMSAL YAKLAŞIM
2.4. KOBİ’lerin Ekonomiye Katkıları
Apresentei, no tópico anterior, que a família extensa assume um papel proeminente na cultura Tentehar, ao ponto de determinar todas as suas relações sociais internas e externas. Da mesma forma, indiquei que há intensa construção e dissolução de alianças entre famílias, o que constitui uma dinâmica relação de forças entre chefes dessas famílias.
Após o primeiro ano de vigência do subsistema de atenção à saúde do índio no Maranhão, mais precisamente o ano 2000, a FUNASA optou por uma política de convênios com Associações Indígenas de Saúde. Tal política consistia no repasse de recursos do Governo Federal direto para as mãos dos índios, através das associações que ficaram conhecidas no Maranhão como ONG indígenas.
No que tange aos Tentehar, essa política de convênios pareceu se adequar ao sistema cultural pré-existente. Não cabe avaliar se as conseqüências desta adequação foram
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positivas ou negativas, contudo a descrição da sucessão de acontecimentos pode ajudar a refletir analiticamente sobre essa questão.
Após dois meses de convênio assinado pela Associação de Saúde dos Tentehar em Amarante, e pouco mais de vinte dias após ter sido depositada a primeira remessa de recursos do convênio, os Tentehar realizaram a apreensão de um veículo destinado a subsidiar as ações da ONG indígena. O veículo não estava sob administração direta da FUNASA, mas da ONG indígena. A apreensão ocorreu por parte de um dos grupos
Tentehar que disputava internamente o controle da referida ONG. Segundo seus executores, a ação pretendia chamar a atenção da FUNASA para o descaso da prefeitura municipal de Amarante no atendimento à saúde dos índios daquela região. A prefeitura, todavia, não era mais a executora dos serviços de saúde, destinando tal função a Associação de Saúde administrada pelos Tentehar.
A referida ONG detinha a atribuição de atender às 49 aldeias Tentehar registradas no cadastro do antigo pólo base35 administrado pela FUNASA. A liderança sobre as aldeias desta região foi disputada por duas famílias das aldeias Juçaral e Araribóia. A cisão entre essas famílias permaneceu até o fim do convênio administrado pela ONG.
Ao longo da disputa contabilizavam-se 27 aldeias de um lado e 22 de outro, demonstrando um relativo equilíbrio de forças. Neste jogo, havia famílias que ora estavam de um lado, ora estavam do outro, e ora em nenhum dos dois, mas tentando construir sua própria rede36 de relações.
35 Pólo Base eram pequenas unidades administrativas de saúde que se localizavam no município mais próximo das terras indígenas, que também eram responsáveis pelo encaminhamento dos pacientes indígenas aos centro de referência da rede do SUS.
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Uso o termo rede para explicitar a ampliação do raio de influência da família extensa no âmbito das políticas públicas. Nos capítulos seguintes explicarei como a disputa por posições, prestígios e bens constituíram um mercado de bens simbólicos que transforma as relações familiares dos Tentehar em redes de bens e serviços que são incorporados ao cotidiano das aldeias, mas também podem ganhar dimensões externas, envolvendo um grande número de agentes não índios.
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A participação nas redes gera dividendos para todos, que se tornam consignatários uns dos outros. As alianças, portanto estreitam-se à medida que as trocas são vantajosas e desfazem-se quando não há mais vantagens a ser adquiridas.
Dessa maneira, entendo que a relação dos Tentehar com o subsistema de atendimento à saúde do índio passa pela incorporação de bens e serviços disponíveis neste sistema. Tal incorporação me parece coerente com as formas pré-existentes de organização social Tentehar. O subsistema de atendimento à saúde do índio é, portanto, apropriado pelos Tentehar que o desviam das finalidades para as quais fora pensado originalmente.
Os Tentehar fizeram uma releitura da política indigenista de saúde, adequando-a à sua lógica .A geração de prestígios e de outras formas de poder simbólico, que eram negociáveis através das trocas matrimoniais, passou a ser potencializada, sobretudo, pelo poder econômico gerado pelos convênios de saúde.
Cada ONG criada estava inserida no complexo de redes familiares e era entendida como propriedade de seus administradores. Seus serviços eram destinados, sobretudo, aos que faziam parte da rede de relações interfamiliares.
As disputas pelos cargos e colocações dentro das ONG indígenas eram intensas e significavam o aumento ou a diluição dos vínculos entre aliados. Os bens e serviços do subsistema de atenção à saúde do índio foram incorporados ao sistema cultural Tentehar tanto política, quanto economicamente. Os cargos e posições eram distribuídos aos parentes consangüíneos e, em seguida, aos que faziam parte da rede de relações interfamiliares.
Assim, a dinâmica de poder Tentehar conduziu a uma alteração da estrutura organizacional do atendimento à saúde, provocando a divisão dos Pólos-Base. As famílias
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Tentehar com maior poder de articulação e pressão passaram a exigir um Pólo-Base para prestar atendimento exclusivo ao seu núcleo de relações.
Esta conjuntura evoluiu a passos largos para a desestruturação dos serviços de saúde no Maranhão. As ONG indígenas, criadas com o objetivo específico de captação de recursos da saúde, foram apropriadas pelo sistema cultural Tentehar e se tornaram parte da estrutura da rede interfamiliar. Os serviços passaram a ser negociados como forma de cooptar novas alianças e angariar prestígio para o grupo administrador.
A dinâmica de poder empreendida pelos Tentehar, com vista à manutenção dos serviços de saúde, provocou a desestruturação do modelo de saúde baseado em convênio com Associações Indígenas no Estado do Maranhão.
O relato da nova ocupação da FUNASA, ocorrida em 2004, da qual participou parte dos povos atendidos pelo DSEI-MA, dentre os quais os Tentehar, pode nos ajudar a refletir sobre as dimensões políticas Tentehar frente ao subsistema de atenção à saúde do índio.
Nessa ocasião, a demanda era definir a permanência ou afastamento da pessoa que respondia pela chefia do DSEI-MA, Antonio Costa. O referido servidor vinha desempenhando o papel de interventor e assim passou a ser referido pelos índios e por alguns funcionários do DSEI-MA/FUNASA-MA, embora não tivesse sido designado formalmente para a função.
Segundo Ribeiro (2008), funcionários da FUNASA-MA e os próprios índios, afirmaram que Antonio Costa tomava decisões que não eram apoiadas pelo coordenador da FUNASA-MA, configurando um confronto de forças na condução da saúde indigenista. Ao mesmo tempo em que Antônio Costa buscava se fortalecer para permanecer à frente da chefia do DSEI-MA, Zenildo de Oliveira, que continuava como ordenador de despesas, criava situações para seu afastamento.
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Em 28/10/04, os Tentehar e os Canela, ocuparam o prédio da FUNASA-MA, em São Luís. Nesta ocupação estiveram presentes mais de 150 índios exigindo o afastamento de três funcionários, dentre os quais, Antônio Costa. Os demais eram seus subordinados. Como justificativa para o afastamento, os índios alegavam que não havia sido cumprido o compromisso assumido de disponibilizar uma infra-estrutura de atendimento como carros para fazer os deslocamentos das aldeias para a cidade, e vice-versa, e também fornecimento de medicamento para os índios em tratamento (JORNAL PEQUENO, 2004). Nesta ocupação reivindicavam, também, melhorias nos serviços de saúde e recursos financeiros. Uma das lideranças Tentehar, Maruzan Kamurai Guajajara, da aldeia Bacurizinho, localizada próxima a região de Grajaú afirmou:
Ele está enganando nossa consciência, como se fossemos crianças. Isso é uma coisa que não é justo acontecer (JORNAL PEQUENO, 2004).
E acrescentou:
O Antonio [Costa] beneficia uma parte dos índios e esquece dos outros, o que acaba fazendo com que nossos irmãos entrem em choque, e não é isso que queremos (JORNAL PEQUENO, 2004).
No que se refere as condições no atendimento à saúde nas aldeias, afirmou:
Tudo é difícil. Uma consulta tem que ser autorizada em São Luís, até o caixão para enterrar os mortos é preciso ir daqui, porque não tem recursos para comprar lá no município. Nós vamos ficar aqui até que nossos problemas sejam resolvidos (JORNAL PEQUENO, 2004).
Após a ocupação da FUNASA/2004 houve uma reunião. Antonio Costa participou apresentando o relatório dos cinco meses em que esteve trabalhando no Estado. Ao ser questionado sobre sua atuação, reconheceu a fragilidade do sistema de atenção:
Ainda não conseguimos fazer a vacinação em algumas regiões, faltam médico e enfermeiros em algumas aldeias e o fornecimento de remédio ainda é irregular. Estamos tendo dificuldades para agir, principalmente em Barra do Corda e Grajaú (O ESTADO DO MARANHÃO, 2004).
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Após horas de discussão no auditório do INCRA, no Bairro Anil, sem nenhuma solução satisfatória, os Tentehar mudaram a estratégia de negociação com o Sr. Antonio Costa, passando a se reunir em pequenos grupos, barganhando recursos e serviços para cada uma de suas Associações.
Um último evento é necessário analisar antes de concluirmos essa reflexão sobre a atuação Tentehar no subsistema de atenção ao índio no Maranhão.
No dia 07 de fevereiro de 2006, a Ferrovia Ferro Carajás, de propriedade da Companhia Vale do Rio Doce – CVRD, atualmente denominada apenas como Vale, foi interditada por índios advindos de diversas terras indígenas no Maranhão.
Novamente, o objetivo era protestar contra as recentes decisões da FUNASA, a saber:
1. A transferência do Pólo Distrital de Saúde de São Luís para Teresina no Piauí;
2. A assinatura de contrato com a Missão Caiová para atendimento à saúde indígena no Maranhão
3. A realização, sem aviso prévio aos índios, da III Conferência Distrital de Saúde do Maranhão em São Luís com tempo restrito e com pauta inadequada para o momento conjuntural, segundo a visão dos índios
A pauta do movimento continha as seguintes exigências como condição para a liberação da ferrovia:
a) Anulação da III Conferência, que acontecia simultaneamente ao movimento em São Luís e realização de nova Conferência Distrital, com base em processos mais elaborados de preparação, que respeitassem a representatividade indígena;
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b) Rescisão imediata do contrato com a Missão Caiová;
c) Suspensão da transferência do Pólo Distrital de Saúde para Teresina, Piauí; d) Criação de mecanismos que atribuíssem autonomia administrativa e financeira ao Distrito Sanitário do Maranhão, e;
e) Criação de um fórum adequado para os problemas de saúde dos povos indígenas no Maranhão.
O número de participantes nesta ação foi tão significativo quanto por ocasião da ocupação da FUNASA, em 2003, 500 índios foram contabilizados. Aquele evento tem ligação direta com o bloqueio da ferrovia. Os desdobramentos da política da FUNASA no período, entre uma ação e outra, foram determinantes e, em certos casos, podem ser interpretados como represálias à ocupação dos índios em 2003. A proposta de transferir o Pólo Distrital para a cidade de Teresina, por exemplo, era uma ofensiva do órgão para desestabilizar as estratégias de pressão utilizadas pelos índios, sobretudo porque esses detinham o apoio de várias instituições na capital do Estado. Em Teresina, no estado vizinho, a FUNASA estaria longe dos centros de pressão criados pelos índios e por órgãos como FUNAI e CIMI, que não possuem sede naquela cidade.
A contração da Missão Caiová, fazia parte da estratégia da FUNASA de reorganizar os serviços e saúde diminuindo a ingerência dos índios sobre as decisões do órgão. A idéia era alijar as associações do controle dos convênios e dos recursos. A contratação, no entanto fora negociada em sigilo até que o contrato estivesse consolidado. Essa manobra foi entendida pelos índios com um aceno negativo da FUNASA. Os índios não foram sequer consultados sobre a nova forma de organização dos serviços. Além do
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que, essa contratação era interpretada por várias lideranças como o fim das Associações Indígenas de Saúde no Maranhão.
A “gota d’água” foi a reunião convocada pela FUNASA para o dia 25 de janeiro, daquele ano, em Grajaú, à 580 km de São Luís. Nenhum representante do órgão se fez presente na referida reunião. No local aprazado esperavam 250 índios de várias regiões do Estado. A indignação foi generalizada, pois só foram avisados da ausência da FUNASA minutos antes do horário estabelecido para iniciar os trabalhos.
A FUNASA alegou que não poderia se fazer presente, pois realizaria naquela data a III Conferencia Distrital de Saúde Indígena. O órgão, entretanto, esqueceu-se de avisar aos índios, os quais só ficaram sabendo da realização da referida Conferencia naquela ocasião, contrariando, mis um vez a solicitação dos índios relativa a convocação com a devida antecedência.
Esse conjunto de fatos desencadeou o bloqueio da ferrovia Carajás no km 289, entre os povoados Poeira e Três Bocas, próximos a Terra Indígena Caru. Eram nove horas da manhã quando os índios se posicionaram em dois lugares estratégicos entre os referidos povoados. Toras de madeira, pedaços de ferro e até mesmo maçaricos foram utilizados para retirar os trilhos de suas bases. Cinco funcionários da companhia ferroviária forma feitos reféns.
Ainda na tarde de 07 de fevereiro, o juiz da quarta Vara Federal da Seção Judiciária de São Luís, Marcelo Dolzany, concedeu liminar a Companhia Vale determinando a reintegração de posse. No dia 08 de fevereiro, a polícia militar destacou um batalhão com 150 soldados para efetuar o mandato. Estes, no entanto, aguardaram as negociações que já estavam em andamento.
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Tendo como base para articulação e negociações a aldeia Tentehar denominada Maçaranduba, localizada nas proximidades da ferrovia, os povos Tentehar, Krikati, Apaniekra, Ramkokamekra, Pukobjê, Krepumkatejê, Ka’apor e Awá, reuniram-se com representantes da FUNASA e da FUNAI com intuito de chegar a um acordo.
Os reféns foram liberados com a promessa da FUNASA de suspender a transferência do Pólo Distrital de São Luís para Teresina, de oferecer a autonomia administrativa e financeira ao Distrito Sanitário Indígena no Maranhão e ainda demitir os funcionários Reinaldo Dantes e Carlos Augusto.
Os índios liberaram a ferrovia, mas permaneceram na Aldeia Maçaranduba aguardando resposta de questões que pareciam inegociáveis: a demissão do Coordenador Regional da FUNASA, o Sr. Zenildo Oliveira e anulação da III Conferência a Distrital de Saúde do Maranhão.
A demissão do Sr. Zenildo Oliveira foi um elemento novo acrescido à pauta, após a chegada de mais índios ao local do bloqueio. A memória da ocupação de 2003 fora reativada, uma vez que essa demissão havia sido o único ponto que a FUNASA não aceitara inserir no TAC, naquela ocasião. Dessa forma, o movimento foi retomado no dia 14 de fevereiro, com um número ainda maior de participantes.
O impasse só foi resolvido após a FUNASA concordar com a realização de nova Conferência e encaminhar a casa civil do Governo da República o pedido de exoneração do Sr. Zenildo Oliveira.
Este evento marcou a última grande mobilização indígena no Maranhão, tendo como foco a questão da saúde. A participação Tentehar desta vez se mostrou ainda mais determinante em todos os momentos do conflito com a FUNASA, a começar pela localização das “zonas de combate”.
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A reunião do dia 25 de janeiro, na qual os índios tomaram a decisão de interditar a ferrovia, aconteceu em Grajaú. Pode-se dizer que esta cidade é “território” Tentehar. Duas terras indígenas habitadas por Tentehar estão situadas nos arredores desta cidade. Da mesma forma, a aldeia Maçaranduba, também dos Tentehar, fica localizada a menos de 800 metros do local escolhido pelos índios para a interdição da ferrovia.
Essas escolhas não foram fortuitas. Os Tentehar37da Terra Indígena Caru já haviam protagonizado, em 1996, outra operação desta magnitude, portanto tinham a experiência necessária para liderar as ações. Sabiam exatamente como desestruturar a estrada de ferro. Em 1996 tinham ateado fogo aos dormentes38 até que esses se desfizessem em brasas. Dessa maneira, os trilhos ficaram sem sustentação tornando impossível a passagem de trens.
Os Tentehar, sempre em maior número nesses eventos, trataram de cuidar, inclusive, do local da “arena”. Assim fizeram com que a luta fosse deslocada para – dentro – perto de seus territórios. Nestes ambientes as articulações ganham mais recursos e força. A feitura de reféns, por exemplo, seria impossível de ser realizada em São Luís. Da mesma maneira, o tempo de mobilização na capital não podia ser extenso, pois implicava na manutenção dos que ali estavam. A fome poderia contar a favor do adversário. Em território Tentehar as redes de solidariedade entre os índios eliminam várias dessas dificuldades. Assim, podem acionar um leque mais expressivo de estratégias de ação.
Durante o bloqueio da ferrovia não foram até o “inimigo”, trouxeram-no para seu território.
Os Tentehar acionam a memória de seus combates em novas formas de atuação frente ao conflito estabelecido. Essa característica lhes ajuda na avaliação da situação, de
37 Neste caso devem-se incluir os Tentehar Tembé da Terra Indígena Alto Guamá, que se uniram aos Ka’apor e Tentehar da Terra Rio Pindaré.
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modo a não perder o controle sobre a mesma. Caso o controle da situação torne-se impossível, buscam alternativas para restabelecer a condição de protagonistas.
Assim, aconteceu com a assinatura do contrato entre a Missão Caiová e a FUNASA para o atendimento da saúde do índio no Maranhão. Os Tentehar perderam o controle sobre os serviços de saúde e se viram impossibilitados de continuar lutando para recuperá- lo, pois o referido convênio entre essas instituições significou a derrocada das ONG indígenas.
A ruína das ONG indígenas provocou uma nova relação de acomodação entre os índios e a FUNASA. Entre ambos colocou-se a ONG Caiová, que passou a administrar todo o convênio de atenção à saúde dos povos indígenas no Maranhão. Os Tentehar passaram a desenvolver outras estratégias para tentar manter o protagonismo frente às políticas de saúde. A mais comum era inviabilizar a ação dos técnicos de saúde, criticando seus serviços, ou exercendo o controle sobre os trabalhadores da saúde, impedindo-os de atender a grupos rivais. Técnicos de saúde contratados pela Caiová viram-se obrigados a participar das redes montadas pelos Tentehar para manter seus empregos. Essa dinâmica provocou grande instabilidade, por conseguinte rotatividade elevada de técnicos destinados ao trabalho com os índios.
Uma segunda estratégia foi a pressão pela ocupação dos cargos oferecidos pela ONG Caiová. Não se tratava de uma nova estratégia, pois já era empregada durante o período em que as ONG indígenas operavam o sistema. Essa ação, no entanto, detinha um sentido diferente nessa nova conjuntura, já que o controle administrativo e financeiro não era mais dos índios, mas da Caiová. Ocorre que, para operar nas terras indígenas, essa ONG precisava da anuência dos índios, fato que teve que ser costurado politicamente com as lideranças regionais, sob pena de inviabilizar quaisquer operações de saúde e,
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consequentemente, findar o convênio com a FUNASA. A “permissão” foi concedida pelos
Tentehar, que obtiveram em troca um número de posições a ser redistribuídas entre os partícipes das redes de apoio formadas pela política de saúde. Dessa maneira, somaram-se aos já existentes cargos de AIS, AISAN, Técnicos de Enfermagem, Motoristas e outros do tipo “gerente indígena”, “assessores indígenas”, além de passarem a ocupar as posições como Assistente Social das Casas de Saúde do Índio.
O “naufrágio” durou pouco: encontraram nos convênios de transporte escolar, mantidos pela Secretaria de Estado da Educação – SEDUC e financiados pelo Ministério da Educação Cultura – MEC, através de Associações de Pais e Mestres das Escolas Indígenas, a saída.
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4. “E ELES SAÍRAM PARA SEMEAR”: EXPERIÊNCIAS DE