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Da obra de Lefebvre “A Produção do Espaço” (de 1974, na versão inglesa de 1991), Fernandes (2005) resgatou a ideia de que os homens em suas relações sociais produzem diversos tipos de espaços sociais concretos, materiais e imateriais, introduzindo na sua compreensão o tempo histórico, os processos que definem a produção do espaço.

O ponto de partida da abordagem marxista do espaço é o pressuposto de que ele é produzido por processos que se estabelecem a partir das relações de produção, da divisão social do trabalho, que articula espaços delimitados inseridos através de determinadas mediações e escalas na totalidade das relações mundiais. Adotar a nova significação do espaço geográfico enquanto espaço social implica analisar o papel das classes e do Estado na produção desse espaço que expressa o desenvolvimento capitalista desigual e combinado/contraditório.

O primeiro autor que se autodenominou defensor da abordagem materialista - histórica e dialética de Marx para embasar sua teoria espacial foi Lefebvre, que se diferenciou dos antecessores ao introduzir o conceito de “produção do espaço” relacionada com a prática social, como campo de ações de um indivíduo ou grupo social.

Lefebvre (2008) afirma que a especificidade dos tipos de espaço corresponde à instância determinante e dominante, do modo de produção, no caso do capitalismo: o econômico. A divisão do espaço, em termos de divisão econômica, no modo de produção capitalista significa uma organização do espaço especifica para cada um dos elementos do processo de produção imediata (força de trabalho e reprodução da força de trabalho, meios de produção e reprodução dos meios de produção), da gestão do processo de trabalho e do processo de circulação do capital.

68 Por exemplo, uma cidade tem uma forma circular ou quadrangular (radiocêntrica ou

Numa economia tão complexa como a do capitalismo avançado, ou melhor, no estágio monopolista do modo de produção capitalista, os meios de produção não se organizam no plano espacial ao nível de uma empresa; o meio de interdependências técnicas generalizadas, os recursos comuns, as “economias externas” (para os marginalistas) realizam-se numa escala muito maior e os dois últimos processos, referentes à gestão e à circulação do capital, caracterizam-se por sua deslocalização tendencial do espaço enquanto fonte de especificidade69.

No modo de produção capitalista, segundo o filósofo, a produção do espaço é campo de atuação para a reprodução de determinados capitais, nos circuitos industrial e financeiro, que adquirem importância crucial nos mecanismos gerais da reprodução ampliada do capital. A produção do espaço se faz com contradições (do espaço e no espaço), decorrentes da capacidade técnica e científica desigual de uma produção do espaço social em escala planetária e dos termos da troca.

As “[...] relações de propriedade que lhe são inerentes [distribuição] expandem-se submetendo crescentemente em seu favor o que era passível de apropriação pelo uso.” (LEFEBVRE, 2008, p. 10). Lefebvre buscou compreender as contradições da urbanização acelerada, expressão espacial do crescimento quantitativo da economia e das forças produtivas (riqueza) para os propósitos da acumulação de capital, na França pós-Segunda Guerra Mundial, que provocou a deterioração da vida social70. Tal processo foi experimentado também pela sociedade brasileira, com agravantes decorrentes de especificidades históricas do surgimento e desenvolvimento desta formação socioeconômica ou sócio espacial, conforme Milton Santos.

69 O tempo, ao contrário, torna-se mais e mais central no processo, fracionando-o em

operações especificas segundo a velocidade diferencial de realização.

70 A expansão das cidades resultou na degradação da arquitetura e do quadro urbanístico e na

racionalidade segregadora para ordenar o espaço: com a constituição/deslocamentos dos centros de decisão, riqueza, poder, informação, conhecimento etc e dispersão/expulsão dos trabalhadores “incômodos” para as periferias desurbanizadas, distanciadas dos centros urbanos, criando uma segregação econômica, social e cultural. Do ponto de vista do habitante da cidade, trabalhador e consumidor, ele compra um espaço loteado, povoado com signos de prestigio e hierarquia social, adquire uma distância que vincula sua habitação aos lugares separados (trabalho, centro de comércio, cultura, decisão/poder, lazer/de recuperação, reprodução da força de trabalho) que implica no emprego do tempo recortado. A característica essencial da reprodução social são os espaços-tempo despedaçados, ligados à reprodução das relações sociais de produção (LEFEBVRE, 2008).

Segundo Lefebvre (2006) com o neocapitalismo moderno três níveis se imbricam no espaço social, que tem um papel nesse triplo arranjo: o da reprodução biológica (da família), o da reprodução da força de trabalho (a classe operária como tal) e o da reprodução das relações sociais de produção, constitutivas da sociedade capitalista. O espaço social incorpora atos sociais, de sujeitos ao mesmo tempo coletivos e individuais - a prática espacial - e contém certas representações (simbólicas) dessas interferências das relações sociais de produção-reprodução - as representações do espaço (conhecimentos, signos, códigos, relações formais) e os espaços de representação, isto é os espaços naturais e sociais práticos, produzidos, apropriados, vividos por um indivíduo ou grupo social, e, ao mesmo tempo simbólicos, porque carregados das referidas representações (simbolismos, arte, subterrâneos da vida social)71.

O filósofo marxista argumenta que as contradições e conflitos da produção das coisas no espaço – gestão e posse dos meios de produção - são reproduzidas e ampliadas pelas contradições do espaço, como a tendência atual de constituir centros de decisão que pretendem reunir tudo num território restrito (raridade do espaço) e, por conseguinte “[...] a penúria do espaço, resultante de um processo cego de origem histórica é mantida, consentida, desejada e expressamente organizada [...]”; articuladas com as relações sociais de produção e reprodução que implica estratégias e táticas políticas (LEFEBVRE, 2008, p. 124).

Eis uma contradição profunda entre todas – o espaço é conhecido, reconhecido, explorado, balizado, elaborado a escalas colossais, enquanto conjunto englobando a Terra e o sistema solar. Intensificam-se as possibilidades de ocupá-lo, mobilizá-lo, preenchê-lo, de produzi-lo. As informações afluem anulando as distâncias, que desdenham da materialidade dispersa no espaço e no tempo. Ao mesmo tempo o espaço é artificialmente rarefeito para valer mais caro, ele é fragmentado, pulverizado, para a venda no atacado e varejo. Ele é o meio das segregações. As ciências parcelares o recortam (economia politica, história, sociologia e demografia) e só se reencontra a unidade nas laboriosas montagens interdisciplinares [...] O imobiliário e a construção deixam de

71 Capacidade prática da sociedade dispor de lugares religiosos (rituais) e políticos; povoados

de significante e significado. Uma realidade superior prático - social e espacial se vive antes de se conceber (LEFEBVRE, 2006).

serem circuitos secundários e ramos anexos do capitalismo industrial e financeiro para passar ao primeiro plano, ainda que desigualmente, o que se refere à grande lei bastante conhecida do desenvolvimento desigual. (LEFEBVRE, 2008, p. 125-126, grifos nossos).

A mobilização do espaço se inicia no solo, reduzido ao solo possuído a titulo de propriedade privada, e se estende ao espaço inteiro; o espaço loteado, como os objetos para o consumo (automóveis, móveis, vestuário, alimentação) recebe valor de troca, expresso em dinheiro e em signos de prestígio e de posição social (diferenças no interior da sociedade burguesa), e implica em “intercambialidade, comparabilidade entre lugares na oferta e procura”. Há um consumo ostensivo do espaço pela burguesia e pelas classes médias72.

Os autores marxistas, como afirma Conceição (1991; 2009b) enfatizam o caráter multiescalar do espaço. Segundo ela a relatividade do espaço decorre do fato deste estar sempre em movimento histórico e articular todas as escalas com o conjunto das relações sociais de produção. Ou seja, no espaço articulam-se ao mesmo tempo diferentes dimensões escalares com o movimento histórico do capital na escala global.

Para Lefebvre (2008), na Economia Politica do Espaço73, valor de troca e valor de uso se reencontram numa relação dialética, pois ambos situam-se no espaço. A forma espacial, com suas novas contradições: a do centro (que depende de um poder) e a periferia desempenha um papel, na medida em que o monopólio do solo (do espaço) adiciona seus efeitos aos do capitalismo

72 Lefebvre (2008, p.125-

126) se opõe à “[...] cansativa sistematização tentada pela escola estrutural – funcional-marxista (Louis Althusser) sobre o Modo de Produção, fechado por suas preocupações [na qual] a lógica de classe não existe.”.

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A incipiente economia politica do espaço é uma economia implicando uma política (uma ou várias estratégias). A política se adianta à economia porque lida com a questão do poder (apesar de se discernir mal da economia urbana, um caso de economia clássica e da politica econômica tradicional, que estuda de forma objetiva e válida: custos, transportes, equipamentos etc). É a expressão teórica e crítica de uma prática social no quadro da sociedade existente (das relações de produção capitalista) embora não anule a produção dos bens de consumo (duráveis ou não) nem seus problemas, tende a mostrar os deslocamentos que se realizam na prática - substituições de agentes e de pessoas, transferências de responsabilidades, usurpações de competências e poderes, ideologias, confrontações e estratégias novas. O problema da posse e da gestão dos meios de

produção permanece intocado, embora deslocado para a produção, para a gestão, para a

organização do espaço, o que amplia as contradições ao invés de abolí-las. Essa critica teórica da realidade, não revoga os conceitos elaborados por Marx (valor de uso, valor de troca) nem seu método, ela os transforma ao transpô-los para uma escala mais ampla, para um outro nível – espacial, da escala local à planetária. (LEFEBVRE, 2008).

monopolizador; porque o pagamento das rendas do uso do solo depende da sua propriedade e porque, do ponto de vista simbólico, os espaços produzidos podem ser insignificantes ou supersignificantes. “Tudo no quadro controlável e controlado da penúria do espaço pode figurar numa mesma estratégia, pode entrar em conflito” (LEFEBVRE, 2008, p.125-126).

Lefebvre (2008) considerou o conceito de composição orgânica do capital (proporção do capital variável e de capital constante) um dos mais importantes do pensamento marxista, destacando a espacialidade do mesmo, que se refere a uma localização. A teoria de uma composição desigual dos capitais e de uma composição orgânica média (não concerne apenas às empresas, aos ramos industriais separadamente, mas se estende às regiões, países) de uma tendência ao crescimento da composição, faz parte das teorias e leis tendenciais descobertas por Marx,

[...] embora raramente seja considerada no critério do desenvolvimento e do subdesenvolvimento não há dúvida de que essa noção apresenta as características mais pertinentes a esse respeito, pois ela compreende simultaneamente o processo (tendência desigual ao crescimento da composição orgânica do capital) e o resultado (competição, confrontação dos valores de troca produzidos por capitais de composição média desigual segundo o setor e o país) as transferências de capitais (de mais valia) de um país ou de um setor a outro desempenham um papel incessante á escala mundial. (LEFEBVRE, 2008, p. 134).

Afirma este autor que as distintas composições orgânicas do capital, que se concretizam enquanto relações espaciais não separam os espaços – geográficos, econômico, político, ao contrário, refere-se a espaços sócio- econômico e sócio-políticos (conceito de concreto espacial). “Desse modo o valor de uso do espaço torna-se politico”. A mudança de escala é qualitativa (na local o comprador de um volume habitável adquire um tempo cotidiano e aprazibilidade; uso imediato do espaço). Na escala global, planetária o poder de Estado (político) que domina um espaço adquire potência e instrumento de potência; o espaço tem um uso mediato direto (lucros) e indireto (estratégias). “Nesse nível, nessa escala, as estratégias políticas servem-se do espaço duplamente: utilizam todos os recursos dos espaços ricos e se desenvolvem em todos os espaços existentes.” (LEFEBVRE, 2008, p. 135).

Nesse sentido, as mencionadas diferenças nas composições orgânicas dos capitais (econômicas) dão suporte às contradições à escala das estratégias. O mercado mundial das mercadorias, dos capitais (seu principal componente) ganha uma existência concreta a partir do momento em que ocupa o espaço e se reparte em espaços determinados – centros-periferias, significações e não significações (conceito de concreto espacial)74, bem como outras oposições/contradições expressas ou dissimuladas - troca-uso, totalidade-fragmentação, homogeneidade-diferença e produção-autodestruição. No espaço das forças produtivas e dos meios de produção, de uma economia politica do espaço, onde os centros urbanos ganham destaque, para o bem e para o mal,75 não é possível escapar às consequências da lei de desenvolvimento desigual.

O arcabouço teórico-conceitual marxista atualiza a compreensão das profundas mudanças econômicas e políticas que ocorrem no mundo na contemporaneidade e as contradições sociais e espaciais que acarretam ou aguçam os conflitos de classe. A diferenciação do espaço, a produção de uma sociedade desequilibrada e desigual e de um desenvolvimento espacial desigual, se deve à divisão social e territorial do trabalho, que se estabelece no processo de acumulação capitalista, que produz e distingue espacialmente, possuidores e despossuídos.

No Brasil, um marco que iria nortear a discussão sobre o desenvolvimento capitalista desigual, mais precisamente sobre as causas do subdesenvolvimento do país foi a criação da Comissão Econômica para a

74 O espaço concreto não coincide com nenhum dos recortes que o analista nele efetua, ele se

concebe como um envolvimento de níveis sucessivos. No nível elementar (micro) as unidades de produção e as áreas de troca e de consumo mantém sua importância (produtos estudados pela economia clássica ligados à história com a praça do mercado o mercado central e o campanário, nas cidades). No nível mais elevado há o mercado mundial (espaço planetário) com seus componentes mais próximos, os países (caracterizados por uma composição orgânica do capital). Entre ambos existem as cidades e as grandes zonas urbanas. (LEFEBVRE, 2008).

75 As cidades e grandes zonas urbanas desempenham um papel cada vez mais considerável

sob todos os pontos de vista e seus problemas tornam-se essenciais. Considerados em relação às forças produtivas, para estimulá-las ou freá-las, os espaços urbanos tem uma importância decisiva, e também nos problemas políticos. Cidades: incontroláveis, insuportáveis, ingovernáveis. Salvar as cidades! Se torna a palavra de ordem política. Os problemas não resolvidos (insolúveis certamente no quadro social e politico atual: nas relações de produção existentes) reagem sobre o conjunto da sociedade: degradação da vida cívica e social, tendência à baixa da produtividade e das taxas de crescimento, embora os poderes políticos continuem visando a perseguição indefinida do crescimento (LEFEBVRE, 2008).

América Latina – CEPAL, como órgão regional da Organização das Nações Unidas - ONU, em 1948, propondo ações (reformistas) para superá-lo, no bojo dos governos liberais populistas. A nova teorização econômica cepalina por meio dos trabalhos de Raul Pebrisch e sobretudo, do economista brasileiro Celso Furtado, avançou na elaboração da “Teoria do Subdesenvolvimento”, que se contrapunham aos economistas neoclássicos.

Analisando a participação de geógrafos brasileiros nesse debate, Conceição (1991) destacou que, eles vinham formulando seus escritos fundamentados na teoria do desenvolvimento desigual em concordância com as análises dos clássicos marxistas. Havia variação nas abordagens76 entre os autores, influenciada pela própria realidade sócio-política estudada.

André Gunder Frank (1970 apud CONCEIÇÃO, 1991, p.109) “[...] avançou na compreensão do conceito de dependência ideologicamente subentendido na visão da dualidade, como necessária, e intrínseca na mudança [...]”77, assimilado tanto pela “burguesia progressista nacional”, como pela esquerda.

Ao analisar o movimento contraditório em relação à totalidade das leis e categorias da dialética, o sociólogo e economista Francisco de Oliveira em sua obra “Crítica da Razão Dualista” (1971) realizou a critica marxista da análise funcional, dualista, nas suas duas vertentes: teoria do desenvolvimento desigual (historicista) e teoria da modernização (neopositivista)78. O autor em outra obra na qual homenageia Celso Furtado “A Navegação Venturosa” afirma que se baseou na teoria do desenvolvimento desigual e combinado para analisar a relação agricultura-indústria e seus distintos papéis na acumulação do capital na economia nacional, por trás da problemática da desigualdade regional Nordeste-Sudeste.

76 Como exemplo dessas variadas concepções Lefebvre (2006; 2008) menciona teoria do

desenvolvimento desigual; Francisco Oliveira (1971), Conceição (1991) e Lowy (2000) referiram-se à teoria do desenvolvimento desigual e combinado e Ariovaldo Oliveira (2004) à teoria do desenvolvimento desigual e contraditório.

77

Conceição (1991, p. 118) cita FRANK, A.G. “O desenvolvimento do subdesenvolvimento” (1970) e “Lupenburguesia: lumpendesarrollo”. “La palabra ‘dependencia’ no es mas que um eufemismo ya aceptable para encubrir la subordinación, opresión, alienación y el racismo imperialista y capitalista internos como externos que sufre el empobrecido pueblo, y – como diría un Franz Fanon o un Jesus Cristo – que sufre aún el próprio explotador y opresor mientras que el oprimido no logra liberasse a sí mismo y así a ambos!”.

Lefebvre também refletia a partir do desenvolvimento desigual sobre a organização do espaço em unidades específicas e articuladas, segundo os arranjos e os ritmos dos meios de produção, corresponde ás distinções das práticas sociais em termos de regiões de um dado país:

A questão regional expressa em termos de desequilíbrios econômicos no interior de um mesmo país, a realidade conhecida de modo imediato e o que a tradição marxista trata como efeitos do desenvolvimento desigual do capitalismo, isto é, desenvolvimento desigual das forças produtivas e especificidade na organização dos meios de produção, segundo um ritmo diferencial ligado aos interesses do capital. Desenvolvimento desigual dos setores econômicos, exploração desigual dos recursos naturais, concentração dos meios de produção nas condições mais favoráveis, criação de meios produtivos ou ‘unidades de produção complexas’, eis as bases econômicas daquilo a que se chamam as regiões e as disparidades regionais. (LEFEBVRE, 2008, p.08, grifos nossos) 79.

Os estudos de Milton Santos sobre a produção de espaços diferenciados se coadunavam com a mencionada discussão do desenvolvimento (capitalista) desigual que perpassava diversas ciências sociais, a começar por Lefebvre80, numa abordagem geral (nos diversos continentes) e outros estudiosos dedicados à história econômica na América Latina, mencionados por Conceição (1991).

Sendo o espaço produzido por processos que se estabelecem a partir das relações sociais de produção e da divisão social do trabalho, que articula espaços delimitados, inseridos através de determinadas mediações e escalas na totalidade das relações mundiais, a Geografia Crítica dedica-se em primeiro lugar à análise do espaço unilateralmente produzido, pela lógica econômica do

79 Existe naturalmente uma especificidade histórica e cultural das regiões enquanto

sobrevivência de outra divisão política ou ideológica do espaço em outros modos de produção.

80 Crescimento e desenvolvimento não coincidem; o primeiro não conduz automaticamente ao

segundo. Lefebvre (2008) se antecipa em quase três décadas do reconhecimento desse debate nos fóruns internacionais sobre o desenvolvimento, promovidos pelo PNUD/ONU; que resultaram na criação do Índice de Desenvolvimento Humano – IDH (no qual o PIB per capita é apenas um dos indicadores mensurados juntamente com mortalidade infantil e taxa de escolarização), como parâmetro de análise da situação dos países (ranking anual) e avaliação de políticas governamentais.

grande capital (na escala internacional) ou em menor escala (nacional), articulada com a lógica político-econômica do Estado81.

Nos escritos de 1979, Milton Santos reflete sobre a produção do espaço pelo capital: em “Economia Espacial – críticas e alternativas” (2003) reflete sobre o movimento do capital na contemporaneidade que ele denomina de “a totalidade do diabo”, discutindo como essas formas geográficas que difundem o capital mudam as estruturas espaciais, tanto no mundo rural, quanto no mundo urbano. Em “O Espaço Dividido” (2004) analisou a economia urbana e a relação campo-cidade nos países subdesenvolvidos. A organização espacial nesses países, decorrente do processo de modernização diferenciadora, resultava na coexistência de dois circuitos econômicos - superior e inferior, interligados, com a mesma origem, mesmo conjunto de causas.

Em “Espaço e Dominação: Uma Abordagem Marxista”, de 1979, afirma que no espaço organizado pelo homem, se identificam as formas, os fixos e também as interações espaciais, os fluxos82. E decorrentes da modernização diferenciadora (relações entre espaço, técnica e tempo), introduzidas pelo capital, identifica relações entre espaço e dominação.

No livro ”Metamorfoses do Espaço Habitado”, de 1988, quando analisou os fundamentos teóricos e metodológicos da Geografia, Santos reflete sobre a heterogeneidade espacial que se tornou visível a partir das transformações ocorridas na metade do século XIX: expansão da população mundial, migrações maciças do velho para o novo mundo; a exploração urbana e metropolitana (a criação de um meio geográfico artificial que se torna um espaço do homem), exigindo a atualização das categorias geográficas de região e paisagem.

Sua reflexão no livro “Técnica, Espaço, Tempo: Globalização e Meio Técnico – Científico Internacional”, de 1994, resgatada por Corrêa (2005) trata

81 Haesbaert (2002, p.09 -10) estende para o marxismo em geral, sua crítica à vertente mais

ortodoxa, por valorizar a dimensão econômica, voltada para “[...] a tradicional abordagem da função produtiva do espaço, organização econômica, produzindo sua divisão territorial do

trabalho”.

82 Conforme Saquet (2007) para Vicenzo Vagaggini e Giuseppe Dematteis na década de 1970,

o ideário do materialismo dialético possibilitou uma compreensão mais coerente das