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A. Kâzifte Aranan Şartlar

II. EVLİLİĞİN SONLANMASI

Esta observação nos leva ao segundo tipo de representação discutida obliquamente por Milton: a existencial. Se em termos elementares, a sociedade não consegue mais se articular em suas instituições essenciais – o Rei e o Parlamento –, o que fazer quando o rei morrerá como um tirano e esta nova representação retirará não só os seus direitos, como também a própria vida? A representação elementar deixava um vazio quando as instituições desabavam como castelos feitos na areia; mas nada era dito quando o representante real era também o representante de uma determinada verdade que todos acreditavam sem questioná-la.

Milton nunca poderia afirmar que sua verdade – a de que o rei havia se tornado um tirano – não existia e, mais, nunca existiria. Contudo, ele vai além: sugere que a verdade não precisa de um rei para formar a alma do reino. A realeza não era a representação verdadeira de Deus na terra, mas apenas uma necessidade política advinda da queda adâmica. Ao mesmo tempo, a tal verdade não poderia estar com o Parlamento, indeciso perante um fato em que a melhor solução seria a mais traumática. Milton faz uma pergunta impertinente e obtém logo a resposta:

Por outro lado, se todas as suas ações não tendiam a atingir o próprio rei, mas [somente] seus maus conselheiros, conforme eles acharam e publicavam, por que durante todo esse tempo em que ele esteve sob seu poder, e eles próprios foram seus conselheiros mais próximos, não o restauraram à verdadeira vida de um rei, seu cargo, sua coroa e dignidade? A verdade, portanto, é que a um só tempo não queriam e de fato não podiam fazer isso sem provocar a própria e infalível

destruição, pois o desfiladeiro final a que o compeliram era mesmo a morte e o sepultamento de tudo o que nele existia de régio, lugar de onde jamais um rei da Inglaterra reviveu, tirante de um novo fortalecimento de seu partido, o que significou um espécie de ressurreição para ele. Assim, depois de quase extinguirem tudo o que poderia nele existir de um rei e, a partir da total privação, vestirem-no,

como outra coisa específica, com formas e hábitos destrutivos da anterior, deixaram em sua pessoa [persona], morta para a lei e todos

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os direitos civis de um rei ou de súdito, somente a vida de prisioneiro, cativo e malfeitor70.

O trecho é de uma retórica cruel e as frases que colocamos em itálico mostram referências sutis a Macbeth que só um poeta poderia fazer sobre outro poeta – e que mostram que tanto Shakespeare como Milton partilhavam do famoso princípio antropológico de Platão, a de que a polis é a alma do homem por extenso e vice-versa, a base de análise para quem quer definir o que é a representação existencial71.

Macbeth é uma peça sobre a tirania e a Tenência é um escrito sobre como

reconhecer se um rei tornou-se um tirano, mas, sobretudo, são textos sobre as conseqüências de um governante ouvir maus conselhos. No caso do usurpador escocês, são as feiticeiras que atiçam uma consciência que já estava corrompida há algum tempo; no caso de Carlos I, sua morte será causada pelos magistrados que o aconselharam de maneira imprópria e, mais, os próprios magistrados estão mal aconselhados por alguém que Milton ainda vai nos revelar quem pode ser. Quando ambos chegam ao momento de desenlace de suas vidas – que terminará com suas respectivas mortes – já não são mais os reis que desejavam ser: são fiapos de gente esperando pelo “som e a fúria” narrados pelo “idiota” da História.

No caso de Macbeth, a metáfora da ausência de representatividade se dá, como bem observou Yves Bonnefoy, com a esterilidade de sua prole72. O casal homicida não tem filhos – e este é um dos detalhes mais marcantes da alucinação que amargura Lady Macbeth antes de tirar a própria vida. Outra metáfora é a incapacidade de Macbeth em se comportar como um rei distinto em um acontecimento público, o jantar em homenagem a Banquo, fiel amigo que acabou de ser eliminado porque era visto como um rival ao trono. Segundo Paul Kottmann, a peça em si mesma é um relato da decadência da representação real como variação da representação performática do rei ser alguém que cumpre um papel no teatro do mundo. A inadequação do usurpador em representar a realeza simplesmente porque tomou a coroa por meios violentos mostra

70 Idem, págs 15-38. Grifos nossos.

71 Mais sobre esse assunto pode ser encontrado no seguinte livro: Cf. VEGETTI, Mario. Um paradigma

no céu – Platão político, de Aristóteles ao século XX, tradução de Maria da Graça Gomes de Pina, São Paulo, Annablume, 2012, 295 págs.

72 Cf. BONNEFOY, Yves. Shakespeare and the french poet, EUA, Chicago University Press, 2009, págs. 3-13.

116 também que ele não reconhece os graus (degrees) que estabelecem a hierarquia entre o justo e o injusto das leis da natureza. Como falam a Macbeth, talvez numa piscadela irônica de Shakespeare: You know your own degrees; sit down: at first and last, the

hearty welcome. (“Conheça seus próprios graus; sente-se; em primeiro e por último, dê

as boas-vindas”.) Mas como ele é um homem incapaz de conhecer-se a si mesmo, portanto incapaz de ser um rei, o fracasso em sua recepção – acentuado pelo fato de que vislumbrou o fantasma do homem que mandou assassinar há algumas horas – é apenas o anúncio do caos que, primeiro, afetará o que restou da sua família (somente a esposa) e depois o próprio reino que, de uma forma ou de outra, permitiu que tal traição ocorresse73.

Para Milton, a incompetência do rei em manter a sua persona política se deve, sobretudo, aos falsos conselhos que recebeu. Ele alerta aos magistrados que são incapazes de perceber a própria e infalível destruição que ocorrerá se não realizarem o fato cruel, fato para o qual o poeta quer expressar em todas as letras para enfim “reconciliar as mentes dos homens”: o rei deve ser morto, sem hesitações, para que não aconteça o pior – no caso, a destruição do próprio reino como passado, presente e, principalmente, futuro.

Esta linha de raciocínio mostra que a Tenência não é uma defesa do tiranicídio ou da soberania popular e sim uma análise implacável de uma situação sem nenhuma hierarquia visível, que antecipa em muitos momentos os relatórios de realpolitik que fizeram fama no século XX. Milton é mais maquiavélico no stricto sensu do que o próprio Maquiavel: em um reino contaminado por rivalidades que se avolumam sem centro, sem ordem e sem rumo, onde cada verdade luta com uma verdade oposta, é necessário que haja um sacrifício, um bode expiatório (no sentido que René Girard dá ao termo), para que tudo se restabeleça de alguma forma, para que o caos não se torne definitivo74.

Contudo, não se pode ficar restrito à análise política. Milton também observa a História com os olhos de um poeta e as referências retóricas ao Macbeth de Shakespeare

73 KOTTMAN, Paul. A politics of the scene, EUA, Stanford University Press, 2010, págs. 92-93.

74 Cf. GIRARD, René. O bode expiatório, São Paulo, Paulus, 1998. Sobre as relações no pensamento de Maquiavel sobre o sacrifício do governante na vida política, ver STRAUSS, Leo. Thoughts about

117 são a prova de que ele via a situação da Inglaterra como um reino corrompido porque sua elite política e intelectual também estava podre por dentro e vice-versa, numa aplicação rigorosa do princípio antropológico de Platão.

As Guerras Civis não são apenas um acontecimento histórico; são o clímax de uma espécie de tragédia política, elaborada por um autor insondável, no qual é obrigação do poeta Milton demonstrar aos súditos quais são suas verdadeiras intenções e quais são as soluções mais próximas da manutenção de uma ordem que ninguém mais sabe onde está o seu sentido. Como em toda tragédia há sempre um sacrificado, Milton lança de um recurso irônico para alguém chamado a posteriori de regicida e sugere que, como o rei é também o penitente da nação, deve ser oferecido (ou se oferecer) ao altar da História futura para que purgue os pecados da nação e mantenha a unidade da Inglaterra, mesmo de forma frágil75. Isto é explicitado por Milton ao comentar uma jurisprudência de um douto teólogo protestante (obviamente um presbiteriano) que defende a resistência ao tirano como uma questão de consciência:

E pergunto eu: que consciência, que divindade, lei ou razão obriga o Estado a abandonar todas essas sagradas preocupações ao risco

perpétuo e ao cúmulo do perigo, em vez de exterminar um príncipe iníquo, que só faz tramar noite e dia para subvertê-las? Eles nos dizem que a lei da natureza autoriza qualquer homem a se defender, mesmo do próprio rei. Que nos mostrem então por que a mesma lei não autoriza mais o Estado ou o povo inteiro a infligir justiça àquele de quem todo o indivíduo privado pode legitimamente se defender, já

que toda espécie de justiça infligida é uma defesa para os bons, assim como uma punição aos maus, e a justiça infligida ao tirano nada mais é senão a defesa necessária de toda uma república. Fazer guerra a um rei, a fim de que seus instrumentos recebam uma punição condigna, e em seguida punir a eles, os instrumentos, e não somente poupar, mas defender e honrar a ele, o autor, é a mais estranha peça de justiça a ser chamada de cristã e a mais estranha obra de razão a ser chamada de humana a que homens de reverência e erudição, como lhes convém distinguir-se, jamais deram vazão76.

75 DE JOUVENEL, Bertrand. O Poder – História Natural de seu Crescimento, tradução de Paulo Neves, São Paulo, Peixoto Neto, 2011, págs. 111-127.

76 Cf. MILTON, John. Escritos Políticos, org. Martin Dzelzainis, tradução de Eunice Ostrensky, São Paulo, Martins Fontes, 2005, págs 15-38. O itálico é nosso.

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Benzer Belgeler