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Para realizar a parte mais atual dessa pesquisa, fizemos um recorte geográfico escolhendo uma daquelas regiões do estado onde mulheres líderes foram entrevistadas na amostra anterior, desta vez do Leste de Minas, com o objetivo de aprofundar os estudos sobre o tema. A escolha recaiu sobre a área de Governador Valadares e entorno, visto que ficaram fortes impressões a partir dos depoimentos dados por várias das líderes de 2008, hospedadas durante uma semana em um colégio religioso na periferia daquela cidade em função do curso realizado em 2008. Quatro anos depois localizamos algumas dessas ex- alunas da região Leste, no Médio Rio Doce, para realizar entrevistas em profundidade (semiestruturadas) e estudar mais detidamente a vida de outras líderes locais. Elas vivem em Governador Valadares (cidade de porte médio com forte tradição política)118, ou em pequeninas cidades vizinhas (Sobrália, Engenheiro Caldas, Tumiritinga), e ainda em assentamentos rurais, sítios e outras localidades. Também foram incluídas outras mulheres próximas a elas – mães, primas, cunhadas, amigas, conhecidas, vizinhas -, todas donas de casa, que ao menos teoricamente não viviam a experiência da liderança. Isso no intuito de melhor compreender o universo cultural em que estão inseridas as mulheres líderes.
Constatamos que foi um acerto recortar esta região do Leste mineiro para nossa pesquisa. Os contrastes produzidos pelo modelo de desenvolvimento construído ali - envolvendo riquezas de subsolo e terras férteis, grandes propriedades rurais que se constituíram desde os tempos do Império, enquanto (já no século XX), cresciam também as explorações minerais patrocinadas por grandes companhias tais como a Vale do Rio Doce e empresas estrangeiras – construíram um contexto rico de contradições e conflitos, onde líderes representando interesses diversos foram se constituindo ao longo dos últimos 40 ou 50 anos. Um cenário onde muitas lutas ali se foram travadas desde os tempos antigos, conforme relatam alguns autores, entre eles a pesquisadora Ma. Eliza Linhares Borges, que em 2004 publica artigo na Revista Brasileira de História (USP) discutindo o tema:
“(...) Ao invés da luta entre pobres livres e sesmeiros, marca do período imperial, a partir da década de 1930 e sobretudo da de 40, o casamento entre latifúndio e indústria (siderurgia) garantiria aos proprietários rurais uma sobeja vantagem no conflito com os posseiros da região. Não por acaso, os antigos da região costumam dizer que os indivíduos que a febre amarela não
118“Aqui tem uma forte participação política, tanto que em 1963, o início da reforma agrária no país foi aqui em Governador Valadares. Nós tínhamos uma fazenda que era do governo – chamada de “Fazenda do Ministério”. Na época o presidente era o João Goulart... ele vinha lançar o Plano Acional de Reforma Agrária aqui em Valadares, aí foi quando o secretário da agricultura veio fazer essa apresentação. Mas já estava começando a queda de Goulart, aqui inclusive foi o início do golpe militar. Havia aqui naquela fase, o sindicato chamado de “Ligas Camponesas” que eram muito fortes. Então a organização dos sindicatos dos trabalhadores rurais, muito atuante aqui até hoje, já começou um movimento naquele período de propor a reforma agrária. Como foi muito forte esse início do golpe militar, gerou muito medo também depois, e muita incerteza. Inúmeras pessoas foram assassinadas e muitas foram torturadas também, tiveram que sair daqui fugidas”. (Depoimento da prefeita de Gov. Valadares,
Elisa Costa, ex-deputada estadual, uma das entrevistadas dessa pesquisa). Ver também: BORGES, Maria Eliza Linhares. Representações do universo rural e luta pela reforma agrária no Leste de Minas Gerais. Rev. Bras. Hist. [online]. 2004, vol.24, n.47, pp. 303-326. Disponível em: www.scielo.br/scielo.
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exterminou, a terra fértil e valiosa abrigou, desde que os interesses dos coronéis locais e de seus grileiros fossem respeitados119. (...)”
Conforme Borges (2004), até aproximadamente os anos 40 aquela região do Vale do Rio Doce produziu café, cana-de-açúcar, fumo e algodão, além do plantio de culturas de subsistência a cargo dos posseiros locais. Daí em diante, a região foi se tornando uma das principais áreas da pecuária bovina de corte, além de sediar a instalação de empresas de capital nacional e estrangeiro como as siderúrgicas Belgo-Mineira, Acesita, Companhia Vale do Rio Doce e outras destinadas à extração e à exploração da mica e do berilo. Em seu artigo, a historiadora analisa representações da cultura do latifúndio e da cultura camponesa em meio aos acontecimentos pré-golpe de 64, registrando em Valadares situações de disputa entre sindicatos rurais e sindicatos de proprietários de terra, às vésperas de uma anunciada reforma agrária do governo Goulart. Nas considerações finais de seu trabalho Borges (2004) contextualiza uma realidade atual que vem produzindo modificações importantes na estrutura de poder nacional e que também influi na composição do poder local, inclusive possibilitando a emergência das líderes que pudemos encontrar ali.
“(...) No que se refere ao universo rural, pode-se dizer que as lutas pelas liberdades democráticas são decorrência da atuação persistente de diferentes atores sociais. Entre eles, há
que lembrar a atuação da CONTAG — Confederação Nacional dos Trabalhadores na
Agricultura, criada em 1963. Exercendo o papel de mediadora entre as demandas dos sindicalizados e o Estado, essa entidade foi crucial para a sobrevivência dos sindicatos de trabalhadores agrícolas que, ao longo dos anos 70 e 80, foram se libertando do perfil assistencialista a eles impingido pela ditadura e, simultaneamente, funcionando como canal de denúncia sobre as violências nas áreas rurais e na luta por direitos trabalhistas. Em que pesem as adversidades enfrentadas pela entidade e por seus atores nos anos de chumbo da ditadura, sabe-se que sua atuação tendeu a usar os dispositivos legais — sindicalização e Estatuto da Terra — para vincular a luta por direitos trabalhistas à luta pela terra.
Conforme Borges Ainda que os resultados em termos de reforma agrária não tenham sido expressivos, a entidade pode contabilizar, entre seus méritos, o papel de criar as condições legais para o surgimento, entre fins dos anos 70 e o início dos 80, dos chamados "novos personagens em luta pela terra". Referimo-nos, especificamente, aos atingidos por barragens das regiões onde se construíam novas hidrelétricas; ao movimento dos pequenos produtores rurais, constituído pelos excluídos do processo de modernização da agricultura feita sem qualquer alteração na estrutura fundiária; ao movimento dos seringueiros, que resistiu ao processo de substituição dos seringais da Amazônia por terras de pastagens e, finalmente, ao movimento dos sem-terra, surgido em 1984, com o lema "terra não se ganha, se conquista".120 Ora, a atual diferenciação das formas de luta nas áreas rurais coloca-nos diante de uma situação abortada pelo golpe de 1964. O caso dos sindicatos de trabalhadores rurais do Vale do Rio Doce, analisado neste
119BORGES, Ma. L. Representações do universo rural e luta pela reforma agrária no Leste de Minas
Gerais. Rev. Bras. Hist. V. 24 n. 47. USP. São Paulo. 2004. Artigo consultado em dez. de 2012 no endereço: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882004000100012.
120 Sobre a história desses movimentos, ver MEDEIROS, L. S. História dos movimentos sociais no
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artigo, mostra-nos a pluralidade do universo rural, naquele momento desconsiderada até mesmo pelas organizações de esquerda.
“Independentemente dos elos comuns que perpassam a realidade dos chamados "novos personagens do mundo rural", há que reconhecer a retomada da democracia como fator crucial para que esses, e outros atores coletivos, possam continuar a expressar, de dentro para fora, suas identidades socioculturais. O respeito à alteridade é, por sua vez, condição para se seguir na busca de estratégias políticas que garantam aos diferentes atores da sociedade uma inserção política e social que tanto lhes permitirá manter suas tradições, quanto lhes possibilitará participar das aquisições materiais e simbólicas em curso”. (BORGES, 2004).
Foi nesse cenário que encontramos então nossas entrevistadas, presidentes de sindicatos rurais, vereadoras de pequenas localidades do entorno de Valadares, vereadoras da própria cidade de porte médio, diretoras de sindicatos rurais, líderes de assentamentos, além de gestoras de estruturas municipais como prefeitura, coordenadorias, assessoras, estudantes e donas de casas que também se revelaram líderes de seus próprios movimentos, ou fundadoras de associações de moradores, operárias aposentadas, esposas de pastores batistas, de policiais, avós, mães, estudantes, analfabetas, semi-analfabetas, graduadas nas universidades e pós-graduadas, montando um painel bastante variado de universos, sujeitos e visões de mundo.