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A ideia de Danja Vasiliev, criador do projeto, é que a rede funcione sob um parâmetro muito parecido com o do BitTorrent21, em um sistema em que qualquer nó que compõe

a rede (todo portador do transponder, do projeto Netless, operando como um cliente- servidor) tente recuperar os dados novos à sua disposição e passá-los para qualquer outro nó. Dessa forma, a velocidade de transmissão aumenta, pois, quanto mais usu- ários simultâneos existirem, mais rápida a rede se torna.

Ao se propor como uma rede parasitária “do bem”, que se apropria do resíduo dos backbones que cruzam a infraestrutura urbana, Netless projeta uma metáfora de re- forma agrária nos grandes latifúndios dos territórios informacionais das telecomuni- cações contemporâneas. Ao mesmo tempo evidencia a proximidade das estratégias dos hackers (de redirecionamento de um sistema para outros usos) e dos princípios táticos do nomadismo (de infiltração nos espaços intersticiais).

Desse jogo de apropriações (que, de certa forma, define o artivismo nas redes) faz parte a capacidade de “surpreender os consensos que dão valor negativo ou positivo às tecnologias” (HORA, 2009).O projeto Zapped! evidencia essa situação de maneira irônica e radical. Seu ponto de partida é o potencial de vigilância e con- trole que a popularização da Radio Frequency Identification (RFID) pode consolidar. Utilizada militarmente há muitos anos, ao ser contatada (ou ativada) por sinais de rádio provenientes de scanners de tipos variados, a identificação por radiofrequên- cia transmite uma resposta digital. Seu uso permite grande economia e rapidez na gestão de estoque e fluxo de bens num circuito.

As RFIDs ampliam o raio de leitura propiciado pelo código de barras, lido apenas lo- calmente, de distâncias curtas. Além disso, o sistema nunca é desativado, tendendo a dar um ar de Minority Report, de Steven Spielberg (2002), ao cotidiano, pois, mais do que possibilitar o cadastro de hábitos do consumidor, como o fazem os códigos de barra associados aos populares “cartões de fidelidade” dos supermercados, elas permitem um monitoramento do uso dos produtos consumidos. É o que alegam algumas asso- ciações norte-americanas de direitos do consumidor, advogados e desenvolvedores de software que vêm se pronunciando contra a implantação da tecnologia RFID22.

Para se contrapor a essa situação, o coletivo Preemptive Media – que nesse projeto envolveu Beatriz da Costa, Heidi Kumao e Brooke Singer – criou uma série de instru- mentos de interferência na frequência das radioetiquetas. O mais intrigante de todos é o que utiliza baratas de Madagáscar como transportadoras de dispositivos de inter- ferência [Figura 7]. A escolha desse microexército tem sua razão de ser:

21 BitTorrent é um protocolo para fazer download de arquivos que aproveita os diversos computadores em

operação como máquinas-clientes, fazendo com que um maior número de pessoas conectadas em torno de um mesmo conteúdo otimize o tempo de descarregamento do arquivo. http://www.bittorrent.com/help/guides/beginners-guide

Essa raça de baratas é uma ferramenta perfeita para interferência humana em sis- temas RFID, porque elas dormem de dia e caçam à noite, têm acesso a locais que os humanos não conseguem atingir e não são prejudicadas pela radiação emitida pelos leitores de RFID. O Preemptive Media não promove interferência nos leitores simples- mente para causar incômodo, mas encoraja ativistas a usar essa abordagem sim- bólica e funcionalmente mais agressiva, a fi m de escolher seus alvos e defi nir seus objetivos cuidadosamente (KUMAO, 2005, informação pessoal, tradução nossa)23. Essa escolha de alvos e cuidadosa defi nição de objetivos é intrínseca ao processo de reprogramação das redes de comunicação orientada para a mudança cultural e deman- da, por isso a reorientação de seus códigos culturais, valores sociais, políticos, e a dos interesses que transmitem (CASTELLS, 2009). Contudo, atualmente, no contexto do nomadismo tecnológico, especialmente como ação estética processual, essa operação é muito mais complexa. Isso porque operar no interior e através dos seus vetores de mi- diatização passa pela recusa das retóricas publicitárias de uso das redes, mas não pela negação pura e simples do consumo. Como deixou claro um estudo de Néstor Canclini,

23 Madagascan Hissing Roaches make ideal partners for human induced RFID database jamming because they sleep

during the day and hunt at night, have access to locations that humans do not and are unharmed by the radiation emitted by RFID readers. Preemptive Media does not promote database jamming for the mere sake of troublemaking, but encourages activists using this symbolically and functionally more aggressive approach to choose their targets and define their goals carefully. Kumao, H. Zapped Text. Texto recebido por <[email protected]> em 24 out. 2005.

Figura 7 - Em Zapped! (2004), o coletivo Preemptive Media utilizou um exército de baratas para interferir na frequência de etiquetas equipadas com tecnologia RFID.

as novas tecnologias de comunicação expandiram a noção de cidadania, incorpo- rando práticas de consumo ao seu exercício (CANCLINI, 2008). O direito de acesso à internet ilustra bem essa relação, abrangendo a necessidade de uma série de bens, que vão desde a disponibilidade de redes elétricas e largura da banda de tráfego dos dados, passando por programas e aplicativos, até o equipamento pelo qual se faz a conexão. Equipamento esse que é cada vez mais o dispositivo móvel, sugerindo que, hoje, o sujeito social excluído é o imóvel.

Das coisas quebradas, de Lucas Bambozzi, reflete sobre essa situação, tratando

do fluxo de comunicação que nos rodeia transformado em dejetos. “Somos usuários de um sistema em teste contínuo, que jamais estará pronto. Construímos hardwares disfuncionais e nos deixamos regular por redes que cada vez mais avançam sobre nossas vidas. A onipresença da comunicação aumenta e passamos a ser agentes, operadores e reféns desse fluxo”, diz o artista (BEIGUELMAN, 2012, p. 70).

Composta de um dispositivo de armazenamento de celulares obsoletos, uma pren- sa e um medidor de frequência de ondas eletromagnéticas, a obra é uma máquina autônoma, que toma suas decisões a partir da intensidade dos campos eletromag- néticos no recinto expositivo. O medidor mapeia a intensidade do eletromagnetismo, identificando a quantidade de celulares no espaço. Quanto maior o número de apare- lhos celulares ativos no local, mais intenso é o campo eletromagnético. Quanto mais intenso o campo, mais rapidamente o armazenador despeja celulares e a prensa se move. O processo é lento e leva o público presente ao delírio catártico [Figura 8].

A adrenalina que o projeto aciona, levando os visitantes a ligarem seus aparelhos muito próximos da máquina, procurando “otimizar” o processo de esmagamento dos celulares, é possivelmente resultado do misto de prazer e repulsa pela destruição que provoca, enquanto promove a desfetichização tecnológica, pela própria ação na técnica. Afinal, quanto mais usamos os celulares, mais forçamos a pulverização de equipamentos que, de símbolos de luxo, rapidamente se convertem em lixo.

Das coisas quebradas tensiona as relações entre consumo, consumismo e obsoles-

cência programada, sem recair em um discurso assistencialista de uma prática preten- samente ecológica, baseada apenas na disposição pessoal do indivíduo. “É a simulação física de um mecanismo contínuo que opera entre as redes e o mundo real, onde a au- tonomia eventualmente caduca, os princípios se mostram obsoletos e percebemos que estamos na era da Internet das Coisas Quebradas”, afirma Bambozzi (Idem, Ibidem).

Indiretamente, Bambozzi chama a atenção para um dos mais perversos aspectos da indústria de equipamentos eletrônicos: o e-lixo. Em 2006, a ONU já alertava para o problema, evidenciando que todos os anos eram descartados de 20 milhões a 50

Figura 8 - Em Das coisas quebradas (2012), Lucas Bambozzi criou uma máquina que tritura aparelhos antigos, sendo acionada pelo campo eletromagnético dos celulares em uso no local.

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Benzer Belgeler