27 Samir Amin, Liberal Virüs, s 184.
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Fonte: IBGE
Elaboração Cartográfica: Victor Begeres Bisneto
Mapa 14
Contudo, o caráter das ações do BNH passou a mudar ao se mostrar aderente aos interesses de classes mais abastadas e do grande capital, fato elucidado por KOWARICK (1979, p.70) ao afirmar que
“o Banco Nacional da Habitação (BNH) não só se tornou um poderoso instrumento da acumulação, pois drenou uma enorme parcela de recursos para ativar o setor da construção civil (...) como também voltou-se para a confecção de moradias destinadas às faixas de renda mais elevadas”.
Desse modo, condomínios fechados e loteamentos rurais fechados começavam a ser criados no centro e no norte do município, mas voltados para um outro tipo de clientela. Estamos falando de bairros nobres como o Cambuí, Guanabara, Nova Campinas, Gramado, bairros dos distritos de Barão Geraldo e Sousas, entre outros (ver 4º período, mais precisamente entre os anos de 1930 e 1960).
Embora o BNH fosse criado sob um discurso de que a partir de então seriam melhoradas a condições de moradia da população, segundo SANTOS (1990, p.31),
“o modelo BNH é também desarticulador da cidade como um todo. Vista a posteriori, a escolha das terras para a edificação dos conjuntos parece ter obedecido a um critério principal, o distanciamento do centro, figurando praticamente em todos os casos como um dado obrigatório (...) a localização periférica dos conjuntos residenciais, serve como justificativa à instalação de serviços públicos, ou em todo caso, à sua demanda”.
A cidade começa a conhecer de modo ainda mais agudo o empobrecimento e a periferização, termos que designam realidades interligadas pela especulação imobiliária, visto que à medida que um conjunto residencial é criado, juntamente com as infraestruturas básicas, mais se valoriza o terreno. Como a população pobre não tem como pagar por esses serviços, acaba indo para lugares cada vez mais distantes do centro da cidade. Em contrapartida, a riqueza, expressa pelas grandes obras viárias e outras construções voltadas para as classes mais favorecidas da cidade que podem pagar pelas infraestruturas, ocupam os lugares deixados pelos antigos ocupantes, configurando, assim, o que conhecemos como metrópole corporativa e fragmentada. Corporativa, por ser centro de grandes negócios e sede de grandes corporações atraídas por suas facilidades técnicas e informacionais e fragmentada por estar socialmente, economicamente e espacialmente dividida. O Gráfico 1 (p.65) comprova esta tese já que ela expressa uma prova incontestável de que em um determinado momento a preocupação com a criação de loteamentos e fluidez é muito sensível. Os usos do território se voltam para a inserção no mundo veloz da globalização e na busca pela competitividade, atual corolário da cidade. Segundo SILVEIRA (1999, pp.362-363),
“a cidade é, assim, organizada para responder ao tempo mundial das corporações. Sua densidade técnica, a fluidez de suas organizações, a oferta de emprego e a intelectualização do trabalho são entre outros, indícios da aptidão da cidade para acolher os segmentos das corporações e dos governos mundiais”.
Neste processo, o BNH, por intermédio da COHAB, vai ser preponderante, pois o que importa é encorajar o crescimento urbano por todos os meios possíveis, substituindo o termo planejamento pelo empreendedorismo.
Conforme ensina SANTOS (idem, p.93-94), o BNH “se formou muito mais como um agente
financeiro da transformação do capital competitivo na cidade do capital monopolista. O BNH vai ter um papel decisivo na conformação da metrópole corporativa”.
As premissas que o PPDI apresentou na década de 1970, em consonância com as ações da COHAB, fizeram do território de Campinas um ponto estratégico para atração de grandes empresas, ou, como explica SANTOS (1993, p.110),
“na cidade corporativa, o essencial do esforço do equipamento é primordialmente feito para o serviço das empresas hegemônicas; o que porventura interessa às demais empresas e ao grosso modo da população é praticamente o residual na elaboração dos orçamentos públicos”.
A cidade que se baseava no planejamento tradicional, de um lado transportes de outro uso do solo, agora agrega mais um adjetivo que é o de mercadoria. HALL (1988, p. 407) estava correto ao inferir que as “cidades, a nova mensagem soou em alto e bom som, eram máquinas de produzir
riqueza. O objetivo do planejamento era azeitar a máquina”.
Nós devemos nos atentar para o fato de que a especulação imobiliária não se resume somente na valorização de terrenos e em suas compras e vendas pelos incorporadores em lugares distantes do centro equipado da cidade. Ela ocorre em um nível menos aparente, mas que também se constitui nesta prática primitiva de acumulação: o aluguel de qualquer tipo de imóvel e a revenda de imóveis populares.
Há casos em que o proprietário deixa seu imóvel vago em certas regiões da cidade mais degradadas a fim de obter uma locação, mas ficam à espera de uma valorização em função do surgimento de algum equipamento de infraestrutura próximo. Neste sentido, por exemplo, se o governo promove a construção de habitações populares por meio de COHABs destinadas às
populações de baixa renda ou que vivem em áreas de risco, essas mesmas pessoas revendem seu bem ou os alugam com a finalidade de obter uma renda extra, mesmo que para isso fique sem um lugar digno para morar.
Tal fato foi comprovado através de uma reportagem do JORNAL CORREIO POPULAR DE CAMPINAS (18 de janeiro de 2008, p.A5) ao afirmar que
“pelo menos 190 famílias ocupam irregularmente casas populares construídas nos últimos três anos para pessoas que viviam em áreas de risco em Campinas (...) A venda, locação e o empréstimo do imóvel financiado são ações proibidas no contrato habitacional e, mesmo assim, aproximadamente 10% das 2 mil famílias beneficiadas optaram pela negociação”.
Atualmente o que se nota no município em questão, um pouco diferente do que se passava nas décadas de intensa especulação imobiliária em função da quantidade de terrenos vazios na cidade e de seu vertiginoso crescimento, é que a expansão imobiliária passou a sufocar a região agrícola do município. Segundo o JORNAL CORREIO POPULAR DE CAMPINAS (14 de maio de 2008, p. B16),
“enquanto a área urbana cresce com a expansão imobiliária que acontece em Campinas e região, os produtores nas áreas rurais são pressionados a vender suas terras e desistir da produção. O fenômeno se acentuou desde o boom na construção civil, que em Campinas cresceu 48% em 2007”.
As áreas de maior produção de gêneros agrícolas estão sofrendo um grande assédio dos incorporadores imobiliários que visam adquirir terrenos a baixo custo por metro quadrado a fim de se construir empreendimentos de grande porte como condomínios fechados comerciais e residenciais. Como exemplo disso vemos a presença de aproximadamente dezenove condomínios residenciais e comerciais (a maior parte em construção) ao longo do eixo da rodovia Dom Pedro I, na parte norte da cidade e que nos últimos anos vem polarizando os investimentos imobiliários na forma de parque empresariais (como a Praça Capital e Galleria Office), instalação de redes de
grandes atacadistas (como Makro, Atacadão, Leroy Merlin, Decathlon), o CEASA, shoppings centers (como o Galleria, Iguatemi e Parque Dom Pedro – ver Mapa 16), empresas como a Samsung e Lucent (ver Mapa 15) e condomínios fechado de alto padrão tais quais o Alphaville, Bougainville, Vila Verde e Seasons.