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A primeira vez que Karl Marx se deparou especificamente com a questão agrária, foi em 1842/43 como redator do jornal Rheinische Zeitung/Gazeta Renana, publicado em Colônia (Alemanha). Naquele conflito do vale do rio Mosela, na Renânia (região alemã que mais sofria a influência da industrialização francesa da era napoleônica) o direito consuetudinário dos

119 A abordagem da questão agrária neste tópico se apoia na pesquisa histórica, a partir de

fontes bibliográficas, sendo a visão retrospectiva do passado adotada como elemento teórico fundamental, para compreender o presente.

camponeses às terras comunais de florestas contíguas às aldeias (que existia em toda a Europa como instituição feudal) essenciais para complementar sua subsistência e garantir sua reprodução social, era flagrantemente desrespeitado, diante do interesse do capital por aquelas terras.

O direito consuetudinário dos camponeses às terras comunais referido por Marx merece ser aprofundado, resgatando-se teórica e historicamente a evolução da concepção jurídico-política-ideológica (superestrutural) sobre o direito social ao qual historicamente a luta camponesa se refere; que é retomado em parte na luta mais recente pela reforma agrária – o direito de propriedade da terra aos camponeses e “sem terra”.

Este direito natural (direito humano fundamental) estava presente nas teorizações clássicas sobre a relação: Estado e Sociedade na filosofia social. Garantir o acesso a terra representava a luta do “campesinato” pela inclusão social e pela participação política, por liberdade e igualdade. A batalha no campo jurídico pela terra, analisada da ótica das classes populares, particularmente do campesinato reflete a correlação de forças de cada período histórico, isto é, os interesses materiais em jogo, e como estes se articulam com as lutas políticas e as formas de consciência social, ou seja, com a ideologia religiosa e também as teorias filosóficas e científicas.

Apesar de serem praticamente “invisíveis” na história oficial dos que detém o poder, como afirmou Leo Huberman (1980), foi possível captar alguns exemplos da inter-relação entre o enfrentamento da desigualdade social pelos segmentos populares, que se insurgiu contra a grande propriedade privada fundiária, dentre eles os camponeses e significativos avanços em termos de direitos reivindicados e concretizados para a ampla maioria da população. Nessas raras circunstâncias históricas em que a reforma agrária (democratização da terra) foi conquistada, desde a antiguidade clássica, foi alcançada a democracia plena.

O renascimento, marco do alvorecer da Idade Moderna, significou o resgate da cultura da antiguidade. Os grandes pensadores ocidentais, a partir do século XV, retomaram as teorias dos pensadores gregos sobre a natureza e

sobre a o homem como pontos de partida, consolidados ou refutados, nos debates da modernidade.

A história greco-romana foi sistematicamente investigada e seu patrimônio cultural em grande parte incorporado, como o jusnaturalismo versus o positivismo jurídico, que contraditoriamente influenciaram o direito moderno no Ocidente e, sobretudo este último, o desenvolvimento da ciência do direito. A riqueza e complexidade de formas de organização econômica, social e política, reforçaram os argumentos das diversas posições no embate de ideias. A conceituação de “sociedade civil” esteve no centro do debate da filosofia moderna, no entanto, nas definições clássicas sobre política, Estado e sociedade apareciam fundidos. A gênese da expressão “societas civilis” resgatada por Jean Cohen e Adrew Arato, em seu estudo de 1992, segundo Sérgio Costa (1997), estaria na tradução para o latim do conceito grego “koinonia politique” de Aristóteles, que se refere a uma comunidade pública ético-política de iguais, existindo um éthos compartilhado por todos os membros da comunidade social da pólis120. O Estado tinha a função de assegurar a felicidade e a virtude dos cidadãos, sendo a política e a moral - “o que seria certo fazer”, mutuamente referenciadas.

Naquele contexto, segundo Guido Fasso (2000) o jusnaturalismo121 era uma doutrina o qual pode ser conhecido como um sistema de normas de conduta intersubjetiva com base no ‘direito natural’ (jus naturale), eticamente superior ao sistema constituído pelas normas fixadas pelo Estado (direito positivo), isto é, em caso de conflito, é ele que deve prevalecer que tem referência direta aos valores éticos.

Conforme Souto Maior (1972) o antigo direito consuetudinário, isto é, baseado no uso e nos costumes transmitido oralmente, passou a ser direito escrito, com a “Lei das Doze Tábuas”, que é considerada a mais antiga lei romana. Princípios gerais desses antigos costumes foram condensados

120 Na Grécia antiga a palavra cidade (em grego polis) designava um verdadeiro Estado,

embora pequeno, que compreendia além da cidade propriamente dita as áreas agrícolas próximas.

121

Nos pensadores da Grécia antiga encontram-se elementos para a construção inicial do jusnaturalismo desde Antígona, Calicles, Hípias, Antífonte, Alcidamante (esses três últimos proclamavam o que é justo conforme a igualdade natural de todos os

homens), Platão, Aristóteles, mas sua elaboração deveu-se aos estoicos, para quem toda

através dos editos, para orientar os julgamentos dos magistrados encarregados da justiça, e, ao aplicarem e interpretarem a lei criaram duas espécies de direito: “jus civile”, relativo aos cidadãos romanos (que distinguia entre homem, sua condição física e pessoa, sua qualificação jurídica) e, complementando o primeiro, o “jus gentium” dizia respeito a todos os povos de maneira geral; este

último autorizava a escravidão (os escravos não eram considerados pessoas e, por isso eram destituídos de quaisquer direitos) e a existência da propriedade privada. O “Edito Perpétuo” codificou o direito dos magistrados e dos imperadores (no século II d.C).

Como apregoava o filósofo romano Cícero (De República), existia um “jus naturale”, que não era propriamente um conjunto de leis e sim a ideia de que, acima do Estado e das instituições, existe um princípio de justiça válido universalmente, ou, uma lei verdadeira conforme a razão justa, consoante à natureza comum a todos os homens, constante, imutável e eterna, ou seja, que não muda com os países e com os tempos e que o homem não pode violar sem renegar a própria natureza humana. Essas ideias influenciaram pensadores cristãos, medievais e modernos.

Quando surgiu a forma estatal moderna nasceu à reflexão sobre ela. O diplomata florentino Nicolau Maquiavel (1469-1527) foi o primeiro teórico da formação dos Estados modernos, ao realizar a narrativa histórica da ação de diversos princípios baseados no método comparativo e na observação da realidade efetiva, da sua época, separada da imaginação122, tanto no campo da moral, quanto da religião - inaugurando a ciência política objetiva (do Estado). Conforme Hegel, De Sanctis e Gramsci,

Maquiavel fundou uma nova moral que é a do cidadão, do homem que constrói o Estado; uma moral imanente, mundana, que vive no relacionamento entre os homens. Não é mais a moral da alma individual que deveria apresentar-se ao julgamento divino ‘formosa’ e limpa. (GRUPPI, 1980, p.11).

122 Antes de Maquiavel, a teoria do estado e da sociedade não ultrapassava os limites da

especulação filosófica. Em Platão (428-348 aC), Aristóteles (384-322 aC), Santo Agostinho (o Estado era uma preparação dos homens ao Reino de Deus), Tomás de Aquino (1225- 1274) ou Dante (1265-1321), o estudo desses assuntos vinculava-se à moral e constituía-se como teoria de ideais de organização política e social, da mesma forma que seus contemporâneos, como Erasmo de Rotterdam (1465-1536) no ‘Manual do Príncipe Cristão’ ou Thomas More (1478-1535) na ‘Utopia’, que na base do humanismo abstrato constroem modelos ideais do bom governante de uma sociedade justa” (XAVIER, 1996).

Segundo Sergio Bath (1999, p. 07) a presença do egoísmo, ambição, maldade, desejos e paixões, separaram o político da ética e do direito, “[...] propondo para o Príncipe normas diferentes das aplicáveis aos cidadãos comuns.”. Maquiavel antecipou alguns temas do debate que ocorreria nos séculos seguintes sobre as relações sociais e sobre o governo civil

[...] o cidadão que se torna soberano não por meio do crime ou de violência intolerável, mas pelo favor dos seus concidadãos: é o que se poderia chamar de governo civil [...] chega-se a ele com o apoio da opinião do povo ou da aristocracia. (MAQUIAVEL, 1999, p.31).

Os aristocratas segundo ele eram poucos, ricos e dominadores e o povo (a burguesia e as massas) era caracterizado pelo seu grande número e combatividade. Ele registrou o confronto entre essas forças sociais.

Em todas as cidades se pode encontrar esses dois partidos antagônicos, que nascem do desejo popular de evitar a opressão dos poderosos e as tendências desses últimos para comandar e oprimir o povo. Desses dois interesses que se opõem surge uma das três consequências: o governo absoluto, a liberdade ou a desordem. (MAQUIAVEL, 1999, p.31).

Dos três desfechos possíveis da luta social, que ele aponta, a “desordem” decorrente do “ávido desejo de lucrar” seria retomada, mais de um século depois, como “estado de natureza” (no debate sobre a relação entre Estado e Sociedade na filosofia social).

As duas outras são alternativas de governo civil, no qual o Príncipe devia contentar todos os súditos promovendo a conciliação dos interesses da aristocracia com os do povo.

Todos os Estados, todas os domínios que tem havido e que há sobre os homens foram e são repúblicas ou principados. Os principados ou são hereditários cujo senhor é príncipe pelo sangue, por longo tempo, ou são novos [...]. Ou são como membros acrescentados a um Estado [...] estes domínios assim adquiridos são, ou acostumados à sujeição a um príncipe, ou são livres, e são adquiridos com tropas de outrem ou próprios pela fortuna ou pelo mérito. (MAQUIAVEL, 1996, p. 33-35).

O governo absoluto era a primeira das alternativas de governo civil, no passado e na sua própria época com a ascensão dos principados na Espanha, Inglaterra, França e outros como Estados modernos e unitários, graças à iniciativa do príncipe, admitindo que o seu poder fundava-se mais “[...] no ser temido do que ser amado.”. Mas, ao mesmo tempo alertava, “[...] esses Estados correm perigo, quando o príncipe passa da posição de governante civil para a de senhor despótico.” (MAQUIAVEL, 1999, p. 32-33, negritos nossos).

A alternativa era a liberdade, relacionada às repúblicas, ou seja, às experiências democráticas (inclusive a vivida por ele no governo da comuna republicana de Florença). Afirmava que numa democracia o poder baseia-se no consentimento do povo e o “[...] príncipe, mesmo dos mais sábios não pode ser tão sábio como o povo.” (GRUPPI, 1980, p.8).

Para o objetivo desta tese interessa destacar da apresentação da obra de Maquiavel, feita por João Paulo Martins (1996) uma referência aos fundamentos da diferença entre as repúblicas e governos absolutos:

Em função do modo pelo qual os bens são compartilhados, as sociedades concretas assumem diferentes formas. Assim, onde persista ou possa persistir uma relativa igualdade entre os cidadãos, o fundador de Estados deve estabelecer uma república. Ocorrendo o contrário, manda a prudência, que seja constituído um principado. (MARTINS, 1996, p.18).

Seu conceito de república referia-se à existência de instituições distintas do monarca no governo da comunidade (como senado e magistrados na aplicação da justiça e outras funções). Na sua pesquisa histórica Maquiavel encontrou três modalidades de repúblicas: aristocrática “[...] em que uma maioria de governados encontra-se subordinado a uma minoria de governantes [...]” (Esparta); a democracia restrita, na qual se dá o contrário, isto é “[...] a maioria governa, mas não todos [...]” (Atenas) e a democracia ampla, “[...] quando a coletividade se autogoverna, fenômeno encontrado em Roma após a instituição dos tribunos da plebe e a admissão do povo à magistratura.” (MARTINS, 1996, p.18).

O mencionado período de democracia plena na República romana relacionou-se com a longa série de lutas sociais contra as desigualdades sociais e de direitos entre patrícios e plebeus e contra as arbitrariedades dos primeiros sobre os segundos. Entre os plebeus (nativos ou imigrantes) romanos (na fase monárquica) havia artesãos, comerciantes e pequenos agricultores, que habitavam as vilas “[...] a condição básica para a posse de terra era pertencer à comunidade [...]” (AUTOR, ANO, PÁGINA), já que o solo era dividido em duas partes: a parcela de cada cidadão romano e as terras públicas da comunidade (das quais era coo-possuidor).

Os plebeus recorriam às antigas leis romanas baseadas no direito consuetudinário (transmissão oral dos costumes) tentando resistir à implantação das grandes propriedades individuais (arrendadas ao senado e cavaleiros), trabalhadas por escravos, que asfixiaram a economia campesina, pela concorrência dos produtos importados das colônias. Quando o pequeno agricultor romano, era despojado de suas terras por dívidas e transformado em trabalhador avulso nas colheitas, deixava o campo para formar a numerosa massa de desocupados de Roma (convocada para a guerra), onde, apesar do Estado oferecer “pão e circo” para alienar a multidão, a insatisfação dos plebeus eclodia em revoltas.

Arruda e Pilleti (1995) referem-se a cinco grandes revoltas dos plebeus entre 494 e 286 aC quando obtiveram novas conquistas que permitiram crescente homogeneização social: a primeira consistiu na retirada em massa de Roma, estabelecendo-se no Monte Sagrado a poucos quilômetros da cidade (494 aC), o que afetou a segurança da cidade (por desfalcar o exército). Essa forma de luta possibilitou aos plebeus conquistarem o direito de possuírem defensores especiais, os dez tribunos da plebe (pessoas consideradas “sacrossantas e invioláveis”) no Senado, com o poder conjunto de veto das leis contrárias aos interesses de sua classe, que constituía a Assembleia da Plebe (471aC) para elegê-los.

A segunda revolta ocorreu em 450 aC sob a ameaça de retirarem-se novamente de Roma conquistaram a “Lei das Doze Tábuas de bronze” que fixava as leis que lhes dizia respeito e que sua assembleia pudesse encaminhar leis para Senado ou cônsul, além do direito de exercer a Ditadura. Com as outras três grandes revoltas viram atendidas algumas das suas

reivindicações econômicas e sociais e foram ocupando cargos públicos até nivelarem-se aos patrícios no direito político. Dois séculos depois das primeiras revoltas e de conquistas lentas estavam criadas as condições para a implantação de uma República democrática em Roma e “[...] por volta do século III aC, o regime republicano romano se caracterizava por um equilíbrio de poderes entre as classes em luta. Tal equilíbrio, no fundo escondia a existência de um Estado patrício e um Estado plebeu.” (ARRUDA; PILLETI, 1995, p.61).

No bojo dessa experiência romana de democracia plena destacada por Maquiavel, as reivindicações dos plebeus incluíam a distribuição de terras públicas e/ou a limitação do tamanho da propriedade dos ricos. Os tribunos da plebe e os camponeses protagonizaram a primeira e única proposta de reforma agrária na antiguidade ocidental. Conforme Maior (1972), Arruda e Pilleti (1995) e Morissawa (2001) a miséria das classes inferiores em Roma, provocadora de revoltas de escravos e plebeus pobres, preocuparam dois tribunos da plebe, eleitos num espaço de dez anos entre um e outro - Tibério e Caio Graco, filhos de um nobre romano, que se esforçaram por usar o peso político do cargo para restabelecer a classe média dos pequenos proprietários rurais que haviam feito a grandeza de Roma contra os interesses da oligarquia latifundiária.

Tibério Graco, eleito tribuno (em 133 aC), propôs uma lei segundo a qual ninguém deveria possuir de 310 acres de terra (Maior, 1972). Se fosse arrendatário, segundo Arruda e Pilette (1995) o limite seria de 125 hectares, mais 62,5 hectares para cada filho do mesmo. As terras que excedessem a tais limites voltariam às mãos do Estado que, as redistribuiria aos cidadãos pobres do campo e da cidade (7,5 hectares para cada um), possibilitando-lhes também empréstimos para o início dos trabalhos agrícolas.

Tal reforma agrária não interessava aos ricos ocupantes das terras públicas. Variam as versões dos estudiosos sobre o processo de aprovação dessa lei, que resultou no massacre de 300 revoltosos, inclusive do tribuno; porém o Senado não ousou revogar a lei agrária que fora aprovada.

Caio Graco no mesmo posto (123 aC) apoiado por mais ampla aliança de forças sociais, reascendeu a luta dos camponeses, quando o Senado revogou as leis que estendiam os benefícios da legislação de Tibério para as colônias romanas – Cápua e Tarento. Reiniciou-se uma luta armada e repetiu-

se o massacre e morte do segundo tribuno da plebe. Os historiadores não chegam a consenso sobre a extensão prática dessas reformas dos Gracos.

Mesmo que a sustentação popular tenha sido insuficiente diante do peso da aristocracia que destruiria a República romana e instauraria a tirania imperial, a experiência histórica, ainda que efêmera, mostrou em primeiro lugar a estreita correlação da democratização da terra (dos bens), reduzindo a desigualdade social, como base de uma democracia política plena, e, em segundo lugar, que essas “verdadeiras repúblicas” só existiram quando as classes populares, através das lutas sociais, conseguiram participar das decisões sobre a vida social e política da comunidade.

Segundo Maior (1972) mesmo durante a fase imperial, apesar da repressão, a pressão camponesa obteve algumas vitórias isoladas. No fim do século II o Império vivia a pior crise de sua história; registraram-se seguidas revoltas camponesas isoladas que eram facilmente abafadas. E no século III, na medida em que, o número de escravos caiu e o preço subiu, além das fugas facilitadas durante as invasões bárbaras; com as camadas urbanas fugindo da tributação, dirigindo-se para o campo, os latifúndios começaram a ser divididos em pequenos arrendamentos (os camponeses pagavam pelo uso da terra trabalhando alguns dias para os donos de terra), outros se tornavam colonos (presos à terra para sempre) e outros mais tornaram-se pequenos proprietários livres que punham suas terras sob proteção de um grande senhor123.

No único registro relativo ao mundo oriental, Morissawa (2001) referiu-se a revoltas de escravos, camponeses semi-escravizados e trabalhadores livres das cidades e dos campos contra o poder dos senhores feudais que resultaram na primeira reforma agrária radical da história, na Pérsia no século V da era cristã. O líder Mazdak preconizava a igualdade entre os homens, a coletivização da terra e a distribuição igualitária dos bens produzidos. No embate com a nobreza feudal o imperador persa Kavadh apoiou os mazdakistas, que radicalizaram sua ação ocupando terras dos grandes senhores, saqueando castelos, cidades e haréns, o que não teve continuidade com seu sucessor que massacrou o movimento e expulsou os camponeses das terras ocupadas.

123 Esse processo de ruralização econômica mais a descentralização política e administrativa

A história das diferentes civilizações é marcada por períodos de descentralização e concentração de poder, decorrentes da formação, consolidação e declínio de formas sociais e políticas que existiram em locais distintos ou que se sucederam num mesmo espaço geográfico: cidades - Estados, impérios, feudos, reinos ou principados, monarquias absolutas ou repúblicas nacionais, resultantes de processos internos econômico-sociais (desenvolvimento das forças produtivas, grau de divisão do trabalho, relações sociais de produção e sua correspondência jurídica nas formas de propriedade e lutas sociais e políticas), bem como, das relações externas em tempos de paz, integrando circuitos econômicos e em tempos de guerra, quando se redefine a geopolítica mundial, os próprios territórios e domínios.

Com a derrocada do Império romano, pelas crises internas e pelas invasões dos povos bárbaros, encerrou-se a antiguidade clássica e iniciou-se a Idade Média ocidental. No primeiro período, do século V ao IX, a atividade comercial e a vida urbana retrocederam ao ruralismo. Inúmeros senhores feudais dominavam coisas e pessoas, dentro dos seus limites fundiários privados.

O estado medieval é propriedade do senhor, é um estado patrimonial: é patrimônio do monarca, do marquês, do conde, do barão etc., o senhor é dono do território, bem como de tudo que nele se encontra (homens e bens), pode vendê-lo, dá-lo de presente, cedê-lo em qualquer momento como se fosse uma área de caça reservada. E podia se perpetuar hereditariamente - sociedade e o poder político (Estado) são inseparáveis, estão entrelaçados e são transmitidos juntos. (GRUPPI, 1980, p.9).

Conforme Guido Fasso (2000) o “jus naturale” exerceu influência

decisiva no pensamento cristão dos primeiros séculos, na versão da “lei por uma vontade divina” de Santo Agostinho (sec. III) e de Graciano (séc. XII). O pensamento religioso medieval (Baixa Idade Média) católico nele se apoiou; com São Tomás de Aquino (sec. XIII) fundindo “a ideia de lei divina e racional”, como base da doutrina moral e jurídico-política católica (tomismo). Porém prevaleceu a imbricação da igreja católica com o sistema feudal, cujos mais altos postos hierárquicos integravam a nobreza latifundiária e o papado era disputado pelas dinastias, constituindo-se os exércitos e a religião dois elementos fundamentais da manutenção do poder pelos nobres.

Era uma sociedade estável fundada na autarquia dos feudos, cuja produção de auto - subsistência teve poucos progressos tecnológicos e cujas relações sociais perpetuavam o jugo servil da massa camponesa124. Léo Huberman (1980, PÁGINA) referiu-se ao ódio provocado pela opressão esmagadora causou violentas revoltas se servos camponeses, mas por serem isoladas “eram apenas explosões locais, facilmente dominadas apesar de sua fúria.”.

No entanto, no segundo período medieval, do século X em diante, os