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Se ele não era um regicida, então qual era a sua visão do que deveria ser um rei? Apesar de quase cinqüenta anos de distância, não há diferenças entre a visão de Milton e a de Shakespeare, ainda que haja um detalhe que acentua as respectivas visões de natureza humana e, por conseqüência, de filosofia política. Ambos sabiam que um rei era a cabeça de um reino, enquanto seus servos compõem o que seria os outros membros do corpo humano. Mas, para Milton, um monarca não surge de forma espontânea; antes de tudo, é um representante de uma ordem previamente instituída e que foi deliberada entre vários membros que decidiram que, sem ela, não poderiam viver de forma harmoniosa. Milton explica a sua visão deste processo ao afirmar que

47 “[…] Because I saw that sufficient attention was paid to it by the magistrates; nor did I write anything

on the prerogative of the crown, till the king, voted an enemy by the parliament, and vanquished in the field, was summoned before the tribunal which condemned him to lose his head. But when, at length, some presbyterian ministers, who had formerly been the most bitter enemies to Charles, became jealous of the growth of the Independents, and of their ascendancy in the parliament, most tumultuously clamoured against the sentence, and did all in their power to prevent the execution, though they were not angry, so much on account of the act itself, as because it was not the act of their party; and when they dared to affirm, that the doctrine of the protestants, and of all the reformed churches, was abhorrent to such an atrocious proceeding against kings; I thought, that it became me to oppose such a glaring falsehood; and accordingly, without any immediate or personal application to Charles, I showed, in an abstract consideration of the question, what might lawfully be done against tyrants; and in support of what I advanced, produced the opinions of the most celebrated divines, while I vehemently inveighed against the egregious ignorance or effrontery of men, who professed better things, and from whom better things might have been expected. That book did not make its appearance till after the death of Charles, and was written rather to reconcile the minds of the people to the event, than to discuss the legitimacy of that particular sentence which concerned the magistrates, and which was already executed”.

Cf. MILTON, John. The complete poetry and essential prose of John Milton. Nova York, Modern Library, 2007, págs. 1073-1110.

48 Cf. LEWALSKI, Barbara. The Life of John Milton. Inglaterra, Blackwell Publishing, 2003, págs. 198- 235.

102 “mesmo que um homem que nada saiba jamais será tão estúpido para negar que todos os homens nasceram naturalmente livres, feitos à imagem e semelhança do próprio Deus, e pelo privilégio sobre as outras criaturas nasceram para mandar, não para obedecer”. O ser humano é a imago Dei em toda sua plenitude e também na sua precariedade, uma vez que ocorreu o “fruto de trangressão de Adão”, incorrendo na “pratica do mal e da violência”, com plena consciência de que “esses rumos necessariamente levariam à destruição de todos eles [os homens]” e assim chegando à conclusão de que deveriam concordar em uma “aliança comum em obrigar-se uns aos outros contra a agressão recíproca, e a se defender em conjunto de qualquer um que perturbasse ou se opusesse a tal acordo”49.

O surgimento de “vilas, cidades e repúblicas” decorre dessa queda do paraíso perdido – o tema miltoniano por excelência, como sabemos – e da noção de que, sem este acordo entre os poucos que sabem que vivem “no mal e na violência”, tudo entraria no caos sem volta. Ainda assim, Milton observa que era muito difícil manter a “boa-fé de todos” e, para isso, foi “necessário dispor alguma autoridade que pudesse refrear pela força e pela punição toda violação da paz e do direito comum”. Esta autoridade é espelhada na própria definição que os membros deste pacto têm de si mesmos – ou seja, de serem imagos Dei que devem comandar livremente e não obedecer como servos – e dessa forma todos eles, sempre em conjunto, para manterem o “sossego, ordem e sob pena de que cada homem fosse juiz parcial de si mesmo, eles [os membros que realizaram o pacto social] os transmitiram e atribuíram a um único homem, a quem preferiram a outros pela eminência de sua sabedoria e integridade, ou a mais de um, aos quais julgaram de igual merecimento. Ao primeiro chamaram Rei; aos outros, Magistrados”50.

O tema que dá título ao escrito está exposto e definido com uma concisão ímpar e, por isso mesmo, com uma compactação conceitual que torna difícil transpô-la para uma época embevecida pela “soberania popular”. Contudo, o domínio dos reis e dos magistrados vem de uma espécie de poder outorgado, uma entrega de alguns membros especiais que também fazem parte do povo do reino, representantes de uma coletividade política que está articulada entre eles e que refletem sobre os rumos da sociedade

49 Cf. MILTON, John. Escritos Políticos, pág. 12. 50 Idem, pág. 13.

103 através dos termos que os auto-representam51. Estes termos são as leis, que devem amarrar o direito dos homens e o direito natural, este último um espelho da proporção das regras da physis e que está em perfeita concordância com as leis estabelecidas por Deus nas Escrituras. Este poder derivativo, “transferido e transmitido em confiança”, serve para delimitar claramente que, mesmo que chamassem os reis e os magistrados de “senhores e mestres”, são antes de tudo

representantes e delegados, para executarem, em virtude do poder que lhes fora confiado, a justiça que do contrário cada homem, pelo elo da natureza e do pacto, precisava executar por si mesmo e por outro. Ninguém que queira bem considerar por que entre pessoas livres um homem, por direito civil, detêm autoridade e jurisdição sobre um outro homem poderá imaginar outra finalidade ou razão. Por algum tempo, eles governaram bem e com muita eqüidade decidiram todas as coisas segundo seu arbítrio, até que por fim a tentação de um tal poder absoluto deixado em suas mãos os perverteu, levando-os a ser injustos e parciais. Então, os que por experiência descobriram o perigo e os inconvenientes de confiar o poder arbitrário a qualquer um inventaram as leis, fossem elas formuladas, fossem aprovadas por todos, que deveriam confiar e limitar a autoridade dos que eles escolheram para governá-los, de modo que sobre eles pudesse exercer o mando não mais que o homem de cujo fracasso eles haviam tido provas, mas a lei e a razão, tanto quanto possível, dos erros e das fraquezas pessoais52. O trecho é longo, mas mostra a destreza de Milton em jogar com os termos auto- representativos de um reino que estava prestes a perder a sua cabeça real. Apesar dos torneios da frase, o raciocínio é simples: o pacto social, resultado do “elo da natureza e do pacto” entre os membros articulados da sociedade – o chamado povo – é uma forma de convivência que inevitavelmente cairá no ciclo de violência pois, devido à natureza corrompida do ser humano, conseqüência da queda de Adão, não tem como ser mantido por muito tempo. Os reis e magistrados serão tentados a exercer o poder absoluto, tentarão usurpar a razão derivada das leis. Quando fizeram o pacto com o povo, juraram

51 Segundo a tradutora da versão nacional do texto de Milton: “(...) Talvez as palavras ‘posse’ e ‘domínio’, de uso mais comum hoje, se aproximassem mais do apelo à primeira vista popular visado por Milton. Traduzir ‘tenure’ por ‘posse’, como terá acontecido em alguma passagem, implica que reis e magistrados não são os verdadeiros proprietários do poder; ao contrário, são apenas seus ocupantes temporários, inquilinos, por assim dizer (daí se afirmar, hoje, que o governante toma posse do cargo). E quando se traduz ‘tenure’ por ‘domínio’ conserva-se melhor o sentido eminentemente político do termo. Ter domínio, como se sabe, é ter autoridade e poder. Nessa hipótese, seria preservada a ambigüidade claramente intencionada por Milton, a saber: quem tem domínio sobre reis e magistrados? Que autoridade têm reis e magistrados, se o poder é domínio do povo? Entretanto, é possível que tal tradução não chamasse a atenção, por outro lado, para a importante conotação jurídica e econômica do termo ‘tenure’, por mais que ‘domínio’ provenha do latim dominium e signifique também ‘propriedade dos bens imobiliários’. (Cf. Eliane Ostrensky, in: Nota da Tradutora. MILTON, John. Escritos Políticos, organização de Martin Dzelzainis, São Paulo, Martins Fontes, XLVI.)

52 Cf. MILTON, John. Escritos Políticos, organização de Martin Dzelzainis, tradução de Eunice Ostrensky, São Paulo, Martins Fontes, 2005, págs.13-14.

104 cumprir a obrigação de executar as leis que estes mesmos membros criaram ou às quais assentiram. Por isso, se o rei ou magistrado se mostrar indigno desta confiança, não há mais nenhuma obrigação de cumprir tal obediência.

Benzer Belgeler