1.2. Kâr Oranıyla İlgili Kuramsal Yaklaşımlar 1 Klasik Kuram
1.2.2. Klasik Kuramın Çağdaş Yorumu
Entre os anos 70 e 80, período em que o Brasil vivia sob uma ditadura militar instaurada em 31 de março de 1964, a editoria de polícia de ZH assemelhava-se a uma delegacia da Polícia Civil: funcionava durante as 24 horas do dia, com esquema de plantão, tal qual operavam as delegacias, e repórteres, fotógrafos e motoristas circulavam pela Região Metropolitana em busca de ocorrências, alguns armados, feito policiais volantes a bordo de
viaturas. À semelhança das repartições, havia uma sala separada dos demais profissionais para que os funcionários da editoria de Polícia ouvissem rádios na freqüência da Polícia Civil e da Brigada Militar.
A mimetização ia mais longe: repórteres vestiam jaqueta de couro, usavam capangas, alguns portavam carteira de policial e trabalhavam com revólveres, como recorda Milton Galdino, que atuou durante cerca de 25 anos como repórter policial de ZH. Pela descrição de Galdino, era como se o campo jornalístico (BOURDIEU, 1997) fosse engolfado pelo campo policial, dificultando a diferenciação de ambos os campos. Esta apropriação de um campo sobre outro resulta no num “processo especial de socialização” (CHIES; BARROS; LOPES e OLIVEIRA, 2005), com a assimilação de práticas, gírias, hábitos e costumes dos policiais pelos repórteres. Embora seja mais freqüente em instituições totais (GOFFMAN, 1990), como penitenciárias e manicômios, a assimilação de uma cultura, como ocorre com agentes penitenciários, por exemplo, em relação aos hábitos e costumes do cárcere, de certa forma também é percebido na relação repórter versus policial (CHIES; BARROS; LOPES e OLIVEIRA, 2005). É evidente, porém, que a socialização de agentes penitenciários, definida como prisionização (CHIES; BARROS; LOPES e OLIVEIRA, 2005), que passam dias “encarcerados” junto com presos, é mais intensa do que a experimentada por jornalistas.
De acordo com Galdino, muitas vezes ocorria um crime e repórteres, num trabalho paralelo ao da polícia, identificavam os responsáveis antes dos investigadores:
Era comum andar armado. Em muitos casos, era necessário. Se eu tinha informações de que determinado traficante está no morro, coisa e tal, eu ia, investigava e colocava no jornal. Eu ia no morro, com o meu fotógrafo, e lá eu podia levar um tiro. Nunca precisei dar tiros, mas já recebi tiros. Uma vez estávamos numa guerra contra o jogo do bicho. Era pau e pau, todos os dias. Na esquina da Rua Cristóvão Colombo com Coronel Bordini eu notei um carro atrás da nossa viatura, que era uma Rural. O que levamos de tiro não foi mole. Fomos surpreendidos, mas nem cheguei a disparar a minha arma (GALDINO, 2009).
A forma como Galdino define o veículo do jornal é sintomática. Não se trata do carro da ZH, mas sim de uma “viatura” usada, deduz-se, pelas forças auxiliares dos policiais. O depoimento de Waithers colabora para que se compreenda como se dava a relação entre policiais e repórteres da editoria:
...havia (nos anos 70) um certo conluio entre a polícia e os repórteres. Não se diferenciava uma coisa da outra. O repórter andava armado e fazia batida junto, inclusive há histórias de repórteres batendo em preso. Eu estive presente em situações assim, quando um repórter da Zero Hora bateu num preso algemado... Havia um comprometimento do pessoal da editoria, uma ligação forte, com policiais. Aquilo não cheirava bem. Eles tinham as informações, mas a que preço?
Tinham que passar a mão em cima de algumas coisas. Esse período foi de 1973, 1974 até o início dos anos 80 (WAITHERS, 2009).
Na frente de um suspeito, Galdino, 1m60cm, agigantava-se. Nas delegacias, aproximava-se de homicidas, traficantes, estupradores, fulminava-os com seus olhos azuis e, destemido, iniciava conversas que, hoje, define como “enérgicas”. Na linguagem e na forma, as entrevistas assemelhavam-se a oitivas:
Tu tinhas de conversar com o vagabundo seriamente, com energia. Tu não podia dizer: por favor, o senhor pode dizer o seu nome. Tinha de chegar e dizer: vem cá, cara, qual é a tua? Qual é o teu nome? Tinha que ser enérgico. Nunca dei mole para bandidos. Falava com eles de igual para igual (GALDINO, 2009).
Dos editores, repórteres ouviam a orientação para retornar à Redação com a história completa, o que significava uma foto ou um boneco (reproduções de documentos como carteira de identidade). E para conseguir uma boa história, conta Galdino, quase não havia limites:
Eu tinha amigos na polícia. Levava uma garrafa de uísque para eles, convidava para jantar. O policial era teu amigo. A convivência do repórter com o policial era fundamental: ele era teu amigo (GALDINO, 2009).
O policial, portanto, não era apenas uma fonte, mas um amigo, um companheiro, um parceiro de festas e jantares. O que se torna um problema. Como jornalistas tendem a construir relações de confiança, terminam compartilhando “os pressupostos de suas fontes e passam a habitar o mundo definido pelo olhar policial” (ROLIM, 2006). Na interpretação de Rolim, o processo de produção da informação, nesta circunstância, nasce torto porque o repórter receberá da sua fonte, no caso, um policial, uma parte das ocorrências criminais, que será apresentada aos leitores do jornal como o todo, gerando uma distorção irreversível – por mais honesto e correto que sejam repórter, editor e o veículo como um todo. Rolim comenta:
Caso os jornais não tivessem setoristas de polícia e destacassem profissionais para cobrir os crimes a partir dos tribunais, por exemplo, teríamos um quadro bastante diverso e, seguramente, distorções de outro tipo. O que deveríamos lembrar é que todo o olhar sobre qualquer fenômeno é um olhar situado. Vários olhares, a partir de diferentes lugares e pressupostos, oferecerão sempre, por isso, melhores condições para uma cobertura adequada. Cobertura criminal, então, não pode ser o mesmo que jornalismo feito com a informação oferecida pela polícia ou por qualquer uma das agências envolvidas de maneira isolada (ROLIM, 2006, p. 207-8).
O depoimento de Tibério Vargas Ramos, que foi repórter e editor de Polícia na Caldas Júnior, entre os anos 70 e 80, e de Zero Hora, entre 1980 e 1990, destoa dos demais num aspecto interessante: ele questiona a postura supostamente colaboracionista dos repórteres de Polícia com a polícia. Se por um lado é verdade que a editoria atraiu profissionais comprometidos com uma visão “policialesca” dos fatos, também é realidade, diz Ramos, que jornalistas politizados e comprometidos com os direitos humanos preferiram ser deslocados para a cobertura criminal porque era a editoria que sofria menos vigilância dos órgãos repressivos. Ramos diz:
Como havia censura (ditadura militar), muitos jornalistas migraram para a Polícia e para o Esporte. Quem foi para a editoria de Polícia queria contar histórias. Esse é um momento importante da cobertura policial... Em plena ditadura, ZH publicou o caso das mãos amarradas. Quem fechou a Ilha do Presídio, o Porão da Oitava DP, foi a reportagem policial, não foi o Ministério Público. Esta reportagem policial, que eu tento defender, de certa forma batia de frente num grupo, mas fazia concessão a outro. A polícia tinha dois grupos: da corrupção (propina) e o de repressão (pau). De certa forma, a gente tinha uma convivência melhor com o grupo duro, que não tinha nada que ver com o DOPS. Era o grupo duro da repressão crimininal (RAMOS, 2009).