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BÖLÜM I: İMAM BİRGİVÎ VE KİTÂBU’L-ÎMÂN

1.2. Kitâbu’l-Îmân

1.2.5. Kitâbu’l-Îmân’ın Bölümleri

O Islã constitui uma religião altamente diversificada, assim como o Cristianismo. Várias seitas e vertentes compõe esta religião, fazendo com que, em muitos casos, para alguns muçulmanos, o “outro” seja um muçulmano. (Grillo, 2004) As minorias muçulmanas na Europa vêem-se filiadas a vertentes diversas desta religião, assim como no Brasil, onde encontramos não apenas sunitas, como xiitas e até mesmo alauítas (uma sub- vertente do xiismo).

Além da identidade religiosa definida a partir de múltiplas possibilidades encontradas dentro da tradição islâmica, um muçulmano ainda ostenta muitas outras identidades como a de gênero, classe, etnia, nação, faixa etária... Grillo (2004) chama a atenção para o risco que uma visão essencialista acarretaria, ao considerar a religião como a representação mais profunda e autêntica da subjetividade de alguém. No entanto, reconhece que “for some people (outsiders, insiders, Muslims, non-Muslims”) a person’s essence is captured by their religion”, concluindo que, mesmo ciente de que não se deve olhar para os muçulmanos de forma essencialista, é preciso entender que “essencializar” constitui um fato social, que deve ser levado em conta e explanado. (Grillo, 2004, p.864)

Said (1990) mostra como o Oriente em geral, especialmente o chamado “mundo islâmico” era visto como único e homogêneo e definido desde a época do imperialismo anglo-francês como aberrante, subdesenvolvido e inferior, além de eterno, uniforme e incapaz de se auto-definir, em contraposição a um racional, humanitário, superior e moderno Ocidente. Este padrão de classificação manteve-se após a substituição do dominador pelos Estados Unidos e depois de certos acontecimentos derivados do chamado

“Islã político”, em reação a esta dominação-exploração, o Oriente muçulmano passou a ser ainda mais estigmatizado, fortalecendo a idéia deste como algo a ser temido e controlado.

Termos totalizadores e essencialistas como “mundo islâmico” podem ser bastante danosos como mostra Said, construindo identidades homogêneas onde elas não existem. Bayat (2003), porém, alega que é possível defender o uso do termo “sociedades muçulmanas”, sem correr o risco de “re-orientalizar” estas sociedades e indivíduos. O termo “sociedades muçulmanas”, no plural, coloca a ênfase nos muçulmanos como agentes (da construção) de suas sociedades e culturas, ao contrário de termos como “mundo islâmico” que tomam o Islã como a característica definidora destas sociedades. O termo sociedades muçulmanas não é monolítico, não toma a religião por definição e não reduz as culturas à mera religião, já que “... culturas nacionais, experiências históricas e trajetórias políticas sempre produziram diferentes culturas do Islã ou percepções religiosas e práticas através de diferentes nações muçulmanas.” (Bayat, 2003, p.5)

Por fim, o uso do termo “sociedades muçulmanas” não implica a negação das diferenças internas, (sejam elas de cunho lingüístico, cultural, nacional, econômico ou relativo ao compromisso das pessoas com a religião), assim como outras categorias bastante amplas como América Latina, Oriente Médio... Não se trata de negar as diferenças internas, portanto, apenas salientar que os interesses e preocupações comuns compartilhados dentro dessas regiões são em maior número do que os compartilhados entre estas e outras regiões ou áreas. Por exemplo, existem diferenças dentro da América Latina, mas diferenças menores do que entre um país latino e um asiático. O mesmo vale para a categoria “sociedades muçulmanas”.

Há uma categoria nativa designada para definir o conjunto de fiéis do Islã pelo mundo, a Ummah. Esta apóia-se no ideal islâmico de sobrepor a identidade religiosa a

critérios étnicos e/ou nacionais17. Ainda segundo a descrição nativa, a Ummah pode estar estabelecida em três diferentes tipos de território: a) Dar al-Islam, território do Islã, local onde os muçulmanos são maioria e encontram-se em paz com outras minorias religiosas; b) Dar al-Harb, terra de guerra, onde os muçulmanos, independentemente de constituírem uma minoria ou maioria, encontram empecilhos severos e perseguições baseadas em leis ou violência que impedem que pratiquem livremente seus rituais e obrigações religiosas; e, por fim, c) Dar al-Muahadah, terra de tratado, território onde a comunidade muçulmana acredita poder viver e praticar seus dogmas com a tolerância da maioria religiosa e do Estado. A classificação dos territórios muda de acordo com a situação histórica do país. No período de repressão aos escravos muçulmanos, subseqüente à revolução dos malês, por exemplo, o Brasil poderia ser classificado como Dar al-Harb, diferentemente de hoje, quando é apontado como Dar al-Muahadah18.

Não existe um consenso quanto à relação entre o conceito de território islâmico e a existência ou não de um Estado Islâmico. Não afirma-se, portanto, que o Dar al-Islam implica na existência de um Estado Islâmico e o Dar al- Harb e o Dar al- Muahadah impliquem na sua inexistência. Como lembra Montenegro (2000), o fato de não efetuarem esta ligação provém, possivelmente, da não aceitação da legitimidade dos auto-proclamados regimes islâmicos atuais. Alguns grupos muçulmanos consideram que não existe atualmente nenhum Estado Islâmico, uma vez que a sharia não seria aplicada da forma

17 O argumento de que a fé é o verdadeiro diferencial entre os homens, acima de raça, condição social ou

nacionalidade é bastante salientado nas aulas de religião da Liga da Juventude Islâmica do Brás, por exemplo, destinadas aos interessados ou já convertidos ao Islã. O argumento de que todos são iguais perante Deus e que a fé é o único possível diferenciador entre as pessoas pode ser utilizado com o intuito de atrair novos fiéis, o que não impede, porém, que haja o cultivo por parte de alguns imigrantes e seus descendentes, da idéia de superioridade dos árabes sobre os demais, por estes estarem ligados à história inicial do Islã. Retomarei este assunto com mais detalhes no tópico destinado aos conflitos entre os convertidos e os árabes.

18 É importante fazer a ressalva de que a apresentação do conceito de território islâmico realizada aqui é

bastante simplificada, visando apenas expor que o Islã presume uma concepção de território e classifica as terras que hospedam a Ummah de uma maneira diferenciada.

correta, ou ainda porque Estados que se consideram islâmicos podem perseguir e reprimir seus próprios muçulmanos, levando a um estado de Dar al –Harb. O Centro Islâmico de Campinas é um exemplo da descrença na existência atual de um estado verdadeiramente islâmico, como mostra o seguinte trecho de um sermão realizado em março de 2004:

“... a civilização islâmica foi construída nos princípios da submissão ao Criador, ou seja, os princípios da religião islâmica. Os muçulmanos de hoje abandonaram e esqueceram tais princípios, tanto como governantes como governados.”

Os muçulmanos presentes em contextos minoritários, tolerantes (Dar al-Muahadah) ou não (Dar al-Harb), precisam ser estudados de acordo com algumas peculiaridades, já que:

“comunidades muçulmanas fora de países de maioria muçulmana possuem talvez uma dinâmica social mais complexa, uma vez que muçulmanos são compelidos a negociar suas identidades dentro de estruturas normativas e legais predominantemente não muçulmanas. O que faz delas ‘comunidades muçulmanas’ são as diversas identidades muçulmanas que os membros ostentam”. (Bayat, 2003, p. 5)

As diversas identidades muçulmanas construídas no Brasil são condizentes com o perfil sócio-econômico desenvolvido aqui, (o que afeta não só a forma como são vistos pela sociedade brasileira, como também pela Ummah), com a origem étnica destes indivíduos e com o fato de encontrarem-se em uma sociedade basicamente ocidental sob um estado secular e dependente dos EUA. Partindo do pressuposto de van Bruinessen (2001) de que a identidade e prática religiosas na diáspora assumem formas diferenciadas das encontradas nos países de origem, procuro analisar nos próximos tópicos, como se dá este processo com

relação às minorias muçulmanas no Brasil contemporâneo, começando com a descrição do campo religioso brasileiro e seu impacto na construção da identidade muçulmana no país.

Benzer Belgeler