Quando Renato Dorneles começou a trabalhar em ZH, em 1986, um processo irreversível de mudança estava em curso. Algumas práticas, porém, se mantinham inalteradas. Para publicar no jornal o nome e a foto de alguém suspeito de crime, por exemplo, bastava apenas a palavra de um representante da polícia, não necessariamente o delegado. Dorneles comenta:
Não havia nenhum critério (para publicar nomes de suspeitos). Se não fosse ninguém importante, publicava-se com a maior irresponsabilidade. Não havia nenhuma preocupação (DORNELES, 2009).
Como conseqüência, uma prisão bastava para que biografias fossem manchadas. O poder quase absoluto do delegado da Polícia Civil era transposto para as páginas policiais dos veículos. Professor da Faculdade de Comunicação Social da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Ramos reconhece que inexistiam critérios objetivos. Se a pessoa era presa, publicava-se no jornal nome, sobrenome, apelido e, se fosse possível, foto, recorda Ramos. Se um investigado por homicídio era detido, virava homicida. Se um suspeito de estupro era identificado por uma vítima, tornava-se estuprador. Era um jornal de certezas, sem espaço para dúvidas, o que começa a mudar, analisa Ramos, a partir dos anos 90.
A ausência de critério potencializava equívocos, como o relatado por Dorneles num episódio que ele lamenta até hoje:
Em 1987 ou 1988, houve a morte de um professor de Educação Física na Rua José Bonifácio. Um ou dois dias depois, foi preso um cidadão que estava mexendo no carro dele e, na frente, estava o carro do tal professor. A polícia o prendeu dizendo que ele estava retirando coisas do carro do professor e colocando dentro do carro dele. A polícia nos chamou e disse: prendemos o matador do professor. Fiz a matéria, com foto: “Preso matador do professor de Educação Física”. O cara só chorava e dizia que não tinha nada a ver com aquilo. Um mês depois, jovem confessou a morte do professor. Na matéria, não fizemos referência a anterior. No dia seguinte, apareceu um cara, humildemente, querendo falar comigo. Ele pegou a reportagem em que aparecia como matador do professor universitário e disse: sou esta pessoa aqui. Contei a história para o meu editor e, no dia seguinte, saiu uma nota de cinco linhas como correção (DORNELES, 2009).
Embora os profissionais consultados reconheçam que não havia critérios para publicação de nomes e fotos (ou, de outra forma, que o critério era quase sempre estabelecido pela polícia), este aspecto não é visto como negativo por todos. Waithers, por exemplo, defende a divulgação das identidades de suspeitos nos moldes de antigamente. O ex-repórter acredita que o jornal deve promover a “execração” de supostos traficantes, o que não estaria ocorrendo nos dias atuais porque, muitas vezes, nomes são omitidos de determinadas matérias para evitar processos e ações indenizatórias. Waithers comenta:
Qual a contribuição que tu podes dar para a tua comunidade se não publicas o nome das pessoas? Como tu vais execrar um indivíduo, por exemplo, que vende crack? Ele deve ser execrado. Publicar a cara dele no jornal é o mínimo que se pode fazer. Naquela época isso não existia. A gente publicava quase tudo. Só não publicávamos foto de menores. Neste caso, usávamos uma tarja bem pequena, quase um tapa-olho. Era para identificar mesmo, para que soubessem que aquela pessoa era perigosa (WAITHERS, 2009).
Na segunda metade dos anos 80, Dorneles aponta um episódio, seguido por intensa cobertura jornalística, que pode ser visto com um outro marco da nova editoria de polícia que era gestada no ventre da Redação. Trata-se do Caso do Homem Errado.
Na noite de 14 de maio de 1987, em meio a um assalto com reféns a um supermercado na Avenida Bento Gonçalves, em Porto Alegre, um homem negro foi preso pela Brigada Militar pelo suposto envolvimento no crime. O fotógrafo Ronaldo Bernardi, que cobria o crime para ZH junto com repórter Darci Demétrio, flagrou o homem vivo, dentro de um Fusca da BM, com os olhos assustados e a boca suja de sangue, sendo custodiado por PMs. Horas depois, ele apareceria morto no Hospital de Pronto Socorro. Como um suspeito poderia
sair vivo de um local, com ferimentos leves, e aparecer executado a tiros? O homem havia sido baleado a caminho do hospital.
O assassinato, algo por si só gravíssimo, se tornaria um escândalo nacional quando repórteres do jornal descobriram, posteriormente, que o homem se chamava Júlio César de Melo Pinto, tinha 30 anos, era operário, trabalhava com carteira assinada e jamais tinha se envolvido em crimes. Graças a uma apuração exaustiva da equipe de reportagem, descobriu- se, ainda, que minutos antes de ser preso, Pinto havia saído de casa para ver o que estava acontecendo nas redondezas. Próximo ao assalto, o jovem, que era epilético, sofreu uma convulsão e machucou o rosto. Sem documentos, foi confundido com os criminosos, agredido, preso e, por fim, abatidos a tiros por PMs.
A cobertura do Caso do Homem Errado, como o episódio ficou conhecido, repercutiu em todo o país e expôs uma das tantas execuções de inocentes por policiais. Sem a presença da imprensa, Pinto poderia ser até hoje apenas mais um “bandido morto em confronto” com as forças policiais. Em novembro de 1988, seis dos oitos policiais denunciados foram condenados pela Justiça Militar. Apenas dois réus apareceram para o julgamento. Os outros estavam foragidos. O episódio flagrado por Bernardi era institucionalizado no país. Como no Rio Grande do Sul, esquadrões da morte formados por policiais civis e militares dispostos a executar cidadãos a revelia da lei tornaram-se conhecidos em outros Estados. O caso mais emblemático, contado pelo repórter Caco Barcellos, envolve a Polícia Militar de São Paulo. Nos ano 80, Caco investigou ações fora-da-lei das Rondas Ostensivas Tobias Aguiar (Rota), um grupo de elite da PM paulista. O jornalista transformou a sua apuração no livro Rota 66 – A história da polícia que mata, editado em 1992. Os relatos assustadores que constam no livro de Caco assombraram o Brasil e resultaram em profundas transformações na PM de São Paulo. No Estado, Dorneles comenta o significado daquela cobertura:
A imprensa, a empresa, os profissionais e a conjuntura mudaram (nos anos 80). Os pilares da mudança são a redemocratização e ação dos direitos humanos, que começaram a se voltar mais para os presos comuns. Os repórteres estavam vendo que ali estava um filão. Antes, morria um preso, eram um preso a menos. Era aquela visão na editoria de Polícia: bandido bom é bandido morto. Depois, passou a mudar. Em 1987, houve o famoso caso do homem errado, que se tornou um marco no jornalismo policial (DORNELES, 2009).
4.7 A REDEMOCRATIZAÇÃO, A CONSTITUIÇÃO DE 1988 E A CRIMINALIDADE