A. Kâzifte Aranan Şartlar
VI. HÜKMÜ
O que parece ser a abertura para o regicídio se revela como algo mais profundo: o rei não é mais rei porque tornou-se um tirano. Ele perdeu seus direitos devido ao fato de que, ao desobedecer o pacto que fez com o povo, não cumprindo as leis e querendo ficar acima delas, não tendo mais representação, deixa de ser um participante da articulação política e se descola da sua condição de persona. É um membro corrompido pelo pecado original, por não tê-lo dominado dentro da sua alma, e deve ser assim extirpado como um câncer. Para Milton, como já vimos no primeiro capítulo deste estudo, ser uma persona era algo muito importante na sua filosofia política – tanto até que ele aplicava isso a si mesmo na retórica dos seus tratados. Influenciado pelos seus estudos humanistas, em especial os escritos de Cícero, o poeta via Carlos I como alguém que, a partir do momento que foi destituído oficialmente pelo Parlamento, não participava e não tinha mais representação do jogo político da Inglaterra – daí a sua motivação para escrever a Tenência e provar aos presbiterianos que, naquele momento, a indecisão era algo inadequado à nação. Por que manter um sujeito que se tornou um ninguém em sua própria função? Segundo Hannah Arendt, a persona “designava a máscara que os atores antigos costumavam usar costumavam usar numa peça. (...) A máscara como tal tinha, evidentemente, duas funções: devia ocultar ou, melhor, substituir o rosto e a fisionomia do ator, mas de maneira que a voz se fizesse ouvir”. Em todo caso, foi nessa dupla concepção da máscara pela qual soa uma voz que a palavra
persona se tornou uma metáfora e passou da linguagem teatral para a terminologia
jurídica. “A distinção entre o indivíduo privado em Roma e o cidadão romano residia no fato de que este último tinha uma persona, uma personalidade jurídica, como diríamos; era como se a lei lhe tivesse atribuído o papel que deveria desempenhar no palco público, mas com a condição de que sua voz se fizesse ouvir”. O ponto da questão era que “‘não é o Eu natural que entra num tribunal. É uma pessoa portadora de direitos e deveres, criada pela lei, que comparece diante da lei’”. Sem sua persona, “seria um indivíduo sem direitos e deveres, talvez um ‘homem natural’ – isto é, um ser humano ou homo na acepção original do termo, indicando alguém fora do âmbito da lei e do corpo
105 político dos cidadãos, como por exemplo um escravo –, mas com toda certeza um ser sem qualquer relação com a esfera política”53.
Ou seja, segundo Milton, o rei Carlos I não era mais um rei e sim um tirano porque sua persona política estava desprovida de direitos e de deveres – já que ele não cumprira as leis que deveriam ser a base do pacto feito com o povo da Inglaterra. Novamente, as visões de Milton e de Shakespeare se cruzam; se o primeiro acredita que o monarca não tem mais um papel no teatro da política, não é verdade que o segundo sempre afirmou que a vida e o mundo não eram nada mais nada menos do que um palco?
Mas há um ponto a ser discutido a respeito do modo como Milton via o papel da realeza. Se Shakespeare deixa claro em Macbeth e em Rei Lear de que o rei é o representante divino na Terra, Milton começa a articular a possibilidade de que um rei é um mal necessário e, mais, uma imposição estrangeira que só será aceita pelo povo eleito – no caso, a Inglaterra que será uma Nova Israel – porque o mundo é inviável de qualquer forma, contaminado pelas ramificações do pecado original entre os homens.
A origem desta visão inusitada está em uma célebre discussão iconoclasta entre os protestantes sobre a representação de Deus e sobre como esta se dá na sociedade concreta54. Se a Igreja reformada pretende assumir que um monarca não pode ser Deus porque tal afirmação seria “papista” demais, ainda assim terão de suportá-lo porque, afinal, os negócios práticos – e não a teologia ou a metafísica – exigem assim. Milton é mais purista do que os puritanos nesse sentido; ele escreveria no seu tratado teológico,
Da doutrina cristã, publicado postumamente e sobre o qual falaremos mais a respeito
no quarto capítulo desta tese, que “Deus é sempre descrito ou classificado não como ele é e sim de maneira que se torna concebível para nós” – uma refutação da velha percepção antropológica que temos da Divindade, mas que guarda o seguinte raciocínio:
53 Cf. ARENDT, Hannah. Sobre a revolução, tradução de Denise Bottmann, São Paulo, Companhia das Letras, 2011, págs. 148-149. Sobre o conceito de persona usado por Arendt, em especial no sentido de que há uma personalidade jurídica independente da personalidade psíquica do ser humano que pode coincidir uma com a outra, ver o verbete “person” na SCRUTON, Roger. The Palgrave Macmillan
Dictionary of Political Thought. Inglaterra, Palgrave Macmillan, 2007, pág. 519.
54 Cf. BESANÇON, Alain. A imagem proibida – uma história intelectual da iconoclastia. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2001.
106 o de que Deus não admite representações – e portanto, qualquer representação dele é impossível, inverossímil e, sobretudo, mentirosa55.
Logo, por que precisaria de um rei para ser depositário do direito divino na Terra? Milton reconhece que o mundo dos homens funciona de uma forma diferente do mundo de Deus e tenta conciliar a sua visão teológica com a visão política usando os recursos da interpretação bíblica, especialmente os trechos que envolvem o governo dos hebreus descritos nos livros dos Juízes, dos Reis e de Samuel.
Entre eles, é notável o uso metafórico que Milton faz da história de Ehud, que mata o rei Eglom de Moab, então dominando as terras de Israel durante dezoito anos, para justificar a desobediência de um servo em relação a um rei que se transformou em um tirano. Segundo Juízes 3:12-30, Ehud (também nomeado como Aod), “um homem canhoto”, chamado por Iahweh, fez um punhal de dois gumes e entrou no palácio de Eglom oferecendo o objeto como um presente. O rei aceita o tributo e fica sozinho com Ehud. Este se aproxima e afirma que “tenho uma mensagem secreta para ti, ó rei!”. Apanha o punhal e o crava no ventre do rei. É uma cena de horror: “o punho entrou com a lâmina, e a gordura [do rei] se fechou sobre ela, porque Ehud não tinha retirado o punhal do seu ventre; então os excrementos saíram”. Dessa forma, Israel se libertou do domínio de Moab, ficando em paz por oitenta anos56.
A inserção deste relato por Milton, em um tratado que quer provar que o atual rei é um tirano que não vale mais nada, mostra também o primeiro paralelo evidente com Macbeth. Afinal, não é a mesma coisa que o personagem principal faz com Duncan: em vez de presenteá-lo com um punhal, abriga-o em sua própria casa e, no meio da noite, quando o rei está sozinho em seus aposentos, mata-o com um punhal? E quem será a vítima? O rei morto ou quem tirou sua vida, que faz isso porque o primeiro não cumpriu seus direitos ou por não conseguir manter a hierarquia (Degree) em equilíbrio?
Milton novamente emula Shakespeare para suas ressonâncias retóricas porque quer, antes de tudo, persuadir o ouvinte ou o leitor de que seu raciocínio é o mais objetivo entre aqueles que pretendem interpretar a circunstância histórica conforme seus
55 Cf. MILTON, John. The complete poetry and essential prose of John Milton. Nova York, Modern Library, 2007, págs. 1144-1333. Sobre esta afirmação, veremos o desenvolvimento deste raciocínio quando abordarmos o escrito Da doutrina cristã no quarto capítulo.
107 interesses pusilânimes – ou seja, se devem preservar a vida de um monarca que não é mais um ator no próprio reino. A questão aqui é como a hierarquia (Degree) sobreviverá sem o seu centro principal.
Para Milton, isso jamais acontecerá. O rei é claramente um tirano; o reino já está apodrecido por dentro e a hesitação dos presbiterianos é só mais uma prova da sua análise. “O tirano, quer ascenda à coroa por crime ou direito, é aquele que, ignorando a lei ou o bem comum, reina unicamente para si e sua facção”57, escreve, extraindo a clareza de definição de ninguém menos que São Basílio, um dos Padres da Igreja. Milton também sabia que poderia buscar em Santo Tomás de Aquino a justificação da desobediência a um monarca injusto:
Se o direito de um rei pertence ao direito de uma determinada multidão, não é injusto que o rei seja deposto ou tenha seu poder reduzido por esta mesma multidão, se, tornando-se um tirano, abusa do poder real. Não se deve pensar que esta multidão está sendo infiel ao depor um tirano, mesmo que este tenha submetido a si mesmo de forma perpétua, porque o pacto que foi feito com seus servos não foi cumprido, desde que, ao reinar sobre a multidão, não agiu fielmente como o ofício do rei merece. (...) Se não há nenhuma ação humana contra um tirano, então deve-se esperar um recurso de Deus, o rei de todos, que é um consolo no momento da tribulação .(...) Mas para ter este recurso de Deus, o povo deve desistir do pecado, pois é pela permissão divina que os homens malvados recebem o poder para reinar pelo pecado. (...) Portanto, o pecado deve ser renegado para que o flagelo da tirania pare de existir58.
Apesar de Santo Tomás ser considerado por Milton como um dos “papistas” que abominava, os dois mostram neste parágrafo ter mais em comum do que supunham. Ambos acreditam que, antes do rei, vem o pacto feito com os membros articulados do reino – o povo – e o rei deve respeitar as leis outorgadas. Caso contrário, perderá a sua
representação. Depois, há o tópico do pecado, do mal e da violência; tanto para o
escolástico católico como para o poeta protestante, a tirania é uma forma de purgar a corrupção de uma sociedade que quer evitar a qualquer custo em reconhecer que está encharcada na queda de Adão.
E quem não quer ver isto são os presbiterianos que evitam
57 Cf. MILTON, John. Escritos Políticos, organização de Martin Dzelzainis, tradução de Eunice Ostrensky, São Paulo, Martins Fontes, 2005, pág. 23.
58 Cf. AQUINO, Sto. Tomás de. De regno, in: Political Ideas of St. Thomas Aquinas. Inglaterra, Oxford, 2002, págs. 190-192.
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discutir se eles o [Carlos I] depuseram, ou de que o defraudaram como não-rei, mas mostrar manifestamente quanto fizeram para o matar. Qual é a razão de iniciarem todas estas guerras contra ele, quer ofensivas ou defensivas (pois a defesa na guerra igualmente fere e, com extremada prudência, de antemão), e deram ordem de assassinar, quando sabiam que sua pessoa não podia se livrar do perigo? E se o acaso ou a fuga não o salvassem, quantas vezes o teriam matado ao apontarem sem vergonha ou proibição sua artilharia exatamente para o lugar onde o viam postar-se? Não [o seqüestraram, ajuizaram e desajuizaram, e] converteram sua renda a outros usos, retirando-lhe [como a um delinqüente-mor] todos os meios de subsistência, de modo que eles já havia muito ele poderia ter sucumbido ou morrido de fome? Não o caçaram e perseguiram por quase todo o reino com espada e fogo? Não se recusaram a tratar com ele, e seus agora contritos ministros não pregaram contra ele, qual réprobo incurável, inimigo de Deus e da Igreja marcado para a destruição, portanto alguém com quem não deveria se tratar? Não o sitiaram e tanto quanto puderam lhe proibiram água e fogo, exceto o que desferissem contra ele, colocando sua vida em risco?59.
A vertigem das perguntas é uma outra forma de descrever o que já conhecemos: a crise de hierarquia (Degree). Se os presbiterianos já fizeram tudo isso com um rei que, de acordo com Milton, é apenas “o nome de um título e um cargo [persona], não de uma pessoa”60, i.e., um ser humano, por que a hesitação em matá-lo? Que faça isso de uma vez por todas, argumenta Milton, e admita dentro da sociedade que é necessário o mal e a violência para purgá-lo logo, porque, se isto não for feito, o reino perderá o rumo e não haverá volta. Já que não temos mais o centro da estrutura, muito menos a
hierarquia (Degree) em si, que aceitemos logo a destruição purificadora para depois
reconstruir a Nova Israel na missão que sempre foi sua.