B. KISA ÇALIŞMANIN SONUÇLARI
1. KISA ÇALIŞMANIN TARAFLAR İÇİN SONUÇLARI
Uma das categorias a priori estabelecidas é o lugar. Esta categoria foi, de certa forma, a que moveu o presente trabalho. Buscou-se investigar a percepção e a transformação espacial em alunos do ensino médio, porém, buscou-se isso tendo por base o lugar desses educandos. O lugar é assim a categoria mais importante até agora analisada.
Muitos aspectos relacionados ao lugar emergiram dos textos. É curioso começar pelo que segue: “Eu moro bem na Av. Benjamim Constant” (Sujeito X2). O que representa/significa o advérbio de intensidade “bem” usado no texto? Deve-se atentar para o fato de que esse tipo de advérbio normalmente é usado para chamar a atenção, para dar relevo a algo. Provavelmente o Sujeito que escreve assim quer indicar que o ponto onde mora é evidente, situa-se exatamente (“bem”) na avenida mencionada.
Analisando-se mais detidamente e sob um ponto de vista geográfico, pode-se dizer que a afirmação: “moro ‘bem’ na avenida ‘x’” deixa transparecer que, para o Sujeito, a avenida, ou ainda, o ponto onde ele mora, é importante. “Moro ‘bem’” em determinado lugar, indica, subliminarmente, que esse lugar é evidente, existe. Quando se comunica a alguém onde se mora, explica-se da melhor forma possível. Para isso, faz-se uso de mapas, pontos de referência, etc. Neste caso específico, o Sujeito não usa ponto de referência. Diz, apenas, que é “bem” numa determinada avenida da cidade. Ainda que a explicação esteja, geograficamente, incompleta, pois não há como se achar o lugar a partir dessa especificação, pode-se dizer que, do ponto de vista da identidade, o Sujeito está fazendo menção ao seu
lugar. Lugar surge como o ponto de referência em si. Pode-se dizer que a relação de
pertencimento ao lugar é de tal forma que se usa um intensificador – “bem”.
Obviamente, o fragmento supracitado pode ser analisado sob o ponto de vista do conhecimento espacial, geográfico, propriamente dito. Neste caso, se diria que as competências espaciais são/estão deficitárias, já que o Sujeito não consegue se expressar corretamente situando sua casa no espaço. Ainda assim, argumenta-se no sentido de que dizer/usar o advérbio “bem” é valorizar o lugar.
A comunicação dos referenciais espaciais, como se pôde notar nos textos depoimentos, tem ligação com a categoria lugar. Veja-se o seguinte fragmento: “daí eu atravesso a rua (e que ela tem 2 sentidos: o que vai pro centro e o que volta do centro)” (Sujeito X2). Nesta comunicação de referencial espacial, diz-se que a rua tem dois sentidos, porém, o que chama a atenção é o referencial principal, ou seja, o centro. O centro da cidade é que serve de “ancora” no discurso. Note-se que é dito que a rua possui dois sentidos: “o que vai pro centro e o que volta do centro”. Fica claro que o centro da cidade aparece como o lugar de referência central. Neste ponto nota-se um deslocamento do lugar bairro para o lugar centro. Poderia ter sido dita a mesma frase usando-se como referencial o bairro. Como se sabe, a região central da cidade concentra uma série de atividades comerciais e financeiras. Trata-se de lugar específico para as atividades do setor terciário (serviços). Provavelmente, para esse Sujeito, o centro da cidade constitui-se no lugar onde são feitas compras e atividades diversas. O lugar centro aparece como um referencial importante no texto depoimento do Sujeito.
Com relação ao supramencionado analisou-se outro fragmento. O mesmo Sujeito (Sujeito X2) após ter comunicado em seu texto os sentidos da avenida tomando por base o centro, comunica: “e logo a minha frente tem uma parada de ônibus”. Este referencial tem,
provavelmente, relação com a vida do Sujeito e com o referencial anterior, ou seja, o centro. Diz-se isso porque supõe-se que, para o mesmo Sujeito (um jovem adolescente) a parada de ônibus é ponto onde se “toma” a condução que leva ao centro. O Sujeito comunica um referencial e, logo após, outro que tem relação direta com o primeiro: “centro da cidade” e “parada de ônibus” estão juntos no mesmo texto porque juntos fazem o espaço vivido do Sujeito.
Em outro texto depoimento o Sujeito faz questão de citar de forma bastante completa seu lugar no espaço. “Meu prédio fica na Rua Chicago, no bairro floresta e a minha rua fica paralela a Rua Cristóvão Colombo. Bem ela fica quase na esquina com a Rua Paraná” (Sujeito
X4). O bairro é nomeado e as ruas de entorno são citadas para que fique claro de que lugar
está se falando. É curioso perceber que dentro do contexto das ruas que ajudam a localização do lugar o prédio aparece como referencial. Poderia ser dito “minha casa fica”, no entanto, usou-se “meu prédio”. O prédio surge como o lugar que se quer localizar com mais precisão. Na leitura do texto do mesmo Sujeito há outro item que indica lugar: “tem uma pracinha na esquina.” (Sujeito X4). A pracinha é o lugar de brincar, jogar bola, correr, etc. Decorre daí que ela não poderia deixar de ser mencionada. Nota-se, que os Sujeitos, ao descreverem o seu trajeto casa-escola, mencionam pontos de referência relacionados com a vida. São, na realidade, lugares repletos de significados e por isso são citados. Comunicar no texto: “Logo que saio do prédio sigo pela Rua Paraná passo pelos prédios de meus amigos.” (Sujeito X4) é identificar mais lugares que têm significado. Pode-se dizer que os prédios mencionados têm
significado porque são os prédios dos amigos. Há o “meu prédio” e existem, também, os
prédios “dos meus amigos”. Lugares e mais lugares. Percebe-se que a alteridade é reconhecida por/em seu lugar. Existe o meu lugar, por isso eu existo; existe o lugar do outro, por isso ele existe. Os lugares vão se desdobrando nos textos e recebendo os mais diversos significados.
Por vezes, as pessoas que cruzam o caminho do sujeito perfazem o lugar, neste caso um lugar de encontro. “Na Olinda eu passo por dois guris que estão no sentido contrário.” (Sujeito X4). Note-se que, neste contexto, a Rua Olinda acaba sendo um lugar de encontro. É o lugar onde, pelo que se pode perceber, o Sujeito encontra/“passa” por outras pessoas (“dois guris”) que estão no sentido contrário. É digno de nota que, assim como há os lugares de encontro, há os lugares de desencontro. “Atravesso a Av. Mariland e raramente encontro a Louise (colega) nesse local [...]” (Sujeito X4). O Sujeito acaba de comunicar que este lugar (“Av. Mariland”) é um lugar especial. Nele ocorre, ainda que raramente um encontro entre
dois Sujeitos, colegas da mesma turma. Porém, como esse encontro ocorre “raramente”, é um lugar de desencontro – há uma expectativa de encontrar alguém, o que quase nunca acontece.
O mesmo Sujeito continua: “então quando chego na esquina da Rua Filadélfia em que tem a Confeitaria Armelin dobro a esquerda passando pelo prédio em que mora o André (colega)” (Sujeito X4). Aqui dois lugares são comunicados simultaneamente. Um é o lugar onde se podem comprar doces, salgados, tortas, etc. Outro é o lugar onde outro colega reside. Chama-se a atenção para o fato de que este relato pouco serviria para o leitor que não soubesse quem é o “André (colega)”. A “Confeitaria Armelin” pode ser encontrada, a princípio, por qualquer um, porém o “prédio em que mora o André”, não. Sendo assim, comunicar o prédio do colega é acentuar um lugar, neste caso, o lugar do colega.
O nome dos lugares também recebeu atenção especial nos textos depoimentos: “Saio do edifício Oravec, número 204, apartamento 208. [...]” Embora essa característica, o nome, seja mais pertinente à identidade do lugar, caracteriza-o como tal. Nesse contexto, o Nome do lugar importa: “Eu moro em condomínio do Bairro Jardim Leopoldina na Zona Norte de Porto Alegre.” (Sujeito X8). Faz parte, de certa forma do lugar, então deve ser comunicado.
Normalmente os Sujeitos referem-se ao lugar como sendo seu. Essa é uma das principais características para se designar um lugar: o sentimento de pertencimento. Os Sujeitos poderiam, perfeitamente, comunicar escrevendo: “deixo o lar, dobrando à...” ou “saio de casa...”. Porém, a forma mais comum que emergiu foi: “Saio da minha casa [...]” (Sujeito
X9), “Minha casa... Bom, minha casa encontra-se na Avenida [...]” (Sujeito X10). O
pertencimento foi algo que “transbordou” na análise textual, tanto a nível macro, quanto a nível micro, e os Sujeitos passaram a comunicar, em seus textos, as particularidades de seus lugares, como se pode perceber no fragmento a seguir: “Ao momento que acordo, olho para cima, vejo o estrado do beliche. Volto a dormir mais um cinco minutos [...]” (Sujeito X15). Nota-se que o lugar onde se dorme é comunicado. Descrever o trajeto casa-escola, subjetivamente, implica em comunicar os fatos em ordem. Decorre daí que o momento de acordar, para esse Sujeito é importante, e o lugar onde se dorme, também. “Desço as escadas e tomo um Nescau com pão [...]” (Sujeito X15). Com relação a este fragmento, pode-se afirmar que, lendo com mais atenção, encontrar-se-á a descrição do lugar onde o Sujeito vive. Deduz-se que se trata de uma casa de dois andares, visto que o Sujeito desce escadas. Subjetivamente, para o autor do fragmento era importante comunicar isso no texto. Provavelmente, o momento do café da manhã é, de tal forma importante para o Sujeito, que
deveria ser descrito, e, inconscientemente/subliminarmente, acabou comunicando também o espaço/lugar onde vive.
É interessante perceber nas descrições as características dos lugares que acabam por emergir. E é interessante também perceber que, por vezes, elas ficam submersas no texto. Veja-se o fragmento a seguir: “Subo, faço a higiene, e coloco os tênis. Vejo se na rua está frio, pra pode então saber, se coloco o casaco, ou não.” (Sujeito X15). Chama-se a atenção, especificamente, para duas ações: “fazer a higiene” e “verificar a temperatura”. O Sujeito que comunica essas ações não comunica o lugar onde elas são feitas. Para fazer a higiene supõe-se o banheiro, no entanto este é suprimido. Para se verificar como está a temperatura na rua necessita-se de uma janela ou porta, no entanto isso também é negligenciado. São características dos lugares que acabam por não emergir nos textos, são os chamados lugares ocultos/ocultados.
Os lugares são diferenciados nos textos depoimentos. Vejam-se os fragmentos a seguir: “Passo por cinco ruas dentro do condomínio onde moro.” (Sujeito X15) e “Passamos então por um local que no popular é chamado de “vila”, a vila Farrapos bem dizendo.” (Sujeito X15). Nos fragmentos anteriores faz-se menção a dois lugares bastante diversos. O “condomínio” e a “vila”. São também aspectos que surgem de forma singular. O condomínio possui ruas, é organizado e planejado. A vila possui vielas é desorganizada e sem planejamento. Tais características não deixar de ser notadas e tanto é assim, que são comunicadas. O lugar/espaço dos ricos e o lugar/espaço dos paupérrimos.
Procurou-se, neste subcapítulo, apresentar aquilo que veio à tona de forma mais imediata com relação à categoria lugar. Pensa-se que ficou bastante evidente que tal categoria faz parte do espaço vivido pelos Sujeitos e integra os depoimentos de forma significativa. O
lugar passa a ser a categoria que fornece significado e sentimento de pertencimento aos
Sujeitos que, consciente ou inconscientemente, fazem menção a ele. Passar-se-á, agora a descrição das emergências provindas da categoria identidade, que, como as analisadas até agora, fazem parte de um todo inseparável.