Esta oposição devia ser feita com muito cuidado pois o sistema medieval alertava que a resistência ao rei (e ao direito divino que este representava na Terra) perturbaria a lógica do cosmos. Depois, Lutero e Calvino levariam este raciocínio a outras sutilezas e outras conseqüências – acompanhadas com muita atenção por Milton na Tenência – mas o importante é observar, ainda na época de Shakespeare e, em especial, no momento histórico retratado em Macbeth, que “este enfoque divino atendia à necessidade humana normal de amparo, oferecendo-lhe a tranqüilizadora garantia de que Deus velava pelo homem”, já que seu destino era indissociavelmente “ligado à ordem total do universo, na qual a harmonia de toda a criação (macrocosmo), do Estado e de cada alma em particular (microcosmo) era unida, vitalizada e justificada no cumprimento dos desígnios de Deus”32.
Tudo está devidamente catalogado e encadeado de acordo com uma percepção que é visível por toda a natureza, como aponta este trecho de Sir John Forstescue:
“Nessa ordem, as coisas quentes estão em harmonia com as frias, as secas com as úmidas, as pesadas com as leves, as grandes com as pequenas, as altas com as baixas. Nessa ordem, anjo é colocado sobre anjo, fera sobre fera, ave sobre ave, peixe sobre peixe, na terra no ar e no mar: de modo que não há verme que se arraste no chão, ave que voe no alto, peixe que nade nas profundezas, que na cadeia dessa ordem não se ligue ao mais harmonioso acordo. Apenas o Inferno,
31 O princípio antropológico está expresso no seguinte trecho de A república [Politeia]: “Porventura, prossegui, não seremos forçados a admitir que em cada um de nós existem os mesmos princípios e
hábitos que se encontram na cidade? De nenhuma outra fonte lhe poderiam ter vindo. Seria, de fato, sumamente ridículo imaginar que o caráter violento não passa das pessoas para as cidades que apresentam iguais características, tal como se observa, por exemplo, com os trácios e os citas e, de modo geral, com os povos do norte, ou o amor ao estudo, que atribuem particularmente à nossa região, e, ainda, cupidez, que podemos considerar característica dos fenícios e das gentes do Egito” (435e). Cf. PLATÃO. A
República, tradução de Carlos Alberto Nunes, Pará, UFPA, 2007, pág. 209. Grifos nossos.
32 Cf. HELIODORA, Barbara. O Homem Político em Shakespeare. Rio de Janeiro, Agir, 2006, págs. 49- 72.
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habitado apenas por pecadores, assevera seu direito a escapar do abraço dessa ordem... Deus criou tantas espécies diferentes de coisas quanto criou criaturas, de modo que não há criatura que não difira em algum aspecto de todas as outras criaturas que não difira em algum aspecto de todas as outras criaturas, por meio de que será em algum respeito superior ou inferior a todo o resto. De modo que do mais alto anjo até o mais baixo de sua espécie não é absolutamente encontrado um anjo que não tenha um superior e um inferior; nem do homem, baixando até o mais mesquinho verme, existe qualquer criatura que não seja em algum respeito superior a uma criatura e inferior a outra. De modo que não há nada que os elos da ordem não abracem”33. Se o Inferno é o único lugar que “assevera seu direito” de escapar dessa ordem e se o mundo retratado por Shakespeare em Macbeth é onde foul is fair and fair is foul, isto significaria que o Inferno é aqui? Esta é uma das brechas que a peça faz na crença medieval impregnada há muito tempo na mente das pessoas: Shakespeare questiona a existência de tal ordem sem, ao mesmo tempo, negá-la, suspendendo o nosso juízo conforme o drama exibe a tragédia provocada pelas falhas na natureza humana. Estamos no Inferno porque ele está dentro de nós, é o que parece dizer. E o rei se transforma em um tirano quando não consegue mais controlar as paixões dentro da sua alma.
É o que acontece com Macbeth, bravo e leal combatente ao rei Duncan, que, como percebe bem sua esposa, possui o “leite da bondade humana” [milk of human
kindness], o que o impossibilita de cometer o ato hediondo incitado por ela. Se Duncan
morresse na batalha e Macbeth fosse o seu sucessor, é possível que ele se tornasse um bom rei. Mas o que o torna um tirano? Poderíamos colocar a culpa em Lady Macbeth? Em hipótese nenhuma: como veremos, Shakespeare também faz uma meditação sobre a responsabilidade humana, de como cada um de nós devemos responder por nossas ações, especialmente diante do recanto obscuro que chamamos de consciência. No final da peça, quando aceita as conseqüências de tudo o que provocou – exatamente o trecho tomado por Milton para ser a matriz retórica da Tenência e observada por Dzelzainis – Macbeth está sozinho e sabe que é o único culpado pelo o que aconteceu.
Portanto, a bondade não é o suficiente. É necessário ter algo a mais. Se vivemos em um mundo onde a ordem das coisas encadeia tudo e todos, ter apenas uma única qualidade não faz um homem se tornar um rei – e muito menos faz o reino se manter são. Quando uma peça é retirada de lugar, o edifício desaba. E o que seria ela?
33 Idem, págs. 62-63.
93 Shakespeare é talvez um dos primeiros a ir até o fim na análise desta lacuna que pode prejudicar a construção de uma tradição elaborada há milhares de anos. Outros dramaturgos e filósofos tiveram apenas a intuição que o dramaturgo elizabeteano demonstra na sua obra e é um aspecto importante do “pensamento” shakespeareano, fundamental para entender, por exemplo, como Milton se apropriará disso e analisará os eventos das Guerras Civis inglesas na Tenência.
Esta intuição surge plenamente desenvolvida na peça Tróilo e Cressida (1602). Trata-se da crise de hierarquia (crisis of Degree), na feliz formulação de René Girard34. No caso, a hierarquia (Degree) é mais do que um problema de ordenação das coisas deste mundo: “do latim gradus, significa um degrau, uma escada ou escadaria, um espaçamento não horizontal entre duas entidades, e, de modo mais geral, patente, distinção, discriminação, diferença. É também a ‘tensão contínua’ entre o justo e o injusto, o mesmo espaço vazio que, novamente, impede qualquer confusão entre certo e errado”. Esta noção de hierarquia altera a nossa própria concepção atual do que denominamos de justiça, que nunca foi “um exercício de imparcialidade extraordinária, nem um equilíbrio perfeito, mas uma modalidade fixa de desequilíbrio, como tudo que é cultural”, i.e., observado e produzido pelo homem35.
A hierarquia (Degree) só pode ser interpretada no singular e não no plural pois implica que, “numa dada cultura, todos os degraus ou diferenças particulares têm algo em comum, algo familiar, por assim dizer; todos são especificações de um mesmo princípio diferencial, Degree com D maiúsculo, de cuja integridade depende a estabilidade dos sistemas culturais e até mesmo sua existência”36.
Shakespeare articula de forma notável a dramatização da ausência de hierarquia (Degree) no trecho de Tróilio e Cressida, em que Ulisses monologa e analisa a paralisia de comando que contamina o exército grego às vésperas da batalha final da Guerra de Tróia:
34 Cf. GIRARD, René. Shakespeare – Teatro da Inveja, tradução de Pedro Sette-Câmara, São Paulo, É Realizações, 2011, págs. 309-320. O tradutor usa a expressão “crise de Degree” por considerar inapropriada o termo de hierarquia ou até mesmo a jerarquia, opção da melhor tradução de Shakespeare numa edição nacional, Carlos Alberto Nunes. Contudo, no caso do nosso texto, preferimos a expressão “crise de hierarquia”, sempre identificando o uso do termo Degree em parêntesis, uma vez que aqui sabemos que nosso interesse é no problema entre representação e hierarquia existencial (da qual a social é apenas uma das variações).
35 Idem. 36 Ibidem, ibid.
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Quando abalada fica a jerarquia,
Que é a própria escada para os altos planos, Periclita a obra toda. Como podem
Ter estabilidade duradoura
Os degraus das escolas, os Estados, Os membros das corporações, o tráfico Pacífico entre praias afastadas,
Os direitos do berço e nascimento, De primogenitura, os privilégios Da idade, louros, cetros e coroas, Se a desfazer-se viesse a jerarquia? Tirai a jerarquia; dissonante
Deixai só essa corda, e vede a grande Discórdia que se segue! As coisas todas Cairão logo em conflito; as fortes ondas, Contidas até então em seus limites, O seio elevarão além das praias, A papa reduzindo a terra firme; Sobre a fraqueza dominara a força, O rude filho ao pai tirara a vida;
Fora o direito a força; o justo e o injusto – Cuja tensão contínua equilibrada
Sempre é pela justiça – acabariam Perdendo o nome, como também esta”37.
A descrição feita por Ulisses, por meio da linguagem elaborada por Shakespeare, se aproxima muito mais de outro fenômeno que atualmente damos outro nome e citamos sem nos preocuparmos com a definição exata: revolução. Contudo, para não cairmos no erro do anacronismo histórico, tanto no caso shakespeareano como no de Milton, uma vez que o termo em questão tinha apenas um caráter astronômico e nenhum dos autores analisados aqui se atreveriam em interpretar os tumultos históricos que viveram dessa forma, temos de fazer a distinção entre a crise de hierarquia (crisis
of Degree) e a revolução política.
Esta última é a transposição de um conceito da ciência natural, então em plena expansão conceitual, para se tornar uma metáfora da ciência humana, em especial os assuntos éticos e da sociedade, a ciência política propriamente dita, para significar a experiência do fenômeno de que nos viramos em torno do eixo do planeta, em uma
reviravolta à origem das coisas, na metabole documentada por Tucídides na sua
História da Guerra do Peloponeso e da qual Thomas Hobbes se inspirou para depois
escrever o Leviatã e o Behemoth. Este retorno à pureza de uma sociedade não
37 Cf. SHAKESPEARE, William. Comédias, tragédias e dramas históricos, tradução de Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro, Editora Agir, 2008.
95 corrompida será o leitmotiv de todos os grandes escritores das Guerras Civis inglesas – principalmente Milton, Hobbes e Algernon Sidney – e, mesmo sendo um erro conceitual chamá-los de “revolucionários”, podemos dizer que o trauma de viver em um mundo que passava por uma “regeneração” por meio de atos violentíssimos, como o regicídio, permaneceria nos philosophes e nos jacobinos do Iluminismo e da Revolução Francesa38.
Já a crise de hierarquia (crisis of Degree) é a descrição objetiva de um estado de coisas que, a partir do momento que entra em desordem, só pode ser resolvido não com uma reviravolta violenta a um suposto princípio de tudo, mas sim com a regeneração da autoridade soberana de quem comanda e, mais, sabe que deve e como comandar. Novamente, tocamos no problema da representação. Esta autoridade não deve ser evidente; ela é invisível, imperceptível, criando uma estrutura que somente alguns podem perceber. Talvez a melhor metáfora para compreender tal evento corretamente não seja algo relacionado com as ciências naturais e sim nada mais nada menos com uma arte (techné) – a da corda musical. Como explica René Girard, “enquanto a diferença entre as notas forem preservadas, alguma melodia pode ser reconhecida, não importando a maneira como seja tocada”, em qual clave, com qual instrumento, não importando os acréscimos, variações, amplificações, etc. “Quando uma estrutura perde seu centro, as substituições e permutações se aceleram, mas sua desintegração mal começou”39.
Como a ordem humana, mesmo em harmonia com a divina, é precária, principalmente por causa das limitações dos homens que a compõe, a desintegração da sociedade se dá num processo de descenso, da autoridade maior para a autoridade menor. O que antes era uma espécie de rivalidade positiva, em que as pessoas se espelhavam na autoridade soberana para imitá-la nos atos do cotidiano, agora se torna a rivalidade negativa, em que uns imitam os outros apenas para terem o que acham que devem ter e, no fim, se tornarem seus modelos que não sabem mais a quem copiar
38 Cf. os livros que falam sobre o impacto do pensamento revolucionário na História como ROSENSTOCK-HUESSY, Eugen. Out of Revolution – An autobiography of a western man, e CAMUS, Albert. O homem revoltado. Ver Bibliografia.
39 Cf. GIRARD, René. Shakespeare – Teatro da Inveja, tradução de Pedro Sette-Câmara, São Paulo, É Realizações, 2011, págs. 309-320.
96 porque, como dizia o poema de Yeats, the centre cannot hold, o centro não se sustenta mais40.
Em Macbeth, o centro da hierarquia (Degree) não é o rei Duncan ou o rei Macbeth em si mesmos, mas sim a persona da realeza, a sua representação encarnada em um sujeito que tenha condições de governar o reino. Tal centro deve ter também uma autoridade que transcenda a ordem cultural criada pelos participantes da sociedade – uma autoridade que também viva o paradoxo de ser altamente vulnerável não só aos astros, mas sobretudo ao conflito. Quem está no centro da hierarquia (Degree) deve inspirar um respeito que será emulado aos seus seguidores. Quando não se consegue isso, a conseqüência é, além do desrespeito, é a indiferenciação provocada pela rivalidade negativa. A hierarquia (Degree) se torna impotente, incapaz de atuar ou de funcionar como uma divindade. Mesmo assim, não se pode extirpar esta última função, inerente a toda cultura humana, o que provocará a recompensa daqueles “que a honram com os benefícios da ordem, e punindo os rebeldes com a violência imparcial da desordem, com a retaliação em espiral de uma rivalidade que se transforma em uma vingança mortal”41.
A cadeia de relações e de emulações ocorre numa tensão existencial que só um governante apto a compreender suas nuances pode manobrá-la conforme a sua intenção e também conforme os interesses da sociedade. Afinal, a hierarquia (Degree) em si mesma é um princípio paradoxal de unidade entre os homens uma vez que ela permite a desunião para manter a diferença entre as pessoas. Quando ela deixa de existir, prolifera a rivalidade, e quando esta se mantém de alguma forma no tecido do reino, ela persiste, mas não tem um caráter destrutivo. Shakespeare elabora o que é a crise de hierarquia usando o exemplo do exército em Tróilio e Cressida – e fará o mesmo em Macbeth: numa guarnição disciplinada e eficiente, cada soldado olha para a patente acima da sua na esperança de uma promoção. Cada soldado considera o oficial que o comanda um guia e modelo. Tal ambição, longe de ser suprimida, é incentivada pois não existe excelência militar sem ela.
40 Referência ao poema de W.B Yeats, The second coming (A segunda vinda): Things fall apart; the
centre cannot hold;/ Mere anarchy is loosed upon the world,/ The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere/ The ceremony of innocence is drowned;/ The best lack all conviction, while the worst/ Are full of passionate intensity. [As coisas vão abaixo; o centro cede;/ Mera anarquia é solta sobre o mundo,/ Solta a maré de sangue turva, afoga-se/ Por toda parte o rito da inocência;/ Falta fé aos melhores, já os piores/ Se enchem de intensidade apaixonada; tradução de Adriano Scandolara.]
41 Cf. GIRARD, René. Shakespeare – Teatro da Inveja, tradução de Pedro Sette-Câmara, São Paulo, É Realizações, 2011, págs. 309-320.
97 Se alguém tenta tomar o cargo superior, independentemente de regras ou tradições militares, tal ambição se torna destrutiva – o exemplo claro disso é o casal Macbeth. Quando a corrupção aparece no topo, as patentes mais baixas copiam-na com a mesma imitação de antes, travestida de integridade. Como explica Girard, “a ordem consiste numa cadeia de obediente imitação tão difusa que facilita o contágio da desordem quando a desordem aparece. Todos se valem dos mesmos canais e operam da mesma maneira”. Quando cada passada toma como exemplo o primeiro passo, “pode ser tanto a ‘boa’ quanto a ‘má’ imitação que se propaga escada abaixo pela hierarquia (Degree)”. A diferença não vem dos dois tipos de imitação, mas da própria hierarquia (Degree): “a imitação é ‘boa’ quando está conforme as regras da hierarquia (Degree) e respeita a separação e distinção das patentes”42.
Os modelos e seus respectivos imitadores não podem viver no mesmo mundo; quando isso acontece é lógico que haverá um choque, um conflito de mundos que não têm como se emularem exceto de forma violenta, uma vez que, no fundo, seus interesses sempre serão iguais, mesmo sob a aparência de uma diferença – a de que há um desejo original das coisas, mesmo que, na realidade, é que todos querem ser os outros sem o mínimo esforço. Estas pessoas que estão dentro do redemoinho da crise não percebem que as escadas da hierarquia (Degree) não são para subir; cada uma delas “é o equivalente de um pequeno mundo dentro do grande mundo; todos os degraus estão conectados a partir do topo, mas eles não se comunicam livremente para subir”. As pessoas nos degraus mais baixos olham para as pessoas acima delas e provavelmente as escolherão como modelos, mas num sentido puramente ideal. Eles têm de escolher seus objetos concretos de desejo dentro de seus próprios mundos, e a rivalidade é impossível. “Os imitadores prefeririam escolher os objetos de seus modelos, mas a
hierarquia (Degree) os impede de fazer isso. Enquanto ela tem vigor, a trangressão de
suas regras parece impossível, até impensável”43.
Se a persona da realeza é o centro da estrutura e, ao mesmo tempo, o topo da cadeia de emulações e de rivalidades entre seus seguidores, fica claro que ela será a parte mais vulnerável não só à rivalidade exterior, i.e., motivada pela “má” imitação de seus servos, mas também à rivalidade interior, que surge do descontrole das paixões e da falta de percepção do que seria as virtudes de um governante, e assim impossibilita o
42 Ibidem, ibid. 43 Ibidem, ibid.
98 que chamamos de liberdade interior. Tal liberdade é essencial para se manter o centro da estrutura da hierarquia (Degree) e, sem ela, não há outra conseqüência prevista senão o colapso irreversível do reino.