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Radcliffe-Brown entendia que a antropologia deveria ser vista como a ciência natural da sociedade, pois as sociedades são sistemas naturais que devem ser estudados segundo métodos comprovados pelas ciências da natureza. “[...] a estrutura social [...] não é uma abstração. Ela consiste na ‘soma total das relações

sociais de todos os indivíduos num dado momento do tempo. [...] A forma estrutural está explícita em ‘usos sociais’, ou normas sociais, os quais se reconhece geralmente como obrigatórios e são largamente observados”. (KUPER, 1978, pp. 68-70).

Defensor de que os grupos sociais e a sociedade se constroem e se mantêm unidos quando determinados elementos possuem significados e são comuns entre seus membros, Radcliffe-Brown3, em seus estudos, priorizou a importância dos ritos e rituais para explicar o que é a sociedade, dizendo que é preciso entender os sentimentos que expressam os ritos para depois identificar a sua função social. Para ele (1973), a coesão de um grupo social se dá por força de uma estrutura de regras jurídicas, estatutos sociais que circunscrevem e regulam o comportamento.

De acordo com os estudos de Radcliffe-Brown, a coesão social é muito mais fruto das relações de poder e de dominação do que do fato de as pessoas compartilharem sentimentos e regras comuns. Isso, em virtude da natureza conflitiva das relações sociais. Disso decorre a importância dos rituais como estratégias de construção de consensos, indispensáveis ao funcionamento das organizações modernas, ou seja, rituais são estratégias reprodutoras das estruturas de dominação internas e externas às organizações.

Pertencente à geração de Malinowski, mesmo que em contexto não pertencente a uma família cosmopolita e intelectual, e sim da classe operária inglesa, Radcliffe-Brown, em 1904, foi o primeiro aluno de Rivers e seu sonho era transformar a antropologia em uma ciência “real”: um objetivo que certamente não fazia parte dos planos de Durkheim, a quem ele seguia por este último considerar o indivíduo produto da sociedade (KUPER, 1978).

Trice e Beyer (1984, 1988, 1993 – os grifos a seguir são nossos) desenvolveram estudos voltados aos ritos e cerimônias e os caracterizaram como decretos discretos que têm um começo e um fim definidos. Servem para dar expressão aos valores de uma cultura e de crenças que habitam no meio corporativo. Os termos rito e ritual, para os autores, estão intimamente relacionados [o ritus é substantivo e a expressão ‘rituais’ é forma adjetiva – rituali].

3 A breve biografia foi Radcliffe-Brown foi extraída do blog Etnografando. Disponível em:

http://etnografandoantropologia.blogspot.com.br/2012/05/radcliffe-brown.html. Acesso em: julho de 2014.

Os autores criaram uma taxonomia para os rituais organizacionais que começou com a concepção básica dos ritos de Van Gennep (1978) e as expandiu em seis diferentes tipos.

Ritos de passagem são tratados da mesma forma que Gennep e inclui os

três componentes, separação, margem e agregação. Ritos de degradação são usados para tirar os indivíduos de seus papéis sociais e movê-los para papéis associados com status inferior. Ritos de reforço são elaborados para dar, aos membros de uma organização, reconhecimento público pelo que executam, personificando a corporação. Ritos de redução de conflitos consistem em resolver questões de conflito e são praticados de forma coletiva a fim de dar a impressão cooperativa de interesses da corporação. Ritos de integração servem para unir os grupos, que atuam de forma diferente dentro da corporação, e que normalmente não interagem. Ritos de renovação consistem em ações simbólicas que são periodicamente encenadas, a fim de reafirmar o domínio de certos valores organizacionais.

Radcliffe-Brown (1978, p. 23 – grifo do autor), ao falar em ritos e rituais, diz que “a função de qualquer atividade recorrente, tal como a punição de um crime ou uma cerimônia funerária, e a parte que ela desempenha na vida social como um todo é, portanto, a contribuição que faz a manutenção da continuidade estrutural”. O autor (1978) considera a sociedade como um sistema social amplo, ou seja, um grupo de pessoas que estabelecem certas relações e que, ao ser estudada, é vista como uma unidade. Ou seja, uma sociedade, na sua totalidade, é uma organização social.

Constata-se, então, que Radcliffe-Brown (1978), ao mostrar como a existência de uma sociedade depende da existência de certos sentimentos na mente de seus membros, explicaria ou demonstraria que esses sentimentos são avivados, mantidos e transmitidos pelos mitos, materializados pelos ritos e pelos fenômenos sociais.

É importante considerar que, para o autor, a existência de uma sociedade requer que sua estrutura econômica [as relações de produção indispensáveis à vida humana] sejam reproduzidas, asseguradas e legitimadas no âmbito das representações e dos sentimentos, nas maneiras de pensar, e não somente nas maneiras de agir nas práticas sociais.

Ainda, é oportuno dizer que, para Radcliffe-Brown (1978, p. 14), a interpretação dada aos mitos é a mesma que é dada para os ritos. Para tanto, ele diz que:

Os mitos servem para expressar certas maneiras de pensar e de sentir sobre a sociedade e sua relação com o mundo da natureza, e por esse meio manter esses modos de pensar e de sentir e passá-los às gerações sucessivas. Tanto no caso do ritual como do mito, os sentimentos expressados são aqueles essenciais à existência da sociedade.

De forma muito semelhante, Eliade (1972, p. 22) entende que “os mitos revelam que o mundo, o homem e a vida têm uma origem e uma história sobrenaturais, e que essa história é significativa, preciosa e exemplar”. O mito sempre demonstra, aos mais jovens, o sentido da vida. Essa revelação se dá por meio da linguagem, de uma narrativa e da repetição de rituais. Ele é uma forma de responder às questões sobre a origem do mundo, dos elementos utilizados em rituais. O mito serve para estabelecer leis e códigos de ética para que um determinado povo de uma cultura os siga. Também é visto, utopicamente, como um conjunto de ideias e crenças que, aplicadas, trazem a felicidade ao ser humano.

Eliade (1972, p. 16) diz que os mitos falam daquilo que o ser humano se tornou, ou seja:

Os mitos narram não apenas a origem do mundo dos animais, das plantas e do homem, mas também de todos os acontecimentos primordiais em consequência dos quais o homem se converteu no que é hoje, um ser mortal, sexuado, organizado em sociedade, obrigado a trabalhar para viver e trabalhando de acordo com determinadas regras.

Buscando entender a construção dos mitos manifestados nos rituais, a antropologia permite investigar os rituais humanos, buscando o acesso aos relatos, próprios de um sistema de comunicação. Esta linguagem, em que o ritual se coloca, pode ser caracterizada por um conjunto de símbolos que, ao serem acionados, comunicam socialmente e dão sentido à realidade e ao desejo de conhecer a origem das coisas.

Nesta acepção, a seguir serão apresentadas as classificações de ritos e rituais propostas por Radcliffe-Brown (1978) e por Trice & Bayer (1984).

QUADRO 1 – Classificação dos Ritos por Radcliffe-Brown (1978)

Ritos e Rituais Significados e interpretação

Sistema social Conduta dos indivíduos regulada pela necessidade da sociedade. Costumes da sociedade São expressos em sentimentos e recebem expressão coletiva em

ocasiões apropriadas. Expressão coletiva

de sentimentos transmiti-los de geração para geração. Servem para manter acontecimentos na mente do indivíduo e Fonte: Adaptado, pela pesquisadora, a partir de Radcliffe-Brown (1978).

O autor utiliza a noção de função para interpretar os significados dos rituais de uma determinada sociedade estruturada. Já, os autores Trice & Bayer dizem que é por meio dos ritos e rituais que as regras sociais são definidas, estilizadas, convencionadas e principalmente valorizadas.

QUADRO 2 – Classificação dos Ritos por Trice & Bayer (1984)

Ritos e Rituais Significados e interpretação

Ritos de Passagem segundo os autores, podem ser aplicados na mudança de Com base em Van Gennep, os ritos de passagem, status profissional e na inserção do indivíduo no meio organizacional por meio de treinamentos.

Ritos de Degradação

Esta modalidade de ritual se aplica no desligamento do indivíduo da corporação ou na troca de cargo, caracterizado pela perda do poder, proporcionando a perda da identidade social.

Ritos de Confirmação

Objetivam reforçar as conquistas da corporação e de seus empregados, exteriorizando os resultados positivos. Segundo os autores, a promoção deste ritual serve de incentivo aos membros da corporação.

Ritos de Reprodução A materialização desses rituais se volta a cerimônias que visam renovar a posição ocupada por lideranças e gestores de corporações.

Ritos de Redução de Conflitos opiniões ou posições corporativas/sociais. Servem para mostrar que são meios de convergência de

Ritos de Integração

São bons para promover sentimentos e fazer com que eles recebam expressão coletiva em ocasiões apropriadas. Os autores tomam como suporte os estudos de Radcliffe- Brown (1978) e dizem que estes rituais são bons para manter os grupos sociais coesos, sobretudo os grupos que atuam no meio corporativo.

Os rituais que mais constam nas empresas - de acordo com Trice & Bayer (1984) - são os de ingresso/integração. Eles acontecem quando um novo membro chega ou quando ocorre a troca de cargo de um empregado, levando-o a elaborar uma nova identidade social. A promoção de atividades que envolvem aspectos práticos e motivacionais tende a acionar mecanismos em que os sentimentos de empregados são elaborados de acordo com o novo espaço social e profissional. Os autores (idem) ressaltam, ainda, que os rituais de passagem servem como resposta adaptativa obrigatória e são fundamentais em momentos em que indivíduos mudam de posição dentro de um sistema.

Percebe-se que Trice & Beyer (1984) dão significativa importância em observar o objetivo de determinado ritual e de planejá-lo previamente pois, muitas vezes, os rituais passam a exercer apenas caráter festivo. Em tais situações acabam por não assumir o seu papel principal na continuação, disseminação e até mesmo na revalorização da cultura, baseando-se na dramatização de valores e conflitos, com vistas a facilitar a transição de papéis que os empregados passam a assumir.

Desta forma, é fundamental que cada empresa identifique e desenvolva seus rituais de modo a entrar em consonância com seus valores e cultura para que os mesmos sejam fonte de solidificação e promotores de integração, ao mesmo tempo em que possam servir de respostas aos anseios e expectativas dos novos integrantes de corporações.

A partir de contribuições dos pensadores Radcliffe-Brown e Trice & Bayer, que possibilitaram a produção dos quadros-referência para o estudo, é importante considerar que os rituais são formas usadas para manutenção e difusão da cultura, incluindo suas representações e significados. Ou seja, o ritual pode ser o meio escolhido, no contexto de corporações, para invocar as relações ordenadas que se supõe que devam existir entre os seres humanos.

Trice & Bayer (1984) sinalizam este fato ao afirmar que o estudo dos rituais promovidos, no meio corporativo, seja realizado com base na tipologia apresentada, composta por seis tipos de ritos. O detalhamento das definições destas tipologias será apresentado no ponto a seguir.