2. KOBİ KAVRAMINA KAVRAMSAL YAKLAŞIM
2.1. KOBİ Kavramının Tanımı ve Önemi
Conforme analisado, os profissionais do direito aqui investigados possuem diferenciadas formas atuação junto aos “povos e comunidades tradicionais”. Por um lado, alguns apresentam uma atuação mais relacionada à prática jurídica com esses grupos, ao defenderem as demandas nos tribunais, por outro, abordam as temáticas envolvendo os direitos desses grupos a partir de uma perspectiva mais acadêmica, por meio de publicações de livros, artigos e demais trabalhos técnicos.
De qualquer forma, percebe-se um processo de construção e consolidação da categoria analisada, quer nos espaços propriamente jurídicos, quer nas discussões e debates acadêmicos,
levando à formação de uma comunidade de intérpretes jurídicos autorizados para falar em nome dessas questões.
Contudo, a partir dos relatos e posicionamentos a respeito da expressão “povos e comunidades tradicionais” por parte dos diferentes profissionais, tanto os situados no Ministério Público quanto os situados nas universidades, percebe-se a existência de discursos heterogêneos e diferenciados.
Tais discursos, como já tivemos a oportunidade de ressaltar, encontram-se disponibilizados em diferentes meios, contudo, para fins desta análise, serão considerados apenas os depoimentos colhidos em entrevistas76. Ressalte-se, ainda, que esses discursos, muitas vezes, acabam sendo incorporados nos processos legislativos acerca dos “povos e comunidades tradicionais”, de modo que os juristas aqui investigados podem ser tidos como produtores de categorias e realidades jurídicas.
Nesse sentido, mencione-se a participação de José Heder Benatti no processo de elaboração da Lei 9.985/2000, que institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação, haja vista que, durante o processo de discussão e aprovação da lei, assessorou juridicamente o Conselho Nacional dos Seringueiros.
Quando questionado sobre a sua atuação nesses processos legislativos de elaboração de instrumentos jurídicos, afirma Benatti que sua participação se deu em regulamentos tanto em nível de decreto como na própria legislação sobre a possibilidade de regularização coletiva. No âmbito das discussões sobre a legislação em nível federal, afirma:
Participei diretamente, discutia, propunha, no próprio SNUC eu dizia – porque a gente assessorava o Conselho Nacional dos Seringueiros e alertava: “olha cuidado se tiver esse comando, pode prejudicar vocês”. Porque, lembro que na reserva extrativista, na primeira propostas, dizia que não podia ter plano de manejo, não podia ser feito exploração florestal. Isso é um erro. Se vai ter manejo florestal ou não é uma decisão de vocês, e não da Lei. É o plano de manejo que vai ter que definir, se vai ter ou não. Se a priori vocês optarem pela exclusão, vocês tão fora, e é o principal recurso (...) que vocês têm de acesso financeiro, é madeira. Então, já excluir... O que vai acontecer na prática é que vai ser exploração ilegal, achar que não vai explorar é besteira. Depois você tem o debate na legislação, que a gente participou também, da política nacional de concessão florestal, que tinha a questão lá, a questão muito forte de assegurar direitos das populações tradicionais, as áreas que seriam cedidas, só seriam cedidas depois que fossem reconhecidos os direitos das populações tradicionais ou então as áreas que eles reivindicassem tinha que ser excluída essa concessão, participamos lá desse debate e o decreto que regulamentou a questão das
76 Quer estas tenham sido diretamente realizada ou obtida em outras fontes, como a Internet. Tal ressalva se faz
importante, vez que, a despeito da intensa e importante produção bibliográfica de alguns dos agentes investigados, não pudemos – por questões de limitações de tempo e mesmo de acesso a estas publicações – analisar as obras dos mesmos no que concerne a temática em estudo, o que deverá ser feito na continuidade da pesquisa aqui apresentada.
populações tradicionais, que é que criou a política nacional das populações tracionais, mas foi uma participação mais indireta (Entrevista realizada no dia 23/05/2011).
Da mesma forma, destaca-se a atuação de Girolamo Treccani que ajudou a discutir a legislação dos estados do Pará e do Piauí e a legislação de vários estados que se refere à reflexão sobre as comunidades quilombolas e ainda atuou em reuniões do processo legislativo que culminaram com a elaboração do Decreto Federal 4.887/2003, que trata da regulamentação das terras quilombolas.
Conforme destacou em entrevista, Girolamo Treccani destacou os avanços obtidos com a aprovação deste decreto em relação ao anterior que regulamentava a matéria, o Decreto Federal 3.912/200177, bastante criticado, dentre outros fatores, pelo critério de tempo adotado para reconhecer o direito dos quilombolas.
Estas críticas são também compartilhadas pela Subprocuradora-geral, Deborah Duprat, para quem o Decreto 3.912/2001 seria ostensivamente discriminatório e sua orientação estritamente escravagista, de modo que o instrumento posterior, o Decreto 4.887/2003, traduziria de forma mais adequada o que diz a Constituição Federal no que pertine a esses grupos. Conforme afirma Duprat:
Eu tenho um artigo, em que procurava mostrar a inconstitucionalidade do antigo Decreto 3.912, onde dizia que toda escritura tem que ser lida no contexto atual em que se apresenta. Aliás, isso não é novidade alguma, faz parte do cotidiano dos operadores do direito. No caso, o dado é particularmente grave, pois o conceito de quilombo foi produzido por aqueles que escravizavam. Significar quilombos tal como conceituado à época da escravidão seria importar aquele regime para o seio de uma Constituição cujo princípio vetor é o da dignidade da pessoa humana. Ou seja, há uma incompatibilidade fundamental e lógica: de um lado, uma Constituição erigida sob princípios de dignidade do indivíduo, de pluralismo sócio-cultural, de justiça social; de outro, uma norma constitucional, que segundo alguns, lexicamente, remetia a sua compreensão do período da escravidão. De modo que a conceituação de quilombos, a partir de regra produzida no regime da escravidão, é, à toda evidência, inconstitucional78.
77 O Decreto 3.912/2001 trazia a seguinte redação em seu art. 1º: “Compete a Fundação Cultural Palmares – FCP
iniciar, dar seguimento e concluir o processo administrativo de identificação dos remanescentes das comunidades de quilombo, bem como de reconhecimento, delimitação, demarcação, titulação e registro imobiliário das terras por eles ocupadas. Parágrafo único: Para efeito do disposto no caput, somente pode ser reconhecida a propriedade sobre as terras que: I – eram ocupadas por quilombos em 1888; e II – estavam ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos em 05 de outubro de 1988”. Conforme afirma Duprat (2007, p. 32), o prazo definido no decreto acarretava a necessidade de comprovar a ocupação por cem anos de qualquer terreno reivindicado, sendo que o art. 68 do ADCT não apresenta qualquer critério temporal quanto à antiguidade da ocupação, nem determina que haja coincidência entre a ocupação originária e a atual, motivo pelo qual foi alegada a inconstitucionalidade do referido instrumento.
78 SANTOS, Gilda Diniz dos; AFONSECA, Gilson Rodrigues de. Entrevista disponível em: Revista de Direito
Isto posto, percebe-se que a atuação desses agentes não se circunscreve apenas a uma discussão mais acadêmica ou jurídica: ela tem efeito na elaboração e no aperfeiçoamento de instrumentos legislativos, de modo que podemos situar esses juristas, conforme já mencionamos, como produtores de sentidos no que concerne a essa discussão.
No entanto, cumpre ressaltar novamente que embora em alguns momentos os agentes pareçam convergir nas suas interpretações, em outros apresentam posicionamentos diferenciados, quer tais posicionamentos decorram da percepção e da atuação mais prática com esses grupos ou ainda, a partir de uma maior apropriação das discussões realizadas no âmbito das ciências sociais
Acerca desses aspectos acima mencionados, podemos destacar alguns trechos das entrevistas realizadas, como forma de perceber quais as divergências e as convergências de entendimentos entre profissionais de diferentes instituições ou que, ainda pertencentes à mesma instituição, manifestem posicionamentos bastante diversificados sobre essas questões.
Tal reflexão, portanto, se faz necessária para melhor compreender as acepções dadas à expressão “povos e comunidades tradicionais” e as especificidades destacadas pelos entrevistados no que se refere ao entendimento sobre essa categoria.
Nesse sentido, expondo sua percepção sobre esta expressão, Girolamo Treccani afirma:
No meu entender, pela minha experiência mais concreta, pelos estudos feitos, eu entendo que existe um núcleo fundamental comum, que seria uso, não diria coletivo no sentido que a gente dá, de maneira, assim, no sentido comum da terra. Na realidade, comunidades remanescentes de quilombo no estado do Pará e outros grupos sociais, cada um deles tem seu lote, portanto não é nenhum coletivo no sentido que existe uma exploração comunitária. Agora, apesar disso, a propriedade é coletiva, porque além do espaço familiar tem o espaço efetivamente coletivo onde a exploração de fato é feita a partir de negociações, e negociações que muitas vezes nem sequer estão escritas, nem sequer estão evidentemente consagradas em instrumentos como contratos ou como estatutos ou como regimentos internos. (...). Portanto se é uma propriedade coletiva no sentido estrito, é uma propriedade coletiva no sentido amplo, exatamente por essas discussões de necessidade de se estabelecer normas de utilização de alguns recursos comuns e daquilo que é pessoal, pessoal familiar, como é que isso é trabalhado e é respeitado. Portanto, muito difícil para mim dar conceitos. Eu li o livro do Diegues, li o livro do Alfredo79, li o livro dos meus amigos antropólogos, mas existe muita
complicação no meio do caminho (Entrevista realizada no dia 16/05/2011).
79 Os autores citados referem-se aos antropólogos Antonio Carlos Diegues e Alfredo Wagner Berno de Almeida.
Este último é recorrentemente citado em outros trechos da entrevista realizada com Girolamo Treccani como “Alfredo”.
Ainda fazendo menção aos profissionais e às discussões realizadas no âmbito das ciências sociais, José Heder Benatti, quando questionado sobre seu entendimento acerca da categoria “povos e comunidades tradicionais”, afirma que a mesma não possui uma definição propriamente jurídica, mas sim antropológica, ou, em suas palavras, “o conceito nosso é muito alimentado do diálogo com a antropologia” (Entrevista realizada no dia 23/05/2011).
Para Benatti, tal categoria seria aplicável aos grupos que se apropriam dos recursos naturais a partir do extrativismo. Segundo menciona, “não é a única fonte, mas (...) o extrativismo é importante, pois exige muito tempo de uso desses recursos naturais e tem alguma identidade do espaço que [os povos e comunidades tradicionais] ocupam” (Entrevista realizada no dia 23/05/2011).
Acerca dos grupos aos quais essa categoria pode abranger, Girolamo Treccani, a partir da sua experiência profissional – tanto no que se refere ao trabalho de campo no contato direto com esses grupos, quanto no que se refere a uma reflexão mais teórica – afirma:
Na realidade, quais são os grupos fundamentais, são ribeirinhos – e na categoria ribeirinho eu incluiria aquele camponês que ao mesmo tempo vive da roça dele, vive da pesca, vive da exploração, sobretudo do açaí na nossa região, e vive da exploração da castanha, aqui e acolá, enfim, poderia ser definido como agroextrativista no sentido mais técnico da coisa. Outra categoria fundamental, aquilo que poderia ser definido como lavrador ou campesinato clássico, que é aquele, sobretudo na região mais perto de Belém, que já está naquela região a algumas gerações, não se reconhece como população tradicional no sentido clássico do termo, tem, portanto, uma pretensão de ter uma propriedade familiar específica, com um documento específico de sua terra, mas que tá aberto, tá em diálogo e é até o aliado, normalmente, inclusive contra o latifúndio, contra o poder público, contra o juiz que vai dar a liminar, contra a polícia que vai dar o despejo... enfim, aliado um do outro. Claro que não se reconhece como população tradicional, mas não deixa de não ter características que fariam dele como muito próximo as populações tradicionais (Entrevista realizada no dia 16/05/2011). Outra discussão levantada por Treccani, refere-se à incapacidade de o poder público perceber a diversidade de grupos implicados nessa categoria. Conforme destacado, uma das questões aprofundadas em seu doutorado foi discutir a dificuldade da legislação agrária, federal e estadual, dialogar com a multiplicidade de situações, não só fundiárias, mas também relativas a questões étnico-culturais. Para ele, essas diferentes realidades nunca foram efetivamente incorporadas no arcabouço jurídico, exceto no caso das populações indígenas, que já possuem uma legislação mais consolidada.
A incapacidade desses instrumentos criados pelo poder públicos em perceber essas nuanças produz algumas situações que, do ponto de vista do entrevistado, são discrepantes,
tendo em vista que categorias censitárias oficiais não dão conta de traduzir as realidades desses grupos. Segundo afirma:
Isso fez com que, por exemplo, todas as comunidades remanescentes de quilombo do estado do Pará, que tenham área superior a 300, 400 hectares, praticamente 90% delas, são enquadradas pelo INCRA como grandes e improdutivas, exatamente porque não se usam categorias específicas de entendimento daquela realidade. É aquilo que o Alfredo trabalha em vários livros que ele escreveu e, sobretudo, nas introduções ao livro sobre Jamary dos Pretos, sobre Frechal, ele faz muito a diferença entre imóvel rural, como categoria censitária do IBGE, e outras dinâmicas, as terra de negro, terra de santo etc., enfim... Isso faz com que se tenha, evidentemente, como tava dizendo, uma dificuldade inclusive teórica de tentar identificar melhor o que significam essas realidades (Entrevista realizada no dia 16/05/2011).
No mesmo sentido, na tentativa de destacar essa incapacidade do Estado, em suas diferentes esferas, de perceber as diferenças implicadas quando se trata desses grupos, bem como a reprodução da visão errônea que os concebe apenas a partir de carência e da falta, Deborah Duprat afirma:
O Estado ainda não está preparado para lidar com as diferenças. Isso é um dado inequívoco. Suas políticas públicas, em geral, são orientadas pelo modelo anterior, em que havia um padrão de sujeito de direito, aparentemente abstrato, sem qualidades, intercambiável. É preciso, portanto, que o Estado se capacite, que produza para si conhecimento, de modo a que a sua atuação leve em conta, de fato e de modo eficaz, a diferença. Do contrário, o Estado seguirá sendo um agente colonizador. É também necessário que se desfaça da noção de que todos os pleitos são de natureza econômica, que há um quadro de pobreza que alcança a todos esses grupos e seus membros indistintamente. Essa é uma falsa visão. Por isso, antes de mais nada, conhecimento, para poder agir com eficácia80.
Ainda com relação à definição da categoria, para Girolamo Treccani, mais importante do que definir esses grupos, é perceber como eles próprios entendem sua inclusão entre os “povos e comunidades tradicionais”. Importante também, conforme destaca é perceber a multiplicidade de grupos implicados nessa discussão e o fato de que, apesar das diferenças que guardam entre si, os mesmos possuem algo parecido e reivindicam questões específicas. Afirma Treccani:
No Encontro dos Povos da Floresta (...) a grande discussão que percebi – não só nesse encontro mais específico, mas também no encontro nacional, onde se discutia a política de plano nacional – era a multiplicidade de realidades. Por exemplo, nesse último encontro de dois anos atrás em Olinda, quando nas teses aparecia “populações tradicionais” a plenária levantava e dizia, “não, tem que ser populações tradicionais e dizer quem é quem”. E aí vinha uma lista de 05, 10, 20 nomes diferentes. Acho que hoje este é um dos
80 SANTOS, Gilda Diniz dos; AFONSECA, Gilson Rodrigues de. Entrevista disponível em: Revista de Direito
desafios que o trabalho do Alfredo Wagner e sua equipe mostra claramente, no trabalho de cartografia social, isto é, a grande quantidade de grupos diferentes que, ao mesmo tempo, reconhecem algo parecido entre si – portanto o decreto 6.040/07 seria o grande guarda chuva para todo mundo – mas ao mesmo tempo, reivindicam questões bem específicas. Portanto, por exemplo, as quebradeiras de coco babaçu, do Maranhão, Tocantins e sul do Pará, não tem nada que ver com o castanheiro da região dos castanhais de Marabá – é claro que ambas estão no mesmo quadro, e até, no caso específico, no CNS – que não tem muita coisa que ver com o explorador da castanha do Pará do Acre, no sentido de que a organização é diferente, apesar de ser o mesmo produto (...) mas a realidade socioeconômica é diferente, tem nuances diferentes... (Entrevista realizada no dia 16/05/2011). Outro aspecto levantado pelos entrevistados no que se refere à discussão sobre essa categoria, refere-se à invisibilidade desses grupos sociais, tendo em vista que durante muito tempo questões relacionadas às identidades diferenciadas e territorialidades específicas não foram objeto de debate e discussão.
Nesse sentido, destacando esse processo, ainda incipiente, de recente visibilidade dos “povos e comunidades tradicionais”, afirma o Procurador da República do estado do Pará Felício Pontes Júnior:
Elas sempre existiram, mas, quando eu comecei a atuar na prática eu percebi que havia mesmo era invisibilidade, que elas eram invisíveis aos olhos dos juízes, e que tinham uma carência muito grande de produção literária sobre eles. Nós não tínhamos isso ainda incorporado, até a própria denominação deles era uma coisa que se discutia. As pessoas por muito tempo, eu me lembro que de 1988 até mais ou menos 1999, 2000, (...) a própria denominação quilombola era uma coisa que tava ainda em construção, tinha acabado de vir da Constituição e ainda não tinha, isso tudo era, eles eram invisíveis, completamente invisíveis. Então, eu acho que uma coisa que mudou em relação a isso, que vem mudando, embora a gente ainda esteja muito aquém, é que nós precisamos de uma produção acadêmica que possa falar sobre essas pessoas, dar visibilidade a esses grupos sociais, uma primeira coisa, e que possa também aprofundar a questão dos direitos delas, trabalhar as questões dos direitos (Entrevista realizada em 27/05/2011).
Sobre essa discussão de direitos diferenciados e as implicações sobre os “povos e comunidades tradicionais” no âmbito do Judiciário, o Procurador da República no estado do Maranhão, Alexandre Silva Soares, faz importante reflexões, enfatizando a falta de marcos jurídicos muito claros no que concerne aos direitos desses grupos. Segundo afirma:
Na verdade é uma categoria ampla, é uma categoria em construção, que está sendo delimitada com relação a esses grupos. Se você observar a situação, há trinta anos, quem era povo tradicional? Era só índio, na fala dos juristas. Hoje em dia, o leque foi ampliado. Foi ampliado, inicialmente com a inclusão da categoria das comunidades de remanescente de quilombo e hoje em dia você tem uma série de grupos, você tem as quebradeiras de coco, você tem a questão das populações ribeirinhas, uma série de múltiplas partes,
digamos assim. Tem todo um conjunto aí de integrantes do campesinato que pode ser considerados também como populações tradicionais a serem objeto de especial proteção. O grande problema é que ainda que a gente tenha essa definição do que sejam populações tradicionais, você não tem muita clareza com relação aos direitos dessas populações tradicionais. Por quê? Pela falta de marcos muito claros com relação a elas. Com relação a indígenas e quilombolas é que você tem alguns marcos. Agora com relação a outros grupos, você não tem direitos diferenciados para essas pessoas. Aí é que você tem que fazer a leitura diferenciada de direitos que estão presentes nos textos normativos, mas isso é uma tarefa ainda a ser feita (Entrevista realizada em 24/11/2011).
Com relação aos instrumentos jurídicos e aos marcos legais sobre essa questão, cumpre destacar a existência de diversos dispositivos internacionais ratificados pelo Brasil que reafirmam o reconhecimento desses povos e grupos sociais. Dentre estes, menciona-se a Convenção 169 da OIT que trata dos “povos indígenas e tribais” e foi adotada pela Organização Internacional do Trabalho em 1989, conforme discutido no item 1.3.1 deste trabalho.
Tal instrumento, composto de 44 artigos, distribuídos em dez “partes”, possui um caráter programático, ou seja, seu conteúdo funciona como princípios jurídicos orientadores de demais instrumentos e ações a serem adotados nos âmbitos dos Estados nacionais. Assim, as Declarações e Convenções Internacionais carecem de efetividade propriamente jurídica, possuindo um caráter sancionatório de cunho mais político e comercial (por meio dos embargos econômicos), conforme discutimos no primeiro capítulo deste trabalho.
Disto decorre a dificuldade em operacionalizar a categoria “povos indígenas e tribais”, dado caráter universal e abstrato da mesma e, além do mais, ainda existem algumas polêmicas que a utilização dessas categorias pode suscitar, conforme observado por alguns